Filhos do Éden: Herdeiros de Atlântida: Livro 1
Papo na Estante 34 – Prêmios Literários
29 Dicas para se manter criativo:
Vaucarn
A Lenda de Fausto
Chat dos Nerds Escritores
Quer publicar?
Download do livro O Draconiano – Livro 1
Jun
23
2011
Conto em Série

Os Campos de Marte – Capitulo I

Escritor: João Cunha

Sofia deseja o imprevisível.

 

Ainda me lembro do que aconteceu ontem e antes de ontem, e que hoje é quinze de Maio. Sei que não há nenhum calendário que se aplique a Valhalla, mas quando descobri o que eram anos, meses e semanas, montei meu próprio calendário constando que aquele dia era primeiro de Janeiro. Faz mais de um ano que isso aconteceu, mas ninguém sabe disso e pouco se lembram de um ano atrás.  Todos os outros parecem viver como se sempre fosse o mesmo dia. Eles tem as mesmas idéias, mesmas experiências ciclicamente, e ao fim dele, nada mudou.

Acho que hoje verei alguém morrer. Não é esse um pensamento péssimo para se ter assim que acorda? Não só estarei ciente de que alguém está morrendo, mas como assistirei acontecer. Ok, eu não assistirei ele morrer, pois não tenho estomago para isso, mas verei um homem ter sua morte marcada por outros homens. Será que eu me sentiria ainda pior caso visse a execução? Sim, me sentiria porque as memórias seriam mais vividas, mas pensar nisso me faz parecer egoísta. Todos são egoístas, não? Todos estão egoístas e morrem. Pelo menos todas as pessoas que conheço são.

Tudo bem, não conheço muitas pessoas e é errado julgar toda uma raça por alguns poucos exemplos de pessoas bastante parecidas porque estão no mesmo barco. É preciso ir para lugares diferentes para conhecer pessoas diferentes. Não só pessoas, mas coisas diferentes. Posso saber o que é um barco, já ter lido livros em que ele é citado e visto fotos, mas nunca encontrei um barco pessoalmente. Esse é um dos grandes problemas de nunca ter saído do lugar onde nasceu, pouco se sabe sobre o resto do mundo. Talvez todas as pessoas fora daqui sejam simpáticas e imortais, ou tão mesquinhas que fazem meus irmãos parecerem… – Qual seria a palavra? – altruístas e esses indivíduos mesquinhos também são imortais, mas assim são porque o ouro que provemos a eles os torna jovens para sempre. Não tenho como ter certeza de que algumas dessas possibilidades é verdade.

Aliás, eu já vi uma pessoa que não fosse jovem? Já, quando era uma criança, mas você não se lembra. A muitas coisas que nunca vivi ou lembro-me de ter vivido. A maioria das memórias que tenho são dos treze anos para frente, mas talvez seja assim com todo mundo. A infância acaba e não há motivo para se lembrar dela. Talvez todos sejam assim, mas não consigo ter certeza. Jamais entendi como as outras pessoas pensam – Apesar agir como se entendesse algumas delas – e nunca entenderei. Essa é uma das minhas poucas certezas.

Uma vez li um livro que apresentava a seguinte questão: O vermelho que eu vejo é igual ao vermelho que os outros vêem? Não se pode ver pelos outros de outra pessoa, então nunca saberemos. Não há nenhuma prova de que Marco não veja todos com caras de cachorro ao invés de pessoas, até mesmo ele mesmo. Duvido que ele já tenha visto um cachorro, mas isso é apenas um detalhe.

Da mesma forma que não tenho certeza de que o vermelho que Marco vê é o mesmo que eu vejo, não tenho certeza de que ele realmente existe. Não tenho provas de que nada exista, exceto eu mesma, pois meus pensamentos precisam de uma fonte. Eu posso ter uma forma diferente da que vejo, mas com certeza existo. Desculpem-me, esqueci da possibilidade de que sou o pensamento de outra pessoa, mas a pessoa que pensa no que outra pessoa está pensando não é o tipo de pessoa que deveria existir. Ela deveria estar vivendo, não refletindo sobre essas coisas.

