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Jun
19
2011

Quarto de Hotel

Escritora: Anna Soares

A chuva castigava a janela do quarto de hotel enquanto ela se fazia bela para ele. Os encontros aconteciam duas vezes por semana, já havia quase três meses, após o show dela na boate. Sim! Ela seria grande. Todas as portas se abrem para a esposa – sim, ela queria se casar com ele! Ele lhe prometera, esperava só o momento certo de contar à esposa que seu coração pertencia à outra e se divorciaria para que pudessem ser felizes para sempre.

Escolheu a camisola de seda. Escovou o cabelo loiro, quase branco. Delicadamente, delineou os olhos azuis “como duas safiras” como ele lhe disse, e sorriu ao ver sua boca vermelho sangue do batom. Sobre o salto agulha, pegou o frasco de perfume e passou na nuca, nos pulsos e entre os seios cheios. Em seguida vestiu a camisola e foi até a sacada ver a lua enquanto esperava o amante.

Que bela lua! “A lua dos amantes…” pensou. Sorriu ao tocar o colar de pérolas que ele lhe dera. A pulseira de diamantes. Diamantes! Ele lhe fizera capaz de tocar diamantes! Logo ela, uma dessas moças de classe baixa que tudo levava a crer que seria mais uma entre tantas prostitutas da zona. Ela seria cantora. Todos achavam que ela poderia brilhar. O romance com o dono da boate e sócio do rádio não havia sido planejado, mas nem podia acreditar na própria sorte!

Um vento frio a fez se arrepiar e olhar para o relógio. Ele estava meia hora atrasado. Devia ter se atrasado na boate, às vezes acontecia. Abriu o vinho e serviu uma taça enquanto esperava. Pegou um livro do hotel que nunca havia lido, Bíblia Sagrada, dizia a capa, abriu numa página qualquer e começou a ler. Adormeceu. O mensageiro do hotel a despertou com um bilhete.

Ele não viria… Havia um cheque para ela na portaria. O hotel seria pago por ele no meio das faturas da boate como “despesa de pessoal”, estava tudo arranjado. Não causasse problemas. Saísse da cidade. Havia uma casinha para ela na sua cidade natal. Alguém havia contado ao pai da esposa, um conhecido mafioso. Estava tonta. Nunca algo a tinha machucado tanto. Quem ele pensou que era para despachá-la assim como a um produto defeituoso. Não se demite uma amante! Ela não se dobraria facilmente. Ele não podia deixar uma família por uma prostituta cantora de cabaré.

Discou o número do serviço de quarto. Pediu o melhor que havia. Frutos do mar, vinhos, champagne. “Está celebrando o que madame?” lhe perguntou o gentil rapaz das entregas, “é uma festa?” já pensando nas várias gorjetas antes de se oferecer para ajudar, caso precisasse de algo. Não precisaria de nada, era só um único convidado. Sentou-se a penteadeira e limpou a lágrima negra de delineador que lhe escorria na face alva. Maldito! Mandar uma diva para um buraco no interior de onde ela havia fugido na primeira oportunidade. Ligou para ele. Se não aparecesse, o caso deles estaria em todos os jornais no primeiro jornal. Não iria. E não o procurasse mais ou sua mãe se arrependeria de ter uma filha tão má.

Do jantar que pediu, pegou apenas a faca e o vinho. Abriu a torneira da banheira. A água fria a fez sentir calafrios únicos. Podia ouvir Frank Sinatra tocando no quarto vizinho. Abriu a janela do banheiro, queria ver a lua enquanto se banhava para tirar de si todo o amor que sentia por aquele crápula maldito que a fazia se sentir tão suja e vil. Sabia que ele tomaria todas as providências para que ela nunca mais cantasse. Não podia ir para a sua cidade natal. Seria demais. Implorou aos céus que lhe mostrassem uma saída quando a luz da lua fez a faca reluzir. Subitamente tomou a resolução e seu amor desmedido a fez escrever palavras a ele em um papel do bloco de cartas do hotel.

Ligou para ele. Disse apenas que ele se arrependeria e que ela não iria dar trabalho. O filete vermelho de sangue que escorria de seu pulso era tão vermelho quanto o batom de sua boca. A água fria da banheira lhe acalmava enquanto esperava a morte lhe envolver. A voz de Sinatra ficava cada vez mais longe, até que não ouviu mais nada.

O que ela quis dizer com aquilo? Estava diferente a vadia ao telefone. Ela não ousaria incomodá-lo, ousaria? Ele puxou o casaco e o mais rápido que seu táxi conseguiu chegou ao hotel. Subiu os lances da escada ofegante, o elevador estava ocupado mesmo. Bateu na porta. Uma. Duas. Três. Nada. O rapaz das malas disse que havia uma festa lá, mas não havia sido contratado. Não ouviu nada ao encostar a cabeça na porta. Chutou a porta que se abriu com um baque surdo. A cama desfeita lhe fez lembrar do amor que não fez.

Entrou no banheiro e a cena que viu não foi capaz de entender a princípio. Da banheira via gotejar um líquido vermelho, mas não havia água lá? Aproximou-se como se buscasse uma explicação para o que via. A palidez habitual da pele dela estava se convertendo em notas de um azul suave, de seus pulsos corria um filete delicado de um sangue muito vermelho que lhe manchou a camisa branca engomada. Verificou que ainda respirava, e com cuidado deitou o corpo da amante na cama enquanto lhe comprimia os pulsos para estancar o sangramento. Ao conseguir, o seio aparecia totalmente sob a seda branca molhada, a curva das coxas não havia perdido o encanto embora ela não estivesse acordada e levemente tremesse do frio do banho.

Lançou-se sobre ela para que o atrito de seu corpo a aquecesse, e ela acordou com seus pedidos de que não morresse. Julgou que a amava. Assustou-se quando ele viu que se ela estava fora de perigo, não fizesse nenhuma nova estupidez. Não tentasse se ligar a ele. Sumisse. Havia dinheiro. Uma casa. Talvez a visitasse.

Ele fechou a porta do quarto. Saiu tranquilamente escondendo o sangue da camisa com a manga do terno. Pôs o chapéu Panamá e se dirigiu a porta do hotel. Não deu dois passos para fora e um vulto branco em camisola de seda tombou na calçada do hotel.

Aproximou-se tremendo da apreensão da culpa. Era bela também morta. E com a mesma vermelhidão dos lábios de carmim que conheceu outrora, um filete delicado de sangue escorria-lhe da boca. Na viela em silencio, só o Sinatra tocava.


Written by Anna Soares in: Agenda,Anna Soares,Contos |

1 Comment»

  • Thaina Gomes says:

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    Eu gostei das descrições, da estória também. Quando fala que o amante a tornaria cantora e largaria a mulher por ela eu pensei “a bobinha acreditou”. E eu fiquei curiosa pra saber o que viria a seguir, e quando ele a tira da banheira dá um certo alívio, mas quando ela aparece morta na calçada dá uma agonia e uma surpresa que dá um toque todo especial.

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