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Jun
19
2011
Conto em Série

Guerra e Sede – Crônicas dos Bardos – Capítulo 2 – Fidalguia

Escritor: Hamilton Saraiva

Os Cornos eram duas pontas pedregosas e alongadas que chocavam-se bem alto no céu. Descreviam uma angulosa queda, onde a rocha acabava e dava espaço a um penhasco negro e profundo, bem no limiar dos seixos. Seus lados escarpados eram compostos por rochedos pontiagudos, pedras cortantes e dentes afiados como espadas de aço. Não podiam ser escalados.

Os Cornos de Pedra eram assim chamados, não sem justiça. Lá a planície verde e aplainada estreitava-se em uma pequena brecha nos ossos da montanha, transformando-se em um fino corredor apertado e tortuoso, onde não mais do que seis cavalos trotariam lado a lado. De cima das rochas vacilantes um homem poderia ver tudo o que se passava no horizonte, do lago às florestas arbóreas e densas que se prolongavam pelo oeste. Aquela era uma posição consideravelmente valiosa.

Perto de onde o chão cedia lugar à rocha bruta, três soldados corriam desnorteados pelos campos verdes. Um deles vinha carregando sua bandeira, alta e vistosa, e ordenava os outros dois a se apressarem. Estavam indo a uma vala mais rasa, onde assentavam-se alguns outros guardas assim como o sujeito que os comandava, e não dispunham de muito tempo nem poderiam chamar muita atenção.

A bandeira estava sendo erguida horizontalmente, e tinha a flâmula enrolada como fronha. Os outros dois soldados seguiam o capitão, atrasados, mas acompanharam seu passo quando desceram pela vala rasa, já esbaforidos. Tiveram água e comida negados. Primeiro, seriam os três interrogados.

- E quanto à Sir Cedwin? – Indagara um homem altivo, que montava seu corcel marrom, castrado e puro-sangue.  Vestia-se de várias lãs espessas, peles de cabras e ovelhas sobrepostas e bem afiveladas. Couro aquecido forrava seus braços e um gibão trabalhado estava fixo em sua cintura. Um gibão com o Touro Escarlate de sua família.

- Caiu senhor. – Respondera um dos soldados, ainda recobrando-se e com ar faltando nos pulmões. – Eu e meus homens vimos quando os rebeldes deceparam a cabeça do nobre Cedwin.

- Viram e não fizeram nada. Não são menos rebeldes do que eles…  – Resmungara novamente aquele sujeito altivo, provavelmente um cavaleiro. Trazia no lado direito da mão uma espada alongada, reta e leve como poucas outras armas. Não levava consigo nenhum escudo, nem lança alguma estava envergada em suas costas. Tinha um escudeiro para carregar seu armamento em excesso.

- Meu senhor Grayce, eles tinham cinco homens para cada espada nossa. Como poderíamos alertar o senhor seu pai e a guarda da cidade se tivéssemos sido todos abatidos? – Indagara outro, também exausto.

Grayce Thegan fungou descontente. Estava num decréscimo de terra plana, um descampado esverdeado e ondulante, com vegetação rasteira, e assim poderia observar tudo o que se passava a quilômetros de distância. Circundavam-no duas patrulhas de soldados do seu pai, que não somavam mais do que cinquenta homens, no total. Haviam retornado de seus postos avançados para informar o Lorde e os capitães do levante que se sucedera em duas vilazinhas do interior.  Insurgência, para a casa dos Thegan, não era tolerada.

- Diga-me quantos são e onde acampam estes rebeldes. – Ordenou Grayce, divisando o distante horizonte aplainado daqueles prados verdes e calmos, enquanto mordiscava uma maçã verde e madura que fora-lhe entregue pelas mãos obedientes de seu fiel escudeiro.

- Duzentos , não mais. Assentaram-se nos Cornos, bem no desaguar do rio, mas temo que alguns batedores ousaram ir mais longe. – Respondeu-lhe o capitão, temeroso. Tinha o braço direito salpicado por feridas leves, e sangue escorria por sua manta de panos costurada com veludo velho. – Não podemos enfrentá-los senhor.

