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Jun
19
2011

Black Out

Escritor: João Cunha

Meus olhos ainda não se davam por satisfeitos com aquilo que viam. Era pouco demais. Muito escuro e indiferente ao resto do mundo, quase como se aquela alucinação tivesse acordado pela manhã e dito “Dane-se o resto, sou perfeita do jeito que sou e é isso que me importa. Não interessa se eu engordei um quilo ou dois”. Esse gigantesco véu sombrio com uma invejável auto-estima encobria tudo ao redor, o que tornava a paisagem tão simples que milhões de anos de evolução das espécies pareciam desnecessários se aquilo era tudo que se podia contemplar.

Então veio a Luz.

Não era forte o bastante para revelar-me o que se encontrava próximo a mim, mas projetava contornos. Sombras. Retorcidas e de uma geometria medíocre. Eram reflexos de vidas tão apáticas quanto a minha. A luz vinha diretamente na minha direção, como se estivesse me escolhendo para uma missão divina ou simplesmente alvejando seu alvo seu simpático alvo.

E da mesma forma que ela veio, ela se foi.

Será que aconteceria de novo ou eu seria para sempre confinado naquelas trevas? E se tal evento se repetisse, eu conseguiria ver algo além de sombras? Talvez aquelas breves visões do passado e aquilo que surge junto com a luz fossem ilusões e o vazio ébano era a realidade. Algumas coisas me permitem afirmar isso, pois afinal, meus pensamentos fluíam agora, já que seus canais de raciocínio não eram ocupados com idéias pré-montadas. Era possível ouvir as batidas daquilo que acredito ser um coração, meu coração em arritmia, ao invés de doces e condescendentes palavras que tentam me por para dormir. Se fosse necessário decidir o que era real, com certeza seria a própria escuridão.

E a luz veio mais uma vez.

Talvez a luz não viesse de fora, mas sim de dentro de mim. Tudo aquilo que aparecia era uma tentativa de recriar o mundo com qual sonhei durante tantos anos, mas será que valia a pena? Um lugar tão sujo e vazio realmente não deveria ser jogado fora como apenas um rascunho de uma realidade para se viver? Talvez como o criador, tudo que me parecesse vazio, pois vejo as brechas, o improviso e defeitos de fabrica. Parece que não há escolha, pois agora a luz é forte o bastante para eu ver por apenas um instante.

Um prédio. Um antigo prédio, talvez tão antigo quanto eu, pois se fui que criei tudo, minha idade é o limite. Aquela construção um dia iria cair e ser substituída por outra, será que aconteceria comigo? As coisas mudam com o tempo, mas o tempo que se passou desde que os pensamentos começaram pode ser de um minuto ou de toda uma vida. Não há nada para mudar e indicar que o futuro já chegava a passos lentos. Voltei-me para cima. Vi o céu. Não um céu azul, se é que posso descrever qualquer cor se nunca as vi, mas era vermelho. Era algo visível. Se havia algo invisível? O Sol. Não havia sol, pois afinal, era de noite, mas desejar por aquela fonte de luz parecia correto. A lua ocupa o seu lugar. Por algum motivo, odeio a lua. A luz ainda reinava sobre o universo, e isso tornava tudo mais claro. Odeio a luz porque ela não é capaz de iluminar meu caminho, o que faz necessária essa irritante luz da razão vinda da minha cabeça. Há uma janela pela qual vejo tudo isso. Há um jarro na janela. Há flores no jarro. O jarro é feito de barro. De barro os humanos foram feitos. Seriam os humanos jarros? Não, não, os humanos são feitos de algo além de barro. Do que? De sangue. Há algo que os humanos fizeram? Sim. O que? O prédio. Sim, o prédio e o mundo foi feito por eles, não por mim. Há algo que os humanos não fizeram? Sim. O que? O céu. O céu vermelho, da mesma cor do sangue dos humanos. Quem fez o céu, o sangue os humanos? Deus. E quem fez Deus? Se não há necessidade de que algo o tenha feito, por que o céu, o sangue e os humanos precisam que alguém os tenha criado? Talvez humanos sejam coisas que os humanos fizeram. Talvez os paradoxos sejam coisas que eles também fizeram para poderem dizer que fizeram a si mesmos. E eu, quem me fez? Eu me fiz? O que foi feito para me gerar? E o que foi gerado? Eu sou eu mesmo. Eu sou um objeto. Eu tenho uma forma. Não posso ver minha forma, mas sei que ela existe. Eu sinto. Essa minha forma é o que há de visível em mim, mas nessa escuridão nada é visível.

A luz pareceu me responder “você está visível agora”, mas quando tentei olhar para mim mesmo, a luz se foi.

Quando a escuridão se vai, a razão parece me enlouquecer pouco a pouco. Quem está a caçoar de mim? Quem é você que ouve meus pensamentos, mas apenas se diverte e não me ajuda? Talvez você precise de ajuda. Sim, tenho pena de você, talvez mais do que sinto de mim mesmo.

A luz não me respondeu

Obrigado mesmo assim, você finalmente me concedeu um pensamento que não é sobre mim. Por que tudo que pensei até então foi sobre mim? Porque sou a única coisa que posso garantir que exista. Penso, logo existo. Mas minha existência talvez não seja tão completa quanto penso. Posso ser simplesmente um brinquedo quebrado. Essa luz que emito são minhas baterias tentando lutar para que eu funcione durante alguns instantes antes de morrer. Se estou quebrado, isso justifica porque meus pensamentos são tão defeituosos que nem possam ser chamados de pensamentos. Mas se é assim, eu não penso, logo, não existo, logo, não posso morrer. Será que quero por um fim a tudo isso? Será que quero deixar os sonhos que tive da vida que tive ou poderia ter sendo apenas sonhos?

A luz voltou, apenas para dizer “não” e retornar a sua inexistência rotineira.

Não, sonhos não podem acabar como apenas sonhos. Caminharei com meus próprios pés para realizar aquilo que desejo e caso não tenha pés, encontrarei uma nova forma de trilhar este caminho. Serei o senhor do meu próprio destino. Tudo que existe é meu e feito por mim. Me esforçarei para fazer o melhor que pud…

A eletricidade voltou completamente. Finalmente, estou livre desses pensamentos assustadores.

 


Written by João Cunha in: Agenda,Contos,João Cunha |

2 Comments»

  • Rafael Neves says:

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    Muito bom. Eu interpretei com uma versão do conto da caverna de Platão, meio que uma passagem da Doxa à Episteme (ou uma tentativa) solitária, ainda que Platão diga que precise ser feita em conjunto.

    • João Cunha says:

      Thumb up 0 Thumb down 0

      Eu conhecia o mito da caverna de Platão quando escrevi, mas nem tinha visto essa interpretação. Foi uma série de disparates que tive durante um black-out que aconteceu lá por Fevereiro/Março, que uns dois ou três dias depois fizeram sentido enquanto eu estava num ônibus voltando para casa. Obrigado pelo elogio.

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