Segui o meu próprio conselho e levantei da cama. Hoje era o dia que eu veria uma pessoa morrer. Olhei-me no espelho, como fazia todas as manhãs, e fui até o banheiro cuidar da minha higiene (Limpeza de acordo com o dicionário) pessoal. É algo lamentável que o império possa nos mandar comida, bebida, roupas e coisas modernas como escovas e pasta de dentes, mas tão poucos livros. As prioridades do império são um tanto distorcidas, a menos que eles estejam propositalmente nos impedindo de aprender a pensar. Há algumas pessoas nessa cidade que não sabem pensar. Elas são a maioria infelizmente.

— Sofia, você já tá acordada? – perguntou a voz vinda do outro lado da porta – Eu preciso usar o seu banheiro

— Se eu não estivesse, não poderia responder – Respondi após enxaguar minha boca e abrir a porta – Bom dia, Gustavo.

Uma das poucas vantagens de ser a única mulher numa família de trinta pessoas que moram na mesma casa é a possibilidade de ter um banheiro só para si. Todos os outros devem se contentar a dividir os outros dois banheiros no primeiro andar. Pelo menos assim deveria ser. Não posso me dar o luxo de ser egoísta, mesmo nas coisas tão pequenas quanto Gustavo.

Ele tinha treze anos, estava entre os mais jovens do sindicato, e pouco havia crescido verticalmente. Era rechonchudo e baixinho, de forma que não parecia ter um pescoço. Suas bochechas eram grandes e seus lábios muito finos. Ele parecia um palhaço, algo que ele nunca viu e nunca veria em toda a sua vida. Eu também não, mas conseguia conhecer todas essas coisas através dos poucos livros que repousavam na biblioteca de Valhalla, a cidade na qual todos nós nascemos e moraremos até morrer.

— Então, Sofia, eu posso usar o seu banheiro? – perguntou ele mais uma vez, pulando de um lado para o outro – Daniel está demorando de sair do banho de novo.

Acho que havia dois motivos pelos quais ele queria terminar logo com isso: Gustavo realmente precisava ir ao banheiro e se sentia constrangido por estar me olhando de camisola. Esqueço que ele não é mais uma criança. Nenhum de nós é desde a grande enchente, mas esta é uma história para outro dia.

— Acho que não devo deixar você usá-lo, pois se você for, todos tem o direito a ir e isso seria complicado, não? – Falei, realmente parecendo ser a mãe dele

Ele me olhou apreensivo

— Estou só brincando. Vá.

Ele correu para dentro do sanitário. Vesti o traje padrão dos escaladores (Uma calça e camisa de couro, um manto sobre eles e uma capa) sobre a camisola, guardei o meu pequeno dicionário – meu maior tesouro – no bolso da calça e desci para a cozinha na qual me ocupei de fazer o café. Eles não cozinhariam a menos que eu mandasse. Por que eu não me incomodo em cozinhar para vinte e três pessoas todos os dias? Eles precisam de mim, apenas por isso. Eles precisam de mim. Isso é bom. Hoje há comida para todos. Isso também é bom.

O dia parecia adequado para uma execução. O som daquilo que os líderes falaram ser gotas d’água chocando-se contra as paredes da torre, os trovões (O som de descargas elétricas), a onda de frio que atravessava Valhalla, tudo contribuía para tornar o dia tão mórbido quanto ele prometia ser. Até mesmo os momentos que dão sentido a minha vida, como um café da manhã com todos os meus irmãos, era contaminado pela tristeza de matar outro ser humano.

Penso que nosso grupo é o único que se sente assim. Nenhum outro tem um motivo especifico para dar valor à vida do futuro condenado, já que nunca o viram e foram treinados desde o primeiro momento de vida a matar tudo aquilo que se ponha no seu caminho, seja humano ou não. Com certeza nos sentiríamos assim também se aquele homem não tivesse salvado a vida de dois dos nossos membros. Soa estranho me referir a mim mesma como “Um de nossos membros”?  Não posso definir isso, só os outros. Carrego todo o conhecimento que é necessário para que aqueles definam nosso futuro e nossas crenças. Simples assim.

— Você acha mesmo que vão matar o Fausto, Sofia? – perguntou Marco para mim quando já estávamos sentados a mesa comendo.

