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Jul
01
2011

O Acróstico

Escritor: Daniel Perugini

o-acrostico

1.

Terça-feira. Depois de mais um exaustivo dia de trabalho, Luana chegou em casa e jogou no colo de Otávio, seu marido, mais um dos produtos de clientes da agência de publicidade para a qual trabalhava. Tratava-se de um singelo pacote de gelatina que continha como brinde forminhas de plástico com o abecedário, de A a Z.

- Oi amor, seu mais novo caso?

- Sim bem, preciso ter uma idéia alucinante sobre isso até sexta-feira. Meu deadline[1]. – respondeu, dando-lhe um selinho rápido e abrindo a geladeira.

- Mais uma inutilidade pro seu depósito de tranqueiras que virou o quarto de visitas? – disse o marido, tirando sarro.

- Ah, que nada! Lembra das facas Gipsu? Doei para o sanatório e, coincidência ou não, a taxa de suicídios diminuiu drasticamente por lá.

- Não consigo enxergar a relação. Não era pra ter aumentado?

- Ao contrário! As facas de lá eram tão ruins que os doidos se matavam de raiva.

- Nossa, que incrível a sua capacidade de fazer boas ações de forma inconsciente. Assim você acaba indo pro Céu sem querer. – disse, desinteressado, com o laptop no colo – Mas que merda de servidor, sempre fora do ar!

- Olha o linguajar, a Bia ainda tá aqui estudando com a Laura! Tão bonitinho as duas.

Bia era filha de Fred e Cecília, respectivamente melhores amigos de Otávio e Luana, que moravam no mesmo prédio, no primeiro andar. Era também afilhada deles. Laura era a diarista do casal. Ambas estavam se alfabetizando. Bia, no começo do 2º ano do ensino fundamental. Laura, no curso noturno que a escola da própria colega de estudos proporcionava para adultos.

- Pudera. A casa essa semana anda meio bagunçada mesmo, sinal que o estudo das duas vai bem. E essa Internet que não conecta desde ontem!? Preciso entregar uma crítica por e-mail pro Siqueira hoje ainda, antes do fechamento da edição do Diário!

Pegou o telefone e discou o número do SAC[2] da Fastnet, seu servidor de Internet a cabo. Depois de um animado papo com duas ou três gravações de voz sensual, um ser humano atendeu do outro lado:

- Sandrinha Pacheco da Fastnet, pois não?

- Olá, tudo bem? A minha Internet não funciona.

- Senhor, preciso do nome completo e dos quatro primeiros dígitos do CPF do titular.

- Otávio Bianucci, 8989.

- Otávio de quê?

- Bianucci. – repetiu Otávio, desta vez lentamente.

- Não entendi senhor, poderia soletrar por gentileza?

- OK. B de bola, I de Igreja, A de Amor, N de Navio, U de Uva, C de casa, C de Casa, I de Igreja de novo. BIANUCCI. – Otávio detestava ter que soletrar o sobrenome, de origem italiana, mas tentou manter a calma. Afinal, era apenas o começo da ligação, que ele sabia que tinha tudo para ser longa.

- Ah! Você é demais amor, acabo de ter uma idéia para a campanha da gelatina com as letrinhas de plástico! – gritou Luana da cozinha, que ouvia a conversa.

- Oi, Lu? Não entendi, espera só um minuto que estou no telefone.

- Certo senhor Otávio, o senhor já tentou… – recomeçou a telefonista.

- Inverter os cabos? Sim, já tentei.

- O senhor já tentou desligar o modem e ligar novamente?

- Também já, e nada adiantou. Por que vocês não colocam uma gravação dizendo essas coisas?

- Ok senhor, aguarde um momento que estou checando.

Uma música horrenda começou do outro lado e Otávio jogou as pernas para cima do sofá, tentando relaxar.

- Amor, problema resolvido, vou bolar um jingle[3] com essas palavras que você disse para a telefonista!

- Que palavras, meu bem?

- A de Amor, B de Bola…

- Tem certeza amor? Acho que nada que nasce do telemarketing pode gerar bons frutos. Essa propaganda vai zicar.

