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Jun
19
2011

Marcas do Passado

Escritor: Renato Cassaro

— Quando o papai vai voltar? Não queria que ele tivesse ido embora. Queria nós três juntos pra sempre.

Essa não era a primeira vez que o garoto de cinco anos sentia falta do pai. A mãe tentou consolá-lo:

— Gage, seu pai está viajando. Lembra quando ele saiu, levando as roupas na mochila?

— O garoto fez que sim com a cabeça.

— Naquele dia ele iniciou uma longa viagem, que ninguém sabe quando termina. Vamos torcer pra que logo ele esteja de volta. Agora durma.

Ela deu ao filho os comprimidos que ele tomava todos os dias antes de dormir, ajeitou-o confortavelmente sobre a cama, apagou uma vela no criado-mudo, e deitou-se ao seu lado. Sua aparência era de um cansaço extremo. Desde a partida do marido seus dias têm sido muito difíceis. Havia cinco meses que o marido partira para guerra. Ele disse que enfrentaria os alemães e que logo estaria de volta. No entanto, pouco tempo depois, o que chegou foi um telegrama do governo, informando a morte do marido durante os combates. O corpo seria sepultado juntamente com outros soldados, na Alemanha.

No meio da noite, o menino acordou assustado, chorando, dizendo que tinha ouvido um tiro.

— Eu juro que ouvi mamãe. Parece que foi aqui, bem perto… parece que tinham atirado em você… — começou a chorar descontroladamente.

— Ohh, se acalme, meu anjo, não tem tiro nenhum. Eu estou aqui, veja, foi só um pesadelo.

— Estou com medo. Quero o papai.

— Não tenha medo, estou do seu lado — abraçou o filho. — Qualquer coisa que precisar, eu estou aqui. E voltaram a dormir.

***

Durante as semanas seguintes, coisas estranhas começaram a acontecer. A casa de dois andares, toda de madeira, rangia. Ouviam-se passos e ruídos no andar superior. A mãe e o filho estavam muito assustados, porém não tinham para onde ir. A guerra continuava e deixava a vida cada vez mais difícil. A luz elétrica fora cortada, os preços subiram. Até a única criada que ajudava com os serviços domésticos havia desaparecido. Simplesmente deixara de ir, ao contrário do que fazia todos os dias.

Moravam numa região rural, longe de outras residências e dos combates. O centro urbano mais próximo ficava a quase 50 quilômetros. O carro que possuíam estava na garagem, da mesma forma como o marido o deixara antes de partir.

Certo dia, enquanto empurrava o filho no balanço pendurado na árvore defronte a casa, o menino disse:

— Sabe, mamãe, não estou mais me sentindo doente, não sinto mais dores, e você nem lembra mais de me dar os remédios. Tem muito tempo que não tomo mais os remédios, não é?

A mãe esboçou um sorriso e respondeu:

— Meu filho, você nunca esteve doente, nunca precisou tomar remédios. Deve ter sido outro pesadelo.

— Mas eu lembro, o papai e você me levavam de carro no hospital. O médico me via e pedia pra tomar muitos remédios. Você não lembra dos remédios, mamãe?

A menção da palavra remédios fez a mãe de Gage se lembrar de algo muito vago, que talvez tenha ocorrido há bastante tempo. Uma associação estranha, mas remédios a fez pensar em espingarda. Um tiro? Caçadores na floresta? Não conseguia lembrar…

— Deixa pra lá, meu filho, está esfriando e ficando tarde. Vamos entrar agora.

Podia-se ver do alto de uma montanha próxima que o nevoeiro se formava e vinha descendo pelas copas das árvores. Em poucos minutos a neblina tomaria todo o local.

— Não quero voltar lá pra dentro, mamãe. Não gosto daqueles ruídos e daquelas vozes. Tenho muito medo.

— Não se preocupe, são apenas insetos ou ratos no porão, que às vezes parecem vozes. Prometo que amanhã vou armar as ratoeiras. Agora vamos entrar.

A noite foi muito escura. Não se via nada pelos vidros das janelas, a não ser o forte nevoeiro ao redor da casa. Estavam sentados na mesa da cozinha, iluminados por apenas duas velas, tomando sopa.

— Ouça, mamãe, são passos lá em cima.

De fato, os ruídos eram audíveis, mas a mulher não poderia dizer que eram passos. Provavelmente até fossem, mas de algum gambá ou outro animal que estivesse andando sobre o telhado.

— Mamãe, estou com medo, vai lá ver, por favor — pediu o garoto.

— Você promete que fica aqui, quietinho? Quando voltar quero ver esse prato limpo hein!

— Prometo. Vou ficar quietinho.

A mulher pegou uma das velas e foi em direção ao andar superior. Enquanto terminava a sopa, menino foi atraído por um pequeno movimento na maçaneta da porta da cozinha. Alguém estava tentando entrar na casa. Tomado pelo pânico, o garoto não conseguia sequer gritar, apenas observava. A porta se abriu, revelando a silhueta de um homem. Ao entrar na casa, foi iluminado pela luz da vela e o menino pôde ver. Era o pai.