Marco era a única pessoa tão velha quanto eu em nosso grupo. Eu tenho vinte e três e ele vinte dois. Ele não perguntava porque tinha duvidas sobre o que se sucederia, mas apenas porque achava-me uma pessoa muito melhor do que ele para falar com as crianças sobre o destino do forasteiro que salvou minha vida. De certa forma, era meu papel tratar de todos os assuntos dentro de Vahallha, e de Marco o que acontece fora dela. Eu trabalho por mais tempo, os trabalhos dele são piores.

Ele parecia cansado. Mais cansado do que ele já esteve antes, mesmo quando parara de tomar o “liquido prateado”, algo que ainda precisamos batizar. Os olhos de Marco pareciam mais opacos do que o normal, e seus cabelos não tinham brilho algum. Normalmente ele cuidaria para disfarçar sua dor, mas desde que ele falhou em tentar escapar do sindicato, não parecia ter energia nem mesmo para isso. Era de cortar o coração.

Todos a mesa aguardavam minha resposta enquanto eu continuava a ter devaneios (fantasias de acordo com o dicionário). Aquele teria sido um dia comum se não fosse o fato de que veríamos alguém morrer e se Marco não estivesse tão deprimido. Tão comum que algum deles, se conhecesse a palavra, chamaria até mesmo de mundano. Talvez essa não fosse a palavra certa. Qual era o significado de mundano mesmo? Próprio do mundo, profano e não virtuoso eram alguns deles. De certa forma, era um vocábulo (termo, palavra que faz parte da língua) que via o mundo com maus olhos.

— Sofia, você está ai? – Perguntou o único tão velho quanto eu naquela casa.

A única queixa que meus irmãos têm sobre mim é que em muitos momentos, pareço estar viajando pelos meus próprios pensamentos. São os momentos em que estou conversando comigo mesma sobre coisas que só eu sei, ou entre as pessoas que eu conheço, só eu conheço. Há uma certa necessidade de discutir esses assuntos com outras pessoas, mas jamais encontrarei alguém compreenda o mundo além daquilo que é necessário entender.

— Sim, estou. – eu disse – Acho que infelizmente teremos a oportunidade de ver alguém sendo morto não pelo que há lá fora, mas pelo próprio sindicato.

Não era um comentário feliz, mas ninguém jamais disse que a morte era feliz. Até os mais jovens deveriam estar acostumados com isso. Todos já vimos à morte pessoalmente das maneiras mais horrendas possíveis. Talvez eu não tenha visto – e seja isso que me diferencia dos outros – mas vi o que ela fez com o coração de nossos irmãos do sindicato.

O sindicato é a organização que comanda Valhalla a mais de um milênio. Nosso trabalho é explorar o campo de Marte, uma torre que apareceu a mil anos no meio do deserto e até hoje não temos idéia de onde ela veio, e tirar dela todos os tesouros que encontramos por suas câmeras. Não é um trabalho fácil ou divertido, mas é o único que temos. Nosso povo mudou totalmente sua forma de ser para se adaptar a essa torre e já não sabemos fazer nada além de escalá-la. Talvez eu estivesse errada. Hoje provaríamos que talvez saibamos matar outros humanos iguais a nós.

Teoricamente, o plano não era matá-lo. Era avaliar se aquele invasor, que salvara a minha vida e a de Marco, mereceria fazer parte ou não do sindicato. Os líderes com certeza votariam que não valia à pena e o executariam por ter entrado em nosso território sem permissão. Depois de uma semana, ninguém se lembraria, nem mesmo Fausto, pois ele estava morto. Tudo tão previsível.

Não discutimos novamente o assunto Fausto, mas ao meio-dia, partimos para a sede do sindicato, na qual todos deveriam assistir ele ser julgado. Em Valhalla existem as construções que nos fizemos e aquelas que já vieram com a cidade. A sede era do segundo tipo. Era grande o bastante para suportar mais de trezentas pessoas, feita de argila e madeira. A frente de todos os outros bancos, havia as cadeiras reservadas para os administradores e a tribuna para a nossa trindade de líderes.  Todos virados na direção do assento do convidado. O teto, de vidro, tinha o formato de uma lupa (A imagem que achei em um livro me levou a crer nisso), que com a luz das luminárias focadas em um só ponto, eram capazes de esquentar o assento para que aquele que estivesse sendo entrevistado se sentisse a ponto de pegar fogo. Acho que isso era proposital.