- Se voltarmos, certamente perderão uma mão cada pela desobediência. Também conhecida por covardia. O bom Sir Cedwin tinha muitos amigos poderosos, não se esqueçam, e o que diriam estes homens em seu leito de morte ao saberem que os próprios soldados de sua guarda o desertaram em seu momento de maior necessidade? Chorariam sim, mas certo como o amanhã, puniriam veemente os responsáveis por tal lastimável crime. Alguns chamariam isso de traição…

Os soldados não gostaram nada daquela conversa. A punição por traição era a morte, ou por afogamento ou pelas mãos do carrasco. Muitos ali ainda lembravam-se das seções de tortura lentas e dolorosas promovidas pela lâmina cega do Chacal.

- Meu senhor, os Cornos são bem protegidos. Se formos para lá agora morreremos emboscados antes mesmo que vosso aço saia da bainha. – Falou-lhe um caudilho ousado, mas com cautela na entonação. Era um dos mais novos, e talvez por isso não quisesse morrer pelas mãos de Lars, estupra-ovelhas.

- Tombaremos todos, então. A cidade poderia usufruir do sumiço de alguns soldados covardes.  – Desafiou-os, sem obter réplica, como era de se esperar. – Hora o senhor meu pai mandaria açoitá-los sem dúvida! Iremos para os Cornos agora, ou presentearei o Chacal com umas boas e macias cabeças.

Os homens baixaram os olhares, resignados. Morreriam pela espada, de uma forma ou de outra. Não havia como vencerem todos os rebeldes sozinhos, nem com ferro nobre lutando ao seu lado, e Lars estupra-ovelhas não era exatamente conhecido por sua piedade.

- É mesmo da casa do Touro senhor. – Afirmara um outro sujeito, enquanto apoiava-se na sela enodoada de seu potro mal alimentado. – Não me resta dúvidas quanto a isso.

Levantaram o pequeno acampamento que haviam montado na vala, e seguiram contornando os campos verdes pela extremidade sul. Percorreram todos uma trilha estreita feita de barro e algumas pedras frouxas. Grayce liderava, e media a distância do pequeno rio com os olhos fixos no horizonte. Chegariam por lá ao fim da tarde, e se tivessem sorte vingariam a morte de Sir Cedwin antes do sol se pôr.

Para a fenda dos Cornos. Fez então o corcel galopar acelerado, forçando todos os outros a seguirem-no com rapidez. Se perdessem o filho de Ilring Thegan, certamente queimariam vivos no mais profundo dos infernos, mas só depois da seção de tortura mais violenta possível proposta pelas mãos indelicadas do Chacal.

Trotaram a passo rápido, porém silencioso. Logo puderam ver os Dentes, precedendo a bifurcação que dava passagem à entrada sinuosa dos Cornos. A água do rio que corria ao lado estava clara e límpida, cristalina como o ovário do inverno, e desaguava tão fraca no lago que em nada alterava o estado de sua profundidade. Rochas e pequenos pedregulhos rolavam montanha abaixo, chocando-se com a grama verde que cobria a planície como uma elegante tapeçaria.

- Lars deve estar atrás do chifre esquerdo. – Falou um sentinela velho e carrancudo, que havia vigiado a montanha por toda aquela manhã. Tinha o rosto abatido, e provavelmente não dormia noites tranquilas havia dias. – É melhor contornarmos o rio e evitarmos o caminho sobre as rochas.

Grayce pensou um pouco, mas deu uma negativa. Procederiam por aquele estreito corredor, mas não estavam indefesos nem seriam emboscados. O estupra-ovelhas nem dera-se o trabalho de espalhar alguns vigias. Aqueles eram selvagens, indisciplinados e mal treinados. Não tinham conhecimento sobre táticas de batalha e certamente eram tão burros quanto às ovelhas com que fornicavam. Não eram páreo para os soldados blindados da casa do Touro Escarlate.

- Iremos por esta passagem. Subiremos por dentro, até chegarmos ao chifre esquerdo. Vingarei Sir Cedwin antes do fim desta tarde. – Proclamou, para o desânimo de seus homens, que apenas assentiram cabisbaixos e puseram-se em movimento.

Deixaram as montarias no sopé da montanha, porque de pouco valia um cavalo com a perna quebrada ou os calcanhares arrombados. As rochas não eram o lar dos animais de quatro patas. Qualquer deslize e morreriam a montaria, o soldado e também o silêncio, e sem a furtividade o grupo liderado por Grayce Thegan perdia muito de sua força.