— Papai! Você voltou! — O garoto parecia não caber em si de felicidade. Não mais se importava com as vozes que ouvia, nem com os passos, nem com os ruídos; o que era mais importante, seu pai, estava de volta.

— Meu filho! — abraçou o menino, emocionado.

— Mamãe, mamãe, o papai está aqui, venha ver o papai!

— Sua mãe também está aqui?

— Está sim, papai, está lá em cima.

— Vamos lá. Quero muito vê-la. É muito bom estar de volta.

Não se via, entretanto, alegria no rosto do homem.

***

Os dias seguintes à volta do pai foram tranquilos. As vozes e os passos permaneceram, porém nem a mãe nem o pai de Gage pareciam se importar muito; ela, talvez, por já ter se acostumado, e ele, por já ter visto coisas piores na guerra.

Ele contou à mulher como foram os dias durante os combates e como conseguiu voltar para casa. Havia sido um caminho difícil, cheio de percalços. Ao ser questionado sobre o telegrama informando sua morte, ele disse que às vezes enganos acontecem, afinal deveria haver muitos soldados com o mesmo nome.

— Eu só não esperava encontrá-la aqui, querida.

— Como não esperava? — Retrucou ela, admirada. — Essa é a nossa casa. Onde mais eu deveria estar?

O homem não respondeu. Refletiu durante alguns instantes e por fim perguntou:

— Você tem dado os remédios a Gage? Percebi que ele está muito bem.

— Você deve ter ficado impressionado com a guerra, meu bem — respondeu ela. — Para que Gage precisa de remédios? Ele nunca esteve doente!

Mais tarde, ao sentar-se no sofá da sala, o marido percebeu que sua espingarda de caça não estava pendurada no suporte da parede. Perguntou a esposa e recebeu como resposta:

— Sempre quis saber por que há um suporte para espingarda na parede, sendo que nunca tivemos uma…

Outra associação sem sentido. Remédios… Espingarda… Cama… Travesseiro.

— Querida, há certas coisas que você parece não ter entendido ainda. Venha, pegue Gage. Vamos dar um passeio.

A tarde estava nublada. Vez ou outra, o sol conseguia romper a grossa camada de nuvens no céu, mas suas poucas aparições não eram suficientes para elevar a temperatura. Os três atravessaram o jardim e caminhavam agora pela estrada paralela à propriedade, que levava à cidade. Andaram durante quase duas horas.

— Pronto, chegamos — disse o pai.

— Para que viemos ao cemitério, papai? Não gosto de cemitérios.

Enquanto andavam em direção à sepultura que queria lhes mostrar, o pai falava:

— Há pessoas que demoram a perceber. Outras percebem mais rápido, quase instantaneamente. Mas, cedo ou tarde, todos descobrem a verdade e se acostumam com a ideia.

O caminho por entre as sepulturas desencadeava uma cadeia de estranhas lembranças na mulher. Travesseiro. Estava frio. Muito frio. O filho doente tomava comprimidos antes de dormir. Ela o abraçava para dormir, o travesseiro ao redor da cabeça…“Ouvi um tiro mamãe… parece que tinham atirado em você…”

Espingarda… Suporte na parede… Travesseiro… Vozes… Passos…

Chegaram a uma sepultura, o nome de Gage e da mãe escritos na mesma lápide. Foram enterrados juntos. Um turbilhão de lembranças a atingiu de uma só vez. Desabou a chorar.

— Consegue entender tudo agora?

— Sim… Lembrei de tudo… Dei os remédios a Gage, dormimos um pouco… Estava muito frio, abracei-o com força, tanta força que o travesseiro deve tê-lo sufocado. Quando acordei de madrugada… ele estava… gelado. Você tinha ido para a guerra… eu não suportaria viver sozinha… fui até a sala, peguei a espingarda, deitei-me na cama e… atirei em minha cabeça. Foi aí que vi Gage chorando, e ele disse que tinham atirado em mim…

— Por isso achei estranho ter encontrado você — o marido também chorava. — Gage era doente, eu sabia que poderia morrer a qualquer hora, mas você…

Abraçou-a e continuou:

— As vozes, os passos, são marcas do passado, do mundo dos vivos, o qual pertencemos um dia. Os mundos às vezes se misturam, mas com o tempo, cada um toma o seu lugar. A morte não é ruim como se pensa. Gage está bem, não tem mais doença. A guerra não existe aqui. Não há armas, não há destruição. Há apenas paz. Percebi isso logo depois que fui atingido no combate. O mal acabou. Vi apenas vários soldados indo para casa, e foi o que eu fiz também. E encontrei vocês de novo, a minha família…

Gage, que também os abraçava, abriu um sorriso muito alegre e perguntou:

— Agora vamos viver pra sempre, só nós três?

— Sim querido, vamos viver pra sempre, só nós três…


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