Colméia em chamas – Detrás do smoking
Escritor: Thiago Vieira
Uma série de contos steampunk¹ ambientados em Iarainn
EXISTEM LUGARES QUE PRECISAM FICAR POR BAIXO DO TAPETE, longe dos holofotes e do glamour. Em Iarainn há vários destes lugares. Os distritos periféricos, também chamados de ‘zonas negras’, constituem a poeira que precisa ser escondida na metrópole de ferro. Longe dos patamares elevados, da luz e do ar puro, imersos nas sombras, no vapor e no esquecimento. É exatamente assim com o distrito leste, também conhecido como a ‘antiga zona de expansão’. Há cerca de doze anos atrás este local esteve à pleno vapor, centenas de zangões – os donos das fábricas de aço, soldagem e escavações – contratavam milhares de operários para trabalhar nas galerias. Milhões de dinaros foram investidos naquele local, com a promessa de uma nova escavação e um novo acesso à luz por aquele lado, possibilitando novas moradas para a emergente camada dos investidores da criação daquela fabulosa cidade escarpada na rocha: os próprios zangões.
Obra do destino, ou sabe-se lá de quem, a ganância da riqueza e a ambição dos zangões pôs tudo por água abaixo, literalmente. As escavações cada vez mais profundas acabaram por encontrar algo terrível. Um imenso manancial não previsto, um lençol freático que inundou quase todas as galerias inferiores e dizimou centenas de operários – e alguns zangões também, diga-se de passagem. Apenas os níveis mais acima se salvaram. O imenso prejuízo afastou os zangões, a nobreza e os poucos operários que sobraram foram deixados para trás, como verdadeiras sobras. Ou vespas. E foi exatamente isto que tornaram. Vespas. Indigentes e excluídos da sociedade tão refinada e cheia de si de Iarainn.
A sede e a fome impulsionaram estas pessoas abandonadas a praticar todo tipo de delito para sobreviver. Roubavam, matavam, estupravam. Não tinham escrúpulos. Não tinham escolhas. Simplesmente foram esquecidos. E o esquecimento é a mola motriz da angustia, da raiva e da vingança. A violência tornou-se rotina. E, enquanto os anos de glória se arrastavam nos patamares acima, ali em baixo a sujeira, a fuligem e a água misturada com o sangue dos chacinados entrava em ebulição. A grande verdade é que por mais que você jogue a poeira para baixo do tapete, uma hora ela sai. E quando sai, vem com a força de um grande vendaval. Arrastando e levando tudo consigo.
* * *
A luz dificilmente chegava até aquela parte da metrópole. Vinha fraca e sem brilho, deixando as estreitas ruas entre os barracos e algumas poucas construções abandonadas e reviradas com um aspecto de penumbra, levemente azuladas. Próximos a onde existia uma praça no passado, dois homens estavam sentados. Os dois completamente maltrapilhos, com suas roupas remendadas, sem a menor combinação. Meias e sapatos de cores e modelos diferentes. Camisas com pedaços diferentes de pano costurados por cima, para tapar os buracos. Conversavam, enquanto um deles folheava as páginas do tablóide ‘(des)Boca de Iarainn’.
— Eles fizeram de novo… – Comentou um deles, o mais velho com poucos fios de cabelo castanhos sobre a cabeça careca. — … E desta vez a coisa ficou feia. Aqui diz que o ‘mordomo’ assassinou um nobre.
— Não esperava menos, já estava na hora de alguém dizer àqueles miseráveis que não somos seus capachos! – Com o punho cerrado a frente do corpo, o outro – de cabelos loiros e com uma boina – parecia comemorar a notícia.
— Está certo… Só me preocupa qual será a ação da imperatriz e dos nobres.
— E quem se importa, Juliano! O ‘mordomo’ está conosco, não precisamos temer. Ouvi dizer que ele é capaz de vencer uma centena de patrulheiros militares. – O mais jovem parecia tomado por um brilho intenso nos olhos, como se apenas a menção do ‘mordomo’ inspirasse segurança.
— Ele pode até estar, mas nem por isso confio nele. A que custo ele estaria do nosso lado, os operários? Aliás, para quê ele os rebeldes querem todos aqueles dinaros? Estas dúvidas povoam a minha mente desde o seu surgimento, há dois anos. Aliás, sua própria história é controversa e não passa de lendas, Paulo… – Juliano soltou um suspiro, fechando o jornal.
Paulo ficou em silêncio por um instante, como se estivesse pensando em algo. Realmente, a verdade por trás do ‘mordomo’ são uma incógnita. Sabe-se apenas que desde que surgiu, dois anos atrás no mês de março, começou a combater os crimes na ‘antiga zona de expansão’. Atuava como um justiceiro, impelindo o crime e a selvageria das vespas e dos moradores que sobrevivam naquele lugar hostil e pobre. Muitos o consideravam um mártir, outros um demônio.