- Não podemos confiar em Lars nem nos outros rebeldes. Se eles não se renderem, certamente atacarão, e mesmo que deponham as armas, devem retornar como cativos e acorrentados ou em mordaças. Mataram seu senhor Cedwin e com a mesma facilidade podem nos matar, se permitirmos. – Falou, encorajando aqueles que não acataram suas ordens com ânimo.

Os soldados concordaram. Não era mais hora de se lamentar. Lamúrias e perjúrios iriam para a cova assim como seus corpos se falhassem. Aquele era o momento de criar coragem e fazer a força do punho e do escudo valer. Quando saíssem da montanha iriam se bater com os mais fortes selvagens do oeste, filhos de bárbaros e ladrões, assassinos, proscritos e foras da lei. Não podiam vacilar, nem sequer por um segundo.

O homem mais perigoso é aquele que não tem nada a perder. Falou a si mesmo Grayce, baixinho, para ninguém escutar. Alegrava-se pelo fato de que o estupra-ovelhas tinha sim algo a perder. Era agora senhor de sua própria terra, tinha criados e em breve poderia assaltar pequenas fortalezas de nobre menores, que habitavam terras verdes não muito longe dos Cornos de Pedra. Um homem desse, se ainda tivesse algo na cabeça fora minhocas e esterco, poderia ser muito bem ludibriado, levado à rendição com as palavras certas. E se a oratória de Grayce Thegan falhasse, podia sempre valer-se do dinheiro. Obtido o sucesso, contemplaria Lars, estupra-ovelhas, a maior pedra da sua bota, se entregar sem brandir armas, ou por seu ouro ou por promessas. Espero que seja por promessas.

Quando abandonaram as raízes da montanha, assumiram uma postura mais furtiva. Os homens passaram a se arrastar pela pedra dura, e com cautela esgueiravam-se pelas rochas firmes que induziam ao cume do chifre esquerdo. O sol que estava fraco no início da manhã agora brilhava intenso, e se pusera bem entre as pontas dos Cornos, alto, brilhante, e imponente. Seus reflexos cegaram as patrulhas que subiam silenciosas, impedindo que prosseguissem.

Um vento frio girou por entre os soldados que escalavam aqueles calhaus lisos, e logo depois uma sombra os cobriu, agigantando-se com o vento e tapando a visão de todos. Quando Grayce Thegan limpou os olhos com as costas da mão, sentiu um negrume afiado encostar-se a sua garganta, frio, glacial e silencioso como a própria morte.

- Mestre cabelos-claros finalmente apareceu. – Disse-lhe uma voz gutural, rouca e profunda, que pegou todos desprevenidos. – Lars, filho de Ghrür tinha sede do seu sangue.

Cem arcos retesados os rodeavam. Rebeldes escondidos nas rochas, debaixo de árvores mortas e até mesmo atrás das garras do chifre esquerdo. Muitos outros homens empunhavam machados de dois gumes e facões longos. Uma embosca. Lamentou, e viu-se rodeado por inimigos. Como fui imprudente…Burro.

- Eu o avisei… – Chiou um velho soldado, resmungando derrotado.

Estavam cercados por todos os lados, e não era possível retornar. Se lutassem, provavelmente morreriam. Se fugissem, era certo que morreriam. Não haveria nenhuma escapatória, principalmente para Grayce Thegan, que podia sentir em sua garganta o gosto do aço gelado, nu e cru, pronto para perfurar sua jugular e fatiar seu corpo em pedaços.

- Lars quer saber se mestre cabelos-claros gostaria de ver cabeça de nobre fanfarrão? Quer a cabeça de Cedwin? Quer ver como apodrece a careca de um fidalgo? – Indagou-o novamente aquele gigantesco homem. Trazia um porrete à mão direita, e um machado de dois gumes na canhota. Uma arma tão grande que seria envergada com ambas as mãos, e com extremo esforço, mas Lars, filho de Ghrür, fazia parecer fácil erguê-la apenas com um dos punhos.

Estupra-ovelhas. O Senhor enrabará seu cu antes de me render. Não se atreveria a profanar aquilo em voz alta, mas quase ousou fazê-lo. Delineava a face caolha de Lars, e sentia nada além de asco. Faltava-lhe meia parte das bochechas, que haviam sido perdidas para o frio, e um dos olhos, o que sobrara, era caído para esquerda, e pendia de um lado para o outro feito brinquedo de criança. Tinha a garganta cortada, preenchida por cicatrizes, e uma barba espessa e embaralhada cobria todo o tórax e largo peitoral. Na mão direita possuía apenas três dedos, e do destino dos outros dois não se ouvira falar, mas alguns sussurros diziam que o próprio Lars os haviam comido, num acesso de loucura e ódio.

