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Jul
06
2011

A Criança do Caos

Escritor: Marcus Palante

PARAÍSO para mim era a casa da minha avó. Ao entrar, a sensação era de um ambiente antidiluviano. O piso ladrilhado parecida eternamente encerado e perfumado, os móveis idosos estavam sempre bem posicionados, os cômodos não muito espaçosos nem muito apertados, eram na medida. Decoração muito inspiradora: abajures, porta-chapéus, quadros, tapetes coloridos, estatuetas angelicais, relógios cucos. Situada em Três Rios, uma cidade no interior do estado do Rio de Janeiro, a casa tinha telhados vermelhos e muros totalmente cobertos por musgo e trepadeiras.

E foi para esse cenário que eu regressei no dia 27 de junho de 2011. A viagem, como sempre, fora muito cansativa e silenciosa. O trajeto entre Três Rios e a minha cidade era de, no mínimo, três horas de carro. Tempo que eu me empenhei a ler o primeiro livro da trilogia Wake da escritora Lisa McMann. Um bom livro — pensei — embora a autora tenha concebido capítulos bem vagos e obviamente supôs um interlocutor sagaz. E o estilo da narrativa é, sem sombra de dúvidas, muito superior a história em si. Talvez a união de ambos os pontos alcançasse o posto de A Menina Que Roubava Livros. Ah, Liesel Meminger! Nunca deixei de recordá-la ao passear de carro, sua entrada forçada na rua Himmel causou-me ressonâncias de um hobbit rejeitando o convite de “certo” mago. Os heróis quase sempre se recusam ou resistem ao chamado da aventura. É previsível, mas é cativante. E o que também foi previsível, mas nem um pouco cativante, naquele dia, foi o frio. Quando eu cheguei na casa da minha avó, fazia muito frio, como sempre faz na região serrana (principalmente quando você é natural de uma cidade demasiadamente quente), e vovó, usando um leve vestido marfim florido, nos guardava no portão. Como que para nos provocar. Eu, minha mãe e o meu padrasto, estávamos agasalhados até os dentes. E para completar, após os cumprimentos, vovó meio que casual:

— Hoje eu estou até passando mal de tanto calor.

— Sei.

— Eu fiz bolinho de chuva — ela disse.

E eu não me lembro do que eu falei em seguida.

Minha avó, como a maioria das pessoas na idade dela, era uma especialista em trocar de assunto do jeito mais surpreende (e incoerente) possível. Mas eu realmente adorava o bolinho de chuva que ela fazia, e comi uma travessa cheia durante o café da tarde. E depois fui para a minibiblioteca — o meu lugar preferido da casa — e apreciei o aposento, relanceado aqueles imensos tomos encadernados à couro: Dostoievski, Cervantes, Walter Scott, Jonathan Swift, Edgar A. Poe, Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Arthur C. Clark, Carlos Drummond, Machado de Assis, Guimarães Rosa, e tantos outros.

Mas um dos tomos me provocou especial atenção. Um livro esverdeado. No canto. Servido de base para uma coluna de livros anciãos, sem capa. Ele era o único intacto, o único bonito. Com muito cuidado, retirei-o debaixo da pilha. Os outros livros caíram com um estrondo, mas eu não me importei, arrumaria isso mais tarde. Limpei a poeira da capa e, arrepender-me-ei infinitamente por isso, li aquelas letras agourentas:

ARS BLASPHEMUM

O título fora gravado em baixo relevo e, nas sombras, emanava um fulgor esmeralda, não como o desses adesivos que brilham no escuro, aquilo parecia algo mais arcano, diabólico, espectral. Eu sentia que em minhas mãos estava a coisa mais sinistra e proibida de todos os tempos. Quando abri aquelas páginas satânicas, estarreci-me com os símbolos, as figuras, e a numeração insana que evocava a cada capítulo um nome muito bizarro e quase impronunciável: Jvbaggramesh, Ssvaliwstowhi, Azvaroph, Njonvonteff, Npehqtrvhion, Yaldabaoth, Ynntouns… E só por tocá-lo, eu já me sentia impuro, como se eu estivesse cometendo o Derradeiro Pecado (em contrapartida ao Pecado Original), como se aquilo fosse o fausto da heresia, a traição imperdoável.

