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Jun
23
2011

Fuga

Escritor: Del Santos

Lá estava Miguel, dentro do coletivo. Gostava de sentar na cadeira ao lado da janela, pegar o vento no rosto e ficar olhando para fora. A rua, os carros, as pessoas e o movimento. Também pensava muito sobre sua vida, como se aquele local fosse um recanto de introspecção e reflexão de sua existência. Viagens de ônibus para ele funcionavam como uma espécie de tratamento psíquico que ele mesmo criara. Uma terapia urbana.

Certa vez ao caçar algo com os olhos, sentiu topar a mira em alguém conhecido. Lembrava daquele rosto. Girou o pescoço tentando ver melhor antes que o perdesse de vista. Pôde reconhecer aquela pessoa, um amigo daqueles que o tempo separa. Estava vendendo picolés, também estava mal vestido, suado e queimado pelo sol, empurrava um carrinho meio enferrujado. Ambos davam a impressão de total falta de higiene, tanto o carrinho quanto seu condutor.

Que momento aquele. Miguel trouxe a cabeça de volta, tinha expressão de surpresa. Seu amigo havia se tornado um vendedor de picolés. A cena havia lhe dado a oportunidade de escolher em que sentimento mergulhar. Primeiro lhe veio a discriminação.

“Tornou-se um vendedor de picolés?”

Depois a pena.

“A vida não é fácil para ninguém.”

E por último, um infindável sentimento de superioridade, do qual linhas e linhas seriam necessárias para descrever seus pensamentos sobre o quanto era melhor que aquele homem. Sentia-se bem, afinal, para ele havia dado certo, não havia?

Seguira nos estudos, possuía nível superior e era um funcionário público. Foram muitos os minutos em que Miguel deleitou-se com aquele sentimento, como se estivesse saboreando um delicioso picolé. Um picolé oportuno dado a ele por um amigo de tempos.

Ele desceu do ônibus, e ainda lambuzado do ápice anterior, caminhou olhando por cima. Foi até uma enorme fila e ficou exatamente na dobra da esquina. Olhou o relógio e pensou no quanto teria de esperar até chegar a sua vez. Lá estava Miguel, escorado na parede.

_É você, Miguel?

Sentindo uma mão tocar-lhe o ombro, virou e deparou-se com alguém que lhe fez por um instante parar de respirar. Uma ex-namorada da época de sua adolescência. Alguém que vez outra lhe trazia nostalgia do tipo “bons tempos aqueles”.

A mulher havia colocado a mão em seu ombro, afastado um pouco a cabeça para trás e o analisado com surpresa de ponta a ponta. “Quanto tempo, não?!”

Desenrolaram perguntas comuns: “como vai a família?”, “o que tem feito?” Perguntas de sempre.

A verdade era que Miguel mal se concentrou na conversa, sentia-se acuado. A mulher estava de salto e parecia muito maior que ele. O tempo visivelmente a havia tratado com maior consideração. A beleza estava conservada, tinha um porte que denotava poder. Suas roupas, seus adereços e o cheiro de seu perfume evidenciavam certo status, alguém bem de situação, em variados aspectos.

Miguel sabia que assim como a mulher, podia ser avaliado pelo seu exterior. Sua aparência era a face exata de sua vida e ele se sentia envergonhado, diminuído, vulnerável. Estava exposto, desconcertado. “Devia ter me vestido melhor” – pensou. Tentava esconder um pé atrás do outro, para que não lhe notasse as sandálias surradas, “desleixo meu”. Passou a mão no cabelo, querendo esconder falhas da calvície que ela de cima daquele salto já devia ter notado. Também pensou que deveria ter puxado o ar e encolhido um pouco a barriga. Mas era tarde. Ele naquela imensa fila, escorado na parede e segurando um bilhete de loteria, arriscando a sorte. Tentou esconder o papel no bolso de trás, não a tempo.

_Vai fazer uma “fezinha”?

Ele sorriu amarelo e confirmou balançando sem jeito o bilhete. Onde estava o buraco para se enfiar? Queria refúgio. Em quê havia se tornado? Resumia-se a um homem que deixou os objetivos de lado após meia dúzia de conquistas e que agora empurrava a vida com a barriga. Procurava relacionar-se com os quais considerava inferior, pessoas que não tinham mais do que ele. Essas companhias o faziam sentir-se bem. Era disso que se alimentava. Porém, agora e mais uma vez sabia o nível em que se encontrava. Não era o mesmo daquela mulher, nem ao do velho amigo vendedor de picolés. Estava abaixo de qualquer padrão criado. Achava-se um perdedor que sonhava em melhorar de vida apostando na loteria. Não, não havia dado tão certo para ele.

Dois “bips” o fizeram despertar. Era a bela mulher destravando seu carro estacionado há alguns metros. Um carro “sonho de consumo”.

_Estou indo Miguel, foi um prazer revê-lo.

Ele mal ouviu sua própria voz ao responder para a ela. Estava abatido.

Após duas horas e treze minutos Miguel havia feito sua aposta. Retornou ao ponto de ônibus. Logo, estava sentado novamente na cadeira ao lado da janela, fantasiando consigo mesmo sobre a conquista de milhões em seu bilhete de loteria. Escolhendo pela janela quais carros compraria, e que tipo de mulher conquistaria com tal fortuna. Realmente precisava de outra seção anestésica após dura queda na realidade que era sua vida. Uma cilada.


Written by Del Santos in: Agenda,Contos,Del Santos |

2 Comments»

  • LuizLuna says:

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    Eu gosto desses temas que você abordou.
    O texto em si é bem simples mas funciona.

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Gostei do texto também, tem umas coisinhas hilárias pra distrair enquanto fala do sentimento de superioridade do cidadão em questão, e do acaso mostrando qual é o seu lugar.

    Tem umas duas partes que você colocou uma frase a mais no texto ficando a informação redundante, nada que atrapalhe o caminhasr da história.

    Parabéns pelo texto.

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