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Jul
14
2011

Corvos

Escritor: Ana Bourg

corvos

Entrei na onda de postar contos do fundo da gaveta. Esse é de 2005.

Num dia desses um corvo apareceu no meu telhado e eu não temi seu possível anúncio fúnebre. O corvo havia pousado na ponta da torre que abrigava a caixa-d’água, ficou lá o dia todo e só foi embora quando o Sol se pôs. Não pensei mais nisso pelo resto da tarde até a noite, porque no dia seguinte vi que lá estava ele, o pequeno pássaro negro, mas não sozinho. Ao seu lado estava um companheiro de espécie. Tentei espantá-los, nada aconteceu, apenas os dois corvos crocitaram em resposta. Resolvi não me incomodar com eles e deixei que se servissem das espigas que cresciam no milharal ao redor de minha propriedade. Quando o sol se pôs, os dois pássaros foram embora. No outro dia lá estavam três corvos, quietos, me olhando. Ri para ele e virei as costas. Sabia o que aconteceria.

Conforme havia previsto, com o passar dos dias, proporcionalmente crescia o número de corvos, cada vez mais espalhados pelo meu telhado. Havia prometido a mim mesma que não me importaria com os animais, mesmo ciente do mau-agouro que eles representavam. Na verdade, até que gostava do efeito que eles produziam, assustando e mantendo os vizinhos afastados. Eu não gostava muito dos vizinhos, eles olhavam feio quando eu andava pelo centro da cidade e os seus fedelhos me apontavam, riam da minha verruga no canto da boca e me tratavam por “bruxa”.

Como passava quase todo tempo trabalhando no quintal, bem debaixo da sombra da torre, comecei a perceber que os corvos, assim como as pessoas, diferenciavam entre si. Dei-lhes nome e conversava com eles, tendo crocitos serenos como resposta. Eles eram meus amigos, fizesse sol ou chuva estavam empoleirados sobre o telhado.

Em uma manhã parecida com a que o primeiro corvo, dos quase cinquenta que havia agora, havia chegado, eu caí da escada, quebrei as vértebras superiores e morri na hora. Meus amigos esperaram três dias para se lançarem sobre meus restos putrefatos. Comeram até o tutano dos ossos e foram embora em revoada. Quando dei por mim, era um deles, digerindo minha própria carne.


Written by Ana Bourg in: Ana Bourg,Contos | Tags:

30 Comments»

  • Lord Jessé says:

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    Que bizarro! o.O
    -
    Não sei o que dizer… Achei fraco.
    -
    Embora o final tenha sido uma surpresa, o que por sinal foi bom. Não agradou muito. Mas gosto de coros, e em termo, eu gostei da história, e como você falou que é um conto de gaveta, talvez se tentar reescreve-lo.

    • Ana Bourg says:

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      Acho que esse texto foi uma das primeiras tentativas de escrever seriamente, acho que tinha uns 15/16 anos.
      Também achei fraco, ele é meio que “e daí?” – Acredito que tenha faltado algum significado para o conto, além da bizarrice.

      • héryton says:

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        As primeiras tentativas são assim mesmo,acredito que com a maioria de nós,mas eu te digo Ana,se assim me permite chamar-lhe,só pelo primeiro nome,eu digo que adorei seu texto,a simplicidade com a qual o escreveu me agradou,gostei mesmo.
        Parabéns,para um início é um ótimo texto.

        • Trillium says:

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          Eu concordo com ambas as opiniões, ou seja, não está bem escrito, mas a ideia é muito interessante, acho que pode reescrever e até desenvolver.

          Parabéns pela 1.ª tentativa.

          P.S: caso não tenham notado :) , eu sou portuguesa, por isso é natural que alguns contos me pareçam mal escritos.

  • Samila says:

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    realmente ele é bem ‘hã?’, mas achei legal. é bom ver o inicio de autores que gostamos… e… heheheheh
    é difícil acreditar que você escreveu isso, agora que te conheço pessoalmente e sei que você é tão fofa! *-*
    bizarro mesmo XD

    • Ana Bourg says:

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      Sami! \o/
      Aw, você também é uma fofa! =D
      Agora, vendo os animes que você comprou na Liba, acredito que é você mesma que escreve aqueles yaois lindos. *¬*

  • Thainá Gomes says:

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    Ana!Esse me pego de surpresa eu fiquei meio “hã?” mas o final foi foda.

  • Franz Lima says:

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    Simples, porém não ficou ruim. Acho que o desenrolar pecou um pouco, houve uma má exploração do tema que, acredito, poderia render mais.
    Gosto da temática e sei que você, como escritora, tem muito mais a oferecer. Claro, o início para todos nós é uma experiência complexa, onde a coragem de expor os erros é a maior prova de que estamos dispostos a melhorar.
    Sucesso…

    • Ana Bourg says:

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      Obrigada.
      Eu tinha uns 15 anos quando escrevi esse. Acho que o problema dele é a vontade de contar uma história e não saber bem como fazer isso.
      Quem sabe uma hora pego de volta esse texto e tento fazer algo melhor dele?
      ^^
      Agradeço muito o apoio.

      • Franz Lima says:

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        O apoio é fruto dos ótimos trabalhos que você tem apresentado aqui no ONE, Ana. Já sou um fã e sei, como escritor, que seu potencial é inestimável.
        Para o infinito… e além rsrsrs. ;)

  • Tammy #DramaQueen says:

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    Completamente Hã??????
    Final macabro e inesperado.

    Eu gosteu do texto embora tenha o amadorismo já previsto, já que veio do fundo da gaveta e você tinha só 15 anos.
    Mas já era claro o talento!

    • Ana Bourg says:

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      Obrigada Tammy! Agradeço pelo elogio. ^^
      -
      Tudo tem um começo, afinal, né? xD
      Que nem falei ali, um dia quem sabe não reescrevo?

