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Jul
06
2011

Memórias de um homem bom

Escritor: Del Santos

Tudo começou quando minha mulher decidiu se cuidar. Ela perdeu uns quinze quilos e eu perdi os cabelos. Triste coincidência. Mas não apenas isso, começava a carregar comigo uma barriga que aos poucos se tornou equiparável a uma gestação de sétimo mês. Foi como envelhecer uns trinta anos.

Suas amigas de academia a elogiavam e lhe davam dicas de beleza. Ajudaram-na a mudar o armário e a ensinaram a arte de se maquiar. Com isso, aos poucos ela foi rejuvenescendo. Eu estava presenciando um milagre e vivendo uma maldição ao mesmo tempo. Ela se tornou uma verdadeira boneca. Os quadris, pernas e busto, todos moldados, e eu resumido a uma mal acabada circunferência. Lembrei-me da história da princesa e o ogro.

Quando saíamos, eu percebia que ela se sentia incomodada, e com razão, pois eu parecia o pai dela. Ela atraia os olhares masculinos e isso era constrangedor. Minha moral como marido estava abalada. Comecei a notar que ela passou a desgrudar fácil de mim. Cuidadosamente dava um jeito de soltar sua mão da minha quando caminhávamos na rua. Afastava-se para olhar vitrines e me deixava boiando.

Nosso relacionamento íntimo passou a não existir. Tornou-se uma vergonha eu não conseguir uma ereção decente, creio que para o alívio dela. No desespero, fui ao médico. O problema não era o excesso de gordura. Ele me encaminhou a um psicólogo – “A sensação de inferioridade perante a parceira gerou um duro bloqueio e sintomas depressivos”- Palavras do doutor.

Minha total inutilidade ao seu lado viria a se concretizar em pouco tempo. O começo do fim se deu na ceia de natal de sua família. Lá, estavam reunidos seus pais, irmãos e tios que há tempos não víamos. Ela entrou na frente e pude da porta da sala ouvir o coro de surpresa de todos pelo seu novo visual. Depois entraria eu para uma situação desagradável.

Todos me olharam como se eu tivesse feito coco na mão e esfregado na cara. Ninguém fez questão de disfarçar. Quase dei meia volta e sai, mas confesso que não resisti ao belo peru exposto sobre a mesa da sala de jantar.

Meu cunhado veio me cumprimentar e me disse dando tapinhas em minha barriga – “não me disseram que o herdeiro estava a caminho”- todos riram, inclusive eu. Era isso ou dar-lhe uma porrada no meio da fuça, mas como não queria estragar a noite e perder o peru recheado, relevei.

Suas irmãs a puxaram para o quarto, visivelmente empolgadas. Ficaram lá por meia hora ou mais enquanto eu enfrentava o restante da família. Àquelas alturas era melhor que ela ficasse longe de mim, assim o impacto e as comparações seriam bem menores por parte de todos. A verdade era que estava sentindo vergonha de mim mesmo e arrependido de estar lá.

“E então, o que tem feito?” – Perguntou a mãe dela, ao mesmo tempo em que me olhava dos pés a cabeça. Seriam longos minutos de interrogatório e olhares maliciosos da família. Até que resisti bem.

Finalmente chegou o momento da ceia. Todos sentados ao redor da mesa. Minha sogra pediu a palavra para fazer uma oração em agradecimento à nossa visita e à união de todos ali presentes. Eu de cabeça baixa não pude deixar escapar um micro sorriso pela hipocrisia da velha, afinal, sabia que não era o mais querido naquele lugar.

Após os agradecimentos todos se serviram, mas não consegui comer direito, pois vez ou outra minha esposa e suas irmãs entreolhavam-se e davam umas risadinhas, estavam escondendo algo, pareciam adolescentes animadas, e eu me sentia tão distante frente a tudo.

Não demorou muito até que uma delas falasse da ideia que tiveram. Combinaram de passar uma semana de férias só entre mulheres. Todos acharam a ideia um máximo e que seria ótimo para elas passarem um tempo juntas após anos.