- Vim aqui para trazer justiça à vida de Sir Cedwin. – Respondeu-lhe Grayce Thegan, honradamente e para a desolação de seus soldados. Agora mais do que nunca teriam de lutar. Morreriam, decerto, mas não sem antes estripar algumas barrigas truculentas daqueles rebeldes selvagens.

- Lars não sabe os números, mas até mesmo Lars pode dizer que mestre cabelos claros errou na contagem das espadas. – Respondeu-lhe o estupra-ovelhas, com uma risada macabra que mais parecia uma baforada de cavalo. Revelou os poucos dentes que ainda possuía, com um sorriso, e questionou. – Como pretender sair daqui?

Grayce não respondeu. Fitou o nariz adunco, deformado e gigantesco, de seu inquisidor e nada disse. Como pretendo sair daqui? Não tinha respostas, mas sabia que teria de abandonar os Cornos de Pedra. Tenho de retornar. O inverno se avizinha, assim como a guerra, e com ela muitos problemas. Não posso morrer agora.

- Lars não gosta da sua carazinha murcha, mestre cabelos claros. – Zombou-lhe o bárbaro, silvando como um animal. – Que tal ajeitarmos um pouco esse seus olhinhos de moça, ou essa sua boquinha rosa de cadela? – Apontou para o enorme machado de batalha, ameaçando encostá-lo em sua pele. A bocarra arregaçada sorria medonhamente.

- Dobre a sua língua para falar comigo, estupra-ovelhas. – Respondeu Grayce, de súbito.  Transformava-se agora em um homem morto, um homem morto com duas pernas e um pouco de coragem. Um homem morto com duas pernas e uma espada de aço, aço nobre e caro, forjado em sua própria fortaleza. Lembrou-se.

Lars fungou. Não apreciava arrogância que não fosse a sua e muito menos aquele maldito apelido depreciativo. Lars, come caveiras e Lars, homem-urso eram muito melhores. Estupra-ovelhas era uma alcunha que não fazia jus ao filho de Ghrür.

- Vai morrer cabelos claros. Morrer e ser esfolado, estripado e desossado, assim como cada um desses seus homenzinhos de merda, com essas roupas floridas e com esse touro no couro. – Novamente sorriu, esquecendo-se do insulto, e afagou a longa barba negra com sua mão que carregava o porrete. Mudou de expressão, de repente, e pareceu que seu cérebro diminuto maquinara mais um plano malévolo. – Vou deixar eles partirem, pra contar pro seu pai como o filho dele morreu gemendo feito uma cadela. Eu vou fazer você gemer Thegan, gemer como uma prostituta, e seus soldadinhos de enfeite não vão fazer nada. Fugiram quando matei Cedwin e fugirão quando eu o matar.

Grayce, por um momento, gelou. Havia ameaçado cortar a mão de cada um de seus homens quando voltassem a Bertioga. Havia ameaçado condená-los à justiça das facas do Chacal. O que poderiam pensar dele? Burro, fui burro. Não podia contar com o suporte de seus soldados. Se já era difícil tomar os Cornos de assalto com duas patrulhas, sozinho seria a mais completa loucura.

- Ficarei pelo senhor. – De repente, revelara-se um velho, ranzinza, mole e decrépito, justo aquele que sempre resmungava. – Sirvo ao touro, e ao touro servirei até o fim de minha vida, por mais estúpido que ele seja. – Lançou um olhar reprovador para seu senhor, mas mesmo assim adiantou-se dois passos e fincou a lança no chão, irresoluto.

Grayce não sabia se corava ou não. Olhou o homem, o primeiro a se mostrar a seu favor, e anuiu com a cabeça. Esperava que outros fizessem o mesmo, encorajados pela bravura daquele senhor, mas não nutria muitas esperanças.

- Brandirei espadas com o velho Willow e com meu senhor Thegan até não mais respirar. – Declarara-se outro caudilho, desta vez o mais jovem de todos. Dera dois passos a frente, e pusera a mão no cabo da espada, desajeitadamente.

Ninguém mais se moveu. Canalhas. Não me querem bem. Mijariam em meu corpo morto se pudessem. Não podia fazer nada, porém. Apenas rezar e esperar o momento do bote perfeito. Se investisse antes de seus homens irem embora os envolveriam na briga de qualquer forma, e aí teria uma chance.

