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Jun
13
2011

Maldita Flecha

Escritor: Rodrigo Braga Scop

Cambaleei e cai escorado no cercado do estábulo. Levei minha mão à parte lateral de meu abdômen, onde, alguns momentos antes, uma flecha havia se alojado. Eu já sentira dores piores, no entanto sabia que aquela seria a última. Havia muito sangue e a cada movimento de respiração, mais sangue deixava meu corpo. Senti-me fraco, estonteado. Acabei por soltar-me do cercado de madeira e por cair em um amontoado de palha ao lado. Nada me restava fazer, eu logo morreria. Passei meus últimos momentos, estendido, olhando o vilarejo ser tomado pelo exército de Derden.

Eu sempre fora um assíduo defensor das guerras. A violência e a força ditaram minha vida e, também, minha morte. Não se podia esperar diferente de um seguidor tão fervoroso de Shakka, o deus da guerra. Eu acreditava na honra e na justiça por detrás de uma verdadeira batalha. Cresci e vivi como um clérigo que realmente acreditava nos ensinamentos e que via o mundo de outra forma através dos olhos de seu adorado deus. Eu possuía a forte crença de que a guerra era uma solução. A forma mais efetiva de melhorar o reino ao qual eu servia e amava e preservar minha linda família. Quando com espada em punho e armadura no corpo, me sentia completo. E emocionado. Tudo podia mudar em poucos instantes. Lutar por algo no qual se acredita quando qualquer coisa poderia vir a ser tão passageira é uma sensação extraordinária.

No meio deste imprevisível jogo que é a guerra, acabei sofrendo um revés. Sentia o maior prazer em morrer naquele momento, em batalha, defendendo Kalinshir e honrando a forma como eu vivera. No entanto, ali, sobre aquela palha, encarei outro lado da guerra, para o qual eu sempre fechara meus olhos.

Sentindo o incômodo cheiro de queimado de casas do vilarejo e respirando difícil e vagarosamente, encarei o lado nada honroso da guerra. Um pouco distante de onde eu estava deitado, um menino de no máximo sete anos de idade saiu correndo de uma das casas em chamas. Temi por sua vida em meio aquele caos, mas eu não esperava que o perigo a ele surgisse voluntariamente. Eu já muito havia visto em diversas batalhas, mas nunca havia parado e prestado atenção. E, naquele instante, eu estava lá. Olhando; observando; esperando a morte chegar. Um dos soldados de Derden, ao ver a criança correndo e chorando, empunhou uma espada que estava cravada em um corpo ao chão e abriu um enorme talho, do abdômen ao ombro, no menino, que caiu já sem vida. Aquele ato provocou minha ira, mas eu nada podia fazer. E o sentimento de impotência soava mais doloroso para mim do que o brutal assassinato da criança.

Olhei para o outro lado, através da cerca do estábulo e minha ira misturou-se com incompreensão perante tamanha violência e ódio. Em um canto, onde a parede externa do estábulo encontrava-se com a de uma casa, um soldado inimigo, de calças arriadas, violentava uma mulher bastante ferida. De costas para parede, com um seio para fora do decote rasgado, cabeça ensangüentada e saia na cintura, a mulher, de início, debatia-se em dor e pânico, para depois aceitar a humilhação entre seu choro e as bufadas de prazer do violador. Ao ver aquela cena, eu não podia e, principalmente, não queria acreditar que aquilo que eu defendera minha vida toda possuía um lado tão negro. Perguntei algumas vezes a mim mesmo se os soldados do reino de Kalinshir também fariam isso, se a vila invadida fosse inimiga, e, perante aquelas cenas, acabei por não conseguir responder, algo que eu faria facilmente dias antes.

Desviei o olhar mais uma vez. Já sentia que meu último suspiro estava próximo. Então, eu vi. Um ato que me deixou acima de todos os limites imagináveis de raiva, mas, acima de tudo, deixou-me decepcionado. Eu já ouvira que os soldados de Derden não tinham limites. Que eles eram bárbaros sem escrúpulos ou consciência, mas aquele ato ultrapassou todo e qualquer limite. Eu desejava não ter visto aquele lado da guerra. Preferiria ter morrido quando a flecha me acertou. De um pequeno templo de Allora – a deusa da luz – surgiram duas meninas que aparentavam idade em torno de dez anos. Elas não conseguiram correr muito antes que três homens, quase que ao mesmo tempo, as abordassem e as agarrassem, com cada um tentando levar uma delas para algum lugar escuro ou afastado.

Os três soldados de Derden, notando o impasse que poderia acabar em sangue, dado o interesse doentio que todos demonstravam nas crianças, decidiram tirar na sorte aquele que ficaria de mãos vazias. As duas meninas choravam enquanto eles separavam uma moeda para cada um, misturavam na mão de um deles e faziam cada uma das crianças selecionar uma delas sem olhar. Quem acabou sobrando foi o dono das moedas, que não pôde reclamar já que as moedas eram suas e o sorteio fora feito em suas mãos. Os dois que ganharam no sorteio demonstravam grande felicidade, deixando-me ainda mais triste, decepcionado e irritado. Um deles logo correu para dentro do templo de Allora, já quase arrancando as rendas do vestido da menina. O outro, em um andar cruel e frio, caminhou até o estábulo com a outra menina no ombro, já a alisando. Fiz menção de levantar e matá-los, mas não conseguia sequer mover meu braço sem enorme dificuldade e dor.

Em meio ao barulho, ao cheiro de queimado e a minha pouca consciência, pude perceber a irritante frustração do homem que perdera no sorteio das moedas. Ele olhava para um lado e para outro sem saber o que fazer, até que ele me avistou e notou que eu o observava. Quando ele chegou próximo a mim, o choro das meninas não mais podia ser ouvido, provavelmente abafado pelas grossas paredes de pedra. Eu desejava muito levantar e matar pelo menos um daqueles estupradores de crianças indefesas, mas não tinha forças. Eu mal respirava. E minha debilidade física unia-se com a tristeza e desapontamento decorrentes daquilo tudo que eu havia visto, mas principalmente da crueldade absurda com aquelas meninas. Eu não gostaria, e creio que ninguém gostaria, de ter presenciado toda aquela desonra e crueldade em meio a uma corajosa e honrada defesa do vilarejo por parte dos soldados do reino de Kalinshir. O homem, que ainda tinha as moedas em mãos, empunhou minha espada, antes solta ao lado da cerca do estábulo, e cravou-a em meu peito, enviando-me para os domínios do deus da guerra.

Pude ver a honra e a desonra, a emoção e a crueldade da guerra através de anos a serviço do reino de Kalinshir. No entanto, tendo em vista minha adoração por Shakka e seus ensinamentos, eu esperava que minha última vivência de guerra, como mortal, fosse honrada e emocionante. Que eu adentrasse no mundo de infinitas batalhas com a recordação das guerras da forma como eu as via e as vivia: honrosa e corajosamente.

Maldita flecha que não me tirou das batalhas mortais antes que eu tivesse como últimas lembranças a depravação, a covardia e a desonra de estupradores e assassinos.


Written by Rodrigo Scop in: Agenda,Contos,Rodrigo Braga Scop |

2 Comments»

  • Shado Mador says:

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    Cara, otimo .Eu adoro as guerras da fantasia , mas tudo tem seu lado negro e sujo.Bom mostrar este lado cruel e desumano.A mais brilhantes das esxcalibur sempre federá a sangue em um combate. FUCK YEAH \O/ ISSO TAMBEM É OTIMO , em fantasia , claro.

    .Boa linguagem , bem escrito , otimo texto.

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