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Jun
21
2011

Eu e a polícia

Escritor: Israel Duarte

Não sei se é só comigo ou se outros negros mundo afora sentem coisa parecida, mas a parada é que eu tenho a forte impressão que nenhum policial vai com a minha cara. Desde criança eu tinha impressão que eles me olhavam de forma diferente, mas apenas quando adolescente tive indícios que a minha desconfiança era real e só recentemente tive a prova que não sou bem visto por eles.

Sei que posso estar parecendo meio paranóico, frescurento ou apenas um palhaço querendo chamar atenção para um problema real de uma forma errada. Não cabe a mim dizer como este texto deve ser encarado. A única coisa que cabe a mim como escritor -e personagem- é escrever do jeito que eu sei melhor, com humor, sem pudor e sem uma definição clara do que é real.
Para todo pirralho, pais dos coleguinhas e polícia é a mesma coisa. Na minha infância não era diferente. Toda vez que rolava alguma disputa de território entre a criançada, ou então alguma dúvida em relação à posse de algum brinquedo, era só mandar algum garoto ligar a sirene –chorar – que algum pai ou mãe aparecia sabe-se lá de onde. O adulto olhava a situação, analisava e depois de alguns instantes dava uma solução que buscava a paz entre as crianças: brinquem juntos, isso é de todo mundo, você fica um pouquinho com o brinque e depois ele brinca um pouquinho. Era sempre assim… a não ser que eu fosse um dos pirralhos em questão. Assim que a sirene era ligada, eu pensava “fudeu!”. Em instantes eu podia ver o adulto/juiz transformar-se num filho da puta: você arrumando confusão, de novo! Devolva o brinquedo, deixe os meninos em paz! Fique aqui, sozinho, de castigo.
Se eu soubesse me expressar e se tivesse o vocabulário que tenho hoje, faria a Dercy Gonçalves parecer-se com uma freira. Mas não sabia, me ferrava caldo toda vez. O tempo foi passando, fui sendo ‘discriminado’ em outras situações. Os roqueiros me chamavam de pagodeiro, os moleques esperavam que eu soubesse jogar bola, professores desconfiavam que eu houvesse filado quando tirava notas altas… era complicado, mas agüentei na esperança que fosse tudo nóia minha, coisa de criança.
Mas quando cheguei a adolescência, para a minha surpresa, a parada só piorou. Senti isso logo quando o pai da minha primeira namorada não foi com a minha cara. Até hoje tenho duvidas se ele não gostou de mim por ser preto, ou pobre, ou rubro-negro ou por falar palavrões. Acho que só vou descobrir a verdade quando for famoso e aparecer naquelas paradas do Faustão. Quando era um pouquinho maior e já podia andar pra cima e pra baixo, senti de verdade que os hômi não gostavam de mim. Lembro do meu primeiro baculejo, eu andava todo atabacado pelas ruas do Recife quando um carro preto da polícia parou do meu lado e um baixinho invocado começou a gritar como um louco “Parede, Puto! Parede! Parede, PU-TO! PA-RE-DE”. Entrei em desespero, as instruções não foram claras o suficiente. Por uns segundos fiquei congelado, mas dei um salto de pus as mãos na parede como eles fazem nos filmes. Não sei bem por que, mas nesse exato momento passou pela minha cabeça que todas as aulas de educação no transito que recebi na escola poderiam ser substituídas por aulas de como ser abordado pela polícia. O baixinho invocado cutucou meus bolsos, cheirou minhas mãos, perguntou umas besteiras e disse que ali não era lugar para um garoto da minha idade e disse que se me visse por ali outra vez eu estava fudido. Levei anos para voltar pra lá. Fui abordado varias outras vezes, mas como vários amigos meus também eram, achava tudo aquilo normal. Mas todos notavam que a polícia e algumas velhas corocas tinham uma desconfiança anormal em relação a mim.
Certa vez, eu estava de pé num ônibus lotando quando do nada apareceu uma vaga bem na minha frente. Sentei-me sem pensar. Uns dois minutos depois, a mulher que estava do meu lado levantou-se e ficou de pé junto a porta. “Normal, ela vai descer” foi o que pensei. O foda foi que ninguém se sentou do meu lado e a rapariga só foi descer do ônibus na integração. Tentei arrumar explicações plausíveis para este acontecimento (fedor, mau hálito, cara de louco…) e cheguei a conclusão de que ou eu tenho cara de ladrão ou …
Porém a situação que mais me encabulou foi a aconteceu na semana passada. Eu já adulto, caba macho, indo pro trabalho num ônibus, quando a polícia inventa de parar o ônibus e dar uma geral nos passageiros. No mínimo uns 50 passageiros, uns 30 machos. Os dois cobaias passaram por todo mundo sem fazer nada, mas quando chegaram do meu lado…
Cobaia_1- O que tem aí na bolsa, boy?
Eu – Material do trabalho, caderno, livros, notebook e roupa.
Cobaia_2- Tá fugindo é neguinho? Passa essa bolsa!
Cobaia_1- Documento!
Cobaia_2 – Chave fenda? Estilete? Isso é arma branca. Vai assaltar onde?
Eu – Não seu policial. Eu trabalho com isso…
Cobaia_2 – Num disse? Ele trabalha com isso, assaltante.
Eu – Eu trabalho com informática! O estilete é pra decapar cabo.
Cobaia_1 – Trabalha, é? Mostra a carteira profissional!
Eu – Eu não estou com ela aqui.
Cobaia_2- Não está ou não têm?
Cobaia_1 – Cadê os documentos? Demorando muito!
Cobaia_2- Estudante? UFPE?
Cobaia_1 – Essas falsificações de hoje tão com uma qualidade da porra.
Cobaia_2- E esse notebook aí? Cadê a nota fiscal?
Eu – Deve estar em casa.
Cobaia_1 – Deve? Que… Neto de militar? Quem é teu avô?
Eu – Major Spíndola.
Cobaia_2 – Porque não disse logo?
Cobaia_1 – A gente perdendo tempo de graça aqui. Pode ir. Desculpas por qualquer coisa aí.
Cobaia_2 – Foi mal, mesmo. Pensei que tu eras um nêgo qualquer.
Ainda bem que não me revistaram dessa vez.


Written by Israel Duarte in: Agenda,Contos,Israel Duarte |

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