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Jun
19
2011

A Cabana da Bruxa

Escritor: Claun

A tragédia se abateu sobre a cidade de Fanthar na forma de uma enorme onda de mortandade.

Primeiro, as colheitas murcharam nos campos, aniquiladas por um vento quente que chicoteava as plantações incessantemente.  Depois veio a praga, debilitando e matando uma enorme quantidade de animais. E por fim a morte, levando crianças e velhos durante a noite, sem um murmúrio sequer.

Um curandeiro que chegara a cidade pela mesma época fizera o possível para ajudar, doando gratuitamente pomadas e bálsamos para fortalecer os mais fracos e impedir que os dedos da destruição os tocassem.

Durante as primeiras semanas tudo que os cidadãos podiam fazer era rezar e tentar compreender que mal haviam praticado para que a vila fosse punida daquela maneira. Até que da boca de alguém veio a história de uma bruxa que vivia nas redondezas.

Os velhos se lembraram por fim daquela história que já não era mais contada. A história a respeito da chegada dos primeiros moradores do lugar e de como eles encontraram no bosque cadáveres que caminhavam, guardiões de uma mulher vista habitando solitária uma pequena cabana e que logo suspeitaram ser uma feiticeira.

Claro que eles nunca tiveram certeza a esse respeito, pois proibiu-se aos residentes da vila que fossem ao bosque. Muitos, na época, sugeriram que ela nem mesmo fosse construída ali, mas os mantimentos escasseavam e a terra era fértil, com um riacho cortando o vale próximo, e isso logo atraiu os colonos.

Mas o porquê de após tantos anos, a bruxa voltar seus olhos malignos contra eles ninguém sabia dizer. Muitas teorias foram traçadas e muitos dedos apontados, mas o que restava era o fato de que se nada fosse feito, a aldeia estava perdida.

- Vamos embora desse lugar maldito. – disse Clóvis, herói local. Homem forte e corajoso que havia ajudado a proteger o lugarejo contra mais de uma ameaça, mas que sabia não ter chance alguma contra feitiçaria.

- Simplesmente abandonar o lar que nossos antepassados derramaram suor e sangue para construir? – inquiriu ácido o prefeito. Um velho gordo e bem vestido, por nome Nabuco.

- Isso. Ou abandonamos nossas vidas – insistiu o outro.

O som da discussão elevou-se a dezenas de vozes desordenadas, algumas concordando com a fuga, outros com a permanência. Alguém que não estivesse envolvido naquela balburdia perceberia facilmente que dali resposta alguma surgiria.

- Com licença – a voz do homem soou clara e alta, fazendo calar as demais. Era o curandeiro. Vestido de negro e usando ao rosto a tradicional mascara de corvo dos médicos. – Sei que não sou habitante local e não deveria me intrometer numa decisão que cabe a vocês, mas já andei por muitos lugares e gostaria de dizer o que penso.

“Essa bruxa, se é bruxa, deve ter despertado de um longo sono e só agora começa a mover suas forças negras contra vocês. Se a confrontarem agora, enquanto está debilitada, podem certamente vencer.”

Algumas vozes concordaram e um burburinho de aprovação se espalhou pelo enorme salão da prefeitura. “E quanto aos guardiões dela?” perguntou alguém. “Não devem ser muitos” foi a resposta otimista que se propagou pela sala.

O ânimo dos homens havia mudado. A chance de enfrentar aquela bruxaria antes invisível face a face os enchia de força e coragem. Queriam vingança, queriam justiça e mais que tudo não queriam deixar sua terra para trás.

- São apenas suposições – era Clóvis, ainda não estava convencido – Se estivermos errados ela pode nos destruir a todos ou sua hoste demoníaca pode ser maior que nossa força e nos aniquilar.

O fogo abrandou. A opinião daquele que era considerado o mais forte da cidade valia de muito. Durante toda a tarde os homens continuaram a debater qual seria o curso de suas ações, mas nada decidiram além de que deveriam chegar a um consenso no dia seguinte.

Quando todos se retiravam para suas casas, um homem de cabelos brancos e olhos tristes se aproximou do tal curandeiro, que se nomeava Bartolomeu e perguntou, um pouco constrangido:

-Senhor, como anda minha filha? Desde que foi com você aprender um pouco de sua pajelança não voltou para casa e estou bastante preocupado.

O sorriso do outro era tranqüilizador e amigável: – Não pense sobre isso. As artes são difíceis de serem dominadas e ela precisa se concentrar ao máximo. Logo estarão todos juntos novamente.

