Olhos Cinzentos
Escritor: Thiago Vieira
— Diga-me, Pedro, você realmente pensa em insistir nesta ideia? – Não poderia ser mais absurda, pensava. Estavam dispostos no alto de uma árvore, acocorados, observando o firmamento. Há poucos dias os dois amigos, Edgard e Pedro, entraram para a ordem dos arqueiros do condado de Eldarest – a mais respeitada de todas as redondezas. Ambos se conheciam a muito tempo, cresceram juntos afinal. Pescaram peixes nos lagos congelados no inverno, caçaram veados nos bosques no verão e colheram frutas nas primaveras e outonos.
— Por que não iria? – Pedro respondeu com uma indagação, arqueando a sobrancelha. Abaixo delas, firmes e castanhas, seus olhos cinzentos encaravam o amigo. Ambos ainda eram muito jovens, não tinham nem dezessete primaveras. Edgard era mais alto, mais forte e visivelmente mais maduro do que Pedro. Este tinha feições singelas, quase femininas. Seus olhos acinzentados, carregavam um brilho único, completamente diferente das belas orbes azuis do alto companheiro. — Ser um arqueiro sempre foi nosso sonho, esqueceu?!
— N-não… veja bem… – Engasgou a voz, titubeando. Pedro lançou-lhe um olhar de soslaio, deixando uma perna deslizar pelo galho, depois a outra, sentando-se. Uma brisa agradável do fim de tarde brindava os dois recém admitidos.
— Então o que? – Questionou sem muitas cerimônias. Edgard ficou em silêncio. Não queria falar. — Vamos… diga logo o que está hesitando, Edgard. – Sereno, Pedro encarava o outro arqueiro já imaginando o que viria adiante.
— Está bem, vou dizer. – Arfou o ar, dando um suspiro em seguida. — Como você imagina sustentar sua posição de arqueiro, com o seu problema? Veja bem, Pedro, esta não é uma de nossas caçadas no verão. Estamos guarnecendo os bosques de Eldarest contra inimigos reais e não podemos correr o risc…
— Eu vou conseguir. – Interrompeu Edgard, falando com firmeza. O mais alto se calou, encarando-o com um olhar de reprovação, já abrindo a boca para retrucar mais uma vez, mas foi impedido. — E não será você, nem ninguém, que vai me impedir do meu sonho. Ou este meu problema… – E então apontou para seus olhos.
Sim, os olhos de Pedro carregavam uma rara doença ainda desconhecida por muitos. Não conseguia ver as cores do mundo e tudo para ele era cinza. Desde pequeno foi assim, cresceu sem conhecer o azul, vermelho, verde ou amarelo. Nenhuma delas fazia sentido para o jovem, mas isto não parecia fazer diferença em sua vida. Virou-se durante dezessete anos, não seria agora que seu daltonismo mudaria algo.
— Simplesmente vou conseguir. – Sentenciou.
— Como quiser, Pedro, como quiser… Mas não vou estar sempre para lhe dar cobertura caso você não veja os inimigos escondidos por detrás dos arbustos, ou uma fera prestes a dar o bote. – De fato, Edgard lhe salvou a vida umas duas ou três vezes. Talvez um pouco mais. Todavia, estavam crescidos agora e precisariam caminhar seus próprios passos.
— Espero que tenha sorte, Pedro, qualquer coisa é só me chamar… – O alto rapaz flexionou as pernas e saltou do galho, fazendo algumas folhas farfalharem e se desprenderem, dançando conforme o vento as carregava. Edgard pousou em segurança e virou-se para dar-lhe um aceno, quando viu uma flecha vindo em sua direção. Riscava o ar como um raio, zunindo ruidosamente. Sem reação, o homem ficou parado, atônito.
Escutou o som de algo sendo perfurado, como uma faca que corta uma caça e o sangue jorras nas suas costas. O líquido quente escorria pelas suas vestes esverdeadas, respingando até em seus cabelos levemente ondulados. Virou-se num súbito, percebendo uma imensa fera que fazia há trinta centímetros de seu corpo. Um urso das montanhas, com garras imensas e uma flecha atravessada no pescoço. Voltou-se para o galho e viu Pedro sorrindo, olhando-o de lá de cima.
— Cuidado, posso não estar sempre para lhe dar cobertura… – Disse Pedro, em resposta.
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Ai! No final do texto na parte da flecha meu coração gelou! Gostei da estória, vai ter mais? Eu gostaria de ler mais sobre eles.
Confesso que este aperitivo me deu vontade de fazer mais algumas coisas sobre o Pedro e o Edgard. Inclusive, na versão revisada, http://bit.ly/khyCet o nome do Pedro é mudado para Ian.
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Assim que bater a inspiração eu faço novos contos baseados na arquearia de Eldarest!
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Obrigado pelo comentário Thaina!