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Jul
24
2011

A Passagem

Escritor: Otávio Caetano

Olhou para aqueles olhos, tão vidrados e verdes como nunca tinha visto antes, achou que o foco daquele olhar era ele, mas com o passar dos longos segundos aquilo se tornava distante, como se estivesse vendo algo além. Sentia medo, angústia, uma dor quase física, aquele peso nos braços se tornava cada vez mais dolorido e frio. Frio.

- A vida está me escapando, Dom…

Por que aquele maldito tom? Todos sabiam o que aconteceria! Há vida depois da vida. Eles estudaram e discutiram sobre isso juntos, fizeram experimentos! Ah! As memórias começavam a chegar, todos os rituais, as ordens, os ensinamentos… E também vinham as pequenas memórias, as conversas de bar, os jogos de futebol, os dias tranquilos de folga onde passavam a tarde no parque com suas mulheres e filhos… Seu jeito único e irônico… Nunca perdia uma oportunidade para tentar ser engraçado…

 

E tudo estava no passado, todo o conhecimento já não era mais útil, estava vivendo a passagem do melhor amigo… É tudo tão miserável no final? Por que nossos corpos se tornam tão medíocres? Sentia cada vez mais a vida do companheiro esvaziar-se. E aqueles olhos iam do vazio ao penetrante em momentos, e num desses momentos a vida pareceu dar um último gás a voz do condenado.

 

- Queria que minha mulher e meu filho estivessem aqui… Queria dar um último adeus…

- Isso não acaba aqui, seu idiota.

- Não, não acaba… Mas por que tem que ser assim, Dom? Queria ter dado um irmão para meu filho… Dom… São tantas memórias… Lembra daquela guria loira no colégio? Carolina… Esse era o nome dela?

- Sim, tu eras apaixonado por ela, eu lembro

- Ah… Sim… Acho que ela foi meu grande amor durante toda minha vida…

- Tu nem beijastes ela, homem

- Não? Sim… Nunca… Mas vivi tentando encontrar ela, um espelho dela… Era meu modelo… Minha vida passa diante dos meus olhos…

 

Uma fina linha escarlate saiu pela boca do homem, era sangue, e mais escorria a cada segundo. Tossiu. Já não havia calor em seu corpo e a pele empalidecia, os olhos já não eram verdes, já não estavam vidrados e sim vazios e nebulosos, não parecia conseguir enxergar. A única cor que restava no corpo  era a do sangue que escorria pela boca e pelo ferimento no peito.  Não havia salvação, estava abraçando sua morte enquanto era segurado pelo amigo.

 

- Já não sinto mais dor… O que é bom, não é? – soltou uma medíocre risada seguida de uma tosse. – Fui pego desprevenido… Não vi o maldito… Tu tens que continuar…

- Cale a boca, vou te levar ao hospital

- Não! Eu já não tenho como continuar… Deixe eu descansar, Dom… Todas as minhas preocupações e incomodações estão terminando… Não prolongue minha vida!

- Ouça a ti mesmo, teimoso idiota. Tu só quer um final heróico, morrer lutando! Está aí teu final, como é?

- Sim… – tossia mais uma vez. – É bom, eu me sinto valorizado. – riu alto, com a pouca força que restava, uma longa série de tossidas seguiu-se. – Tens que continuar… Vá… Me largue… A Ordem é mais importante que um homem definhando em Caos…

- Vou ficar contigo até o fim.

 

Esperava mais ironias, mas dessa vez não houveram risadas, nem palavras. O rosto estava envelhecido, com rugas que nuncas antes ele tinha percebido, além da palidez que tomava conta do semblante do alegre amigo. Os olhos voltavam a se tornar distantes. Como aquele olhar o assustava. O delírio final estava chegando, o silêncio tinha o som de asas batendo, as asas negras do anjo da Morte.

 

- Está chegando… Dom… Chegando… Eu posso ver… – com o resto de força que tinha, se inclinava para frente, tentando chegar a algum lugar.

- Não, não… Não faça isso…

- É a minha hora… Tu precisas continuar… Dom… Tu tens isso… Dom… – largou uma risada fraca e inaudível, então frio, e silêncio.

 

Era o frio. Isso que descrevia a passagem. Não o frio do inverno, o frio da Morte, único e cruel. Olhou o corpo, os olhos que antes eram verdes, a tentativa travada de uma última risada ou último sorriso. Olhou o sangue que manchava a camisa e se espalhava pelo chão formando uma poça. Olhou a arma. Olhou o algoz. Olhou tudo por um momento.

 

Deixou o corpo gentilmente deitado no chão, fechou os olhos do cadáver e levantou-se. Não tinha derramado nenhuma lágrima durante todo esse tempo, mas tudo que sentia era uma imensa dor no peito. Afinal, do que valia sua crença na vida após a vida?  Já não existia fisicamente, tudo que existia dele praticamente se foi. Consultou mentalmente trechos de livros, frases de mestres e professores… Tentava buscar um conforto no seu saber, no saber dos outros, nas suas experiências…

 

Chorou.

 

Mas, se recompôs, tinha que continuar, afinal, ele tinha o dom.


Written by Otávio Caetano in: Agenda,Contos,Otávio Caetano | Tags: ,

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