Encontro no Litoral Africano
Escritor: Siqueira Renard
Victor expirou profundamente e abriu os olhos. A roupa molhada colava-se pegajosa em seu corpo. Por um minuto, não conseguiu se lembrar de como foi parar naquela praia, nem entender a presença daquele criado chinês, de que se lembrava vagamente da cozinha do navio, ali, debruçado sobre ele. Então a lembrança do naufrágio, a corrida alucinada aos botes, a tentativa de manter aquela casquinha de noz flutuando na tempestade, e por fim o fracasso de tal empreitada vã explodiram em sua mente. Com esforço conseguiu erguer o tronco, tentando entender a situação.
Além dele e do criado chinês, havia apenas mais uma pessoa ali, um marinheiro, usando o uniforme da linha marítima, recolhendo os objetos que o oceano lançara na margem. Uma mistura um tanto confusa de cordas, objetos desconhecidos e caixas de mantimentos estendia-se ao longo da linha de arrebentação.
– Senhor está bem? – O criado perguntou.
– Sim, sim. – Victor respondeu, levantando-se com esforço. – Onde estamos?
– Não saber. Lugar deserto.
– Só nós nos salvamos?
– Não vi mais ninguém, senhor. Estamos sozinhos aqui.
– Quem me resgatou? Foi você?
– Não, senhor. Cheguei aqui e encontrei marinheiro. Ajudava ele procurar comida e água, quando vi o senhor deitado na praia. Trazido pela maré como restos do navio, acho eu.
Victor estava de pé. Prestou atenção no marinheiro, que caminhava na direção dos outros dois náufragos. Era moreno, tinha os olhos amendoados e os cabelos lisos e negros. Provavelmente era de alguma ilha da Polinésia, embora o nariz fosse um pouco grande. Quando já tinha chegado perto o suficiente, Victor perguntou-lhe em inglês:
– Por favor, pode me dizer onde estamos?
O marinheiro fitou-o por um momento com olhos inexpressivos e depois desviou a cabeça, desinteressado de responder a pergunta. Ajoelhou-se diante de uma pilha de destroços, avaliando o que era aproveitável. Victor insistiu mais uma vez, e por fim obteve a resposta:
– Costa do Esqueleto.
Esse nome causou-lhe calafrios. Conhecia a fama daquele lugar, um trecho especialmente perigoso, evitado pela maioria dos navios. Era o lugar que sofreu mais naufrágios em toda a costa da África. O deserto do Namib chegava diretamente às praias.
Olhou ao redor. De fato, em meio à neblina fraca que já se dissolvia com os raios do sol, já conseguia divisar o deserto. Nenhuma árvore ou sinal de habitação eram visíveis, mas imensas dunas de areia erguiam-se ameaçadoramente próximas, como se ansiosas para esmagar os minúsculos invasores cuspidos pelo mar. A manhã já findava, e da direção do deserto era possível sentir uma brisa quente, como uma antecipação do calor infernal que faria antes do meio dia.
Pela primeira vez em sua vida, Victor não soube o que fazer. Por toda a sua vida, nunca havia enfrentado uma situação que não pudesse resolver usando as facilidades que a fortuna de sua família lhe proporcionava. Mas agora, sozinho e desamparado naquela imensidão selvagem, de que adiantava isso?
O criado chinês ajudava o marinheiro a separar os restos úteis do naufrágio. Não havia muito: algumas latas de comida, roupas e, por sorte, alguns cantis de água. Victor também percebeu alguns cartuchos de munição, mas só havia uma única arma ali, uma espingarda de caça que o marinheiro se apossou, colocando-a a tiracolo.
– O que faremos agora? – Victor perguntou ao marinheiro, que parecia estar no comando da situação.
O marinheiro levantou-se e olhou em direção ao horizonte. Consultou uma bússola que achara em meio aos destroços, ainda intacta.
– Temos que seguir a costa para o sul, tentar achar habitações. É a única chance de sobreviver. – Foi a resposta lacônica.
Victor lutava para acalmar o desespero que lentamente ia tomando conta de sua mente. A sua primeira viagem para fora da Europa, com o objetivo de tratar exclusivamente de negócios na Cidade do Cabo, e acabava sofrendo um naufrágio no pior local da Terra, em companhia apenas de um criado chinês e um marinheiro que parecia um habitante canibal dos mares do sul, pode-se imaginar situação mais absurda?