- Vê mestre cabelos claros? Seus homens são tão leais quanto às rameiras de sua cidade! – Desatou a rir, e muitos de seus soldados gargalharam com ele. – Cidade das putas!

Os rebeldes escarneceram. Entre um riso e outro ouvia-se mais xingamentos, ofensas, sacrilégios, heresias. Nem mães, nem irmãs, nem viúvas e senhoras foram poupadas das zombarias ofensivas de Lars e sua corja de malfeitores. Muitos dos selvagens começaram a pular, dançar com os membros para fora em um ritmo tresloucado, como se fossem animais desprovidos de qualquer raciocínio.

- Agora, fique parado enquanto o Lars aqui lhe corta em pedacinhos. – Falou-lhe o homem, dando três passos para frente, e retirando o gume de seu machado do pescoço de Grayce Thegan. – Quero uma luta justa, para que seus cães sardentos possam cantar nos salões de seu pai como o filho era um vergonhoso guerreiro. Combate singular, garoto. Só um de nós vai sair vivo daqui esta tarde, e eu sei quem vai ser…

Combate singular. Sou um bom espadachim, mas não páreo para esta besta com duas pernas. Ninguém nunca vencera Lars, filho de Ghrür numa justa de espadas. Tenho de minar sua força, aos poucos. Quem sabe assim possa flanqueá-lo quando estiver cansado. Mas algum dia cansaria? Estupra-ovelhas não parecia partilhar das mesmas fraquezas que um homem comum. De qualquer forma, lutarei honradamente.

Os dois posicionaram-se um em frente ao outro. Lars jogou seu porrete de lado e empunhou o machado com ambas as mãos gigantes, sempre com um sorriso nojento estampado na cara desproporcional. Grayce sacara a espada e a envergara reta, com uma das mãos. Onde estava o escudeiro? O menino havia sumido. Não posso lutar sem escudo. Serei presa fácil para aqueles gumes de aço se não tiver com o que me defender.

- Estou sem escudo! – Falou alto, mas estupra-ovelhas nada respondeu, e apenas avançou.

Saiu correndo como se fosse um touro, o touro da casa dos Thegan, bufando e urrando alto, babando como só um selvagem poderia fazer, mas antes de se defrontar com a lâmina de Grayce, antes de desferir uma de suas brutais machadadas no cabo da espada inimiga, fora subitamente jogado para trás. Uma lança havia perfurado seu peito esquerdo, e o mandara para longe.

- Agora! – Bradara uma voz vinda do além. De repente, cem flechas zuniram o céu, e essas não eram setas rupestres vindas de arcos longos de teijo. Muitos gritos de dor rasparam pelas rochas afiadas dos Cornos de Pedra. Um estampido, um brado, um alaúde, tambores de batalha, e tudo virou-se ao mesmo tempo e ecoou uma algazarra nos céus azuis daquela montanha lisa.

Grayce deu por si só no meio de uma peleja. Seus homens haviam desembainhado aço e estavam agora empurrando os selvagens colina abaixo. Para sua surpresa, muitos outros soldados do Touro rondavam o chifre esquerdo, bem escondidos atrás dos pedregulhos. Vinham escondidos dos despenhadeiros, entocados e camuflados pela proteção da pedra nua, e agora desciam os morros com fúria admirável, rechaçando os rebeldes e infligindo pesadas perdas.

- Atacar pela esquerda! – Bradara alguém, comandando os soldados que vinham para o resgate de Grayce Thegan. Era uma voz que soava-lhe bastante familiar. Já ouvi esse grito. Não pudera parar para pensar, pois estava no meio de um embate, e seria agora flanqueado por dois selvagens.

- Por Lars! – Rosnara um, pulando para frente e se lançando sobre o nobre fidalgo. Para seu azar, uma rocha o fizera cair, e a espada de Grayce estava à sua espera. Perdera as entranhas quando tombara justamente no meio da lâmina fria, feito um peso morto.

O outro ia investir, mas uma seta perfurara seu pescoço antes que pudesse tentar qualquer coisa. Quem será? Pensara, mas não podia se desconcentrar naquela hora decisiva. Ouviu novamente estampidos, e o clangor de trompas em formação, como se alguma companhia de lanceiros tivesse descido dos próprios Cornos para vingar a morte de Sir Cedwin. Fora trago à tona por um urro espesso, vindo de um gigante que estava deitado ao chão.