O velho aceitou a resposta sem muita confiança e implorou para que ela fosse bem cuidada.

O curandeiro chegou a sua cabana quando a noite começava a se desdobrar no céu. O lugar era simples. Uma mesa, um caldeirão, uma esteira e algumas velas, que foram acesas de imediato mas que pouco faziam para iluminar o local.

Livre da pesada mascara que lhe cobria o rosto durante a maior parte do dia Bartolomeu relaxou. Suas feições ocultas pela escuridão que resistia a fraca luz das velas.

Do lado oposto do pequeno aposento uma garota jazia sentada. Não era bonita nem feia, apenas ordinária. Os grandes cabelos negros caiam até a cintura e tinha no rosto um olhar sonhador. Se notara a chegada do homem nada dissera, apenas permanecera ali, como que num transe profundo. De uma pequena tigela a sua frente subia um vapor denso e fedorento que também parecia não lhe incomodar.

Manteve-se imperturbável até mesmo quando o curandeiro deitou-se sobre ela e a penetrou com indiferença, depositando dentro dela o semem pegajoso e podre após algumas poucas estocadas, recitando palavras de algum idioma há muito tempo esquecido e deixando-a ali, de pernas arreganhadas e vestido levantado.

Naquela noite clara um monstruoso visitante caminhou pelas ruas de Fanthar. Não que pudesse ser visto por olhos humanos a menos que desejasse. Mas se o fizesse poderia levar a loucura o mais resistente dos homens, pois era impossível dizer onde lhe começavam os olhos e terminava a boca. Ou o que lhe eram braços e o que lhe eram pernas, se é que as tinha. Toda sua figura era distorcida e negra.

A criatura procurou. Rondou pelas casas farejando. Por onde passava os cães gemiam, os corvos que se apinhavam sobre os telhados grasnavam e as pessoas sentiam, sem ver ou compreender, que a morte estava próxima.

Súbito a coisa parou. Encontrou o que desejava. Atravessou a pesada porta de madeira sem nem ao menos tocá-la.

Dentro da casa simples um homem sentado à mesa, a mão apoiada no queixo, se perdia em reflexões sombrias e temia por toda aquela gente. Sentiu um calafrio quando a anomalia passou perto de si, mas não se deu conta do que era.

No cômodo ao lado uma mulher dormia. Seu sono era desassossegado e num instante transformou-se num pesadelo terrível quando a besta tocou-lhe a face. Um suspiro escapou pelos lábios da moça e com ele sua vida. Clóvis, o homem à mesa, nada ouviu.

Antes que o sol se levantasse no horizonte e o sino da cidade acordasse os moradores, o gritos furiosos de um homem enlouquecido o fizeram. Os primeiros que chegaram a casa viram o valente defensor da cidade debruçado sobre o corpo da mulher, ora chorando compulsivamente, ora bradando maldições aos quatro ventos. E mais de uma hora se passou, até que conseguissem arrastá-lo dali para que pudesse descansar.

Muitos acreditavam que o futuro do vilarejo estava diretamente ligado ao de Clóvis. Sendo ele o único combatente real na cidade, sua ajuda era imprescindível e por isso, ao descobrirem que sua mulher morrera e o estado em que ele se encontrava, o cochicho do medo se espalhou pelas ruas.

Quando ele reapareceu, o rosto transformado numa máscara de indiferença e totalmente vestido para a guerra o espírito quebrantado daquela gente explodiu em esperanças novamente. Estavam tão fragilizados que qualquer mudança no ar poderia levá-los da melancolia ao êxtase em segundos.

A multidão se reuniu em frente a prefeitura. Clóvis, como a estátua de um guerreiro lendário se erguia no meio deles, sem se mover, perdido em seus próprios tormentos.

- Vocês queriam lutar – disse ele por fim – e eu queria fugir. Não havia entendido a dor de suas perdas e a agonia em seus corações. Mas agora eu entendo. – sua face adquiriu uma expressão desconsolada por apenas alguns instantes – Vamos destruir a bruxa que decidiu brincar com nossas vidas. Vamos enviar sua alma podre de volta ao inferno!

Aquelas palavras fumegaram por entre as pessoas e em poucas horas estava tudo preparado para a sinistra empreitada que fariam bosque a dentro.