Respirou fundo. Lembrou-se dos romances de aventura que lia quando era jovem, e tentou imaginar o que seus heróis fariam numa situação como aquela. O importante era manter o otimismo, a situação não era tão desesperadora assim, talvez logo encontrassem um posto avançado da colonização alemã, que os conduziria em segurança para o local civilizado mais próximo.
Ficou absorvido nesses pensamentos consoladores por muito tempo, e só voltou a si quando o marinheiro lhe jogou um saco de pano grosso com os pertences que havia separado. Ele e o criado tinham um volume igual cada um. Havia também um enorme cantil de água, que ficou a cargo do criado
– É melhor irmos agora. Se tivermos sorte, acharemos água e caça ao longo do caminho. Mas precisamos racionar o que temos.
– Certo. E qual é o nome do senhor? Estou certo em achar que é filipino?
O marinheiro olhou para Victor com seus olhos negros e riu, divertido com a pergunta. O seu riso era rouco e amargo, parecia ecoar entre as entranhas e sair estranhamente aumentado. Victor imaginou que, se ele gargalhasse, seria uma visão assustadora.
– Meu nome é Filemon Lora, e sou de Cuzco, Peru. Vamos?
Dizendo isso, não esperou os companheiros e se pôs em marcha, na direção sul. Victor e o chinês o seguiram. Antes de deixarem para trás os destroços, um objeto brilhante jogado no chamou a atenção de Victor. Abaixou-se e viu que era um pequeno espelho portátil, desses que ele mesmo usava para fazer a barba a bordo do navio. Guardou-o no bolso da calça, mesmo sem saber o motivo.
Caminharam durante todo o dia, tomando cuidado de se manterem perto da praia, para não se perderem no deserto. A presença do mar ajudava a aliviar o calor, que já era enorme antes mesmo do meio do dia. As dunas gigantes impediam uma visão do interior e dificultavam a caminhada, já era preciso escalá-las, numa sucessão quase interminável. Fora alguns arbustos mirrados, não encontraram nenhuma vegetação, nada que quebrasse a monotonia das areias escaldantes.
Já no meio da tarde, Victor se sentia esgotado e seus pés imploravam por descanso. Mas o marinheiro Filemon não permitiu que parassem, dizendo que tinham que só descansariam com a chegada da noite. Ele se mostrou ainda mais fechado do que pareceu ser de manhã. Victor tentou arrancar-lhe mais informações sobre aquele lugar, e as perspectivas de encontrarem socorro, mas ele cortou tais perguntas com rispidez, ordenando que poupassem as forças. O criado, cujo nome era Chang, se mostrou mais cortês, no entanto sabia ainda menos que Victor sobre aquela região.
Pararam para dormir quando a noite caiu, abrigando-se perto da praia. Victor se sentia exausto, os pés doloridos por andar ora em areia fofa, ora em solo pedregoso. Sentia uma fome e uma sede terríveis, mas racionou a comida, a exemplo de seus companheiros, e comeu menos de um terço do que seria capaz de comer em circunstâncias semelhantes. Ficou sentado por um tempo diante da fogueira, feita com restos das caixas de madeira que o marinheiro trouxera, e alimentada precariamente com os arbustos mirrados que cresciam à margem. Observava seus companheiros de ocasião. Chang possuía feições típicas de vários serviçais chineses que vira de relance em suas viagens. Olhos puxados, cabeça raspada e uma barba rala. No entanto, havia alguma coisa nele que despertava simpatia. Filemon, o marinheiro, era mais interessante. O rosto quadrado exibia feições duras, quase graníticas. As feições de um homem acostumado à vida dura no oceano. Não se percebia vestígios de barba nele. Os cabelos lisos caiam-lhe pelos ombros, mas o mais expressivo eram os olhos. Pareciam queimar com uma chama fria, de uma paixão que desmentia seu jeito silencioso e parecia prometer uma história de vida e tanto. Gostaria de conversar mais com ele, descobrir pelo menos parte de sua história, mas Filemon se mostrava indiferente, até hostil, às suas tentativas de iniciar uma conversa.
Reparou que Chang usava um pequeno crucifixo de madeira no pescoço. Para ele o mais difícil de suportar era a falta de conversas, fossem de qualquer tipo. Aproveitou a curiosidade despertada por aquele pequeno objeto para arrancar alguma coisa da história do chinês.
