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Jul
19
2011

A primeira vez a gente nunca esquece.

Escritor: Auro Sergio

Era época ainda do voto em cédula de papel, tarde recreativa, Unaí Tênis Clube, seresta, barraquinha na matriz, Atari, carnaval na prefeitura, festa no aeroporto, boite Turipulas, Lojas Pernambucanas…Para aquela figura esquálida de 17 anos era o dia em que o tempo ia parar de vez e ele passaria do terreno confortável da inocência ao epicentro da iniciadora experiência fundamental que, no dizer da sociedade dominante, o definiria homem. Elvis tremia as bases só de imaginar.

Antes de conhecer Cláudia, ele nunca houvera se preocupado em cortar as unhas do pé. De uns dias para cá anda até passando perfume e creme nas mãos, penteando o cabelo, escovando regularmente os dentes e levantando umas latas de tinta com cimento no fundo do quintal. Ela, vendedora de sapatos na maior loja da cidade, ganhava como comissão dez vezes mais do que ele então cobrador em meio período. Seus mais de um e setenta, fartura sem gordura, a faziam uma mulher na acepção geral da palavra, dispensando qualquer outra definição; seu rosto latino de cabelos morenos casavam com a voz que saía de seus lábios inchados como de um gramofone uma sonata de Mozart. Era uma moça educada, cheia de modos e sabia fazer curativos de qualquer natureza, aprendera enquanto voluntária no Lar dos velhinhos. Tanta qualidade, beleza e graça faziam da garota de 24 anos o sonho de qualquer rapagão da época. Ele peidava na mão e soltava na frente do nariz da irmã, dormia com os pés sujos, estava na sétima série pela segunda vez, fora expulso do Dom Eliseu, brincava de um toque e golzim na rua, fabricava pipas, tomava banho no tocão e no tamboril, vendia alumínio, soltava bombinha, assistia desenho, juntava papel de cigarro, jogava video game, falava a língua do P, contratava de pitanga, jogava bola na quadra do quartel, vendia picolé, engraxava sapato… No último mês, justamente por conta dela arrumou um serviço de cobrador na Tornearia Zé Trindade, estava envergonhado da sua condição de trabalhador informal. Deixou de andar com alguns amigos, estava tentando se adaptar ao período de transição entre a infância e a fase de mancebo carente que o aturdia naquele setembro chuvoso.
Como conhecera Cláudia e como ela se ‘apaixonara’ por ele? Elvis não se importava com esse tipo de indagação, nem se preocupava em questionar o porque de uma gata estar saindo com ele de vez em quando. Talvez fossem os olhos claros e pequenos no rosto de criança e a carência a flor da pele o que a atraía ou nem isso, talvez fosse tara, fetiche ou simplesmente sacanagem. Para ele, quase homem, o importante é que ele tinha uma namorada, uns peitos para sufocar, uns lábios para morder, um cheiro, um abraço, um riso, cabelos, nuca, carnes, aroma suave e sensual toda vez que se encontram.
Ela gostava de meninos mais jovens, desde a adolescência prefere os não iniciados; criou até uma certa experiência no trato com esses tempestuosos seres de hormônios inflamados. Seu último romance, pasmem, tinha quinze anos, foi o maior escarcéu quando a mãe do garoto que fora comprar um Kichut o descobriu chorando no banheiro certa tarde ao fim do romance absurdo. Ela foi na loja tirar satisfação, ameaçou chamar a polícia, Cláudia quase fora demitida. Ronaldo, seu patrão, contornou toda a situação, abriu um crediário para a mãe do menino e lhe ofereceu um crédito para comprar bolsas, sapatos, sandálias… Ela aceitou sem pestanejar. O patrão deu uma piscadinha, apertou as nádegas da funcionária exemplar e disse ao seu ouvido que mais tarde ficasse para fazerem o ‘balanço’.
Elvis estava mais preocupado com quando a visse pelada na sua frente. Como seria? Será que só de vê-la gastaria toda sua energia e sujaria sua cueca novinha comprada para a situação? Daria um vexame, seria um sucesso? Usaria preservativos, chicletes, meias grossas? Meu Deus é hoje! Foi o único dia desde os 12 anos que ele não se masturbou.
A encontraria depois que saísse do colégio às 10:30, ela o aguardaria na porta do Manoela para que os dois fossem a um chá de panela de uma amiga lá da loja e já estava tudo pré combinado para que os dois pudessem usar um dos quartos da casa, prática já repetida anteriormente em outra ocasião. Esses cinco minutos finais da aula de Geografia nunca acabariam. Dª Edna estava apenas mexendo a boca enquanto Elvis estava lá nos mamilos de Cláudia, imaginando seus trilhos, seus contornos escondidos, suas reentrâncias, adjacências e sabor. Por um instante deixara a apreensão, segundo em que soou a sirene anunciando a dopamina percorrendo sua espinha dorsal vértebra por vértebra ao ver de longe Cláudia, deslumbrante em um vestido preto coladíssimo, decotado em V. Amigo, mas era um vê maiúsculo mesmo. Um espetáculo. Seguiram à pé mesmo, era ali próximo ao corguim a casa da amiga. Até chegarem a casa onde aconteceria o chá de panela não disseram uma palavra sobre sexo. Fazia parte da experiência de Cláudia esse tipo de comportamento, deixando mais solto seus parceiros, vítimas.
Podia terminar dizendo que deu tudo certo, que Elvis perdera a virgindade com classe.
E deu tudo certo, mas classe não houve leitor. Depois de comer feijão tropeiro, arroz com frango, mandioca com costela, montilla com baré-cola, dançar forró até suar. Foram para o quarto… O Cheiro do perfume, do suor, da cerveja, dos feromônios, do frango frito, da picanha e o forró zunindo na cabeça deram náuseas no garoto que nunca bebera para porre. O vômito bem no meio das pernas de Cláudia foi inevitável, via se um grão de milho destacando nos pêlos pubianos junto ao clitóris da garota toda vomitada.
A primeira vez a gente nunca esquece.

Written by auro sergio in: Agenda,Auro Sergio,Contos |

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