— Lenda ou não ele fez alguma coisa. Sabe, não sei se você já ouviu essa, mas dizem que o ‘mordomo’ é filho de zangões que atuavam aqui no distrito na época das escavações. Dizem que seu pai foi um dos pioneiros e um dos mais ricos, chegando a comprar um título de nobreza. Porém, com o grande desastre nas galerias inferiores ele perdeu tudo e foi à falência. Assim seu pai cometeu suicídio jogando-se do alto de sua fábrica e sua mãe morreu em seguida, envenenada.
Não tendo mais o que fazer, tornou-se garçom em alguns bares dos patamares superiores, servindo a nobreza. Trabalhava tão bem, e tamanha era sua habilidade e equilíbrio com a bandeja, que foi chamado para a casa de uma nobre de renome… – Paulo fez uma pausa, tentando se lembrar em vão — … não vou me lembrar agora. Mas foi trabalhar numa casa nobre. Dizem que nesta época tornou-se amante da nobre, mas foi descoberto pelo seu marido e então castigado. Foi golpeado dezenas de vezes e teve suas mãos decepadas e, por fim, foi jogado numa lixeira.
Reapareceu anos depois, já aqui na ‘antiga zona de expansão’. Seu smoking sempre brilhante, os sapatos impecáveis e o olhar impassível. Movia-se silenciosamente pelos cantos do distrito, apagando os bandidos e malfeitores. E, desde então, a lenda se formou…
— A história que ouvi não dizia isso. Escutei que ele, na verdade, foi um dos operários das fábricas que ajudaram a escavar as galerias inferiores. Ele veio de família pobre, maltrapilha como nós, e tentou ganhar a vida como um trabalhador braçal. Operava uma máquina de corte de aço, para ajudar nas vigas de sustentação das galerias. Dia após dia, cortava o metal e ajudava a chegar cada vez mais longe na ganância dos zangões. Disseram-me que foi quando encontraram as primeiras fendas com água que ele e outros operários começaram a se revoltar. Não queriam trabalhar, sabia dos perigos de uma enchente nas galerias inferiores.
Lutaram contra as ordens dos zangões. Pressionaram, afrontaram, fizeram reuniões. Formaram um conglomerado operário, mas foram silenciados pela força repressora dos detentores da ambição. Ele e outros líderes do movimento foram torturados, escorraçados e mutilados. Caíram no esquecimento. E então houve o desastre das galerias e tudo foi encoberto pela água. Anos depois, ele e outros daquela época retornaram ao distrito e começaram a colocar ordem no caos que se instaurou aqui no distrito, você lembra dessa época?
— Ô, se lembro… não dava nem para ficar nessa praça como estamos hoje. – Respondeu Paulo.
— Enfim, foi esta a versão que escutei. – Concluiu Juliano. — Seja lá qual for a verdade, não consigo confiar nele ou em qualquer outro dos rebeldes. Não me inspiram confiança.
— Pois a mim, o ‘mordomo’ e aqueles que o segue são a nossa única esperança.
— Talvez, talvez… Mas isto só o tempo dirá.
Os dois se entreolharam, perceberam um vulto próximo a um beco que parecia encará-los. Levantaram-se rapidamente e tomaram rumos diferentes, seguiam para suas casas. Não parecia mais seguro ficar ali proseando. Apesar da ordem imposta pelo ‘mordomo’ e seus comparsas, ainda havia muita crueldade e muitas feridas abertas naquele distrito castigado pela ganância. Esconder-se não é uma opção, é uma necessidade. Talvez, por isso a estória por detrás do smoking usado pelo ‘mordomo’ – na verdade, a sua própria figura – seja tão cheia de perguntas, do que de respostas.
Valendo-se daquela máxima já dita aqui mesmo: “a grande verdade é que por mais que você jogue a poeira para baixo do tapete, uma hora ela sai. E quando sai, vem com a força de um grande vendaval. Arrastando e levando tudo consigo”. Uma hora a ‘poeira’ a respeito da verdade escondida pelo ‘mordomo’ virá á tona. E talvez o seu vendaval arraste muito mais do que somente poeira, talvez muito sangue respingue por toda a metrópole…
____________
¹ Steampunk é um subgênero da ficção científica, ou ficção especulativa, que ganhou fama no final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Trata-se de obras ambientadas no passado, ou num universo semelhante a uma época anterior da história humana, no qual os paradigmas tecnológicos modernos ocorreram mais cedo do que na História real, mas foram obtidos por meio da ciência já disponível naquela época – como, por exemplo, computadores de madeira e aviões movidos a vapor. (fonte: wikipédia, háhá)
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