- Você é cristão? – Perguntou
Chang a princípio pareceu surpreso com aquela pergunta dirigida a ele. Mas logo em seguida abriu um sorriso e respondeu, de boa vontade:
- Sim, senhor. Católico romano. Fui criado desde garoto em orfanato católico, de missionários ingleses. Cristo ajuda a suportar momentos difíceis, como esse.
- Entendo. – Respondeu Victor, pensativo.
Esperou que o criado acrescentasse mais alguma coisa, mas quando ficou claro que ele não continuaria a conversa, começou a falar de si:
– Sou judeu, sabe? Quando criança, minha mãe me contava a história do nosso povo, que é perseguido há quase dois mil anos. Por muitas vezes, só tínhamos a nossa crença a que nos apegar. Minha mãe mesma rezava todo dia. Meu pai… bem, meu pai se preocupava mais em juntar riquezas do que com o outro mundo. Minha mãe dizia que Deus estava em tudo, das pedras em nosso caminho, até as flores de primavera que aspiramos. Mas meu pai parecia achar que Deus estava apenas no dinheiro.
- E o senhor? O senhor acredita em Deus?
Victor demorou um pouco antes de responder:
- Eu compartilho de um velho provérbio árabe, sabe? Diz: “Acredite em Deus, mas amarre seu camelo”.
Chang riu com polidez com o que pensou ser uma piada. Filemon, que até aquele momento se mantinha quieto, os olhos fixos na conversa dos dois, soltou um resmungo de desdém e jogou mais um graveto esquelético na fogueira que logo minguaria até a extinção.
- E você, meu amigo peruano? Acredita em alguma coisa?
O marinheiro não respondeu de imediato. Espreguiçou-se, bocejou longamente e estendeu as mãos para a fogueira, buscando os últimos raios de calor que ela proporcionava. E falou para si mesmo, mas alto o suficiente para ser ouvido pelos companheiros:
- Religião é veneno.
A fogueira logo se apagou, e Chang e Filemon acomodaram-se para dormir, usando cada um apenas um pequeno cobertor de lona salvo do naufrágio. Mas Victor não conseguia dormir, mesmo com todo o cansaço que sentia. Pensava em sua irmã, Ingrid, de apenas seis anos, sozinha no colégio interno. Ele era seu único parente ainda vivo. O que seria dela se ele morresse ali? E justo numa época como aquela. Há apenas quatro anos, aquela figurinha ridícula, Adolf Hitler, tomara o poder com a ajuda de sua turba de fanáticos, e obrigara a família de Victor fugir de sua amada Alemanha, em busca de um novo lar. Haviam se estabelecido na França, onde ele deixara sua irmã para cuidar de assuntos de família na cidade do Cabo. Para qualquer um com capacidade de pensar, era óbvio que logo haveria uma guerra. Precisava sobreviver àquilo, precisava voltar para a Europa e cuidar de sua irmã.
Um grito agudo, alto, angustiante, rasgou o ar. Parecia vir de lugar nenhum e de todas as direções ao mesmo tempo, trazido pelo vento. Se era de animal ou ser humano, ninguém poderia dizer. Victor apenas sabia que não ouvira jamais um som como aquele. O grito ainda ecoou por muito tempo antes de sumir em meio ao barulho das ondas do mar.
Os três ficaram de pé. Victor viu no rosto dos seus companheiros a perturbação causada por aquela intervenção sobrenatural.
– O que é isso?! – Perguntou, com o coração aos pulos.
– Um fantasma, uma assombração! – Chang, o criado, estava tremendo. Tirou do pescoço um crucifixo de madeira e o apertava entre as mãos.
O marinheiro não falou nada, apenas engatilhou a espingarda, pronto para atirar em qualquer coisa que aparecesse.
Ficaram atentos por um bom tempo, mas não se ouviu mais nada de anormal. Com relutância, Filemon voltou a se acomodar em seu lugar, segurando a espingarda entre os braços. Victor e Chang o imitaram, mas nenhum conseguiria dormir, e por isso ficaram de olhos bem abertos, atentos ao menor ruído que pudessem ouvir. Acima deles, as estrelas brilhavam, indiferentes às suas inquietações, e o mar estrondava com fúria contra a praia, numa mostra do poder que já havia feito naufragar tantos navios.