Todos os membros do sindicato já estavam lá, com exceção do líder Aiacos, que estava viajando. Fausto estava sendo escoltado por dois homens, que agora não me recordo os nomes, para dentro de nossa humilde sede. O forasteiro parecia estar bem demais para alguém que tinha passado dois dias em cativeiro. Se perguntassem o porquê disso, ele provavelmente responderia “Já passei por coisas piores”. Quando foi devidamente posto em seu assento, ele olhou para todos nós em silêncio e nós olhamos para ele.

Fausto era um sujeito perturbador. Tinha cabelos cinzentos, pele pálida demais, traços finos e uma roupa sofisticada demais para o local onde ele se encontrava. Era uma túnica roxa com detalhes que pareciam realmente feitos de ouro, mas seu traço mais estranho eram os olhos. Os olhos dele eram de uma cor indefinida, algo entre uma cinza sem vida e um tom de azul celeste. Eles pareciam encobertos por uma nevoa que lhe impedia de ver a verdade por trás do mundo. Não havia brilho algum neles. Ele piscava demais, e olhava para todas as direções e para apenas uma ao mesmo tempo. Fausto tinha a capacidade de enxergar até mesmo os pensamentos mais impuros de todos naquela casa, mas preferia evitá-lo. Era como ver um homem de mil anos de idade no corpo de um jovem. Nada lhe impressionava, quase como se não houvesse nada que já não tivesse visto um bilhão de vezes.

Ele me dava calafrios. Havia algo de errado com ele, como se uma sombra de pesar lhe envolvesse e mesmo nunca estando realmente surpreso com nada, sua alma parecia confusa sobre o que viria a seguir e porque ele estava num lugar como o Campo de Marte. Acho que qualquer pessoa normal se sentiria assim ao vir para cá, mas não era isso que o abalava. Se fosse, ele não teria nos salvado. Algo parecia ter dado errado e por isso Fausto estava nessa torre. Ela era a conseqüência, não a causa de seu sofrimento. Em resumo, ele parecia um homem de muitas qualidades, mesmo que a maioria delas fosse ruim.

Todos contribuiriam para que o silêncio reinasse sobre a sede, até que Minos, nosso líder principal, pigarreou e começou a falar, finalmente iniciando a segunda ou terceira reunião que tivemos desde que ele assumiu o seu posto. É difícil lembrar-se de quantas houveram, desde que só comecei a contar faz um ano e a primeira reunião era uma lembrança que ninguém esqueceria. Eles não querem que esqueçamos.

— Então, por que deixaríamos você entrar nosso sindicato ao invés de executá-lo como o criminoso que é?

Minos parecia achar que a liderança é muito mais fácil de se exercer se todos os outros tem medo dele. Talvez ele estivesse certo se a coragem não fosse à única coisa que nos mantém vivo. O líder não tinha como saber disso, pois jamais saíra em missão e nem eu.

O forasteiro pensou por alguns instantes numa resposta condizente ao tom da pergunta, ou pelo menos assim queria parecer. Um sorriso brotou em seu rosto, e não parecia ser o mais honesto de todos. As chances de se salvar eram iguais ao numero de pessoas no sindicato que gostavam dele, o numero que até então não parecia passar de um ou dois. A maioria tinha medo dele, já que era tão diferente de todos os outros. Nossos ancestrais tiveram tantos casamentos dentro do seu povo que as características deles eram tão definidas nos rostos de cada escalador em Valhalla que se poderia afirmar que todos somos irmãos. Só Caronte era diferente e agora, Fausto.

Os olhos de Fausto mais uma vez analisaram cada um de nós, mas só mostrou interesse quando olhou para Adão, Eva e Caronte. Ele parecia sentir raiva por aqueles três estarem ali.

