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Jul
11
2011

Contos de Mharyon – Rio de medo

Escritor: Fernando B. Junior

De manuscritos ainda desconhecidos – Segundo ciclo da história de Mharyon

Alguns, aqueles que não acreditam nas lendas da criação citadas n’O Códice e criam as que lhes convém, dizem que, ao amanhecer, após uma noite chuvosa, é possível ver a terra d’A rainha, sobre nuvens tão vermelhas que parecem estar em chamas. Parece tolice, mas jamais poderia negar que o sol nascendo por trás das nuvens ainda carregadas de chuva era uma bela visão, principalmente sobre aquele magnífico penhasco, mesmo em um dia de guerra nas gélidas planícies do norte de Mharyon.

Lá estava eu, acima de todos, ouvindo incentivos coléricos de reis sanguinolentos e as canções declamadas pelas espadas que dilaceravam os mais diversos seres. São várias as canções que formam a guerra. No final das contas, mesmo com uma eventual paz resultante, a canção que reina é a mais mórbida.

Sempre.

As Guerras Nórdicas, como são conhecidas, após inúmeros eventos como espionagens, tentativas falhas de invasão, alianças, quebra de alianças, ameaças e tentativas de paz, chegavam ao seu apoteótico fim na Batalha do Vulkanfjord – “fiorde do vulcão” no idioma drugenhorniano -, que foi escavado por uma imensa e ancestral geleira, que se transformou em rio, que já não existia mais. A aliança que vencesse a batalha venceria a guerra, até porque todas as nações que ainda estavam em pé já não tinham recursos para se manter em conflito por mais tempo.

Amanheceu e os pomposos comandantes coroados ainda berravam para os seus infinitos exércitos, os quais brotavam de todos os lados, e que se empilhavam no centro daquele grande corredor natural de pedra e gelo. Eu via tudo de lá de cima, e estava preparado para fazer o que ninguém faria, talvez porque não devesse ser feito. Mas, para mim, a ação era necessária.

Mais do que necessária, era inevitável.

Eu poderia simplesmente deixar que eles se matassem na batalha, porém, além da vitoria de alguns deles ser certa, já que alguém há de sair vencedor, coisa que nenhum desses malditos reis merece, a minha marca no destino desses seres não existiria; a minha vingança seria benevolente demais, e pouparia quem não deveria ser poupado.

Finalmente falei-lhes.

E a batalha cessou, como se algum dos poderosos deuses d’O códice os tivesse paralisado. Melhor ainda, eles sabiam aonde encontrar a voz. Um por um, olharam para mim com um pavor que nem a batalha, certamente a mais sanguinária de toda a história de Mharyon, lhes causara. “Saibam que não haverá céu azul e nuvens douradas durante esta sangrenta batalha. Vocês só verão escuridão. Contemplem as Lágrimas de Dhrim!”.

Repentinamente os reis não eram mais reis, os campeões não eram mais campeões, os guerreiros não eram mais guerreiros. Naquele instante, todos eram pequenas gotas em um grande mar de medo, que cresceria em breve até lhes tomar o coração da mesma forma que tomou o dela.

Ela poderia e deveria ter sido poupada. Mas o Rei Howegg, em nome da guerra, da matança e da carnificina, ceifou-lhe o direito de viver. De viver ao meu lado. A culpa era toda deles e dos seus desejos insaciáveis de poder. Eles queriam carnificina, e eu os daria.

Não sobraria nada.

A partir daquele momento, deixei o ódio me guiar por completo. Até aquele necessário pingo restante de sanidade para atingir os meus objetivos já me incomodava profundamente. Tudo o que eu queria era deixar a morte agir através do meu corpo.

A hora havia chegado.

Recitei os cânticos perdidos de Dhrim, e alguns deles que mesmo pouco familiarizados conheciam os versos começaram a demonstrar um tremor que não era decorrente do frio ou da luta. Aos poucos, as nuvens que já se dissipavam voltaram a se juntar, ficaram densas, e novas nuvens negras e grotescas surgiram do mais absoluto nada. A crescente tempestade negra lentamente tomava os céus do vale, e a mística terra d’A Rainha estava encoberta dos olhos mortais dos guerreiros que pouco se importavam com ela durante a batalha. O primeiro pingo de chuva caiu no rosto de um soldado da infantaria do General Ordes, de Druguenhorn; o homem, assustado, passou a mão no seu rosto e olhou para a palma, que começava a ser corroída e queimava por uma chama intensa e vermelha. Na medida em que os primeiros ossos apareciam pela deterioração da carne e pele, o desespero tomava conta, ao poucos, tomava conta da multidão.

A carne dos seres que ali estavam e as geleiras do vale derretiam, unidos, formando uma corrente fluvial de desespero. Nenhum foi poupado. Nenhum merecia ser poupado.

Eu nunca havia visto uma forma tão bela da morte se apresentar, mas era uma pena que eu não pudesse me deixar ser levado pela minha própria obra, já que tenho a obrigação de deixar o meu legado para todos aqueles que desejam ter tão plena vingança quanto a que eu tive naquele amanhecer nublado, durante a temerosa Batalha do Vulkanfjord, sob uma terra inexistente.

 


Categorias: Agenda,Contos | Tags:

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Publicado por Fernando B. Junior

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