A Velhinha
Escritor: Elide Pinheiro

Minha vizinha é uma velhinha, sabe…, dessas de propaganda de margarina. Os cabelos ondulados curtos que ela tinge de lilás emolduram seu rosto coberto de rugas, formando ondinhas que passeiam pela sua face quando ela fala. Passa o dia na varanda fazendo tricô e disfarçadamente espiando os vizinhos por cima dos óculos, com especial atenção para as moças. Mora sozinha coitada, uma das razões do seu grande interesse pela vida alheia. Seu Adolfo, como ela mesma chama o falecido marido, teve a audácia de morrer uns anos atrás e deixá-la sozinha.
Hoje quando me viu sair para trabalhar veio reclamar comigo das notícias do rádio. Seu filho mais velho que mora em Birigui, interior de São Paulo, aconselhou à solitária velhinha a atualizar-se. Sugeriu que escutasse o rádio para saber o que estava acontecendo no mundo, já que ela achava a televisão uma indecência. A senhorinha havia então levado o pequeno rádio para acompanhá-la na varanda que, em seus tempos áureos, alegrara com as transmissões de futebol, as tardes de domingo do seu Adolfo.
Dona Joana, apelidada de Dona Joaninha pelas crianças do bairro, estava indignada. Não entendia a importância de certas notícias. Havia escutado que no Japão – ou seria na Coréia? Algum lugar de gente com “olho puxado, sabe de chinês” ela dissera, um grupo que ela não recordara o nome naquele momento, havia perdido 11 cadeiras no congresso.
Primeiro não entendia como uma pessoa conseguia perder uma cadeira. Um objeto daquele tamanho seria muito difícil de perder e ainda por cima, haviam perdido 11! Se a noticia tivesse dito 11 cadeiras foram roubadas, ela poderia entender, mas perdidas? Como? E também que tipo de ladrão roubaria cadeiras? Salvo fossem antiguidades raras, aí talvez, pudesse compreender. Haviam entrado na casa do filho caçula que mora em São Paulo e roubado diversos objetos, mas nenhuma cadeira.
Segundo, por que a perda de cadeiras ganhara importância suficiente que merecesse ser divulgada? Será que não tinha mais nada interessante acontecendo no mundo? Não é possível que cadeiras perdidas fossem a maior noticia que os “chineses” tivessem. Que baboseiras eram as atualidades do mundo! Repetira várias vezes.
Concluiu dizendo que não conseguia sequer imaginar alguém iniciando uma conversa assim: “Você viu? Perderam 11 cadeiras na Ásia!”
Qualquer amiga dela, em especial a Dona Anita, sua amiga e ao mesmo tempo rival, ia achar que lhe faltasse assunto. E isso nunca fora uma coisa que faltara à Dona Joana.
Bem, eu já estava atrasada para o trabalho e como ela não parava de reclamar não pude ajudá-la a entender que não se tratava de cadeira de verdade. Tive tempo apenas de concordar com ela e depois dar um beijo nas suas bochechas macias. Recomendei que não se aborrecesse tanto, não era bom para o coração.
Antes de sair com o carro, apontei para a casa de Seu Antunes. Dona Joana virou a tempo de presenciar a chegada de Camila, sua filha mais nova, chegando com um apertado vestido preto curto e os sapatos na mão. Dona Joana olhou para mim com um novo brilho no olhar e apressou-se para ocupar seu lugar na varanda. Com o radio desligado, é claro.
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Maldade ._.
velinha dumal.. parece a vovó…
minha vizinha é desse jeito,sabe da vida do bairro todinho,e mais um pouco bater um papo com ela é a mesma coisa que ver jornal de um jeito menos politicamente correto.
Acho que todos conhecemos velhinhas assim… é a coisa mais fácil de se achar hoje em dia: aquela mulher tão bonitinha, mas cheia de veneno por dentro e preparada pra falar de todos contanto que não se prejudique. Porém aqui na minha terra, mais comum do que velhinhas, são as menininhas fofqueiras. E como aho que elas tem as vistas melhores, não deixam passar nada! É terrível =P
“seu Adolfo” – sei. XD
Achei a história engraçadinha. Talvez a amargura da velha tenha a ver com solidão, misturado com uma certa inocência/ ignorância, e uma tendência para fofocas. É a dificuldade de se adaptar aos novos tempos, talvez?
Em fim, espero que a autora continue escrevendo :3
A-D-O-R-E-I!!! amo velhinhas do mal!!! parabéns! bem escrito e com tema legal!
valeu pelos comentários! É muito bom quando outras pessoas além de amigos e familia comentam nossas idéias.
Gostei muito!!!
Será que era minha vizinha que voce pode ter conhecido?
Estou esperando outros contso com esse humor gostoso.
Tive uma vizinha muito parecida com essa velhinha só que não era assim “simpática”. Era meio mau humorada…gostei, continue escrevendo outras.
Valeu pela compaixão em tirar um tempinho para escutar a velhinha… rsrs… E, inocente ela não? rsrss… Essa poderia ter continuação. Parabéns!
Obrigada!
Esse estoeriotipo das velhinhas rende textos legais. Gostei, parabens.
Bem escrito e gostoso de ler, super engraçadinho. Quero ler mais crônicas suas!
Cuidado com elas…
Achei o texto extremamente leve e engraçadinho. Boa leitura, mas descompromissada. Vale explorar mais teus talentos. Acho que tem potencial para coisas grandes aqui…
Gostei dos comentátios, essa velhinha vai longe.Mesmo tão cheia de responsabilidades voce ainda acha tempo de fazer o que gosta e nos divertir…
Adorei. Parbéns pela imaginação. Ou quem sabe vc se inspirou em alguém???? lol
Também fiquei curioso, acho que essa inspiração é um pocuo real. Enfim, de qualquer maneira ficou muito bacana e bem retratado, tem um final divertido, gostei muito.
Só me responda uma coisa a velhinha existe de fato, não é?
Ela foi inspirada em várias velhinhas q já conheci.