  • Hreter says:

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    Hmmmm, interessante. O ritmo poderia ser melhorzinho. A personagem me chamou bastante a atenção, gostaria que fosse mais desenvolvida, mas pelo gênero sei que seria impossível.

    • Ana Bourg says:

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      Acho que daria para pegar esse enxerto e fazer uma história melhor. :P A fadiga que me atrapalha. E, sei lá, esse texto é meio que “lembrancinha de quando era pirralha”.
      Obrigada pelo comentário!

  • Vinicius Maboni says:

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    Hmm, não sei bem o que dizer… não gostei deste.
    O tema é bom, mas num texto tão curto é impossivel trabalhar ele. Bom, sei que este e antigo e que escreves muito bem Ana.

    • Ana Bourg says:

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      De volta das férias, respondendo comentários! xD
      -
      Obrigada Vinicius! Sim, o texto ficou muito curtinho. Lembro que a primeira versão foi escrita num quardanapo e parecia bem maior. :P

  • Vanderlei Verdegay says:

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    Gostei do início, viajei na história imaginando as aves fazendo um ninho, começando uma amizade com a proprietária que aos poucos vou adotando os corvos, os alimentando. Depois vi que minha primeira impressão foi-se errada… Até a parte que ela gostava que afastava os vizinhos, pensei pronto foi dai que surgiu a lenda da bruxa. Mas ao chegar no final, ficou trash… Já pensei no filme a Bolha, A Coisa e os Seres rastejantes – se ver comendo a própria carne… Zé do Caixão explica… Mas o legal é a gente dar asas a imaginação e entrar de cabeça na história fazer um final, começo ou meio diferente… Parabéns… Tenho uns guardados no fundo da gaveta que com certeza teria que mexer neles…

    • Ana Bourg says:

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      Sim, é sempre legal ressuscitar textos antigos, às vezes é possível transformar em algo melhor, até. :)
      Não lembro direito como ou em que ordem surgiram as ideias desse conto. Naquela época eu pagava de gótica e uma amiga minha tinha um monte de desenhos dark no computador e eu gostava muito de um que era meio que uma mulher/ave em meio a uma revoada de corvos. Diria que foi de onde começou a surgir a ideia.
      Haha, qualquer hora tenho que ver esses filmes do Zé do Caixão. Acho que vale pelo status de lenda urbana do cara. xD
      Obrigada pelo comentário!

  • Bruno Sanje says:

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    Ana, uma qualidade minha que talvez incomode alguns é ser direto, as vezes demais, mas isso é bom pq aqui tenho essa liberdade. Eu gostei muito, MUITO mesmo da ideia do seu texto. É intrigante, adoro essas coisas com passaros negros, gatos, e tantas outras coisas, e gostei do final tb, porem não gostei do jeito como vc mostrou isso, o conto se tornou comum demais pra uma ideia central tão forte. E antes que me corrijam, não acredito em ideias fortes como grandes acontecimento, mas algo que tenha infinitas possibilidades de sucesso, o suspense foi tratado de forma leviana, banal, como quando um pão cai no chão e surge a expectativa:
    O lado da manteiga esta para baixo ou para cima? Entende? Eu refaria esse conto, explorando um pouco mais esse quesito, e repito, ele tem potencial, me lembra muito aquele texto de Edgar Allan Poe com o corvo observando.
    Sucesso

    Bye

    • Ana Bourg says:

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      Acho que é bom ser direto, ainda mais se for para comentar de forma construtiva! :)
      -
      Sim, também acho legal falar de pássaros, gatos e outros animais considerados “sinistros”.
      Acho que Poe é uma referência para esse estilo de conto, de fato.
      E concordo com você, preciso um dia sentar e reescrever esse texto.
      Obrigada!

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    Sinceramente ADOREI o seu conto!!! Eu tenho uma quedinha por corvos (e todo o conteúdo sobrenatural que os segue) e imaginar as diversas aves sobre o telhado trouxe-me à mente imediatamente algumas cenas d’Os Pássaros, do Mestre Hitchcock. O final foi sublime. Parabéns, por sua causa acabei de ganhar meu dia!

    • Ana Bourg says:

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      Valeu Antonio!
      Era a ideia inicial: fazer um final sinistro. Acho que tem esse clima de historinha de terror que contamos em um acampamento.

  • 100nick says:

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    Gostei bastante. Acho que esse é um daqueles textos que o que realmente importa é a ideia e a ideia desse texto é simplesmente excelente. Poderia ser um prólogo meio sinistro para alguma coisa maior e mais louca e mais… sombria… =D

    obs.: gostei mesmo não apenas por ser um começo.

    • Ana Bourg says:

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      Obrigada! ^^
      Fico feliz que tenha agradado. Gostei da ideia do prólogo. Isso me deu ideias. hmnn. Sim, acho que ao invés de reescrever, vou transformar esse texto em um prólogo de uma história de terror – tenho poucas coisas nesse gênero e acho que seria legal tentar fazer algo.

  • Leo Debacco says:

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    Historias de horros são uma das minhas preferidas. Demais. Deu um bom conto de Halloween. Gostei bastante.

  • Asami says:

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    Ficou macabro. Bem macabro mesmo. Um pouco vago, mas por isso mesmo mais legal. E como fã incondicional de tudo que é macabro, eu adorei ^^

  • Winchester Mendes says:

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    Legal, passa uma atmosfera sinistra, mesmo com poucas descrições dá pra ter uma boa imaginação do cenário.
    Gostei muito, parabéns!

  • Rodrigo Maia says:

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    Ahh, os corvos, os corvos…kkkk.Simplesmente genial,principalmente o final bem hardcore.Abraços Ana!

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