Cronofobia – Parte I
Escritor: João Cunha
L,
Sei que não nos falamos desde que você partiu, e eu tenho que me desculpar por não estar lá quando isso aconteceu, mas preciso falar com alguém sobre o que ocorreu ontem. Poucos acreditariam, e muitos achariam que estou louco, e talvez eu esteja, mas deixarei para você decidir isso. Como pode ver, ainda confio em apenas você depois de tanto tempo.
Desde que me conheço, nunca tive problemas para dormir. Noites sem sono, porções exatas de café em horários específicos e sedativos, nada disso fez parte da minha vida até aquele momento. Dormir bem devia ser comum para os jovens, mas se eles dormem tão mal quanto reclamam, não há motivo para que nossa geração torne a sociedade noturna. Eu não só nunca tive problemas para cair no sono, como era estupidamente fácil. Só era necessário deitar e deixar o piloto automático fazer o resto do trabalho. Não era assim como muitas coisas da vida, tão complicado quanto às pessoas queriam que acreditassem.
Acho que não só com dormir, mas a maior parte da minha vida se baseia em entrar no piloto automático. Não há motivo para sentir vergonha disso, todos fazem a mesma coisa e ainda não estamos no futuro para repreender coisas que eram intrínsecas as nossas vidas no passado. Dificilmente a próxima geração será diferente da nossa nesse aspecto, já que à medida que o mundo piora, mais as pessoas fingem que estão em outro lugar enquanto alguém pisando em seu rosto com sua bota, e o pé dentro dela obviamente, diz que aquilo vai acabar rápido caso fiquem em silêncio. Como a humanidade só conhece uma direção, para baixo, a única mudança que teremos nesse quadro é um ponto onde a bota pressionará o crânio da sociedade com tanta força que ele vai quebrar. Do que eu estava falando mesmo?
Voltemos ao fato. Noite passada, eu não consegui dormir. Nada além do habitual me preocupava, nenhuma luz que irritasse os olhos mesmo que fechados ou trovões para incomodar o meu sono, nada disso, apesar de que chovia. Para uma pessoa sã, não havia motivo para que alguém nas minhas condições e com meus antecedentes não tivesse uma boa noite de sono, mas isso estava errado. Algo me impediu de dormir, e com certeza ninguém jamais imaginou um motivo como esse para ter insônia.
Eu vi toda a história da humanidade até o dia do nascimento. É estranho que depois de tantos rodeios, o que quero falar seja dito de forma tão seca, mas este é o fato. Por doze horas seguidas, toda a história de cada pessoa que já infestou a Terra passou pelo meu cérebro numa velocidade que deveria causar curto-circuito nos meus neurônios, mas não aconteceu. Dizem que quando está prestes a morrer, toda a sua vida passa diante dos seus olhos, bem, pense que isso aconteceu comigo, mas além de eu não estar morrendo, não ser minha vida e não ser apenas uma experiência visual, aconteceu com cada pessoa, viva ou morta, que habitou nosso planeta até pouco mais de uma década atrás. A comparação de certa forma não se aplica, já que enquanto aqueles a beira da morte tem apenas de reviver os arrependimentos e felicidades, eu vi pelo menos quatro milênios de fofocas e o mesmo livro de quinta categoria lido e comentado em línguas diferentes pelo menos quatrocentas mil vezes. Gostaria de poder dizer que foi a experiência mais desagradável da história, mas há tantos casos piores que o meu.
Quando o processo terminara, percebi que tudo simplesmente atravessou minha mente sem problemas e de nada esqueci pelo caminho. Esse conhecimento que viera não era como aquele que aprendemos pela razão, mas sim algo que assim como falar, andar e praguejar, que está sempre lá ao alcance sem a necessidade de pensar para recordar. Cada grande e pequeno evento da história, cada idéia brilhante, cada pensamento mesquinho e entediante, cada sentimento, seja bom ruim, doloroso ou não. Tudo que já foi vivido pelo Homo Sapiens agora fazia parte de mim e jamais iria embora.
O enredo do drama épico, que parecia apenas um pouco mais longo que Ben-Hur, em si me parecia incrivelmente longa, bastante confusa, misantrópica e com uma surpreendente e bem elaborada critica a todo e qualquer arquivista. Ela tem mais conflitos irrelevantes do que um fórum na internet, e uma série de lições nunca aprendidas. A maioria delas deveria ser fácil de aprender, mas não é assim que as coisas são. Por sorte, o erro de muitos me ensinou algumas coisas. A primeira dela é que infelizmente, os Beatles estavam errados. Não precisamos de amor para sobreviver. Muitos vivem sem nem mesmo amor por si mesmo, quem dirá amor de outras pessoas. As pessoas só precisam de comida, água e algo que não tem, pois assim podem viver das piores maneiras possíveis. Muitas outras coisas úteis foram aprendidas, outras nem tanto, algumas espero nunca ter de colocar em prática.
Diferente do que se espera para alguém que aprende tanto sobre a vida quanto eu aprendi, não tive nenhuma epifania, revelação ou a necessidade incontrolável de formar um culto. Nada mudou. Pensei que o problema fosse comigo, mas isso era um pensamento demasiado humano. Ninguém muda a forma de pensar a menos que algo em si tenha sido quebrado, e naquela noite, aconteceu o oposto comigo. Eu evoluí. Todo o conhecimento criado, imaginado e negado por terceiros agora fazia parte de mim. Isso não me tornara um melhor escritor ou mais simpático, mas, por exemplo, o que aconteceu comigo não é um fenômeno desconhecido. Apenas sou o primeiro da espécie a me tornar consciente sobre os campos morfogenéticos.
Pense que cada ser vivo possui um campo invisível que transmite informação para tudo aquilo com que ele tem laços afetivos, e essas informações não só alteram as probabilidades da evolução das espécies, mas como deixam rastros de memória que fica adormecida dentro dos nossos DNAs assim que somos concebidos por nossos pais. Por sinal, é extremamente doentio da parte da natureza decidir que a ultima memória que seria passada para mim nessa noite, que já havia amanhecido, seria meus pais fazendo sexo. De qualquer forma, todas essas informações passadas pelo campo morfogenético despertaram em mim, e a terceira coisa que tentei procurar em minhas novas lembranças se alguém passara pela mesma experiência, e a resposta era não. Se estiver interessada, a primeira e a segunda coisa foram uma busca por viajantes do tempo e zumbis, respectivamente, e nenhum deles achei.
Como já deve imaginar, te mando esse email para que você me diga o que fazer e o mesmo eu deveria fazer por você caso fosse necessário. Era um de nossos acordos e pelo menos um deles temos que cumprir, não acha? Eu penso que sim, mas apenas para mais uma vez nos mostrarmos superiores à maioria, já que poucos foram os pactos cumprimos pelo homem. Estou divagando muito? É porque estou nervoso, e dados aleatórios, assim como pensamentos pessimistas e egocêntricos sempre me acalmaram. De qualquer forma, como devo agir em relação a esse conhecimento que tenho agora? Devo tentar ficar rico, escrever um livro, solucionar crimes, procurar ajuda psicológica ou viver minha vida como se nada tivesse acontecido?
É, eu também gostei da idéia de virar um detetive, mas seja séria caso vá responder essa mensagem. Por enquanto apenas irei testar se essas informações são verdadeiras, mas sem revelar a ninguém além de você o que acontece. Por mais impossível que seja você responder, imploro para que o faça.
Com… amor?
T
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