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Jun
19
2011

Os Mortos de Iramirim

Escritor: Marcus Palante

O SOL CRESCEU ATRÁS DOS arranha-céus da cidade Iramirim. Aos poucos, a paisagem foi adquirindo sua forma de vigília, abandonando a face da noite. A luz jorrou para dentro das casas e inundou as ruas com seu dourado forte, vívido, ofuscante. Os veículos ainda queimavam empilhados nas avenidas, o vento carregava montes de papeis avulsos junto com cheiro tóxico de pneus queimados e com o fedor nojento da decomposição. Os gemidos eram constantes e agônicos. O sangue coagulado e enegrecido nas calçadas. Naquela manhã, o medo se arrastava cambaleante pela metrópole.

Iramirim estava podre.

A cidade amanheceu sobre um toque especial de morbidez apocalíptica. Os cidadãos se consumiram num fulgor de canibalismo doentio, irracional. Os saudáveis e conscientes tinham mais horror, mais tremedeira. Estilhas de pavor foram descobertas escondidas dentro de armários, debaixo das camas, das mesas, dos bueiros e dos carros. Ninguém conseguiu escapar. O que sobrou estava morto, e, julgado pela perspectiva daquela cidade, isso significa que eles continuavam a andar. E comer.

A população fora infectada por alguma virose estranha que os cientistas certamente dirão que não existe. Os sintomas eram indescritíveis. Sabe-se apenas que, dado o óbito dos enfermos, os cadáveres erguiam-se dos túmulos com a consciência deteriorada, e famintos. Ostentando sua beleza fúnebre, putrefeita, eles devoravam todas as coisas que se mexiam. Devoravam seus amigos, seus parentes, seus bichinhos de estimação. Agora aquele mundinho parecia muito menos real e mais onírico — das profundezas mais tenebrosas do mau-sonho —, como se a vida imitasse a atmosfera carregada de um bom filme de terror.  De um bom filme de George A. Romero.

Logo, logo, essa epidemia atingiria proporções globais, já que até mesmo as aves hospedaram tal doença dos infernos. Diz-se que teve origem no coração dos esgotos mais fétidos da Terra e fora trazida à superfície pelas moscas e mosquitos que lá viviam. Seja como for, para Iramirim a extinção começou numa estação de metrô…

E foi assim.

Era 6h40 da manhã, 25 de Maio de 2011.

***

No desembarque. Um comboio, veloz, despontou das sombras do túnel principal, riscando os trilhos. Parou. Suas portas abriram-se como de costume. E houve um silêncio inesperado e aturdido. Cordialmente, a rotina pediu caminho. Tão logo, os passageiros começaram a descer. Só que eles não estavam muito vivos. Queriam vísceras e cérebros.

Sim, eram zumbis.

***

Para todos, aquela era uma quarta-feira vertiginosa como outra qualquer. Havia gente de todo tipo, homes e mulheres, crianças, jovens e idosos, estudantes, operários e aposentados, por lá. Num banco, um senhor lia um jornal paciente enquanto ouvia o murmurinho típico das estações. À direita, umas meninas trocavam músicas de seus celulares usando a tecnologia Bluetooth. À esquerda, alguns rapazes dividiam o mesmo pacote de biscoito, eles estavam atrasados e nenhum deles tinha feito o desjejum. Encostada numa coluna, uma mãe repreendia seu filho. O garotinho insistente não queria ir para a escola.

— Não quero ir hoje não. Hoje não, mamãe. Hoje não. Por favor! — Mas a mamãe se impôs. E eles ficaram lá até tudo acontecer. Se a mulher tivesse se rendido às vontades do filho, talvez eles ainda estivessem vivos. Ou não.

— Você já perdeu muitas aulas nessa semana — disse. — Hoje você vai!

— Eu odeio a escola.

— É, mas sem a escola você nunca vai conseguir ser alguma coisa.

O menino chorou.

— Para de chorar!

E houve mais algumas lágrimas antes que a mulher se abaixasse com um lenço e o enxugasse brutamente. — Você está me fazendo passar vergonha — falou.

E então.

O metrô chegou.

