Ex Tenebrae – Segunda Parte
Escritor: Gustavo Martins
A decepção era plenamente visível nos olhos de cada um dos presentes. O sentimento de falhar após anos de esforços era capaz de esmagar a mente e alma de qualquer pesquisador.
—Quero relatórios pela parte de cada um de vocês! – ordenei – Analisaremos o que houve hoje e repetiremos o experimento quão brevemente for possível. Agora, – continuei, cumprimentado a todos meus colegas com um gesto falsamente tranqüilo – senhoras, senhores, podem descansar.
Quando horas depois me encontrava sozinho em minha casa, as imagens daquilo que pensei ter visto surgir das profundezas escuras do buraco negro se recusavam a deixar-me tranquilo. Sentado diante de todas as informações daquele experimento, senti uma ira animalesca surgir dentro do meu ser. Mais uma vez recorri à garrafa que carregava comigo, dessa vez eliminando todo o conteúdo nela guardado. Olhei então para mim mesmo no reflexo da foto de minha Ellaine. Estava velho, cansado, e essa ultima falha roubara de mim grande parte da curiosidade que ainda me restava. Por muito tempo adiara esse momento, todavia agora já não mais conseguiria levar minha carreira acadêmica adiante. Era chegada a hora de parar, de deixar aos jovens as descobertas, de passar para minha filha o legado de minhas descobertas. Porém, antes disso, iria descobrir o que falhara naquela noite.
—Féris! – erguendo-me chamei.
Senti sua respiração cálida sobre minha pele e voltei-me para trás, achando-a do mesmo modo que da ultima vez.
—Fiz tudo como disse e ainda assim o experimento foi um fracasso! Por quê?
Sorrindo com arrogância, Féris cruzou os braços e deu de ombros.
—Você diz que foi um fracasso, entretanto eu não faria o mesmo. – disse ela – Vocês disseram que queriam trazer um Forasteiro a esse mundo, eu dei-lhes condições para tal e vocês fizeram exatamente o que eu disse. Não houve falhas, vocês apenas não puderam detectar a chegada do seu “convidado”.
—Que quer dizer?
—Ele ainda está lá, esperando por vocês. Ou quem sabe já não está dentro de um de vocês. Forasteiros são muito imprevisíveis, professor.
—Espere! Você não está dizendo que aquela coisa que vi… – murmurei nervoso.
—Era o que você estava tentando trazer. Esperava que vocês conseguissem chamar um Deus Espacial, um Grande Antigo ou ao menos um Ser Profundo, mas no fim das contas a energia foi tão ínfima que só chamou a atenção de um Forasteiro qualquer.
Estava obstupefato. Como podia ela conhecer ter tantas informações sobre Forasteiros? Começava a duvidar das intenções de Féris e temia as conseqüências do que havia feito. Entretanto minha preocupação no momento era capturar a criatura que havia invocado.
Peguei meu casaco e um punhado de fórmulas genéricas e dirigi-me para a saída. Quando me encontrava no limiar da porta, porém, ouvi o chamado de Féris.
—Você não conseguirá fazer nada. – disse ela – Forasteiros não são como os seres normais, limitados pela matéria e pelo senso comum. Mesmo que cause ferimentos infinitos nele, o corpo continuará a se regenerar. Destruir completamente a forma física ou impor a eles as limitações da matéria são as únicas maneiras de se aniquilar um deles.
—Como pode saber tanto sobre Forasteiros?
—Quando se está viva por quase mil anos acaba-se conhecendo todo tipo de coisa, Professor.
Tudo enfim se encaixou. Os conhecimentos improváveis, a beleza irreal, as aparições impossíveis, absolutamente tudo passou a fazer sentido. Dentre alguns poucos conhecedores dos segredos do passado desse mundo correm histórias sobre uma mulher que se apresenta perante homens por toda a história, oferecendo-lhes conhecimentos e poderes inimagináveis. Tal mulher, segundo as lendas, seria a própria Valena, traidora de Galatéa, responsável pela fim da Era dos Deuses e levantar do tempo dos homens. Até então via tinha tais contos como fábulas montadas, ilusões religiosas de pessoas que necessitavam culpar alguém pelos erros que cometeram, porém agora ela se mostrava diante de mim. Havia sido eu nada mais que um instrumento para um ser de vontade eterna? Mas se mesmo a maior dentre deidades caiu pelas palavras de Féris, que poderia eu, velho e falho, longe da virilidade e sagacidade de meus tempos de moço, ter feito? Entretanto essa mesma serpente que me fizera cair no erro agora me indicava o caminho a seguir pela redenção. Deveria eu confiar em tais palavras?