O grupo era composto por dezesseis camponeses robustos e valentes, a maioria moços. Além deles, Clóvis, o curandeiro e a garota  que estivera vivendo com ele. Quando a viu, seu pai se aproximou comovido.

-Filha, a quase um mês não temos noticias suas. Está tudo bem?

A resposta da garota, que tinha ainda o olhar distante e perdido foi um leve aceno de cabeça.

-O que ela tem? O que fez com ela? – perguntou o velho, raivoso, para Bartolomeu.

-Não fiz nada senhor. Sua filha esta apenas se concentrando, pois logo estaremos em meio a uma batalha e as habilidades que ela tem aprendido comigo serão úteis.

- Mas… mas… ela nem ao menos me responde!

- Ela tem se focado bastante em seu aprendizado. Dê um tempo a ela. Quando voltarmos tudo ficará bem.

O homem aceitou as palavras do outro, que tinha um jeito de falar amigável e que parecia estar sorrindo sempre, por debaixo daquela máscara sinistra.

Partiram para o bosque ainda antes do almoço. Conforme avançavam por entre as árvores um teve inicio um balbuciar aflito. Se preocupavam com o que encontrariam adiante e se conseguiriam lidar com aquela situação. Sabiam que não havia mais volta e não queriam voltar. Estavam apenas assustados.

Após uma caminhada de duas horas adentrando as regiões que eram evitadas por gerações, os homens se agitaram. Haviam chegado a uma pequena clareira. Espalhados pelo lugar viam-se figuras humanas, trajando armaduras de couro, saiotes do mesmo material e elmos enfeitados com crinas de cavalo pintadas de vermelho.

Não poderia se dizer se estavam vivos ou mortos, se eram reais ou ilusões. De pé, eretos, não se moviam, nem pareciam respirar. A pele que se via pelos vãos das armaduras era cinzenta e sem viço.

Por um tempo os aldeões apenas observaram, indecisos de como prosseguir. A respiração de seus companheiros era tão ruidosa que esperavam que a qualquer momento fossem ouvidos e atacados, se é que as coisas podiam se mover.

- Alguém deveria checar – sugeriu o curandeiro.

- Cale-se – retorquiu Clóvis – Por enquanto temos a vantagem da surpresa. Vamos dar a volta e nos aproximar por trás deles, se eles são de alguma ameaça poderemos liquidá-los rapidamente, pelas costas.

O grupo começou a se mover o mais silenciosamente possível. Ladeavam o estranho “acampamento” quando todo o plano desandou.

- Atacar! – ouviu-se gritar entre os camponeses. E tomados de surpresa os homens saltaram do mato e avançaram. As criaturas, alertadas pelo barulho os esperavam.

Clóvis tentou em vão fazer os homens recuar. O assalto fora rápido demais. Antes de ele próprio arremeter-se para o combate, baixou um olhar cheio de ódio sobre o curandeiro, autor da ordem precipitada.

Uma batalha violenta teve inicio. Os soldados que protegiam a clareira eram lentos e lutavam sem motivação. Eram treinados, no entanto. E mesmo apunhalados uma, duas, três vezes ou mais, continuavam a lutar.

Entre os aldeões, Hupert, filho do ferreiro tombou primeiro. As mãos sobre a barriga não puderam conter o sangue ou as tripas.

Mais dois homens caíram, a cabeça fendida e o pescoço lacerado.

Clóvis saiu vitorioso do embate contra um dos guardas, não pode matá-lo, mas arrancou-lhe fora os braços e o colocou fora da peleja.

Outros caíram de ambos os lados. Alguns camponeses feridos pediam por socorro e procuravam pelo curandeiro e sua ajudante, que não podiam ser vistos em parte alguma.

Ao ouvir o primeiro choque de armas Bartolomeu se esgueirou pela clareira e chegou ao outro lado, seguido de perto pela garota apática. Encontrou uma pequena trilha que levava a outra clareira, menor. Uma pequena cabana no centro.

Mal atravessara a trilha quando um rugido o fez parar. A enorme besta coberta de pelos amarelos e adornada por uma coroa de pelos vermelhos se aproximava rapidamente.

Antes que o leão os alcançasse o curandeiro empurrou a garota na direção da fera. Ela não protestou, nem tentou resistir. Apenas caminhou languidamente até tombar sob o enorme peso do animal que saltara sobre ela.

As mandíbulas da fera se fecharam ao redor de seu pescoço e arrancaram um enorme naco de carne. O sangue jorrou, negro.

