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Jun
20
2011

A fuga

Escritor: Rafael Martins

a-fuga

Diálogo esquecido na imaginação

- Pensa assim: “O fato de você nunca ter visto um humano voar não significa que eles não voem, sacou?

- Eu também assisti a este filme chato, mas não vejo o que esta citação tem a ver com nossa conversa.

- Imaginação oras! Não é porque nunca aconteceu que não possa acontecer…

- “Nunca aconteceu?” Seguindo seu pensamento eles apenas nunca viram acontecer, do verbo VER, mas pode ter acontecido de um humano voar…Ahhhh, saquei, você quer dizer tipo os brinquedos do Toy Story, que só se mexem quando não tem ninguém olhando?

- Não cara! Para de gozação, isso não é uma luta, você não precisa ridicularizar meus argumentos. Devido à imaginação o cara conseguiu prever um “poderia ser”: a possibilidade dos humanos voarem. Ele utilizou sua imaginação como se fosse um de seus sentidos, para perceber o mundo ao redor; isso que estou querendo te dizer.

- Certo, então você está me dizendo que a curiosidade é algo dependente da imaginação?

- Exato, uma pessoa sem imaginação aceita passivamente tudo ao seu redor. É incapaz de prever algo.

- Exageros à parte, entendo sua idéia.

- Sério? Até eu pensei que estivesse viajando.

- Não! Se liga, já aconteceu comigo. Tinha uma garota na minha sala que era do tipo “dos sonhos”, do meu número…

- Sei bem, baixinha, cabelos morenos e curtos…

- Isso! Você sabe do que estou falando. Então a primeira vez que a vi, eu estava no corredor da faculdade indo para biblioteca. Ela ainda estava longe quando parei, não tive como disfarçar, ela passou por mim e sorriu…Cara! Fecho meus olhos e ainda lembro daquele sorriso. O “sonho” passa por mim, eu olho para trás para continuar a acompanhá-lo e eis que…entra na minha sala!

- Foda!

- Pois é, agora chega a parte que quero te falar, minha imaginação levou-me a passividade. Volto para a sala e lá está ela, sentada atrás do local onde eu estava sentado. Adivinha o que eu fiz?

- Sei lá cara, continua aí.

- Sem imaginação você mesmo. Eu travei. Na meia dúzia de passos entre a porta da sala e o local onde ela estava, minha cabeça criou uma vida comum entre aquela pessoa sem nome e eu. Simultaneamente ao “oi” que ela me disse, eu já nos via sentados na varanda, contemplando o passado, relembrando o dia em que nos conhecemos, o sorriso no corredor e tal…

- Parece que você ainda pensa nela.

- Óbvio, não tive como apagar toda aquela vida que já havia sido criada.

- Certo, mas me diz, conseguiu ficar com ela?

- Que nada. Curti meses sem falar nada, só sonhando. Quando minha cabeça já não agüentava mais brincar de fantasia, transbordei.

- E aí?

- Primeiramente ela se assustou e depois simplesmente não acreditou.

- Você já me falou disso uma vez, não foi para ela que você escreveu aquele conto, “A verdade não precisa ser dita duas vezes”?

- É, e acho que ela não entendeu.

- (Risos) – Que falta de imaginação. Sabe, acredito que sua imaginação trabalhou sobre a zona de tensão entre o presente e o futuro.

- Sim, é meio que quase sempre é assim, o problema é que eu me perdi na inadequação entre duas realidades temporais díspares.

- Exato.

- Triste, isso sim.

- Mas há também um outro ponto de vista, não que este seja o seu caso, no qual a imaginação gera a covardia.

- Agora soltou a imaginação mesmo.

- Ainda não cansou de repetir a mesma piada? Puta falta de imaginação.- (Risos) – O que quero te dizer é o seguinte: Pensa em um cara com uma imaginação muito fértil, dez vezes mais que a sua, ele se defronta com um problema. O que ele faz? Imagina tantas vias de ação, tantas possibilidades resultantes de sua ação, que acaba sendo levado à inação.

- Você chama de covardia eu chamo de planejamento. Analisar os riscos, se prevenir antes de agir, algo que todos deveríamos fazer.

- Para! Isso é senso comum de faculdade de administração barata. Um cara com muita imaginação, criaria ciclicamente dados e mais dados a serem analisados; dos desdobramentos mais plausíveis aos mais complexos. Esta mente nunca chegaria a ação em si, pois sua imaginação é infinita. Para ele não haveria necessidade da ação real, uma vez que se encontraria perdido em seu próprio labirinto.

- Somente a realidade é decisiva.

- Não, a realidade é uma falta de imaginação, algo como um contrato coletivo imposto ao individuo pelo grupo social.

- Tipo em Lugar Nenhum, onde o povo da Londres de cima não consegue enxergar os habitantes da Londres de baixo?

- Exato!

- Mas se todos fossemos dotados com essa super imaginação que você fala a realidade não existiria, seríamos no máximo um amontoado de ilhas.

- Ou talvez apenas não consigamos imaginar…

- Não cara, eu discordo, a realidade é sempre uma concessão do individuo em relação a coletividade, não é uma imposição, ao menos não para todos.

- Relaxa, eu propus um questionamento não uma solução.

- Isso é bem típico de você.

- A nossa realidade é fictícia e nossa incapacidade de revolta extrema, eu chamo isso de imposição e você nega, pois aceitar este fato é perturbador, não é?

- Você está mudando o rumo da conversa feito um louco.