Acordaram ainda de manhãzinha, com o céu escuro. Uma espessa névoa os envolvia. Seus pertences, cobertores e até seus cabelos estavam envolvidos em orvalho. Isso era novo para Victor. Sempre associara o deserto com secura absoluta, mas aquela neblina era uma surpresa mais do que bem vinda. Viu que seus dois companheiros chupavam a umidade de suas roupas e objetos. Fez o mesmo. Era um jeito de economizar água.
Enquanto arrumava seus pertences, Victor percebeu Filemon se afastando na direção oposta à praia. Ele pareceu olhar atentamente alguma coisa no chão, coçou a cabeça, e deu mais algumas voltas pelo lugar. Em seguida, voltou para eles, com o rosto sombrio.
- Descobriu alguma coisa sobre o que aconteceu ontem à noite?
- Não. – Foi a resposta seca.
- Você não achou nenhuma pegada, nenhum rastro na areia?
- Não. Mas isso não quer dizer nada. O vento pode tê-las apagado.
Arrumaram suas coisas e reiniciaram sua jornada rumo ao sul. Dias aparentemente intermináveis transcorreram depois disso. Não ouviram mais nenhum grito noturno, mas Filemon parecia inquieto o tempo todo. Victor sentia uma certa hostilidade nele, embora não soubesse a causa. Chang não mostrava nada além de uma irritante neutralidade. Respondia com um sorriso cortês às perguntas que lhe faziam, se mostrava atencioso quando pediam ajuda, mas não tinha disposição de sustentar uma conversa mais prolongada.
Como sempre acontecia quando enfrentava situações que não podia mudar, Victor buscou refúgio em sua imaginação, relembrando as aventuras dos heróis que lia desde a infância. Adorava Julio Verne, Robert Louis Stevenson e Alexandre Dumas. Sabia muitos trechos desses livros de cor. Quantas vezes brincou de caça ao tesouro, ou se imaginou no comando de um navio submarino, como o capitão Nemo!
Um sorriso aflorou em seus lábios, um dia, quando viu uma semelhança entre a sua situação e a de um de seus personagens, o capitão Walton, que organizara uma expedição para atingir o Pólo Norte. Como Victor, sozinho em meio a várias pessoas com quem não tinha nenhuma afinidade, numa jornada numa região selvagem, o que ele mais ansiava era ter um amigo com quem pudesse desabafar suas angústias. Walton um dia teve seu pedido atendido, ao encontrar o Dr. Frankenstein, que lhe contou sua terrível história, a de ter criado um monstro. Victor se perguntou se teria seu pedido de um amigo atendido ali, e se isso lhe abriria as portas para uma história tão fantástica como aquela.
Os dias se passaram, e Victor ia perdendo as forças, consumido por aquele lugar infernal. As noites eram terrivelmente geladas, e ele acordava tiritando e umedecido pela névoa que se formava todas as manhãs, e antes do meio dia já estava suando com o calor. Victor nunca achou que o inferno seria um lugar de chamas eternas, ou de frio eterno, como diziam diferentes religiões. O ser humano é capaz de se adaptar às temperaturas mais extremas, desde que essas temperaturas tenham certa constância e duração. O inferno devia ser parecido com aquele lugar, onde se experimentava o pior de um e de outro, no mesmo dia, todos os dias. Ele se sentia exausto e enfraquecido. Não comia direito, e o sol do deserto dava-lhe terríveis dores de cabeça.
Apesar disso, ele e seus companheiros continuavam andando, andando do nascer ao pôr do sol. Não podiam fazer nada a não ser andar o dia inteiro, na esperança de encontrar um local habitado.
Um dia, quando seguiam a linha da praia, encontraram um bando de leões marinhos, uma colônia inteira. Filemon matou dois, e ele e Chang cortaram os animais em tiras e salgaram a carne com um suprimento que foi salvo do navio. O processo todo levou três dias, e no último eles puseram-se novamente a andar para o sul.
A carne de leão-marinho, embora bem vinda, não contribuiu para melhorar o estado de saúde de Victor. Era muito gordurosa e diferente do que estava acostumado. Sua cabeça doía terrivelmente, e ele era obrigado a fazer freqüentes pausas ao longo do dia, o que irritava Filemon. Este se mostrava pouco solidário para com ele, e Victor até mesmo achava que torcia para que morresse, pois assim haveria menos bocas para repartir a comida. Temia que ele fizesse algo para apressar sua morte.