Lars, filho de Ghrür, come caveiras, homem-urso, estupra-ovelhas, se ergueu em um impulso, ainda com a lança trespassada em seu peito, gritando e guinchando feito uma besta louca. Foi abrindo seu caminho à Grayce Thegan com aço, exterminando, dilacerando e desmembrando os inimigos, a morte vestindo fornalhas de pele e tanga de texugo.

- Vou matar cabelos claros! – Urrava. – Cabelos claros traiçoeiro!

Grayce se posicionou para o duelo. Tinha a espada na mão esquerda, e na direita um pedaço de pau que encontrara no chão, e que poderia servir para alguma coisa. Se ao menos tivesse meu escudo. Lamentou-se, mas teve de pensar rápido quando viu um dos gumes do machado de batalha descer vertiginoso em direção à sua cabeça.

Pulou para o lado, lançando-se ao chão, e por pouco não fora atingido. Antes de se erguer, porém, viu um sujeito magro, meio fraco e esguio se entrepor no caminho do gigante que agora o assaltava. Era Hugh, o escudeiro.

- Morra Lars! – Dissera o menino, enfiando sua pequena espada prateada nas entranhas grossas do estupra-ovelhas, que dera o urro mais alto e horroroso de toda aquela batalha. Um grito que reverberou pelas paredes rochosas dos Cornos de Pedra e fez-se ouvir até os confins do lago cristalino.

Mas Lars não era rebelde a se desprezar. Com a mesma facilidade que havia arrancado a lança de seu peito ele retirara de seu estômago a lâmina reluzente da arma de Hugh, jogando-a para longe. Com as próprias mãos amassara a cabeça do pobre escudeiro, até uma pasta gosmenta e mal cheirosa escorrer por suas orelhas e narinas. Viu o homem com feições de garoto cair desfalecido na rocha dura, e dirigiu-se até o corpo cansado de Grayce Thegan.

- Sua vez… – Murmurou com as vísceras à mostra e sangue escorrendo pela boca, molhando a espessa barba negra de selvagem. Deu dois passos, cambaleou, meio exausto, mas ainda seguia firme ao encontro de seu mestre cabelos claros.

Vou vingá-lo Hugh. Vou vingá-lo Cedwin. Prometeu a si mesmo, encorajando-se a iniciar sua própria investida contra aquele gigante. E foi isso mesmo o que fez.

Num instante, Grayce Thegan rodopiou e com a arma na mão desferiu uma estocada nos tendões rígidos de Lars, estupra-ovelhas. O homem chiou, mas ainda tinha força, e devolveu uma traulitada medonha, que teria estraçalhado o mais musculoso dos alazões. Errou, e tentou novamente, mas golpeou o ar. Grayce Thegan movia-se rápido como uma corça.

Num momento, uma lança cortara o céu azul, e atingira o rosto de Lars, come caveiras, em cheio. Ouviu-se um choque surdo, como se a própria lança fosse partir-se ao se deparar com uma pele tão dura como a rocha em que todos agora pisavam, mas por fim, aquele monstro de dois metros caiu, estatelado no chão, e o ruído de sua queda reverberou pelo campo de batalha até morrer nas planícies verdes. Lars não mais iria se levantar, nem atormentar o povo que vivia nas terras de Ilring Thegan. Cedwin estava vingado.

Graças! Vibrou Grayce, levantando o aço em comemoração. Seus homens fizeram o mesmo em seguida, pois os selvagens eram agora muito poucos e estavam demasiado assustados para tentarem qualquer investida. Alguns já entregam as armas e se jogam no chão. Observou o fidalgo, esgotado.

Uma trompa soou profunda e crocitante no ar que rodopiava pelas rochas dos Cornos. Soldados, muitos soldados apareceram descendo a colina do chifre esquerdo e contornando um pequeno precipício que alargava-se no vazio. Quem os enviara? Grayce pensou em perguntar, mas antes, vira um rosto muito familiar que se aproximava, de um sujeito montado sobre um robusto alazão de guerra. Tinha muitos soldados ao seu redor, e quando finalmente desmontou, Grayce contemplou feliz aquele que se avizinhava. Seu irmão finalmente chegara.

 


Written by Hamilton Saraiva in: Agenda,Contos,Guerra e Sede,Hamilton Barbosa |

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