Quando a minha avó chegou, eu fiquei meio desconcertado por ela ter me pego em flagrante, eu folheava aquela coisa, mas ela não se importou. Disse que tinha vindo por causa do barulho — “e chegou um pouco atrasada”, pensei — e comentou que ia doar aqueles livros velhos para algum sebo ou jogá-los fora (porque eles estavam ocupando espaço e já não tinham odor muito agradável), e eu concordei. Ela então me ofereceu uma caneca de café solúvel ao leite, e, depois que agradeci, apontei para o tomo.

— E quanto a este livro verde? Ele ainda está bem conservado.

— Mas tem umas figuras horríveis. Não sei porquê o ‘falecido’ guardava essa coisa — ela respondeu, referindo-se ao meu avô. — E nem acho bom que você o leia.

— Não, eu só estava dando uma olhada mesmo.

Vovó sorriu antes de se virar.

— Eu espero que sim, meu filho.

E então saiu em seu demorado arrastar de passos.

E eu arrumei os outros livros, depois apanhei o Ars Blasphemum e o escondi no meu quarto (no quarto que eu sempre ficava quando ia para a casa dela). De madrugada, quando havia menos luz e mais silêncio, eu tranquei a porta do quarto, acendi o abajur ao lado da cama, e me sentei com as pernas cobertas pelo edredom. Passei a noite inteira lendo. O livro verde tinha quase seiscentas páginas, mas logo percebi o porquê: ele era escrito em algum idioma estranho (que me pareceu uma forma mais arcaica de latim) e havia ao lado, para cada parágrafo, uma tradução para português e francês. As ilustrações grotescas narravam uma história terrivelmente doentia, pessimista, inadmissível. Se eu dissesse que aquela narrativa fora produzida dentro de um manicômio, eu não estaria sendo muito infiel à sensação imprimida. Segundo aquela profecia pagã, o nosso planeta nada mais é do que um ovo, um casulo de um deus-monstro ancestral. No núcleo da Terra, o embrião de Yaldabaoth, a criança do caos, está se desenvolvendo. E logo despertará. Quando a Terra estiver perfeitamente alinhada com o Sol e o Centro da Via Láctea, e o ciclo de 26 mil anos da Precessão dos Equinócios do Planeta estiver completo, existirão no céu duas grandes cruzes que formarão uma estrela de oito pontas. A Estrela Arcana. E então, virá o fim da humanidade e o nascimento do Rei de Todos os Mundos, o Senhor do Vazio, o Filho do Esquecimento,  e não haverá nenhum outro deus, nenhum exercito de anjos celestiais. Nenhuma salvação. Em alguns anos, a raça dos homens… não será nada mais que poeira.

Assim estava escrito. E admito que o meu coração acelerou-se assustadoramente quando eu li tais palavras demoníacas. Eu tentei pensar em outras coisas para não me aprofundar naquela mórbida visão do mundo, mas não consegui. A sensação de superioridade cósmica que havia ali, naquela história, a quantidade avassaladora de detalhes que eu não ouso citar, aquilo tudo, enfim, era — com certeza — um convite para adentrar as portas da loucura. O que nós seriamos se comparados à onipotência de tal criatura abissal? O que poderíamos fazer perante ela? Tremer? Recolhermo-nos em nossa inferioridade?

Esse é o verdadeiro horror.

Perceber o quanto somos incapazes, o quanto somos inúteis se comparados à essa criatura maldita que é capaz de assolar o universo. Nós somos nada mais que uma raça de parasitas perambulando pelo seu berço. E não há nenhum propósito para a nossa existência. Não há vida após a morte. Não há castigo, recompensa, Inferno, Paraíso, Deus, Diabo, nada. Isso é terrível, pensei, e, mesmo assim, me forcei a prossegui com a leitura até um pouco antes de o sol raiar. Já era quase cinco horas da manhã quando eu, mais uma vez, me surpreendi com o conteúdo do Ars Blasphemum. Lá havia uma evocação que era um tanto prosaica, uma rima que eu mesmo poderia ter concebido, embora eu tenha notado que o efeito lírico original se perdeu durante a tradução. Em meu idioma, eis os versos:

Que de dentro do fogo sua fúria desperte.

Une água com vento, e a terra estremece.