Derrotada a presa, o leão ergueu seus olhos para o outro intruso que permanecia imóvel. As patas do animal se firmaram no chão para um salto, mas vacilaram, ele caiu. Tentou se por de pé novamente, caiu mais uma vez. Morto. A bocarra aberta e os olhos esbugalhados.

O homem seguiu seu caminho, desviando-se do corpo da mulher e da fera. Tudo tinha corrido conforme planejara até agora. Conforme lera nos velhos pergaminhos que encontrara há algum tempo, por isso abriu a porta e adentrou a cabana, sem medo.

Era uma residência precária, apenas um cômodo. Mas um luxuoso altar, coberto de seda e esculpido em ouro destacava-se no centro da habitação. Sobre ele um livro velho, surrado e carcomido. O livro parecia brilhar levemente com uma luz própria.

- Olá – disse uma voz jovem e feminina.

Totalmente obcecado pelo livro, o homem esquecera de que haveria ali uma moradora. Recuperando-se do susto, voltou-se para a mulher, a menina, pois aparentava pouco mais de 16 anos, apesar de ele saber que tinha não menos de duzentos.

- Você é tão encantadora quanto dizem os relatos – foram suas primeiras palavras. E retirando do rosto a máscara sorriu para ela. – Na minha imaginação as santas são sempre velhas feias e tristonhas.

O rosto daquele homem, coberto por uma barba espessa e bem negra, marcado por olhos sombrios e um sorriso quase permanente nos lábios já haviam sido avistados aqui e ali por todo os reinos do continente. Tão freqüente quanto o riso que trazia eram a destruição e a miséria que pareciam seguí-lo por toda parte.

- Acho que sabe por que eu estou aqui. – continuou ele.

A garota olhou para o livro e voltou a encarar o recém chegado.

- Sim, eu sei – respondeu – mas creio que você também saiba que não posso entregá-lo.

- Presumi que diria isso.

Num salto o homem alcançou a mulher e com uma adaga em punho cortou-lhe o pescoço.

Um sorriso, mistura de piedade e inocência, foi a única resposta da dona da casa. Enquanto ele, aturdido, fitava o lugar onde cortara, ou pensara ter cortado e de onde sangue algum escorria, nem ferimento algum se mostrava.

- Não perca seu tempo tentando me matar – disse ela por fim. – Eu sou a guardiã do livro da Profecia, escolhida pelos seguidores do grande profeta para mantê-lo a salvo até o fim dos dias.

- Eu ouvi sobre isso – retorquiu o outro se recompondo. – Mas esperava que essa parte fosse exagero. Provavelmente o fato de que ninguém mais além de você poder tocar o livro também seja verdade.

- Exatamente. Além de mim, só aquele a quem eu julgar digno de continuar minha tarefa.

- Poderia me conceder tal honra?

- Você vem até aqui, coberto da negrura da culpa e da maldade, tenta me matar e ainda tem a ousadia de perguntar algo assim? – Não havia indignação ou violência na voz da jovem, apenas curiosidade.

- As pessoas pensam de maneiras diferentes – desculpou-se ele. – Não há nada que eu possa fazer para convencê-la?

A garota pensou por um tempo. Seus longos cabelos loiros caiam até a cintura e seu corpo, magro e ossudo, escondia-se sob um pesado vestido de algodão encardido e coberto de poeira, mas chamava a atenção do visitante.

-Qual o seu nome? – perguntou ela por fim.

- Alguns me chamam Bartolomeu, outros Grimm. Pode escolher o que preferir.

- Grimm. Combina mais com você. – afirmou – Bem, Grimm. Que tal ir embora e voltar quando sua alma não for esse poço de sombras que é atualmente?

- Acha que isso é possível? – perguntou ele, sem nenhuma convicção.

- Acredito que não. Mas é o mínimo que poderia pedir de você.

Ele estava desolado. Durante meses pesquisara a respeito daquele livro e de como chegar até ele. Mais tarde precisara se infiltrar naquela pequena vila, como curandeiro, para poder ficar mais próximo de seu alvo. Por fim, espalhara sorrateiramente boatos sobre a bruxa que vivia no bosque e recorrera a feitiços poderosos para levar destruição a cidade, conseguindo assim ajuda dos moradores.

Tudo por nada. Sabia que contra aquela crente seus feitiços seriam inúteis, da mesma forma que não podiam afetar diretamente aqueles que a protegiam. Ela não sentia dor. Nem medo. Não poderia ser torturada. Nem coagida. Parecia a ele injusto que depois de tanto trabalho, não pudesse receber a recompensa merecida.