- Não. Pensa assim, Napoleão só existe na ficção que criaram dele, ele é um personagem histórico. Acha que você é diferente?

- Acho que você, também é megalomaníaco, isso sim, e ainda por mais não entende nada de História. Ou vai me dizer que a ditadura militar não passou de Literatura?

- Metalinguisticamente sim, palavras falam de palavras, a interpretação de uma interpretação, você não viveu a ditadura, só te contaram uma história.

 

 

Amigo,

 

Lembra-se desse diálogo? Havíamos sido seqüestrados, dois moleques de 16 anos abandonados em um quarto com fome, frio e medo, pagando pelo crime de terem pais ricos. Perdoe-me maneira que transcrevi o diálogo, não há como ter certeza de nada, a memória tem me pregado peças. Enfim, estas palavras foram cuspidas de minhas mãos como se fossem psicografadas.

Amigo, há tempos não trocamos palavras, e a imagem que tenho de sua pessoa deve estar deveras desatualizada, então por que lhe escrever agora? Sem drama, serei direto, escrevo de uma cama de hospital após mais uma sessão de quimioterapia, não me engano, não há chance. E nesse momento finalmente entendi a razão daquele nosso diálogo, que do alto de nossa eloqüência juvenil, fingíamos não notar: utilizávamos aqueles pensamentos para fugir da realidade que nos oprimia.

Adeus velho amigo.


Written by Rafael Martins in: Contos,Rafael Martins | Tags: ,

23 Comments»

  • tom says:

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    pq sempre vejo coerencia naquilo que todos veem loucura?

  • Thiago says:

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    Très bien! Sempre se superando, renovando-se…

  • Arievilo says:

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    Desse jeito, em breve, o Brasil terá um prêmio Nobel de Literatura, hein!

  • Thumb up 2 Thumb down 0

    Talvez porque ainda não exista como graduar a loucura e a coerência em uma escala tão exata a ponto de etiquetarmos a tudo e a todos.
    :>

  • Prefeito Peixoto says:

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    Oia é bãooooooooooooooo mermo eça coissa aqi!
    Pena eu nao saber mecher na net…
    Mais meninu cê é um cabroqinho espertu!

  • Saramago says:

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    Ora pois,
    Estupenda obra!

  • Thaina Gomes says:

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    Eu sou viajada também, eu vivo construindo uma vida inteira pra mim, mas quando me vejo num beco sem saída imagino tantas possibilidades que fico sem saber o qe fazer.
    Me identifiquei com o texto e gostei muito.

  • André Bianc says:

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    Parabéns Confrade e Amigo Rafael Martins….belo texto. Apareça lá na sexta.

  • Franz Lima says:

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    O final foi mais dramático do que havia imaginado. O texto não está ruim, porém não vi tanta força no diálogo, apesar do conteúdo incentivar o pensamento sobre o que é real ou não.

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Também sinto que o diálogo em alguns trechos parece não rolar com naturalidade, tentei melhorar algumas vezes mas não consegui.
      Tentei deixar o diálogo o mais leve possível embora abordando um assunto denso; com certeza poderia ser melhor…
      Valew pelo comentário.

      • Franz Lima says:

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        O importante é aprender, amigo. Escrever sempre será uma aprendizado constante. Todos nós estamos aqui para isso: aprender.
        Muito boa sorte…

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    O texto tem um excelente fim mas não tem inicio e meio. Tem muito que trabalhar aqui, ainda, antes de que o texto fique bom…

    Mas é o que o Franz disse… Escrever é um eterno aprendizado!

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      O final não existiria, não fosse o inicio e o meio “inexistente”.
      O que dá significância para todo o diálogo é o final…ou não?

      No entanto, acredito que o diáolgo se perca um pouco ao tentar a mostrar a necessidade de fugir da realidade que os personagens estão vivenciando. Se este conto fosse reescrito, o que não será, tentaria demonstrar indiretamente a situação tensa que os personagens estão vivendo….

      Vivendo e aprendendo; obrigado pela leitura!

  • Johann Dakitsch says:

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    Noosa, excelente texto! Diálogo bem bolado, faz refletir. O final foi bem bacana, apesar de meio tenso. Não digo que adiciona muito ao diálogo, até por que quando cheguei lá eu já estava viajando, mas dá um bom contexto.

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Isso é o bom da Literatura, assim como muitas outras coisas no mundo, não permite uma só visão, um só ponto de vista.
      Cada pessoa atrela um pouco de si ao texto e curte mais um detalhe ao invés de outro.
      Johann Dakitsch, você é o primeiro curtir o diálogo.
      Valew pelo comentário

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    Salve!
    Pessoal, sou novo aqui e não sei muito bem quem edita os posts e talz… mas gostaria de agradecer, a alguém, pela imagem colocada. Ficou muito foda!
    Valew

  • Bruno Sanje says:

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    Oi pessoal, sou novo aqui no nerd escritor, coloquei um conte, rapido nem duas paginas, se puderem deem uma olha, abraço
    http://www.onerdescritor.com.br/2011/06/o-som-do-silencio/

  • Marcelo Muniz says:

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    Notei algo interessante, já escrevi um texto no qual utilizei as palavras “não tive como disfarçar, ela passou por mim e sorriu” exatamente assim. Somente uma observação. Gostei do diálogo, afinal o que seria de nós sem a capacidade de voar?

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      “Se eles têm três carros, eu posso voar
      Se eles rezam muito, eu já estou no céu” – Mutantes.

      Marcelo, legal saber da coincidência.

      Valew pelo comentário!

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