A Viagem de Horn(ildo) – Capítulo II
Escritor: Lucas Millan
Capítulo 2 – O Diálogo da Colher
Horn abocanhou seu pedaço de pão e o mastigou distraidamente, fitando seu prato transbordante de uma sopa amarelada. A mesma sopa amarelada que havia tido de jantar no dia anterior e que, com certeza, ainda teria o mesmo gosto de detergente. Na superfície plana do caldo, podia-se ver o reflexo da lua cheia que pairava sobre o grupo de hippies, expectante com o que estava prestes a começar.
Eles haviam caminhado por mais umas quantas horas até chegarem numa cerca de arame farpado que rodeava num raio de alguns quilômetros ao que aparentava ser a tal base secreta do governo. Para uma base secreta, pensou Horn, parecia bem abandonada. Afinal, não passava de um galpão não muito grande no meio de um terreno completamente baldio, ocupado apenas por um par de velhos jipes militares e um caminhão. Nem sinal de qualquer guarda.
Tio Mike explicou o plano. Explicou que assim que atravessássemos aquela cerca de arame farpado, descobririam nossa presença e que alguns soldados nos atacariam.
-Eles são poucos – Disse ele – Mas estão bem armados. Vocês terão que distraí-los enquanto um pequeno grupo liderado por mim invadirá a base e executará o plano de sabotagem. – Parecia um agente da CIA falando. Isso deu um gelo na espinha de Horn. – Mas antes, vamos descansar um pouco, e jantar! Quem faz qualquer cosia de estômago vazio, afinal?
E lá estava Horn, com as orelhas baixas, o olhar perdido, com o monstro da expectativa embrulhando seu estômago. Durante a explicação de tio Mike, não deixou de olhar para os lados, em busca de alguém que dissesse para aquele velho o quão sem pé nem cabeça aquele plano era. Ou que pelo menos explicasse melhor que demônios era aquele plano de sabotagem. Mas não, como sempre, todos mantinham aquele sorriso e olhares de aprovação. Mais que um grupo hippie, parecia um pequeno exército sob o comando de seu general.
De repente, o prateado da lua refletido em sua sopa, antes esbranquiçado e surreal como todos os reflexos, se tornou um prateado brilhante e intenso, escuro, mais parecido a um cinza. E se movia. SIM! Se movia, mergulhava em sua sopa lentamente, fazendo a superfície de seu prato ondear. Mas aquilo não era a lua… Não podia ser! Levantou sua mirada perdida uns centímetros e se deparou com o rosto de Ió, a poucos centímetros do seu, concentrada em roubar sua sopa com sua própria colher.
-Mas quê demônios…?! – Horn arregalou os olhos e jogou seu prato para cima do susto. Uma bela quantidade de sopa morna caiu encima dele.
-Se é pra jogar fora, dá pra mim, poxa! – Protestou Ió, de cara amarrada. Horn se limitou a murmurar algum insulto. – Ah, não fica assim. Você parecia tão distraído… Resolvi te ajudar a terminar tua sopa. – Colocou sua colher na boca e ficou assistindo como Horn torcia sua roupa encharcada de sopa. – No que estava pensando?
-Em nada, em nada. Só em como demônios você consegue ficar tão tranqüila. Você e todo o mundo. Será que não perceberam que estamos indo numa missão suicida? Que daqui a menos de uma hora estaremos mortos PARA NADA?
-Você sabe que não é para nada, seu bobo. O tio Mike já explicou o motivo. – Disse ela, deliciando-se com sua colher. – Além do quê, a gente sai dessa.
-Haha, claro, claro! – Dizia Horn, deixando todo seu desespero crescente explodir em sua voz, cada vez mais alta. – E quem me garante isso? Você, Ió? Vocês não passam de um bando de malucos! Malucos alucinados com essa maldita maconha. Como vocês querem que eu confie em vocês?
-Você não precisa confiar, oras. Nunca precisou. – Ela soltou uma baforada na concha da colher e a depositou na ponta do focinho. A colher grudou de uma forma quase mágica e ficou balanceando-se em seu focinho tal qual um pêndulo.
-Hã?! O que você quer…?