As pessoas se moveram na plataforma e se prepararam para o embarque. Alguma coisa errada parecia estar prestes a acontecer. Uma sensação estranha arrepiou a nuca de uma mãe. Um telefone tocou. Um livro escorregou e caiu no chão. O mundo todo meio que esperou para ver as portas do comboio se abrindo lentamente. E o caos se propagou violentamente na estação. Primeiro, veio o cheiro. Depois, os mortos.

Aquele dia foi um tanto asqueroso.

Fedor. Lá de dentro, saiu um mau-cheiro desgraçado, colossal. Era um odor agridoce, seco, pesado, inesperado, podre. A fragrância da morte. As pessoas foram obrigadas a prender a respiração, levando suas mãos às bocas e narinas. Um senhor, que antes lera pacientemente um jornal, não pôde compartilhar sua paciência com seu corpo cansado e idoso, foi ter um acesso de tosse monumental apoiando-se nos corrimões das escadas da estação. Saiu sem esperar para ver o que veio em seguida. Alguns dos rapazes que estavam a comer biscoito não contiveram o vômito, que teve um gosto azedo de guaraná Antártica misturado com Wafer de morango.

Zumbis. A estranheza na aparência decomposta dos passageiros foi logo notada, e não houve à típica impressão hollywoodiana nesse primeiro encontro com os mortos, e muito menos aquelas perguntas idiotas como: “vocês estão bem?” ou “o que aconteceu com sua cara?” Mas as criaturas ainda eram tão grotescas e aterrorizantes quanto nos filmes, senão mais. Eles gemiam com seus dentes trincados, seus rostos eram inexpressivos e carcomidos, alguns maxilares estavam bem à mostra, às vezes escorrendo sangue e saliva.

O primeiro a morrer foi um guarda que estava lá parado feito uma estátua. (É interessante notar que nenhuma daquelas pessoas havia reparado no guarda até este momento derradeiro. Ele parecia parte do cenário). Um zumbi veio tropeçando, agarrou os braços dele e, como se fosse um vampiro, cravou os dentes na artéria carótida. O vermelho esguichou farto para o alto. O guarda caiu para trás; e o zumbi, encima dele, mastigando-o.

Gente correndo desesperada, querendo viver.

Para completar, houve uma queda de luz. A estação mergulhou na escuridão. Os mortos andaram em direção a um amontoado de pessoas que se encolheram num canto. As meninas gritaram. Os rapazes se urinaram e se defecaram e foram devorados.

A mulher pegou na mão do seu filho e tentou sair correndo. Mas só tentou. Não conseguiu. Uma criatura a segurou pelo braço e mordeu com selvageria no meio do peito. O sangue escorreu. O garotinho chorou. Isso não podia ser real. Não podia ser real. Tinha que ser um pesadelo. Tinha que ser. Deu um beliscão no próprio braço. Quando a criatura olhou para ele, ficou imóvel. Tinha esperança de acordar a qualquer momento.

Não acordou.

E havia outra mulher, escondida atrás de um banco, uma repórter estagiária. Seu nome era Míriam, suas pernas e suas palavras eram bonitas. Ela resolveu registrar tudo usando a câmera do iPhone. Isso seria um bom furo. Se houvesse o amanhã. Mas, para aquela cidade, esse era o Dia do Juízo Final. Míriam fugiu, depois, pulando na linha férrea e correndo desesperadamente.

***

Mais tarde.

Um velho, quando chegou em casa, comentou com sua neta sobre o forte cheiro do metrô. Disse que não quis ver o que era, e falou para ela ficar atenta ao telejornal. Talvez houvesse uma reportagem sobre isso em algum bloco. Ele falou, falou, falou. Mas ela pareceu não se importar. Ele vociferou: — Você está me escutando?

Entretanto.

A neta dele não respondeu.

Depois se levantou abruptamente, veio andando para o seu lado. Seus olhos tinham olheiras profundas. A pele dela estava terrivelmente pálida.

Feito um cadáver.

O velho vacilou para trás.

***

No fim do dia, havia apenas vinte pessoas numa praça. Vinte sobreviventes.

Míriam era uma delas.



Written by Marcus Palante in: Agenda,Contos,Marcus Palante |

1 Comment»

  • Andre Alves says:

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    Gostei do conto. Só achei que o uso das marcas é um pouco desnecessária ou da “tecnologia Bluetoth”. Vai ter continuação =)?

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