Uma noite, Victor acordou antes de todos. A neblina matinal já caia sobre eles, atrapalhando a visão. Sentia que alguém chamava-o em algum lugar. Levantou-se com dificuldade. Seus companheiros dormiam. Olhou ao redor. Em meio à névoa, pareceu ver uma forma branca se materializar ao longe, sussurrando seu nome. Caminhou em sua direção. Ainda lhe ocorreu acordar Chang, mas algo na voz o dissuadiu.
Ainda à distância, ele percebeu que era uma mulher envolta em um manto branco. Era branca, e fazia lembrá-lo das atrizes de cinema norte-americano. Sua voz era mais clara agora, e o convidava para perto de si, insinuante.
– Venha para perto de mim, querido. Seu o quanto a jornada foi dura. Deixe-me aliviar suas dores.
Uma parte de seu cérebro ainda soou um alarme: o que diabos uma mulher branca estaria fazendo no meio daquele deserto infernal? Aquilo devia ser uma ilusão. Mas ele já não tinha forças para resistir. Seria um sonho? Não importava. Simplesmente se deixava arrastar por aquela voz tão melodiosa, que o levava na direção do deserto. Mesmo que fosse uma aparição sobrenatural, era uma mudança bem vinda depois de dias sem ver nenhum lugar civilizado.
A mulher estava mais próxima agora, e Victor pôde observar que ela tinha cabelos vermelhos e lábios cheios. Victor andava lentamente em sua direção, ainda sentindo a fadiga da jornada interminável. Ela recuava lentamente, provocando-o, mas ainda assim deixando que ele se aproximasse cada vez mais.
Estava mais perto dela agora. Podia ver seu sorriso convidativo. Uma estranha insensibilidade tomava conta do seu corpo. O cansaço não parecia mais pesar tanto.
Estava a apenas cinco passos dela agora. Ela parara de recuar, e ele já estendia os braços para tocá-la.
De repente, um tiro. O barulho que causou naquela imensidão fez Victor cair no chão, desorientado. Olhou para o lado de onde viera o tiro e viu Filemon em pé, com a espingarda apontada, com Chang ao seu lado.
O grito hediondo, o mesmo que ouvira dias antes (disso tinha certeza) o fez se voltar para a aparição. O que viu fez seu sangue gelar de pavor. O corpo da mulher havia tombado no chão, ainda envolvido em seu manto branco, mas a cabeça, a cabeça que por pouco não tocara com suas mães, estava flutuando no ar, arrastando atrás de si uma massa viscosa e sanguinolenta que parecia intestinos humanos. As belas feições haviam se transfigurado num rosto demoníaco, de lábios pretos que exibiam duas fileiras de presas deformadas, sedentas de sangue.
Na vastidão do deserto, ouviu-se outro grito. Dessa vez, era Victor, que sentia sua razão o abandonando ante aquela visão infernal. Seu corpo tremia incontrolavelmente, queria fugir dali, correr como nunca correu antes, até se ver livre daquela visão, mas estava incapaz de sair do lugar.
A coisa hedionda não lhe deu atenção. Seus olhos estavam fixos nos dois intrusos que atrapalharam seu jogo de sedução. Os seus longos cabelos ruivos ondulavam no ar, como delicados tentáculos sedosos, mas o mais horrível era a massa ensangüentada pendurada embaixo da cabeça, que tremia e pulsava de forma convulsiva, num espetáculo horrível de se ver.
Filemon e Chang também ficaram paralisados ao verem tal visão. Chang caíra de joelhos e segurava o crucifixo diante do rosto, numa inútil tentativa de proteção contra o monstro. Filemon apenas ficou onde estava, os enormes olhos negros fixos na aparição, que flutuava até eles, pronta a castigá-los.
Ele ainda tentou um novo tiro, mas tremia muito e a criatura foi mais rápida. Os intestinos se desenrolaram em tentáculos horríveis, que pingavam um liquido viscoso, e agarraram o marinheiro pelos braços e pelo tronco. Filemon ficou indefeso, pendurado como um patético bonequinho de cordas. Chang virou o rosto e levantou ainda mais alto o crucifixo, incapaz de prestar qualquer ajuda.
A coisa estava prestes a morder o pescoço do marinheiro quando, subitamente, o soltou, um tremor convulsivo deformando ainda mais suas feições e os tentáculos-intestinos agitando-se desesperados.