Eu tinha muitas duvidas sobre Fausto, e a demora dele para falar só parecia aumentá-las. Eu estava tão ansiosa quanto quando meus irmãos saem em missão, mas dessa vez, não era por medo de que alguém não voltasse, era porque não sabia o que viria a seguir. Fausto era uma completa interrogação para mim, e isso de certa forma era algo bom.

— Antes de responder sua pergunta, gostaria de me apresentar, já que nenhum de vocês perguntou meu nome no período que estivesse preso. Me chamo Fausto. – Ele disse seu nome com certo desprezo – filho de ninguém. Só faço menção a quem é, ou quem não é, meu progenitor por puro respeito ao hábito de vocês em se definirem como “filhos de alguém”, ao invés de serem normais e terem um sobrenome.

Depois de alguns segundos pesquisando no dicionário, descobri o significado de “Progenitor” e “Sobrenome”. Pai e Nome que se acrescenta ao nome de batismo, respectivamente. Batismo significa imersão de água que todas as igrejas cristãs consideram como o primeiro dos sacramentos. Igreja é o conjunto de fieis de uma religião e Sacramento é o ato instituído por Deus para purificar ou santificar almas. Deus, finalmente uma palavra que eu conheço. Desisti de continuar a seguir aquela linha que só me levaria a conhecer mais e mais palavras e pouca atenção daria para o que Fausto tinha a dizer.

— Voltando ao que importa, devo ser aceito neste grupo porque represento a mudança. Como a arte imita a vida e a vida imita a arte, estamos fadados a viver num mundo de encontros e desencontros, como acontece nos melhores e piores romances. Por exemplo, você nunca ouviu falar da história de gêmeos separados durante a infância que nunca se encontraram depois de anos ou de um casal que após anos se vendo durante períodos curtos de tempos, sempre caóticos e intensos, que não se tornaram amantes. Não seriam histórias interessantes.  Como apenas poucas pessoas habitam o universo de vocês (e são cada vez menos considerando o fato de que vocês vivem numa torre) irão ser forçadas a interagir com essas pessoas por toda a sua existência. Após alguns anos, a história vai ficar desgastada e repetitiva e vocês nunca irão chegar aonde querem chegar, pois se ainda não o fizeram, nunca irão, pois as condições atuais são as mesmas daqui dez ou vinte anos, com exceção do fato de que não estarão mais em seu ápice físico. Não digo que conseguirei tornar seus sonhos realidade, mas como irei ser o começo. Integrando-me ao sindicato, a dinâmica deste irá mudar e vocês terão a chance de se reinventar. Posso citar o fato de que o ódio que começam a sentir por mim está unindo vocês.

Penso até hoje se ele realmente esperava que os outros membros do sindicato entendessem o que ele tinha a dizer ou achava que apenas parecer esperto seria o bastante para que nós, meros mortais, lhe tornássemos seu líder, e depois de conhecê-lo melhor, pude concluir que foi um misto das duas coisas. Tentar falar de maneira prolixa (uma palavra que nunca tive a chance de usar) é um mau-hábito dele. Na verdade, as coisas são muito mais simples do que a forma que ele tentava falar, mas não deixava de ser uma realidade interessante de se imaginar.

Será que todas as pessoas do mundo exterior falam dessa maneira? Se formos tão menos instruídos intelectualmente do que eles, é realmente provável que sejamos apenas um meio do império para conseguir dinheiro fácil. Duvido que Fausto fosse à pessoa mais inteligente fora dos Campo de Marte, pois essa pessoa jamais viria para a torre e muito menos pensaria em esperar que os outros entendessem qualquer um que fala de maneira tão complexa.

Já presenciei vários momentos de silêncio constrangedor, mas nenhum entre tantas pessoas. Metade dos escaladores não entendera o que Fausto disse e a metade que conseguiu assimilar (tornar semelhante, compenetrar-se e em casos como esse, compreender) alguns pedaços do seu discurso não gostou nenhum um pouco do que ouviu, com exceção de mim, obviamente.