Não havia escolha. Cada minuto que perdia com questionamentos dava à aberração maior vantagem diante de mim. Ignorando o aviso dado por Féris, peguei meu automóvel e dirigi mais imprudentemente do que jamais fizera em toda minha vida. Nunca antes me queixara da velocidade de um veículo, ainda mais de um que não exigia a força de animais para se locomover, mas naquela hora desejei que pudesse pegar um trem.
Quando enfim cheguei ao prédio onde era localizado o departamento de pesquisas tentei por várias vezes contatar os seguranças que guardavam o local, em todas elas não houve resposta alguma. Arrombei a porta frontal e me deparei com uma incomum escuridão. Aparentemente os cabos de energia haviam sido severamente danificados, pois as lâmpadas de emergência estavam acessas e ainda podia sentir o fluxo de Mana em alguns pontos isolados.
Os elevadores, apesar de mecânicos, também estavam inoperantes, deixando como única opção de acesso ao local onde os experimentos ocorreram as extensas escadarias. Porém sequer precisei chegar até elas para encontrar os rastros do Forasteiro.
Num dos corredores, espalhados por toda sua extensão, estavam os corpos mutilados de toda a equipe de segurança. A luz laranja, sombria, das lâmpadas de emergência projetava-se sobre aquilo que um dia foram seres humanos. O rubro do sangue respingava do teto, onde vísceras e ossos pendiam como peças de carne num açougue. Os ácidos gástricos e conteúdos intestinais exalavam um odor de putrefação que me fez vomitar, adicionador o fedor acre da bílis à já asquerosa cena.
E tudo aquilo era minha culpa. Cada grito de dor, cada membro decepado e órgão despedaçado era minha responsabilidade. O peso de tamanha culpa me fez perder o chão. Pensei em me atirar de uma janela, pondo fim a tanto tormento, porém a ideia de causar qualquer sofrimento a Ellaine era amarga demais. Isso e apenas isso me impediu de pôr fim à minha vida naquele instante.
Eis que fui tomado por um terror maior que qualquer outro. Lembrara-me que muitas vezes era eu obrigado a mandar que minha filha se retirasse para sua casa, pois era costume seu permanecer até horas mais tarde, em especial nos dias em que experimentos eram feitos. Tremi ao pensar que ela ainda poderia estar naquele lugar e por muito pouco não caí no chão, vitimado por um infarto, ao imaginar que poderia ela também ter sido vítima do Forasteiro. Corri até sua sala, atormentado a cada segundo pela visão dos corpos mutilados. Meu pavor apenas cresceu quando, chegando ao corredor onde ela trabalhava, vi as janelas quebradas, machadas de sangue, e os corpos de alguns de meus preciosos colegas esmagados ao ponto de apenas vagamente lembrarem aqueles de um ser humano. Olhando pelo vidro destroçado vi mais corpos no térreo, atirados do sétimo andar do para uma morte violenta e terrível. Mas o maior de todos os golpes veio a seguir, quando já na sala de Ellaine, encontrei a agenda que ela sempre carregava junto a si. Estava rasgado e manchado de sangue, estado em qual minha filha jamais permitiria que alguém o deixasse, ao menos não enquanto estivesse viva para defendê-lo.
Fiquei em estado de choque. As chances de algo ter ocorrido a ela já não era apenas um temor, mas uma realidade aterradora e palpável. Pensei em me atirar num canto e chorar desesperadamente, porém as chances, mesmo que ínfimas, dela ainda viver me impediram de cair em tão deplorável estado.
Usando uma das fórmulas genéricas que trouxera, recitei um curto encantamento, tentando localizar minha filha dentro daquela construção. Pequenas marcas de seu padrão de onda estavam espalhadas por vários lugares, mas uma única fonte grande estava vindo da sala do diretor. Corri quanto meu corpo cansado permitiu e apenas poucos minutos separaram a partida da minha chegada ao local onde ela possivelmente estava. E abrindo a porta, me deparei com Ellaine em posição fetal, chorando e soluçando.
—Ellaine? – chamei-a me aproximando.
