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Jun
13
2011

Reflexos de uma Infância – parte 01

Escritor: Rafhael Marsigli

Ainda se preparando para começo de noite, o relógio marca 23h57 e Isabele começa a vestir sua meia calça arrastão preta, cautelosamente subindo a meia em suas pernas tatuadas e brancas como se nunca tivesse um banho de sol. Logo após a meia, a mini-saia preta de couro envernizado se ajustava em sua cintura, e o coturno preto velho, mas bem engraxado, amarrado duas vezes para não ter o problema de ter que abaixar, o que seria desconfortável com os trajes ousados.

Indo para o espelho, encarando a si mesma, Isa sempre se achou feia, apesar de ser uma garota linda, beirando os 18 anos, com um corpo esbelto e definido, traços leves no rosto com uma expressão jovial, inocente e provocativa ao mesmo tempo. Encarando seu rosto nu, começou a se maquiar, com os toques pesados da tendência gótica, a única cor usada era o preto que deixava sua face clara com um destaque alternativo. Levantando seus cabelos ruivos, foi preso uma corrente fina de prata com uma cruz cristã como pingente, invertida. Ainda de sutiã, simples e com bojo, que saciaria seu complexo pessoal, vestiu uma blusa semi-transparente de um material fino, imitando seda, que deixaria seu vestuário completo.

Pronta para sair, pegou sua bolsa escura e pequena e lisa, sem detalhes, com algumas contas metalizadas, apenas para levar as chaves de casa, dinheiro, documentos, seu celular e um maço de marlboro vermelho com uma caixinha quase vazia de fósforos.

Trancou o portão da casa e caminhou calmamente para a estação de metrô, que não era tão longe, apenas alguns minutos pelas ruas escuras da grande São Paulo, colocou seus fones de ouvido tocando alguma música aleatória de sua seleção de Dimmu Borgir, pegou um cigarro com sua mão pálida, de unhas pintadas de três dias atrás e encostou o filtro amarelo na boca escura, de batom preto, acendeu o cigarro e olhou para o céu sem estrelas e vazio. Muitas vezes o céu da noite era como ela, vazio, obscuro e profundo, um motivo do qual ela forçava acreditar, ou acreditava inocentemente.

Chegando na estação, praticamente vazia, se preparou para pegar um dos últimos metrôs, em um horário quase cronometrado para não perder nenhuma baldeação e poder chegar na boate que frequentava quase toda semana. Voltar não seria o problema, nunca foi, o tempo de esperar por horas no ponto já é passado, agora Isa aprendeu a usar suas técnicas femininas para conseguir carona com algum gótico ou pseudo-punk que estivesse com carro, ou algumas vezes voltava de manhã, o que também não era problema algum para quem não tem hora para acordar. Trabalhar sempre foi um problema, já que seu modo de se vestir e de se relacionar com outras pessoas era fora do padrão da sociedade, muitas vezes pegava um trocado com a mãe para comprar cigarros e para pagar o ônibus ou metrô, e aproveitava quando o pai chegava bêbado em casa, para roubar algumas notas da sua carteira sem que ele percebesse.

No metrô, ou em qualquer outro lugar, já era de costume olhares preconceituosos para a sua aparência, assim também como os pervertidos, ignorar era a arma defensiva que ela tinha aprendido com o tempo, depois de uma longa discussão com um testemunha de Jeová, decidiu que não vale a pena dar ouvidos a pessoas que a julgam sem ao menos conhecê-la. Sentada em um assento do canto, na frente da janela, ficou olhando as luzes indicativas dos bairros passando, até que chegou a hora de descer e continuar sua caminhada.

No caminho, aproveitou que ia demorar em média 15 minutos para chegar, acendeu mais um cigarro e continuou andando, seu vício começou com 16 anos, quando pegou escondido um cigarro do maço da mãe para ver como é, depois na escola começou a pegar emprestado dos amigos até que resolveu comprar para consumo próprio. Para sua surpresa, nem o pai e nem a mãe ficaram bravos com a revelação, o que misturou sentimentos de dúvida e tristeza em sua mente, mas nada que seja de importância para ser relevado.

7 Comments»

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    ja tinha lido esse inteiro no teu blog, mt bom. é da hr essa sensação de familiaridade ao ler sobre a cidade q moro, os tipos de lugares q frequento(ou frequentei) na mesma epoca em q eu vivo, etc ^^. parabens!

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Obrigado! Fico contente que tenha gostado, este parte foi a primeira coisa que escrevi em toda a vida, algumas coisas mudaram… Outras não =)

      Abraços!

      • Samila says:

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        Pô cara, gostei muito! Identifiquei-me demais com a personagem, mesmo que sejamos diferentes em alguns aspectos, vi parte da minha ‘infância’ aí (eu era nerd, metaleira, andava cheia de correntes e me vestia de menino, mas tudo bem xD)
        vou no seu blog ser o resto =D

        • Thumb up 0 Thumb down 0

          O restante é sinistro, mas a estória ainda não acabou (parece que acaba no último publicado no blog).

          Obrigado pelo comentário!

          • Samila says:

            Thumb up 1 Thumb down 0

            Li as duas outras partes e adorei! Excelente, e de fato, é uma história bem pesada, e talvez por isso eu tenha me identificado de alguma maneira. Vi na Isa uma garota comum, que sofre, que chora, que sente a falta de carinho dos pais e que fez algumas escolhas erradas, mas não encontra ninguém para ajudá-la a se levantar.
            Muito humana sua história, adorei!

  • Thaina Gomes says:

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    Adorei a descrição de como ela se veste no começo, adoro detalhes. Fiquei com vontade de ler o resto, muito bom!

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Obrigado Samila, fico muito contente mesmo que tenha gostado! Me dá mais vontade de escrever algumas coisas rs
    Thaina Gomes, gosto dos pequenos detalhes, coisa pessoal, talvez publiquem o restante aqui, mas as próximas duas partes já estão publicadas no meu blog

    Abraços!

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Publicado por Rafhael Marsigli

– que publicou 4 textos no ONE.

Músico por profissão, apaixonado por filmes antigos, livros, contos, podcasts, música e tudo o que não for convencional. Sempre pensou em escrever sobre as “coisas da vida”, há muitas coisas medonhas e obscuras dentro de nossa mente que merecem ser passadas adiante.

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