- Ah, me aguarde que já veio tudo aqui pra minha cabeça. – Disse Luana, já se afastando e pegando seu gravador para registrar a idéia, ainda fresca.

- Senhor, estamos com um probleminha na sua área, mas estamos fazendo o possível para solucioná-lo o quanto antes. Agradecemos… – retomou a operadora.

- Ok, seja sucinta. Pra quando isso se resolve?

- O prazo mínimo é de 24 e o máximo de 72 horas senhor.

- Mas esse foi o exatamente o mesmo diagnóstico que o meu médico me passou quando lhe perguntei quanto tempo ainda tenho de vida! – Otávio começou a se alterar.

Depois de vários minutos, colocou o telefone no gancho sem uma resposta satisfatória.

- Amor, que história é essa de câncer!? – disse Luana, que voltava para a sala com o gravador um bloco de anotações nas mãos.

- Mentirinha branca, esse pessoal só resolve as coisas quando você está mudando de servidor ou morrendo. Como renovamos o contrato semana passada e a multa é bem alta, eu não pude apelar pra primeira opção.

- Ah, e resolveu o problema, pelo menos?

- Não.

- Ah, deixa isso pra lá meu bem, vai até o ap. do Fred que lá eles usam outro servidor.

- Já tentei, eles não estão lá. Hoje era o dia do jantar romântico.

- Olha amor, ouve aí o meu jingle pra campanha da gelatina. – disse Luana, dando o play no seu gravador de mão. Sua própria voz ecoou pelo ar, entoando uma leve melodia.

 

JINGLE

“Quando eu digo A, me dá vontade de abraçar

Com amor eu quero um Beijo que com B vai começar

Do C pulo pro G porque não quero esperar

A Gelatina bem Gostosa que a mamãe vai preparar!”

“Gelatina Real, o sabor do saber! Agora com um brinde: as forminhas do alfabeto!”

 

2.

A quarta-feira chegou e o problema da Internet ainda perdurava. Otávio, que no dia anterior havia apelado para o ambiente hostil de uma lan house próxima a seu prédio, conseguiu enviar a crítica para seu chefe em meio a tiros, granadas e insultos vindos de todos os lados. O lugar parecia mais um campo de guerra. Chegou em casa aflito e ligou logo o laptop.

- Nada! Incrível! Mais um dia sem conexão.

- Podemos conectar outras coisas, meu bem – disse Luana, que vinha da suíte de banho tomado, vestindo uma cinta-liga roxa provocante.

Após outra longa ligação sem resultados concretos com o SAC da Fastnet, Otávio foi para a cama de cabeça cheia e não deu a mínima atenção às caras e bocas provocantes que Luana lhe fez. Apagaram as luzes e dormiram, encarando as paredes opostas do quarto.

3.

Mais tarde, mas ainda na mesma noite…

Eram 00h30 quando o celular de Luana tocou. Era Cecília. A amiga tinha um fuso-horário no mínimo estranho, e as chamadas durante a madrugada não eram novidade para ela. Atendeu tentando camuflar um bocejo. Otávio, que dormia como uma pedra ao seu lado, não expressara o mínimo sinal de vida.

- Alô amiga, o que me dá o prazer de ouvir sua voz essa hora da matina?

- Menina, aconteceu. Pela primeira vez, o Fred não deu conta.

- Como não deu conta? Do que você tá falando? – respondeu Luana, com o raciocínio ainda comprometido pelo sono.

- Broxou! – E logo hoje que eu usei aquela lingerie sensual que você me ajudou a escolher, lembra!?

- Aquela cinta-liga roxa?

- Sim amor, essa mesmo, essa que eu gosto – balbuciou Otávio, sonâmbulo – Luana deu um cutucão no marido, que respondeu com um ronco.

- Sim amiga, essa mesmo! – respondeu do outro lado Cecília. – olha, depois eu dou mais detalhes, não é a melhor hora. A Bia ta me chamando na porta, foi dormir com febre a pobrezinha.

Depois do papo rápido com a amiga, Luana notou que Otávio havia acordado e demonstrava preocupação.

- O que foi amor? Quem era? – perguntou, ainda meio zonzo.