Eu não procurei me aprofundar no significado, mas estava relacionado a “chocar” o ovo de Yaldabaoth, o que me pareceu meio engraçado e eu acabei dando uma risada. Fui dormir tentando me concentrar nesse sentido cômico, a única maneira que eu encontrei de aliviar o efeito devastador que a leitura daquele tomo havia provocando em minha mente. Sorrindo sozinho, eu me deitei de bruços (não consigo dormir em qualquer outra posição) e desliguei o abajur. E foi então que eu vi uma coisa estranha surgindo, num canto do quarto, como se fosse um par de joias vermelhas cintilantes ou dois olhos ardendo, dois olhos ardendo e se aproximando. De mim. Uma mão ossuda puxou novamente a cordinha do abajur e a lâmpada piscou duas vezes antes de se acender obliterando as trevas. E agora eu enxergava o dono daqueles olhos vermelhos, um homem alto e esguio, velho, uma enorme barba azul, manto encardido e chapéu branco. Eu olhei para ele, e não gritei. Na verdade, eu pensava estar tendo um sonho lúcido como os da Janie Hannagan, protagonista da série Wake (que eu citei no princípio do relato), e por isso eu me mantive inabalável.

— Quem é você?

O velho olhou para mim e sorriu com dentes podres. Mas eu repeti a pergunta, e ele, depois de tirar o chapéu e se curvar cordialmente, respondeu-me:

— Meu nome é Unpéquitruvion — um nome terrivelmente esquisito que (mais tarde, na hora eu não notei) eu associei a esta grafia: Npehqtrvhion.

— O que você quer?

— Quero te guiar, meu jovem amo, se você ainda não sabe, irei lhe dizer. A primeira vez que você mergulha nas trevas, você corre o risco de afundar demais e se afogar. Eu vim aqui para te ensinar a voltar para superfície e mostrar para o mundo as descobertas que você fará nas profundezas. Compreende? Agora, vamos! Repita a sentença!

— Do que você está falando?

— Que de dentro do fogo sua fúria desperte. Une água com vento, e a terra…

Não completei.

Fiquei olhando para ele, e esperei algum manifesto.

— Vamos, meu jovem mestre, repita! Faça o mundo cair! Vamos acordar Yaldabaoth, vamos! Você tem o nosso poder em mãos. Você tem o livro. Você leu a nossa história, você está chafurdando no charco da loucura, mas eu vou salvar você, se você me ajudar. Abyssus Abyssum Invocat. Vamos! Não há muito tempo.

— Eu não vou fazer nada do que você está falando. Esse é o meu sonho e eu descido o que eu quero fazer nele.

— Diga! Diga! Diga! Diga!

— Não!

— Sim! Diga! Diga! DIGA!

Abri o livro, procurei a página. E li.

— Que de dentro do fogo sua fúria desperte. Une água com vento, e a terra estremece. Que de dentro do fogo sua fúria desperte. Une água com vento, e a terra estremece…

— Isso! Que de dentro do fogo sua fúria desperte. Une água com vento, e a terra estremece. Que de dentro do fogo sua fúria desperte. Une água com vento…

— Que de dentro do fogo sua fúria desperte. Une água com vento, e a terra estremece. Que de dentro do fogo sua fúria desperte. Une água com vento, e a terra estremece…

Ele riu outra vez.

— Satisfeito?

 

Quando eu acordei, já era bem tarde. O sol estava se preparando para se deitar. Foi quando eu senti o tremor. Não uma sacudida violenta, na verdade, apenas uma pequena vibração seguida de um enorme som estridente. E aquele sonho da noite anterior me passou pela cabeça uma centena de vezes, antes que eu me levantasse e saísse correndo do quarto. Minha família estava do lado de fora da casa, gritando algo sobre algo que aconteceu na rua 26, uma rua que passa atrás da casa da minha avó. E todos nós fomos até o local.

Havia uma multidão estarrecida na esquina. Muito burburinho e gente chorando, amedrontada. Uma coisa inacreditável acontecera subitamente. Metade da rua se rachou e despencou dentro do rio adjacente. Ninguém morreu. Ninguém se feriu. Mas as águas abocanharam aquela terra e a mastigaram ferozmente como se fosse uma selvagem besta dos infernos. E eu sabia: foi culpa mim. Eu invoquei aquela destruição.

Depois, Npehqtrvhion apareceu novamente para mim e me disse que aquilo foi completamente inútil, mas que agora compreende o dano mínimo que um ser humano consegue fazer ao universo. E disse para eu espalhar essa história, para que o mundo inteiro saiba as palavras que devem ser proferidas quando as estrelas se alinharem. Por que assim, e apenas assim, nós teremos alguma utilidade para Eles, contribuído com o primoroso nascimento da Criança do Caos.

 


Written by Marcus Palante in: Agenda,Contos,Marcus Palante |

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