Nesse momento, Victor percebeu um clarão às suas costas. Virou-se e viu que o corpo que a criatura deixara para trás ardia em chamas. Atrás da fogueira, estava a figura de uma africana, uma velha, apoiada em uma bengala.
O monstro agora gritava de agonia. Voou rapidamente até seu corpo que queimava, como se quisesse tentar salvá-lo. Os seus gritos eram uma coisa terrível de se ouvir. Victor tapou os ouvidos, mas ainda assim não conseguiu impedir que o som chegasse ao seu cérebro. Muitos anos depois, ao recordar aquele momento, ainda conseguiria ouvir aquela voz terrível com nitidez.
A criatura agitava-se no ar, flutuando acima das chamas, em visível agonia. Num determinado momento, virou-se na direção da estranha aparição que a arruinara, talvez com a intenção de atacar, mas neste momento perdeu as forças e caiu, como uma fruta podre, na fogueira, extinguindo-se também.
Victor, Filemon e Chang ainda ficaram por muito tempo parados, olhando para a fogueira. A velha não se mexera desde que Victor a viu, parecia uma estátua de barro erguida no meio do deserto.
Ele ainda tremia incontrolavelmente. O sangue latejava nas suas têmporas e, da sua garganta, começou a escapar o som agudo de uma gargalhada desvairada. Percebeu que estava tendo um ataque histérico, e que a razão lutava para abandonar sua mente, esmagada pelo que acabava de testemunhar. Ele estava enlouquecendo. Como uma última tentativa de manter a sanidade, conseguiu perguntar, em meio às notas agudas das suas risadas:
– Em nome de Deus, o que era aquilo?
– Um horror que não pertence a esse lugar. Viajou por muito tempo, por mar e por terra, para espalhar seu mal por estas terras ancestrais. – Quem falou foi a mulher, que parecia apenas esperar que alguém quebrasse o silêncio para sair de sua imobilidade.
Pela segunda vez naquela noite, Victor experimentou o espanto causado pela presença de uma realidade sobrenatural além da sua compreensão. Não era por que a voz daquela velha feiticeira havia, de alguma forma, acalmado o seu corpo e sua mente até que ele conseguisse pensar de forma coerente. Não era porque o som daquela voz transmitia uma tranqüilidade que o fazia se lembrar imediatamente das noites quentes e aconchegantes em que sua mãe o embalava com canções antigas do povo judeu.
O choque foi causado pelo fato de que ela, aquela nativa africana, estava falando sua língua natal, a língua dos judeus da Europa Oriental, o iídiche.
A velha contornou a fogueira e se postou bem no meio do espaço que separava Victor de Filemon e Chang. Parecia que ia retornar à imobilidade, quando finalmente falou, numa voz clara que se sobrepunha à solidão do deserto – Bem vindos, heróis!
– Heróis? O que quer dizer? – Victor não estava muito certo se aquela mulher não seria outra assombração. Mas se sentia mais tranqüilo, afinal, ela os salvara.
– Escutem! Victor Dayan, Filemon Lora e Chang Tsu-Te! – Ao ouvirem seus nomes pronunciados pela estranha personagem, os três estremeceram – Sua presença aqui não é mero acaso, vocês três, seres de mundos diferentes, de três continentes diferentes, vocês estão reunidos aqui porque têm um destino a cumprir. Esperei muito tempo por vocês. Meu período de reclusão terminou. O mal se espalha novamente pelo mundo, o homem, em sua ignorância e pretensão, ignora a antiga sabedoria, inconsciente de que com isso desencadeia forças que podem causar sua destruição. Ele age como uma criança que, com uma varinha, revolve um monte de terra, e desperta um enxame de formigas venenosas que irá lhe morder os pés, causando uma terrível febre. Eventos grandiosos nos aguardam, meus filhos. Meu papel é guiá-los.
Victor estava boquiaberto. Aquela estranha aparição falava iídiche, mas o que dizia não tinha nexo. Herói, ele e aqueles outros dois? Naquele momento, a última coisa que se sentia era um herói. Retomou consciência do seu próprio corpo, e, para sua vergonha, descobriu que havia molhado as calças. Ainda continuava estendido no chão, pelo medo e pela exaustão. Mas não conseguia desprender os olhos da mulher. Emanava dela alguma coisa que a fazia parecer um ser de outras eras, de quando os mitos ainda caminhavam pela terra. O tempo todo em que falara, ela permaneceu imóvel, apoiada em seu cajado, apenas a cabeça se mexendo, e erguendo-se em direção ao céu encoberto pela névoa. Quando por fim se calou, quem falou foi Filemon, saindo do transe mas ainda segurando bem firme a espingarda.
