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Jul
19
2011

A Felicidade é uma Cadela

Escritor: Ramon Bacelar

Em tempos que já vão longe, em uma cidadezinha esquecida pelo tempo, um mendigo seminu alimentava seu saco de estopa com farrapos de pão e latas de salsicha em um lixão comunitário.

Em noites como aquela, quando o vento frio transformava ossos em esculturas de gelo e a escuridão conquistava território e fincava suas garras nos últimos resquícios de claridade, a saudade e a solidão acabrunhava o pedinte de tal maneira que somente sua sombra, – prima em primeiro grau da escuridão – companheira inseparável, era capaz de derreter seu gelo interior.

-O que te atormenta companheiro? – Pergunta a dama em negro.

-O de sempre… Mas essa noite… Tá difícil. Se não fosse tua companhia…

-Sim… Muuuiiito difícil.

-Você também se sente solitária?

-Claro, afinal sou sua extensão, e como sua faceta negra – obscura… Sinto tudo com mais intensidade.

Com essa declaração o silêncio se fundiu a escuridão e intimidou toda e qualquer esperança de ruído e claridade.

O mendigo, estafado e sonolento, ajeitou o saco de estopa e foi dormir com sua companheira em seu banco predileto na praça principal. Chegando lá, ouviu vozes e risadas espirituosas, mas não identificou sua origem:

-Quer companhia?

Sentiu um puxão nas costas, mas ao virar não viu nada.

Abriu os ouvidos e identificou a origem do som na fila de bancos, mas ao aproximar, só enxergou manchas negras nas cadeiras e encostos, e as vozes:

-Por que não vem? Estamos te esperando!

Sentiu novamente a força de um puxão nas costas como se a coluna fosse partir, olhou para baixo e com os olhos incrédulos viu sua sombra esticar, desprendendo-se das costas com um estalo semelhante ao de um elástico arrebentando; esbugalhou os olhos no mesmo instante que a voz de sua amiga lhe penetrou nos ouvidos:

-Adeus amigo, foi bom te conhecer. Vou viver com minhas irmãs, boa sorte!

Fez o nome do pai no mesmo tempo que as outras sombras abandonaram os bancos para saudar a nova amiga e com um adeus em uníssono, sumiram na escuridão.

O pobre pedinte, tremendo mais que vara verde assustado até o espírito, pega o saco de estopa, mas antes de virar ouve outro ruído, e visualiza abaixo do seu banco predileto uma cachorra amamentando cinco filhotinhos; estende as mãos ao céu e com lágrimas inundando suas rugas e calosidades, olha para cima e grita aos quatro ventos: A felicidade é uma cadela!

 

FIM


Written by Ramon Bacelar in: Agenda,Contos,Ramon Bacelar |

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