Os motivos que ele expunha não eram honestos, mas a idéia de algo ou alguém novo nunca pareceu fazer mal a nós. Caronte foi uma novidade a nos atrás e agora é considerado o líder que levou nosso sindicato a notoriedade que tem hoje. Será que as pessoas lá fora nos conhecem? Eles devem saber tanto sobre nós quanto sabemos sobre eles, mas seria bom se soubessem o nome de nossa organização pelo menos, para que caso outra enchente mate todos nós, pelo menos sejamos uma memória. Pior do que a morte, apenas o esquecimento.

— Também devo lembrar que me unindo a vocês, meu destino e todos aqueles que o compõem, e irão compor, farão parte do de vocês. Mais uma vez, a mudança acontecerá. Novas pessoas entrarão em seu caminho, irão auxiliar de maneiras inusitadas. Farão com que vocês cresçam e se tornem fortes o bastante para enfrentar o que há lá fora.  – Complementou Fausto ao achar que ninguém tinha percebido ele terminara de falar.

— Palavras muito frescas, digo, bonitas, mas por que deveríamos lhe dar abrigo e dividir nossos ganhos com você? – Questionou Radamanthys, um de nossos líderes.

“Porque se vocês, imbecis, sobreviveram aqui durante tantos anos, acho que como o ser superior que sou, posso muito bem levar-lhes para o topo dessa maldita torre”, foi o que Fausto deve ter pensado. Ao invés de deixar-se cair na provocação de Radamanthys, que consideraria qualquer resposta como um insulto digno de executar o nosso convidado, ele apenas o sorriu da mesma forma que um bardo sorri para um rei que não entendeu a história que contou. Está ai uma boa possibilidade para o que Fausto era. Um contador de histórias, o que era um caminho meio-andado para um mentiroso.

— Creio que talvez eu esteja indo pelo caminho errado, pois vocês não desejam chegar ao topo da torre ou atingir seu objetivo declarado há tantos anos atrás. Fazê-lo seria a perdição para todos os escaladores. Obter tesouros que residem no topo dessa masmorra será algo maravilhoso no inicio, uma lenda até diz que quem o fizer terá direito a realizar um desejo, mesmo que se arrependa no caminho de volta ao lado de fora. Ganhariam uma fortuna e teriam a satisfação de derrotar outros sindicatos, mas será que vocês realmente seriam os vencedores nesse jogo? A resposta é não. Se chegarem ao final da torre, a missão de vocês irá acabar e perderão o patrocínio do império. Aquilo que os sustentou durante anos irá desaparecer. Neste cenário, existem realmente vencedores? – Ele vestiu seu melhor sorriso cínico e voltou a falar – Eu sei que o destino de vocês é chegar ao fim da construção, mas posso muito bem ser aquele que irá tirá-los do seu caminho. Sem diminuir a pilhagem, obviamente.

Silêncio mais uma vez. Não fora uma jogada muito inteligente dele falar essas coisas, pois todos aqueles que achavam a entrada de um novo membro essencial para que chegassem ao topo antes de todas as outras organizações, um banho de água fria e incerteza caiu sobre suas cabeças. Os pragmáticos, que apenas queriam mais dinheiro, não faziam questão de que um infeliz lhes atrapalhasse em chegar ao topo, pois só precisavam mentir sobre sua mais nova conquista ao chegarem lá. Fausto conhecia as palavras que nós, escaladores, temos de nos contentar em esperar que “Coisa”, “algo”, “aquilo” sirvam para carregar a mesma mensagem, o que nunca acontecia, mas não conhecia sua audiência.

— Você perdeu boa parte do nosso tempo falando e não chegamos a lugar algum – Radamanthys parecia achar a idéia de matar Fausto cada vez mais divertida – Acho que só nos resta agendar sua execução

Os guardas iam em direção a Fausto para mais uma vez prende-lo, já que normalmente esse seria o momento em que aquele que será executado – Há uma palavra especifica para isso? – foge. Ele não fez menção a isso. Apenas fingiu estar ansioso e desesperado, mas ao invés de ações, mais uma vez falou.

— Esperem, esperem! Duvido que isso vá interessá-los, mas se minha vida está em risco, não custa tentar.

Ele retirou de um pequeno bolso em sua túnica um pergaminho surrado e o abriu para que os líderes vissem, enquanto nós, que estávamos mais atrás, não conseguimos ver exatamente o que aquilo mostrava, mas a expressão de surpresa daqueles que conseguiam enxergar nos deixou ainda mais interessados.