– Você… você fala a língua dos meus pais. Como é possível que você fale quéchua?
– Eu falo quéchua, chinês, iídiche, todas as línguas da terra – Foi a resposta. – Prestem atenção! Sou uma griot! Meu nome é Kamara Nzinga, sou responsável pela transmissão dos conhecimentos ancestrais. Sei tudo o que aconteceu antes de mim, mas o futuro é turvo. Prestem atenção, pois dos meus lábios não saem inverdades. Cada palavra minha é tão verdadeira quanto o chão a seus pés. Por isso, acreditem quando digo que sei o que os aguarda, e que só eu posso orientá-los nesta jornada. Mas, por ora, devem descansar. Tomem – Ela atirou um fardo que tinha às costas. A trouxa abriu-se, revelando melões e outras frutas suculentas. – Descansem, recuperem suas forças e amanhã conversaremos.
Dito isso, ela voltou suas costas aos espantados náufragos e sumiu em meio à névoa e a escuridão.
Os três ficaram ainda parados por um tempo, observando o lugar onde a estranha aparição havia estado. Por fim, Filemon, sempre o mais prático dos três, se acercou da trouxa de frutas, pegou um melão, abriu-o com sua faca, examinou seu conteúdo e se pôs a devorá-lo.
Victor e Chang se aproximaram, mais tranqüilizados. Que coisa estranha! Victor não se sentia mais apavorado, nem assustado, ao contrário, estava estranhamente calmo, tentando analisar a situação. Ainda pensava no que a tal griot disse. Perguntou a Chang, que já pegava outra fruta e se ocupava em descascá-la.
– Suponho que para você parecia que ela estava falando em chinês, não?
Chang soltou um sorriso educado e confirmou com a cabeça.
– Que coisa mais estranha! – Disse Victor – O que pode significar tudo isso?
– Não sei. Mas pelo menos ela nos salvou daquela coisa amaldiçoada ali – Disse Filemon, apontando para os restos fumegantes da criatura.
Ficaram muito tempo em silêncio, ocupados com as frutas. Estavam uma delícia, depois de vários dias comendo apenas carne salgada de leão marinho. Tiveram um efeito mágico sobre Victor, curando-o quase por completo de sua dor de cabeça e seu cansaço.
Quando terminaram, Filemon foi o primeiro a voltar para o local onde tinham deixado suas coisas, sempre segurando bem firme sua espingarda. Mesmo no escuro e na névoa, tinha um senso de orientação perfeito.
– O que você vai fazer? – Perguntou Victor.
– O que a mulher disse? Esta noite, vamos descansar. Amanhã… veremos. – Foi a resposta de Filemon.
Victor não se sentia com sono, mas deitou-se da mesma forma que seus companheiros. Ficou de olhos abertos, contemplando a névoa. Era inacreditável o que havia acabado de acontecer com ele. Um monstro em forma de mulher, saído das profundezas do inferno, quase o matara, e fora salvo por uma velha nativa que parecia conhecer todas as línguas (e o mais incrível, falava todas ao mesmo tempo) e ter saído igualmente do mundo das fábulas e lendas. Será que tudo acontecera realmente, ou foi tudo fruto de um delírio causado pelo sol do deserto?
E que história era aquela de os três terem um destino a cumprir? Não havia nada de comum entre ele e aqueles dois. Foi por acaso que se encontraram ali, e depois que conseguissem sair daquele inferno, ele voltaria para a Europa, para a sua irmã.
Não soube quanto tempo ficou acordado e quanto tempo ficou dormindo. Quando despertou, já havia uma certa claridade, mas a névoa ainda orvalhava tudo ao seu redor.
Seus dois companheiros já estavam de pé, devorando os restos das frutas que haviam deixado da refeição anterior. Filemon olhou para ele e sorriu, dessa vez um sorriso mais descontraído, sem a amargura e a tensão que Victor havia captado:
- Bom dia, vovô! – Foi a sua saudação.
Vovô? Victor pegou o pequeno espelho que havia guardado e se olhou nele. Tomou um choque. Seus cabelos, antes tão escuros, haviam ficado brancos. Não completamente, havia ainda fios negros, mas as marcas do choque da noite anterior estavam bem visíveis ali.
