Little Big Crunch
Escritor: Marcel Breton
Quando as luzes se apagaram (pela terceira vez este ano), eu sabia exatamente aonde ir: O casarão do Ivo, herança de uma tia que ele nunca conheceu, provavelmente o único lugar com energia em todo o sudeste sem recorrer a geradores barulhentos e fedidos. Eu tinha alguns minutos sobrando antes de chegar à sede da companhia elétrica. De qualquer forma, sempre poderia culpar o trânsito e os semáforos desligados.
Apertei a campainha até ele aparecer na janela, sorrindo. Assim que abriu o portão, me puxou para dentro:
- Você precisa ver, precisa mesmo! Eu criei dois! Perfeitos. Lindos. Lindos!
Atravessamos o quintal, iluminado com prazer pela lua cheia, e entramos na casa. Ele ia na frente, enumerando ideias e projetos no ritmo quase indecifrável de sua fala – o que me obrigou a interrompê-lo:
- Ivo, eu sou seu amigo, mas não posso ficar mais escondendo suas maluquices. Eu tenho responsabilidades, cara, e um emprego.
Ele não me ouviu, claro. Já estávamos no laboratório (na verdade, um quarto comum especialmente amplo). Ivo atravessou o cômodo com pressa, desligou as lâmpadas, tropeçou em uma cadeira e parou ao lado da grande mesa no centro. Em cima dela havia apenas um pano grosso e escuro que escondia duas estruturas arredondadas. Sem talento algum para o suspense, ele simplesmente retirou o pano e expôs duas redomas que encarceravam, cada uma, um ponto minúsculo e brilhante que flutuava dentro das estruturas transparentes.
- São dois universos – ele disse, saboreando a palavra – Queria que você ficasse com um deles.
- Como assim, dois universos?
- Dois protouniversos regidos por suas próprias leis físicas. Mas não se preocupe, eles não podem se expandir além da matéria dentro da redoma. Bom, na verdade… – ele coçou o cavanhaque – acho que eles vão atingir o ponto máximo de sua expansão em alguns dias. Ou horas.
Antes de terminar a explicação, já me empurrava uma daquelas coisas. Tive de abraçá-la, desajeitado como um menino que se atreve a ajudar uma mulher charmosa e descobre, tarde demais, que a bagagem dela é mais pesada do que suas forças.
Mas, para minha surpresa, era leve. Um universo é algo levíssimo.
- É todo seu!
- Peraí, mesmo que eu acredite que isso aqui é uma galáxia…
- Não… – me corrigiu sorrindo e apontando para o outro.
- … um universo, um universo… quê que vou fazer com isso?
Acho que o surpreendi: Provavelmente ele nunca havia pensado neste detalhe. Por outro lado, é quase certo que a minha pergunta seja apenas… idiota. Sim, eu confesso ter quase certeza de que o Ivo me vê com piedade intelectual. Talvez com alguma razão. Afinal, eu ainda não consegui descobrir como ele encobre o sequestro de tanta energia, como consegue amplificá-la no porão de um sobrado comum e, o mais importante para mim, como faz parecer que a falha ocorreu em Itaipu e não aqui perto.
- Quero apenas que fique com ele, é um presente. O meu muito obrigado.
Acabei aceitando e levei a redoma para o carro, não sem antes pedir uma toalha bem escura para escondê-la. Caso contrário, eu pareceria uma entidade extraterrestre que caiu na Terra a bordo de um Celta duas portas. Agradeci e agendei a sempre adiada briga com ele para o próximo apagã: meu tempo era curto como a paciência de meus empregadores.
Quase chegando à sede da companhia, onde já deveriam me esperar o diretor e seus assessores, fiquei preso em um engarrafamento. Olhei para a redoma no banco do passageiro e tive a impressão de que brilhava ainda mais do que quando a trouxe. Levantei a ponta do pano lentamente (e com medo). Estava certo. Apertei as pálpebras para enxergar melhor, mas no instante seguinte já podia encarar o mundo flutuante com os olhos bem abertos. A intensidade da luz reduziu-se logo a metade; em seguida, a um quarto. Poucos segundos depois, já era quase imperceptível.
E desapareceu. O universo do Ivo havia nascido, se desenvolveu e finalmente desabou sobre si mesmo. Fiquei ali me perguntando se ele já sabia que seria assim, se o mundinho que ficou lá no laboratório teve o mesmo destino, quantas galáxias havia naquela redoma no seu auge e, claro, a mais ridícula das questões: Será que eu também não estou dentro de um universo criado por um físico que vive de roubar energia do país ao seu redor para suas experiências?
Antes que eu desenvolvesse melhor o raciocínio de filósofo de botequim, o taxista atrás do meu carro me alertou para a liberação da via usando um palavrão e a buzina. As lâmpadas da rua acenderam todas de uma vez e as famílias dentro dos apartamentos comemoraram. Os apagões do Ivo são curtos e precisos.
Encarei a redoma vazia mais uma vez. Era melhor pensar logo em uma ou duas boas explicações para uso futuro. Afinal, tenho certeza de que meu amigo ainda criará mais alguns universos. Quem sabe eu ganhe outro que dure mais tempo?
Meu filho adoraria um desses no quarto.
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Cara, gostei do ar de insignificância que tu deu para os universos. Lembra um pouco o fim do MIB 1, com aqueles ETs gigantes colocando em um saco muitas bolinhas universos.