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Jun
08
2011

Musa

Escritor: D’Artagnã Almeida

musa

Ela não o conhecia, mas ele a conhecia muito bem. Ela o inspirava; despertava sua criatividade; era uma epifania. Aos olhos dele, ela era linda. Não era perfeita e, sinceramente, não era nem a mais bonita mas, para ele, perfeita. Bastava que ele a visse pela manhã para que seu dia fosse o mais produtivo do ano até o próximo em que ele a encontrasse. Tamanha platonicidade durou dois anos até que ele teve a brilhante idéia de tentar transformar uma admiração cega e ignorante em uma amizade.

Na primeira chance que teve apresentou-se. Foi simpático, engraçado, não queria espantá-la. Mas, como um enorme cometa que choca-se com um planeta provocando a extinção de toda a vida que nele habita, o conhecimento da realidade o atingiu e a admiração por ela foi aniquilada. Em dez – apenas dez – minutos de conversa, ele percebeu a catástrofe intelectual da garota. A sua maravilhosa musa era tão inteligente quanto uma porta emperrada. Talvez até uma porta emperrada entenda que, quando forçada, ela deve abrir. Já aquela garota, nem com pé-de-cabra. Era uma anta; falava coisas sem nexo e revelava profundo desconhecimento de qualquer assunto mais complexo ou menos complexo. Qualquer coisa que exigisse um Q.I. de dois dígitos era demais para a cabecinha daquele plâncton. Seu mundo ia do primeiro CD do Jonas Brothers ao último livro da “saga” Crepúsculo.

Apenas o arrependimento restou ao nosso amigo. Poderia ter ficado com a musa, porém preferiu a pessoa e se deu mal. Percebeu que a sua ignorância em relação a ela – e não a dela em relação a quase tudo – era extremamente importante naquele tipo de relação. Descobriu que sabedoria também é não saber.


Written by dartrad in: Contos,D'Artagnã Almeida | Tags: , ,

21 Comments»

  • Andrey Ximenez says:

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    Legal a discussão. Principalmente sobre a sabedoria ser as vezes não saber.
    -
    =]
    -
    E me lembrou mt um conto meu aki na agenda. ” Do lado de fora, Do lado de dentro”
    .
    -
    Acho que vc vai entender o q digo.
    ;)

  • Samila says:

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    muito boa a última frase, e muito real o texto inteiro… acho que todo mundo já se decepcionou assim, e sim, parece muito com o conto do andrey, embora o ‘erro’ da ‘musa’ que o andrey retratou foi apenas não ser perfeita…
    essa sua deu foi dó XD
    aliais, deu foi raiva XD

    • Andrey Ximenez says:

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      É… eu ja tive uma namorada assim… eu até tentei persistir… mas não dá… não dá
      -
      u.u’

      • Samila says:

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        tb tive um namorado assim… uma porta de acapú u_u
        não conseguíamos conversar por mais de 30 min seguidos, o caos.
        Por isso que meu namorado agora é NERD! Dá para conversar por dois meses, parando só para beber água XD

  • Thainá says:

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    ótimo.eu ri

  • Rainier says:

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    Meu Deus… Pior que isso realmente acontece!
    Muito legal o conto, segue como uma conversa natural entre autor e leitor.

  • Asami says:

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    Esse conto tem realmente muito em comum com o conto da Andrey… trocando em miúdos ambos querem dizer a mesma coisa: a idolatria de um garoto a uma menina é despedaçada quando ele se encontra com ela por alguns instantes. A narrativa apresentada expõe a idéia do conto em poucas palavras, mas de forma bem detalhada. Espero por mais contos teus!

  • Lord Jessé says:

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    Muito bom. Gostei bastante.
    -
    “a cabecinha daquele plâncton. Seu mundo ia do primeiro CD do Jonas Brothers ao último livro da “saga” Crepúsculo”
    -
    Essa parte foi excepcional.
    -
    Espero mais contos seus.

  • Vinicius Maboni says:

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    Realidade ae, jogada na cara de todos
    xD
    é impressão minha ou o autor teve esperiencias assim?
    me pareceu bem pessoal o texto
    Deve ser só impressão.
    Muito bom, parabens!

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Daí que é interessante guardar diários! Já reagi quase do mesmo jeito a uma coisa parecida. Já deve fazer uns cinco anos, mas o legal é que, continuando a amizade, percebi que a ignorância era minha, por confundir burrice com simplicidade.
    -
    E ainda somos bons amigos, eu e ela :)

  • lobaempeledeovelha says:

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    Venho humildemente saudar teus escritos.
    E dizer que compreendo cada palavra tua.
    Se quiser marcamos um dia para você participar de um banquete aqui na minha toca.
    xD

  • Antonio de Souza says:

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    Já passei por coisas do tipo e ao final de alguns anos, elaborei diversos métodos de aferição de conhecimento de minhas pretendes a qualquer coisa mais séria que uma noite. Perguntas como “Gosta mais de Pessoa ou de Caeiro?” e afins.
    -
    Texto simples e muito bom, inclusive tratando de algo cotidiano de todos os que gostam de literatura (ao menos na minha opinião), que a frustração de não poder compartilhar de nosso ímpeto com todo mundo.

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    haha, tá c/ mta cara de q realmente aconteceu ^^

  • Ophelim says:

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    haha, tá c/ mta cara de q realmente aconteceu ^^[2] :)

  • Del Santos says:

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    Excelente! rsrsrs… Acho que esse texto comprou uma briga com muitos(as) fãs por aí hein,… De fato, umm texto real, com a ideia final para refletir. PArabéns!

  • Tammy says:

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    Relações platônicas estão sempre destinadas a isso. Afinal o platônico se prende ao ilusório, e é isso que faz ele perfeito.

    Bem, Parabéns!

  • Erika Ferronatto says:

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    Ótimo, eu ri muito.
    Por muitas vezes, a ignorância é uma benção, mesmo.
    -
    “Qualquer coisa que exigisse um Q.I. de dois dígitos era demais para a cabecinha daquele plâncton.” – Ri demais.

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Ótimo texto.

    Gostei da narracão e do final… as vezes ficar sem conhecer melhor alguém, é a saída mais adequada. :-)

    • Franz Lima says:

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      Guns, desculpe usar este espaço para perguntar, porém fiquei sem resposta sobre uma resenha que enviei a você.
      Abraços…
      Franz.

  • Franz Lima says:

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    O tema abordado é bom, pois quase todos passamos por este tipo de problema: a paixão e a projeção de nossos desejos em outra pessoa. A decepção é fruto do desconhecimento, da distância e do temor em abordar a pessoa amada. É o mesmo tipo de decepção (guardadas as devidas proporções) de um fã ao descobrir que seu ícone não é tudo o que pensava, tendo, inclusive, problemas e defeitos como todos nós.
    Já li algo muito similar aqui no ONE, mas não me lembro o nome do conto. Será que foi o conto do Andrey?

  • nielperugini says:

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    É aí que tá né, o processo de platonizar uma pessoa é semelhante ao processo de escrever, porque criamos um personagem a partir da imaginação. Mas um ótimo texto! Abrçs.

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