A tormenta
Escritor: Ricardo Zedan
Seria trágico se não fosse cômico.
Não poderia ter iniciado essa história sem um clichê porque ela é fatidicamente uma história e não uma estória e como na vida mundana os clichês se aplicam, toma essa.
Enfim, meados de 2002 entre baladas de repúblicas e trepadas na garagem de casa eu procurava algo para financiar minha vida. Trabalhar nunca foi meu forte, mas também não ter grana para pagar o taxi já estava empatando varias fodas.
Nesse tempo, o termo universitário soava como graxa na mão de borracheiro para as grandes corporações e o cara que comprava carolinas na padaria da esquina e entregava planilhas de excel às 18 horas da sexta-feira era muito bem quisto nestes RH’s.
Estagiário.
Termo filho-da-puta para definir um cara que usa da pró-atividade ferramenta de masturbação anal.
Processos seletivos, terno, gravata, pasta de plástico, sapatos de couro, garotas de tailleur, catracas giratórias, papel, caneta, crachás provisórios, dinâmicas de grupo, ônibus, telefone… Pronto.
É de domínio publico que toda tormenta é antecedida de uma ação singela, singular, quase insignificante. E se toda culpa é precedida de arrependimento, então confesso que poderia ter escolhido viver na base da cadeia alimentar.
Chaveiro, pintor, frentista, pedreiro, borracheiro, vidraceiro, atendente…
Mas na juventude sempre há uma fagulha, uma faísca que vem dos fundilhos. No meu caso, oxiurus.
Todas as profissões que denotassem pouco estudo e muito suor são gratificantes. A chance de errar é infinitamente menor a qualquer outra. Não que você não possa errar, mas nada que uma cachaça e uma coxinha não aliviasse.
Raciocine.
Você começa seu dia, trabalha de forma honesta a dar inveja a qualquer marombeiro e segue para casa exausto. Janta bem, assiste tv, da uma trepada e ronca até o ciclo reiniciar…
Não.
A oxiuriase juvenil vem do cerne de sempre querer ser diferente, autêntico, descolado… Essa maldita comichão me tirou do delicioso conforto de uma família de comerciantes a cursar uma faculdade de Analise de Sistemas.
Putaqueopareo!
Analista de Sistemas, para quem não conhece, é o cara que você pede para checar sua impressora quando tenta imprimir uma receita e não consegue.
Bem, voltando ao assunto, a tormenta fecal… Realmente, consegui um estágio em uma grande multinacional e finalmente iria ter dinheiro suficiente para ser porranenhuma.
Segunda-feira. O dia mundial do estagiário.
Tirando as sextas, a segunda é o dia de se execrar o estagiário de todas as formas possíveis e imagináveis.
Imagine a cena. Seus superiores (secretárias para cima) vestidos de bárbaros, perfilados, dentro de uma sala de reunião, empunhando um forceps prata, reluzente, prontos para sentar adequadamente o estagiário em uma cadeira confortável, virá-lo de ponta-cabeça e abrir a sua cloaca, recolocando o ovo posto cheio de raiva e frustração, provavelmente relativa a uma goleada sofrida pelo seu time ou talvez uma broxada no fim de semana.
Ai, coitadinho do estagiário. Uma ova!
Era segunda-feira.
As 07:00 peguei o metro na Saúde e rumei a Sao Bento. Antes de entrar no terminal, por alguma uma vontade estranha, me aventurei com um churrasquinho grego mais suco.
As 07 da manha?
Porra, to com fome caralho!
Não da para acordar de uma festa de republica sem duas coisas: uma mancha roxa e um estômago oco.
Metro, carteira, bilhete, catraca, catraca, centro.
Era um prédio grande, enorme, tipo aqueles prédios antigos usados como escola, todo high-tech com câmeras, caras de terno e decotes por todo lado.
Primeiro dia não é nada confortável, você vai ate a mesa do seu chefe e no meu caso, minha chefe. Ela te apresenta para a equipe, passa por todo aquele constrangimento e você descobre onde fica seu computador.
No dia em que você ingressa para o mundo corporativo… (to be continued)
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