Todos ouviram a colher estalando entre meus dentes. Quase me entalei, pois, pude sentir o fedor daquela ideia. Minha esposa, linda como estava, viajando sozinha com as irmãs solteiras que me odiavam. Tive certeza que em pouco tempo seria o novo membro da associação dos cornos.

O que você acha?” – a mãe perguntou-me, com um tom venenoso. Dei uma de sujeito maduro e engoli seca a empolgação, também não teria coragem de contrariar algo que a família inteira aprovou. Concordei e não disse mais nenhuma palavra até o fim da noite.

Como o combinado a viagem aconteceria dentro de uma semana. E foram dias angustiantes. Na data da partida, tive a infantil ideia de fingir-me de doente. Ela separou uns comprimidos, colocou-os na mesa de cabeceira e disse que era uma pena eu não deixá-la ao aeroporto, mas que não precisava me preocupar. Havendo falhado o plano, só me restou fingir súbita melhora e levá-la até lá.

Na entrada da sala de embarque eu prolongava a despedida enquanto suas irmãs quase a puxavam pelo braço. Foi quando no desespero apelei para um –“eu te amo”. Num instante cheio de esperança foi como se tivesse encontrado a solução, mas não tinha. Ela me deu um sorriso forçado, um beijo ligeiro e partiu. Nem disse tchau. Senti-me um idiota por ser o lado fraco da situação.

Fiquei as horas seguintes pensando coisas que me enlouqueciam. Chorei feito criança.

Com o passar dos dias, entre horas mal trabalhadas e dormidas, fui tentando enganar a mim mesmo – “Fica tranquilo, ela não faria isso. Você tem sido um bom marido”. Ligava para o celular dela – fora de área.

Uma semana. Aquelas alturas não me importava com o que poderia ter acontecido na viagem, não ligava se me tornara ou não corno – “O que passou, passou” – Eu queria apenas minha mulher de volta.

Com a barba por fazer e somente uma enxaguada no rosto, fui recebê-la no aeroporto. Chegando ao saguão, não a avistei, suas irmãs vieram e nem me dariam satisfações se não me pusesse na frente delas –“onde está ela?”.

A mais velha me disse – “olhe só você. Já era!” – e a outra continuou– “Ela ficou com uma pessoa, volta em uma semana e com certeza não mais para a casa de vocês”.

Comecei a suar frio. Senti vontade de vomitar. Irado. Tudo que eu queria era acabar com o responsável por aquela situação. Eu mesmo.

Foi tudo culpa minha. Não fui machista o suficiente para dizer-lhe não e privá-la da liberdade de escolha dentro do casamento. Deveria ter negado quando me pediu permissão para fazer academia. Eu deveria ferir sua autoestima, como fazem os maridos normais. Não a forcei a passar metade do dia na beira do fogão ou do tanque. Fui um imbecil ao aceitar quando ela disse que era melhor esperar mais um pouco para termos um filho. Deveria já tê-la emprenhado umas três ou quatro vezes. Não a obriguei a limpar meu vômito, pois não chegava em casa bêbado. Deveria tê-la magoado com insultos e marcas de batons na camisa. Fui um idiota em sempre respeitar seus parentes que me tratavam com ignorância. Deveria falar mal sua mãe de “porca velha” regularmente e a comparar com ela. Deveria obrigá-la a se acostumar com minha presença, feio do jeito que estou. Errei em querer ser educado e liberal, errei ao agir sem o egoísmo masculino. Mal sabia que estava a incentivando a ser livre de mim. Fiz de tudo para agradá-la. Fui bom demais. Dei a ela o que não se oferece em um casamento normal e ela me traiu.


Categorias: Agenda,Contos |

1 Comment»

  • Alex Nunes says:

    Thumb up 1 Thumb down 0

    Caramba, como é que ninguém descobriu essa peça rara aqui?!

    Tudo bem, não me importo em ser o primeiro a comentar. Que texto bom, ótimo, na verdade. Divertido, bem escrito, ágil, fluente. Consegui visualizar a situação direitinho. E mesmo com a falta de nomes – na verdade, só me dei conta disso agora – me senti confortável e interessado no conto.

    Interessantíssimo. Parabéns! Virei teu fã!

    Valeu!

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Publicado por Del Santos

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