- A Cecília. A Bia tava passando mal e ela queria o termômetro emprestado.  – começou, com má vontade, ainda frustrada pela recusa do marido ao seu provocante convite ao amor.

- Ué, que mãe relapsa é essa que não tem termômetro em casa?

- Ah, deixa pra lá. Aliás, falando em termômetro, você não acha que nosso sexo anda meio… morno? – Disse Luana, aproveitando a deixa para puxar o assunto.

- Morno?

- É, morno.

- Ahn… mas você quer conversar sobre isso agora amor? São meia noite e meia! – disse, olhando o relógio.

- Sim, porque não? Eu tenho medo da nossa relação na cama ficar fria, sabe? Ou melhor… amolecer.

- Amolecer? Sei. Para (e) de conversar por metáforas e seja direta, meu bem.

- Resumindo: acho que precisamos de algo pra apimentar o sexo, antes que algo aconteça.

Otávio interrogou a esposa tal qual um detetive atrás de pistas, mas não extraiu nenhuma informação de Luana sobre o acontecimento (ou não acontecimento) no 101. Foi dormir com a sensação desconfortável de desconfiança.

 

4.

No dia seguinte, a cena do casal de amigos frustrados na cama ia e vinha na cabeça de Luana. Sentia que sua relação com Otávio descambava para o mesmo caminho. Almoçou rapidamente e, decidida, correu para a sex shop que ficava em uma galeria há três quadras do prédio da agência. Havia outra mais próxima, mas não tinha coragem de entrar. Há dois anos, quando realizara uma fantasia de Otávio, perdera a chave das algemas de pelúcia que haviam comprado lá, e teve que levá-lo até a loja, a contragosto, para que o libertassem. A idéia de ir a uma delegacia policial lhe ocorreu como alternativa, mas foi prontamente rejeitada pelo marido.

Depois da mal sucedida experiência, a publicitária passou reto pela seção de acessórios e se deteve na prateleira de livros. O título que mais lhe chamou a atenção foi: 1001 Palavras e Expressões para Apimentar seu Amor. Não pensou duas vezes. O sexo do casal precisava mesmo de um presente daqueles.

Em seu íntimo, temia que Otávio fosse reprovar a idéia, mas para sua surpresa, o marido não só gostou da novidade como comprovou na cama que a teoria de Luana realmente tinha fundamento. Aplicou na prática os ensinamentos do manual de sacanagem verbal e levou a esposa às nuvens por várias vezes com estímulos ao pé do ouvido.

5.

No dia seguinte, pela manhã

Bia tocou a campainha do 502 com a mochila nas costas. Foi recebida prontamente por Laura, que já estava íntima da garotinha.

O curso de alfabetização para adultos fora idéia dos próprios patrões, que tinham pena da pobre semi-analfabeta. A pequena, de 7 anos, estava ajudando-a nos deveres do curso, e fazia-o com prazer. Já falava pelos cantos que seu futuro era ser professora, assunto constantemente desconversado por seus pais, que apesar de tudo, aprovavam as aulas de reforço dadas pela cria.

Pupila e mestra se acomodaram na sala de estar. Otávio, que estava em casa, não notou a chegada da afilhada, pois ainda gastava litros de saliva com a central de atendimento da Fastnet. A porta de seu escritório estava entreaberta, e as duas ouviam claramente a conversa.

- Alôa.

- Janaína Morais da Fastnet, bom dia?

- Querida, minha Internet está fora do ar há três dias. Já inverti e desinverti todos os cabos, já até pulei corda com eles e nada.

- Senhor, preciso do nome completo e dos 4 primeiros dígitos do CPF do titular.

- Ok, ok. Otávio Bianucci. 8989.

- Pode soletrar o sobrenome, por gentileza?

- B de Boquete, I de Imbecil, A de Anta, N de Nazista, U de Úlcera, C de Cacete, C de Caralho, e I de novo, só que agora de Impotente.

Laura, já acostumada com o “bom humor” do patrão para com os profissionais do telemarketing, olhou para Bia com um sorriso amarelo. Esta última mantinha seu ar angelical, mas agora tinha curiosidade nos olhinhos tímidos.

- Lalá, o que é impotente? Ouvi a mamãe falando com o papai essa palavra quando acordei de madrugada com febre essa semana.

