Os Campos de Marte – Prologo
Escritor: João Cunha
O Prólogo do começo do fim
Como num Big Bang, sua consciência expandiu-se de maneira tão violenta que lhe forçou a despertar de seu torpor. Uma nova vida acabara de vir ao mundo. Ele estava tão feliz com isso como alguém em sua situação poderia estar, ou seja, ele se sentia como algo que o cachorro trouxe para dentro de casa, mas ninguém jamais lhe disse que a vida era fácil, então daquele momento em diante teria de se contentar. Estava vivo. Não há muito que se pode fazer sobre o assunto de maneira indolor.
O lugar em que se encontrava não era menos triste do que ele. Um quarto no qual as paredes eram envoltas por uma camada desgastada de tinta cinzenta, sem janela, emoção ou espaço. O recém-nascido pensou que na divisão dos quartos, ele foi colocado no pior de todos, pois ninguém jamais considerou que ele acordaria para reivindicar os direitos de ter uma gaiola digna para seu corpo semi-vivo. Nem ele esperava, mas acontecera. A mesma irrelevância que lhe levara para tal prisão também fora aquela a desperta-lo, tornado o quarto como sendo o útero perfeito para aquele depressivo ser.
Até mesmo a pobre luminosidade gerada pela lâmpada no teto do quarto irritava seus olhos, pois depois de anos na escuridão, a melhor fagulha seria capaz de cegá-lo. Essa é uma das coisas que passaria com o tempo. Ele conseguia enxergar e isso era o bastante. Só precisava de experiência nas coisas mais básicas e inerentes ao ser humano.
Não só sua visão, mas todos os outros sentidos eram experimentados pela primeira vez e nenhum agradava. O cheiro de éter e higiene irritava seu nariz. As mãos sentiam a frieza do próprio toque em sua enrugada face, tão sem jeito ou controle da própria força. Os pés pareciam repudiar do frio concreto do chão, mas ainda reclamavam por pouco, Em breve teriam de ser o suporte para todo o resto do corpo.
Ele ouviu o som de pessoas andando.
Existiam outras pessoas além dele naquele universo, mesmo que não estivesse pronto para conhecê-las ou certeza se esse fato era algo bom ou ruim. Nunca tivera jeito para lidar com os outros, e talvez tenha sido isso que o levou a lugares tão desertos quanto um quarto que não poderia ser descrito melhor do que pela expressão “Lugar Nenhum”. Algo ele esquecia: Jamais conhecera outra pessoa além dele. Como poderia saber como elas são se jamais experimentou? A vida lhe ensinaria, foi o que pensou. A vida lhe ensinaria umas boas lições.
A vida também lhe responderia como ele sabia o que eram passos, palavras, sentimentos e universos? Acabara de nascer e poderia receber um salário medíocre para dar aulas sobre essas coisas assim que saísse daquele quarto. Seria um bom professor. Teria paciência e com certeza aprenderia mais com os alunos do que eles aprenderiam com ele, mas será que seria assim como todos? Um recém-nascido tem muito a aprender.
Havia três diferenças entre aquele recém-nascido e um bebê comum. A primeira era que tinha barba e tantos outros apetrechos que a natureza prefere inserir em suas criações após passarem pela puberdade. A idéia de que sua infância passou em branco lhe deprimia um pouco. As memórias que não tinham lhe diziam que este era o período mais feliz na vida dos humanos. Era nessas informações sem fontes que existia a segunda diferença.
Ele possuía memórias. Não de uma vida, mas de várias. Tinha duvidas se todas eram reais, mas não se tinha vivido todas elas. Lembrava-se de ser um homem medíocre. Lembrava de ter feito coisas fantásticas. Lembrava de já ter viajado por lugares nunca antes conhecidos. Lembrava de nunca ter saído daquele quarto, mas acordado naquele quarto antes, e algumas vezes, ele não era ele, e de alguma forma, isso fazia sentido. Sua mente parecia estar brincando com ele, pois sua primeira memória havia sido a musica “All Along the Watchtower”, mas demorara para lembrar da pessoa que amara por tantos ano. Talvez a vida lhe ensinasse a ter uma noção do que era realmente importante. Entre outros que lembrara estavam o pobre infeliz que nunca fora nada além de um furioso peão, a mulher que vivia de maneira comum a vida mais incomum de todas, o observador. Apesar de todas essas lembranças, nenhuma era a mais forte daquela que possuía do homem que deveria ser julgado.
A idéia de se vingar desse homem lhe fez sentir o primeiro sentimento em toda a sua vida. Rancor. Queria se vingar e ao se interrogar de porque queria tanto aquilo, concluiu que desejava isso por ser essencialmente cruel. O pensamento lhe fez sorrir.
Por ultimo, a terceira diferença que tinha de um bebê era que já nascera com um nome. Não escolhera, mas estava definido desde quando ele não passava de uma idéia. Fausto era seu nome. Nada de especial. Poderia ser chamado de qualquer forma, mas continuaria sendo um sujeito tão intragável quanto era como Fausto.
Assim como seu nome, muitas outras coisas sobre si e as coisas que vivera pareciam ter sido definidas desde o inicio. Todas essas coisas já haviam passado. Ele se lembraria de cada uma delas em seu devido tempo. Ele se lembraria de tudo.
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Interessante viu xD
Muito obrigado, mas há algo que você não tenha gostado ou alguma sugestão?
Eu gostei da maneira que expressou as emoções e sentimentos da personagem.
Não sou especialista na parte ortográfica, mas curti muitíssimo seu jeito de escrever.
Acredito que você tem um grande potencial para desenvolver.