-Você nunca precisou confiar em nós. Mesmo não confiando, continuou nos acompanhando, participando de nossas rodas, nossas conversas. Mesmo fazendo essa careta que sempre faz quando quer fingir que não está gostando de algo. – A levantou o indicador para o rosto de Horn, sem tirar os olhos da ponta de seu focinho, concentrando-se para fazer a colher balancear-se ao máximo sem cair. – Você vai fazer o mesmo agora, né?
-Como se eu tivesse escolha… Minha mãe e meus irmãos ainda estão aqui nesta maluquice! Quem vai protegê-los? Vocês? Nah, acho que não. Se não sou eu, ninguém mais poderá.
Ió deixou de olhar sua colher. Ao invés disso, dedicou uma mirada sem expressão à Horn. Levantou-se e, tirando sua colher do focinho, bateu com ela na cabeça do Coyote.
-Quer parar com esse mimimi? Você só não quer aceitar a verdade. Você nasceu pra isso tudo. – e ela saiu caminhando.
-Ai! Ei, espera aí! – Horn levantou-se também, esfregando seu cocuruto. Quando alcançou Ió, segurou-a pelo braço – O que você quer dizer com isso? Nasci pra quê?
-Para o mundo do Rock n’ Roll, querido. – E, dedicando-lhe um sorriso do mais angelical, bateu na cabeça do coiote novamente com a colher.
Horn esteve prestes a protestar, mas a voz de Tio Mike chamando a todos o impediu. Todos se reuniam para fazer a típica rodinha em torno do chefe hippie-supremo. Ió escapuliu-se de seu aperto e foi se reunir com o resto do grupo. Resmungando, Horn a seguiu. Tio Mike estava prestes a começar a falar quando chegaram. Ao seu lado havia outras três pessoas, entre as quais estava sua mãe. Ela tinha bastante amizade com tio Mike, não era tão estranho, mas ele ficou com um mau pressentimento sobre aquilo.
-Pois é, pessoal. Chegou a hora. Espero que tenham comido bem, fumado alguma coisa e descansado. Eu e estes três aqui do meu lado vamos nos infiltrar lá dentro enquanto vocês fazem a distração. Estaremos levando tudo o que precisamos nestas mochilas aqui. – Disse, dando um discreto chute em sua mochila, jogada no chão. Cada um tinha a sua. – Se os planos que temos de lá dentro são certos, não vamos demorar mais de quinze minutos pra sair de lá. Se demorarmos mais de quinze minutos, podem parar com a distração e dar no pé. Alguém deve lembrar de onde deixamos a perua. Eu não lembro bem, mas deve ter sido pra lá – disse, indicando a direção contrária pela qual tinham chego lá. – Enfim. Agora o que vocês estavam esperando, crianças. – E se agachou perto de um caixote enorme, que eles haviam carregado a viagem inteira. Horn sempre se perguntara o que diabos tinha guardado lá. Pegou um pé de cabra e, coma ajuda dos outros dois caras que compunham o grupo de tio Mike e sua mãe, abriram a tampa. – Tcharam! Isso deve ajudar pra segurar os militares por uns minutos, não acham?
O caixote de madeira era recheado de uma quantidade absurda de armas. Armas de todo tipo. Horn reconheceu umas quantas de uma revista que lera em seus dias de glória. Como uma M-14 que liderava o topo, ao lado de uma handgun prateada. Pacotes de munição se encontravam espalhados em volta de canos e gatilhos. Horn deu um passo pra trás enquanto que seus companheiros hippies caíram encima do caixote, alucinados, querendo garantir sua arma.
-Isso não pode ser verdade… Onde demônios eu me meti? – Murmurou para si mesmo, antes de unir-se à batalha para conseguir uma boa arma.
E ver se conseguia sobreviver àquela noite.
1 Comment»
RSS feed for comments on this post.






















Sobre livros e suas adaptações cinematograficas
#ficadica 004 – Escrever todo dia é a fórmula do sucesso?
A Máquina Diferencial
Resenha do livro "O estranho mundo de Tim Burton"

A Ló me lembra uma prima minha por causa do apelido. Eu acho muito divertida a estória, e está me conquistando.