- Mas minha filha, você é que tem que me ensinar, eu não sei de nada! – disse, desconversando – Vamos voltar aqui pro exercício, menina.

Otávio, depois do terceiro round perdido, foi até a copa cumprimentar a visita.

- Olá Bia, tudo bem? – perguntou, ainda emburrado, tentando amarelar um sorriso.

- Tudo bem, tio, e você? – A pequena tratava-o assim. Apesar da curiosidade com as novas palavras, permaneceu em silêncio e concentrou-se com Laura nas leituras do dia.

 

6. De noite, no mesmo dia…

6.1. No 502

- Quer saber, cansei. Não vou naquela lan house infestada de desvairados hoje. Vou “roubar” a conexão wireless do Fred, o sinal chega até o nosso apartamento. Minhas obrigações com o Diário falam mais alto que meus valores neste momento! – começou Otávio, furioso com mais um dia offline.

- Lá vem você com seu lado hacker! Toma cuidado, hein? – advertiu Luana.

- Não, dessa vez vai ser mole, mole. Lembrei que tenho a pergunta secreta do Fred que precisa pra mudar a senha. Olha só – disse, enquanto digitava – “quando é o fim da picada?” – “quando o mosquito vai embora”. Mas é uma besta quadrada mesmo esse Fred, sempre gostou de charadinhas infames. Pronto. Agora é só mudar a senha. – concluiu Otávio, já esboçando um sorriso.

Sem qualquer idéia, e ainda com o episódio tragicômico com a atendente de telemarketing fresco na memória, digitou, sem pensar:

 

NOVA SENHA: I de impotente

 

6.2. No 101

- Papai, o que é impotente? – perguntou Bia, que estava encostada no sofá, lendo um livro infantil.

- O que é o quê!? Onde você ouviu isso, minha filha? – disse Fred, quase caindo da cadeira onde estava sentado.

- Na televisão, papai. Na novela. – mentiu Bia.

- Sei. Você tava na casa dos tios estudando, não é? – indagou Fred, já desconfiado que seu desempenho sexual teria vazado quatro andares acima.

- Sim, com a Lalá.

- E alguém comentou alguma coisa diferente por lá? O tio Otávio? – disse, preocupado de que o melhor amigo pudesse saber algo.

- O tio ficou conversando no telefone o tempo todo.

Depois de outras investidas da filha, Fred deslizou para outro assunto que tinha algo a ver com lhe dar uma caixa de bombons. A criança esqueceu, por hora, do episódio no 502, para lembrá-lo apenas no dia seguinte.

 

7.

No dia seguinte, no Colégio Santo Amaro, a professora Dalva resolveu propor um ditado valendo nota para sua turma de 2º ano.

- Gente, eu vou ditar quinze palavrinhas, uma de cada vez. Além disso, quero que vocês escrevam também uma outra palavrinha começando com a mesma letrinha. Se eu disser a-m-o-r, quero que vocês escrevam a palavra amor, com letra bem bonita, e outra palavra com A, como a-l-e-g-r-i-a, ok?

Tudo transcorreu bem durante a atividade, mas Dalva percebeu um ar estranhamente traquina em uma de suas melhores e mais aplicadas alunas, a doce Bia Goulart. Para seu espanto, ao corrigir o exercício na paz de seu apartamento naquela mesma noite, percebeu que a pequena havia escrito as seguintes palavras em sua folha de ditado:

Bosque – Boquete

Leite – Luva

Roça – Recreio

Isca – Ignorante

Fazenda – Febre

Gato – Garfo

Azul – Anta

Nuvem – Nazista

Verão – Viagem

Uva – Úlcera

Carro – Cacete

Sol – Sombra

Dado – Doce

Casa – Caralho

Igreja – Impotente

8.

No dia seguinte, logo pela manhã.

Cecília atendeu ao telefone na cozinha, enquanto descascava alho, e não escondeu a surpresa quando foi comunicada que a diretora da escolinha de Bia gostaria de falar-lhe pessoalmente. A preocupada mãe insistiu para que ela lhe adiantasse o assunto, mas a mesma preferiu tratá-lo face a face.