E ela continuava com aquele sorriso bobo no rosto. Zombando dele. Provavelmente pensando em quão infantil fora toda aquela empreitada. Não estava certo. Se ele não podia causar-lhe dor, pelo menos deixaria nela a marca da vergonha.

Sem dizer palavra caiu em cima dela, derrubando-a no chão. A principio ela pareceu um pouco confusa, mas entendendo qual o intuito do homem começou a se debater.

- Me solte. Tire as mãos de mim. Vá embora daqui, seu monstro! Se afaste! – gritava ela enquanto esforçava-se para se livrar do aperto dele. Mas Grimm era mais forte que ela e a dominara com facilidade.

Seus lábios amassavam os dela com beijos debochados, antes que ela virasse o rosto e continuasse a gritar. Suas mãos apertavam-na por toda parte. Esmagando seios e coxas e glúteos e virilha.

Ela lutava. Sentia ódio. Vergonha. Horror. Lutava com todas as forças. Mexia-se o mais que podia tentando afastar-se daquele toque nefasto, daqueles beijos cruéis. Não conseguia.

Viu-o erguer suas saias e rasgar-lhe a roupa intima sentindo um misto de humilhação de raiva. Sentiu-o penetrar por entre suas pernas e destruir sua virgindade com uma explosão de fúria quase conseguiu tirar-lhe de cima dela. Quase.

Ele estava satisfeito. A expressão de horror nos olhos dela o deleitava. Mesmo sabendo que sem o livro seus planos nunca dariam certo, aproveitava o momento.

Ela resistiu tanto quanto qualquer mulher normal faria. Esperneou, lutou, berrou, tentou morder, tentou gritar. Mas ela não era uma mulher normal.

Inesperadamente a confusão tomou o lugar da fúria em sua mente. Aquilo era totalmente abominável, humilhante e mau. No entanto, após séculos tendo por companhia apenas a indiferença ela podia sentir. Ódio e ressentimento, sim, mas sentia. E pela primeira vez em muitos anos deu-se conta de que estava realmente viva e não apenas preso em alguma espécie de sonho apático.

Presa entre aquelas duas situações impossíveis que se abatiam sobre ela: o desespero de estar sendo violentada e o júbilo de perceber-se viva e humana, a mulher mal percebeu os pequenos espasmos que aconteciam pelo seu corpo até que o roçar áspero do membro de Grimm em suas intimidades a fez gemer.

Os músculos se contraíram em espasmos cada vez mais fortes e os pensamentos racionais, bons ou maus, deram lugar a delícia de uma sensação nunca experimentada antes.

Contorceu-se e rangeu os dentes. E quando não podia mais se conter gemeu num gozo único.

No momento em que o prazer tomava conta do corpo da mulher Grimm a viu envelhecer até apodrecer, bem diante dos seus olhos. E perplexo tentou entender o que acontecia. Quando descobriu, gargalhou. Riu alto, sozinho, sentado no chão de terra da cabana, abraçado às cinzas e a poeira.

A castidade fazia parte dos votos daquela velha em corpo infantil. Aceitar o prazer era trair esse voto e despedaçar a crença que a sustentava viva.

Curioso ele ergueu os olhos ao livro. Esse não emitia mais aquele estranho brilho. Gargalhou novamente e durante algum tempo continuou sentado, satisfeito com o desfecho bem afortunado daquela situação.

De posse do livro Grimm deixou a cabana. Passando pela clareira onde guardiões e camponeses haviam lutado notou que não restava ninguém de pé. O corpo de Clóvis se encontrava em meio a quatro soldados, retalhado por diversos ferimentos.

Quando voltou a cidade, estava novamente mascarado e descreveu a triste batalha e como apesar dos pesares tinham logrado derrotar a bruxa, foi saudado como herói e homenageado. Os mortos foram chorados, os corpos recolhidos e enterrados. Um monumento foi erguido em sua memória.

E naquela mesma noite, sob o manto da escuridão, o bravo curandeiro partiu.


Written by Claun in: Agenda,Claun,Contos |

1 Comment»

  • Shado Mador says:

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    WOW cara eu tinha certeza que o clovis descobriria e destruiria o canalha ,mas fazer o que neh? O escritor é o deus da historia , e ficou muito bom assim , com o vilão vencendo.Òtimo texto!

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