Acima deles, do alto de uma duna, tal como uma sentinela no alto de uma fortaleza, se postava a estranha griot, olhando na direção do deserto. Estava tão imóvel quanto na noite anterior, antes de lhes dirigir a palavra. Parecia que a imobilidade era seu estado natural, do qual só saía raramente.
Quando os três estavam arrumando suas coisas, Nzinga voltou-se para a direção deles e os chamou com um gesto.
– Vejam! – Exclamou Chang, o primeiro a vê-la. – Ela nos chama.
Ficaram por um tempo se olhando, hesitantes. Filemon, como sempre, foi o primeiro a se decidir. Colocou a mochila às costas e caminhou na direção dela, seguido por Victor e depois por Chang, que parecia o mais amedrontado entre os três.
Quando chegaram perto dela, ficaram em silêncio, sem saber o que dizer. Victor olhou para a direção que ela fitava. Julgou ver algo brilhando ao longe, em meio ao nevoeiro.
Apurou a vista, tentando discernir o que era. Felizmente, a névoa já se dissipava. A princípio, Victor pensou ver um monte de pedra, depois várias formações rochosas. Mais isso não explicava a luz que parecia emanar delas.
Dez minutos depois, ele então conseguiu discernir o que era: uma cidade inteira, cercada de um lago de águas cristalinas. O brilho do sol refletido no lago o impedia de ver totalmente, mas Victor via claramente as torres de pedra, janelas e pontes.
Uma cidade de pedra no meio do deserto não parecia mais improvável que a aventura da noite anterior, no entanto enchia Victor de espanto. Olhou para seus companheiros, e soube por suas caras que também achavam a mesma coisa. Decidiu então perguntar a mulher:
– O que é…
– Aquela é Burdiju Alamassi, a cidade de pedra, a irmã de Jabal Lama, a cidade de cobre – Disse a griot, antecipando-se à pergunta. – Ela está e ao mesmo tempo não está ali. É o lar da princesa do Hoggar, a maga dos Montes de Luz, e só é visível durante alguns raros momentos, e sempre em lugares diferentes.
Voltou-se e encarou os três náufragos: Victor notou que os olhos dela era azuis, coisa inusitada. Não sabia o porquê, mas não conseguia encarar aqueles olhos por muito tempo. Eram como o oceano que arrastava os náufragos para o seu interior.
- Você é um anjo? – Perguntou Chang, emocionado e prestes a se colocar de joelhos diante daquela mulher.
– Escutem, meus jovens! – ela disse – Há muitas perguntas a serem feitas e muitas respostas a serem dadas. Mas nenhuma delas pode ser dita aqui. Eu os convido a me acompanharem a Burdiju Alamassi. Lá, saberão a verdade.
– Agradeço o convite – Disse Victor. – Mas tenho que voltar. Tenho negócios a tratar, e uma irmã pequena para cuidar.
– Seus pequenos negócios não são nada comparados com a importância do que estamos tratando aqui. E sua irmã, embora não saiba, também faz parte disso tudo.
Essas palavras perturbaram Victor.
– Escute, Victor Dayan, e seus dois companheiros. Se seguirem pelo sul por mais três dias, encontrarão um posto avançado dos brancos. No entanto, peço que me acompanhem. Vocês descobrirão coisas que nunca imaginaram saber, e poderão se preparar e, quem sabe, evitar o que está por vir. A abominação que lhes atacou ontem não é nada, viram a facilidade com que eu a destruí? Pois outras, mais terríveis, espreitam nas sombras e na escuridão. Despertadas pela ignorância e arrogância dos homens, que pensam poder subordinar toda a criação à sua vontade, como crianças mimadas. Proponho-lhes uma escolha: continuar nas suas vidas antigas, ou abrirem-se para uma vida mais ampla. Mas decidam rápido. A cidade logo vai desaparecer, e eu lhes aguardo lá.
Dito isso, a griot passou a andar na direção da cidade. Victor olhou para seus companheiros. Eles estavam assustados, mas, percebeu, também curiosos. Houve um momento de hesitação mas, por fim, foram atrás da estranha velha, na direção da cidade, que agora brilhava como se todas as suas paredes refletissem a luz do sol.
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Legal, so um pouco comprido hsuhuss
Parabens