—Fique longe de mim! – ela gritou.
—Está tudo bem, filha, sou eu, seu pai.
Erguendo o rosto, Ellaine olhou-me com uma expressão sofrida. Sua face manchada de sangue transmitia o sentimento pelo qual havia passado e em seus olhos vi um doloroso desespero. Tentei me aproximar, mas um odor de podridão fez arder minhas narinas, impedindo-me de dar um passo sequer adiante.
—Afaste-se de mim… – murmurou minha filha.
—Não se preocupe! Aquela coisa não está aqui!
Levantando-se do chão, Ellaine deu um passo atrás e então pude ver, brotando de suas costas, a mesma coisa indescritível que surgiu durante o experimento. Tentei me aproximar dela, porém apêndices negros se projetaram da massa central da criatura vindo em minha direção com tanta violência que apenas graças a meus reflexos acelerados não fui atingido. Tão forte foi a investida que, com um estrondo colossal, pôs abaixo a parede atrás de mim.
—Por favor pai… não quero fazer tudo aquilo outra vez…
A voz de Ellaine era um murmúrio choroso, um pedido desesperado de ajuda. Meu coração de pai ameaça estourar diante de uma situação de tamanha crueldade. O belo corpo de minha filha estava deformado, tomando de manchas de protuberâncias negras causadas pela ação corrosiva da aberração por mim chamada. Era minha responsabilidade como cientista calar aquela criatura e como pai de apaziguar as dores da criança de meu sangue.
Lembrei-me então de Féris a me dizer que nada poderia fazer ante a criatura. Para mim matar uma pessoa jamais fora trabalhoso, porém agora me deparava com uma situação além de meu controle. Se atacasse não tinha dúvidas de que Ellaine não sobreviveria, todavia se o que me disse a Valena fosse verdade, tal sacrifício seria vão. Não podia estava disposto a arriscar tanto. Tais dúvidas fizerem crescer ainda mais a pressão em meu coração.
Ajoelhei-me diante de Ellaine, implorando-a que se recuperasse. Ainda que soubesse que de nada significavam minhas súplicas não pude deixar de fazê-las. Quando em desespero, os homens se atem a qualquer esperança, mesmo que não passe apenas de um castelo de cartas. Sentia-me abandonado num mar negro como o espaço profundo, mergulhando cada vez mais em suas profundezas gélidas. Uma dor fina e anestesiante partiu de meu peito, alastrando-se por todo o meu corpo numa onda febril. As fórmulas que carregava comigo caíram de meu bolso e, levadas por uma brisa repentina, saíram de minha área de alcance. O som do choro de minha filha me enchia de ira de mim mesmo. Tomado pelo pavor de perder minha filha para um Forasteiro qualquer, precipitei-me contra a criatura, conjurando uma magia que prometera a mim mesmo nunca mais usar. Novamente apêndices negros se atiraram contra mim, entretanto não recuei. As pontas afiadas perfuraram-me o abdômen com ofensiva facilidade. O jorro de sangue que se seguiu apagou minha visão, mas não me impediu de continuar avançando. O ar me faltava cada vez mais, tornando cada passo um desafio crescente. Gritando com toda a força de meus pulmões feridos, pulei em direção à Ellaine e tão ferozmente quanto da primeira vez, diversos outros tentáculos vararam-me a carne. Empalado bem em cima da criatura, pude ver a expressão desesperada de minha filha, chorando e soluçando pelo que fora forçada a fazer. Com minha consciência se esvaindo finalizei a conjuração e num ínfimo instante o Portão de Keres se abria sob mim.
Do que ocorreu em seguida só me lembro de meu despertar na cama de hospital em que me encontro no momento. Segundo os médicos fui encontrado gravemente ferido por sobre o corpo nu de Ellaine. Muitos de meus órgãos haviam sido danificados além do que magia ou medicina moderna poderia restaurar. Segundo eles não passaria daquela noite. Minha filha por outro lado sofrera diversos cortes por todo o corpo, principalmente nas costas, sofrendo pesada hemorragia. Ainda assim ela viverá, embora tenha que daqui para frente suportar a anemia e as graves sequelas psicológicas do evento ocorrido.’
Termino hoje, dia em que foi a mim noticiado meu estado terminal, este curto relato dos eventos ocorridos no centésimo quarto dia do primeiro semestre do ano de 1894.
F. R. Portman
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