— Este é um mapa que descreve os primeiros quarenta e dois andares da torre – Explicou Fausto – Vocês sabem o que é um mapa?

Tivemos reações diferentes para cada líder, que falavam muito sobre cada um deles. Minos colocou a mão sobre o queixo e passou a ponderar sobre o quão valioso era o mapa. Radamanthys sorriu, ele pensava em matar Fausto e depois usar o mapa como bem entendessem. Reações normais para pessoas na condição em que se encontravam, mas Caronte foi diferente. Ele sempre era diferente, e por isso conseguira nos tirar da decadência na qual entramos depois da grande enchente. Nosso herói estava rindo como nunca vimos rir antes. Eu só conhecia quatro pessoas que não gostavam de Caronte, mas nenhuma delas jamais olhara com tanto ódio para ele quanto Fausto ao ver que ele estava rindo.

— Você tem um bom ponto – Falara Minos após Caronte se controlar – Nos entregue o mapa e você poderá se juntar a nós?

— Vocês querem, vocês terão

O forasteiro se aproximou da bancada dos líderes, não sem antes deixar claro que não tinha nenhuma intenção de agredi-los para os guardas, e deixou o mapa sobre a mesa. Minos olhou o que estava escrito e parece que não gostava. O mesmo para Radamanthys. Caronte mais uma vez achou graça.

— Isso está errado, não tem como se ler isso! – Exclamou Radamanthys

— No mundo exterior existem muitas outras línguas além das que vocês conhecem, meus futuros companheiros. Essa se chama Latim, e acredito que ninguém em Valhalla além de mim saiba ler o que está escrito nesse mapa. – Disse Fausto, vitorioso – Vocês realmente vão precisar de mim de agora em diante caso queiram fazer bom uso desse mapa.

— Acho que ele defendeu muito bem a sua proposta, irmãos, o mínimo que podemos fazer é festejar a entrada de um novo membro em nosso sindicato – Falou Caronte mais uma vez contendo o riso – Já perdemos muito tempo nessa discussão. Tempo que poderíamos gastar organizando o grande jantar em comemoração ao brilhante futuro que nos aguarda! Declaro essa reunião encerrada e Fausto, o filho de ninguém, um de nós deste momento em diante.

Como era de costume, todos bradaram alegres a possibilidade de uma nova desculpa para beberem até não se agüentarem de pé. Era assim que as coisas eram no sindicato de Risi. Missões que acabam com o corpo e espírito e festas que acabam com a mente. Nenhum dos líderes, que agora discutiam por sussurros seus planos obscuros, queria que os escaladores se lembrassem dos horrores que viram, e até certo ponto, estavam certos nisso.

Acabara que eu não vi alguém morrer hoje, mas vislumbrei a maneira que os sábios do mundo exterior falam e agem. Fausto sempre teve noção de que suas palavras não seriam entendidas, mas elas eram necessárias para diminuir a expectativa de que ele pudesse ser útil, e ao revelar o mapa, a surpresa foi ainda maior. O que será que Fausto faria a seguir? Por que ele quisera tanto ser um de nós? Eu não sabia responder nenhuma dessas perguntas. Era impossível de se prever o caminho que ele seguiria.

 


Written by João Cunha in: Agenda,Contos,João Cunha,Os Campos de Marte | Tags:

4 Comments

  • lobaempeledeovelha says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Poxa vc escreve super bem xD
    Pelo menos eu estou gostando xD :)

    • João Cunha says:

      Thumb up 0 Thumb down 0

      Obrigado. A continuação está pendente a entrar na agenda,mas acho não postarei nenhum capitulo depois dela, pois vou começar o processo de tentar publicar esta história.

      • lobaempeledeovelha says:

        Thumb up 0 Thumb down 0

        Vou ficar aguardando mais coisas tuas aqui no ONE João xD

        • João Cunha says:

          Thumb up 0 Thumb down 0

          Já há alguns contos soltos e uma poesia. Valeu pelo apoio de qualquer jeito /o/

RSS feed for comments on this post.


Powered by WordPress. © 2009-2011 J. G. Valério