A Roda
Escritor: Ivã Munhoz
O mundo sempre viu a humanidade combater a si mesma, desde o mais remoto dos tempos. E o mundo diz para si que sempre verá os homens oprimirem outros homens, até que um dia deixem de existir.
Certa vez nesta grande históra dos homens duas poderosas nações entraram em guerra, não pela primeira e não pela última vez. Na disputa por fronteiras, uma pequena nação agrícola de um região chuvosa viu suas terras serem invadidas, e morte e destruição foram trazidas pelas duas grandes nações. Em uma das batalhas, soldados de uma das nações invadiram as casas de um pequeno vilarejo num dia de forte chuva e massacraram os poucos habitantes daquele local, mas por motivos desconhecidos, não fizeram nada às crianças.
Em uma destas casas, um menino viu, sem ser capaz de fazer nada, suas irmãs e sua mãe serem estupradas e assassinadas, seguido pelo pai. Sem comida, sem proteção, sem amor, este menino se uniu a outras crianças numa desesperada tentativa de sobreviver naquela terra desolada, pilhando casas de outras vilarejos e roubando viajantes indefesos nas estradas de seu país. A medida que cresciam, sem educação nem carinho, aprenderam por conta própria sobre armas, guerrilha e morte ao invés de letras, trabalho e fraternidade.
Muitos anos depois do massacre e do fim da guerra, estes jovens formaram um grupo mercenário para cobrar vingança contra aquelas nações que impingiram tanto sofrimento àquela nação inocente. Chamaram-se Nuvens Vermelhas, uma alusão à sua terra natal, sempre em chuvas, mas que agora chovem sangue desde aquele grande genocídio. Eles se fortaleceram usando táticas de guerrilha, ao ponto das outras nações os temerem militar e politicamente. Através de conluios, sabotagens e golpes precisos, o grupo de mercenários das Nuvens Vermelhas eliminou figuras de liderança das mais poderosas nações bélicas do mundo. Tão poderosos e precisos se tornaram, cheios de ódio e arrogância, eles prepararam uma equipe de elite sob o comando do líder das Nuvens Vermelhas e invadiram uma das maiores cidades de uma daquelas nações, onde ficava o maior centro de treinamento militar daquele país.
Fortemente preparados com armas devastadoras, num rápido ataque foram capazes de por abaixo em ruínas a grande cidade. O líder, que vira sua família ser massacrada juntamente com seus queridos conterrâneos, se via num dos momentos mais esperados de sua vida cruel, a hora que aqueles idiotas belicosos receberiam o troco na mesma moeda. Era a vez de levar ao inferno todos aqueles que abandonaram aqueles meninos sem pais nem país à sua própria dor. A dor que aqueles órfãos sentiram seria de uma vez por todas devolvida a seus perpetradores.
Quase no fim do ataque, estava o jovem líder entre as ruínas, vendo o que havia feito, quando viu se aproximar um jovem soldado da nação inimiga. Pelo rosto jovem e imberbe, o líder calculou que o garoto não teria mais que treze ou catorze anos. Pensou que esta nação era realmente podre e vil, pois recrutava até os mais infantes guerreiros. Esperou que o garoto se aproximasse, pois não sentiu medo ao vê-lo. Na verdade, sentiu curiosidade e empatia, pois era capaz de se ver neste menino, era assim que ele havia ficado no fim da antiga guerra. Viu que a dor de seu coração agora estava no coração de seu inimigo também.
A roda da dor estava em movimento.
Quando o menino se aproximou, o líder das Nuvens Vermelhas viu uma pintura de guerra vermelha enfeitando os olhos penetrantes do pequeno guerreiro. Em sua mão, apenas um punhal de infantaria. O menino se aproximou correndo, e sem dizer nada atacou o grande líder. Este, com muito mais experiência e competência que a criança que o atacava, brincou com ele como se fosse um animal irracional. Fintava e driblava, sem fazer qualquer menção de machucá-lo. Porém o rapaz, totalmente focado em sua raiva contra aquele terrorista, afiou seus sentidos e seus golpes, tornando-os mais precisos e letais. O líder das Nuvens Vermelhas decidiu enfrentar o menino de igual para igual, e após uma disputa aflitiva o menino conseguiu, por sorte ou sabe-se lá o quê, apunhalar o lado direito do pulmão do grande líder.
Cambaleante, cuspindo sangue e com enxaquecas terríveis, o mercenário olhou nos olhos do soldado e riu. Riu porque o menino continuaria sua sina de órfão vingador. A nação do menino destruira a dele, que deu o troco e no futuro o menino se tornaria um grande assassino de homens, assim como ele se tornou. Deixando este mundo, o vingador das terras da chuva de sangue deixou sua mensagem de vingança marcado no coração do menino:
“Você, como eu, conseguiu o que queria – matou o homem que destruiu seu lar e sua família. Espero que haja satisfação no seu coração, assim como houve no meu. Mas a minha morte não devolverá a vida aos seus entes que matei. De agora em diante, a mágoa que plantei em seu peito crescerá e florescerá, e será sua grande força de vida assim como foi para a minha. Ou você acredita mesmo que a guerra trará paz? Você acha que a morte de outros homens trará tranqüilidade para você, seus irmãos e seus filhos? Homens armados não entram em acordo – eles fazem os outros virarem as costas para que golpeiem com mais precisão e segurança. A guerra é fruto e semente do medo no coração dos homens, sempre foi e sempre será. E como uma floresta que sempre se renova, o ódio, a raiva, o medo e o desejo de vingança sempre haverá entre nós. Guerra só gerará mais guerras, nada mais do que isso. Você, como soldado defensor de seu país, pode até ter ideais nobres incutidos em sua mente, como defender sua terra e sua gente, mas isso é somente para que você seja capaz de suportar a matança que fará em sua vida, até que um inimigo ou um amigo traidor tire sua vida. E você sabe que me atacou e matou não para proteção dos seus, mas para extravasar o próprio ódio que você sente por mim. Mas talvez haja inocência em você, e possa achar que findando a minha existência, a sua volte a ser como era antes. Não se engane, estamos todos presos à eterna roda da dor e sofrimento, e você levará adiante meu legado de rancor e vingança, assim como levei o ímpeto de morte que já havia antes de eu nascer.Você matará inocentes e indefesos, vidas felizes perderão seu propósito de seguir em frente quando cruzarem o seu caminho. Levaram para mim, para dentro da minha casa, uma dor que eu não queria, e agora a deixo em suas mãos. Agora no fim, deixo uma dúvida no seu jovem coração: como parar essa roda de dor, que esmaga sem escrúpulos qualquer um que entre em seu caminho? A minha guerra, que antes não era minha e agora a deixo em suas mãos, será passada por você a outro e assim até que não sobre homem vivo. Pode tentar alimentar ilusórias idéias de paz e fraternidade se quiser, mas cedo ou tarde você entenderá que o ódio e a ganância movem o mundo muito mais do que pacifismo e idealismo. Mas vou deixar você se perguntando – posso acabar com essa roda de dor?”
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