- É algo delicado, portanto gostaria de marcar uma reunião.

Quando Cecília sentou no escritório de Alice Fragoso, como indicava a plaqueta triangular à frente de sua mesa, era uma pilha de nervos:

- O que foi dona Alice, a sra me deixou preocupadíssima.

- Bom, não era a intenção. É que sua Bia, que sempre foi uma menina exemplar, “surpreendeu” a professora em uma das atividades curriculares. Um ditado, para ser mais clara.

- Mas logo no ditado? Ela sempre tirou as melhores notas nos ditados! – espantou-se.

- Sim, sim, por isso mesmo o assunto me preocupa. Aliás, ela é a melhor aluna da classe em se tratando de ditados.

- De forma que não consigo enxergar o x da questão, senhora.

- Pois bem, vou ser bem franca. Você e o seu marido andam, por acaso, falando em linguagem imprópria perto da criança?

- Mas veja só, é claro que não! Que acusação sem fundamento é essa!? Onde a senhora quer chegar com todo esse interrogatório? E o que a senhora considera como linguagem imprópria?

- A senhora precisa entender que, como pedagoga…

- Bom, vamos deixar de conversinha. Quero saber o que minha filha fez que me fez sair de casa no meio de uma receita para vir até aqui, e que raio de papo é esse de linguagem imprópria?  O que isso poderia ter a ver com a conduta de uma criança pura como a Bia?

A diretora suspirou, tirou um envelope da gaveta e depositou-o na frente de Cecília.

- Aí está o produto da depravação de um casal.

Reprimindo uma vontade repentina de esganar a diretora, Cecília saiu do escritório com o rosto ruborizado, misto de raiva e vergonha.

9.

No 502, mais tarde, mas ainda no mesmo dia…

 

A aloprada mãe dispara sua metralhadora de acusações. A culpa teria que cair sobre o colo de alguém, e naquele momento a pessoa menos provável era Otávio.

- Foi você! Só pode! Que idéia de girico foi essa que vocês tiveram!? A mula está ensinando essas palavras de baixo calão pra menina e vocês são cúmplices dessa safadeza!? Que padrinhos são esses? – disse Cecília, acusando a diarista.

- Ah, e quem é que fala, uma mãe que não é capaz de manter um termômetro em casa!

- O quê!? Do que você está falando?

Otávio olhou torto para Luana neste momento, mas esta desconversou.

- Onde mais ela teria aprendido a falar boquete? Ignorante… – prosseguiu Cecília.

- Aqui não foi, né amor!? – Luana disse olhando para o marido, esperando mais determinação.

- Não, claro que não, imagina.

- Eu tenho certeza que foi ela – disse mais uma vez, apontando pra Laura – esse palavreado de baixo nível só pode ter saído dessa boquinha imunda. A coitadinha vem te ensinar e é isso que você dá em troca! – Cecília, definitivamente, havia elegido Laura como culpada e batia o pé com firmeza. A empregada, por sua vez, negava veementemente sua culpa.

Num surto de autodefesa, sem saber mais como argumentar com a louca figura, Laura arrancou a folha da mão de Cecília e analisou com calma as palavras ali contidas.

- Mas olha! A professora falou disso ontem mesmo na sala de aula, é um acróstico! É quando a primeira letra de cada frase ou verso formam uma palavra ou frase!

Todos olharam para ela, boquiabertos com aquele lampejo de sabedoria. Depois de matutar um pouco em cima do problema, mesmo fuzilada pelos olhares de Otávio, um sorriso se esboçou no canto da boca da empregada. Entregou a folha para Cecília, com o enigma resolvido. Foi só grifar a primeira letra de cada palavra de baixo calão para que o culpado aparecesse. Seu olhar era triunfal.

 

Bosque – Boquete

Leite – Luva

Roça – Recreio

Isca – Ignorante

Fazenda – Febre

Gato – Garfo

Azul – Anta

Nuvem – Nazista

Verão – Viagem

Uva – Úlcera

Carro – Cacete

Sol – Sombra

Dado – Doce

Casa – Caralho

Igreja – Impotente

Cecília finalmente raciocinou e escreveu o acróstico decifrado por Laura: BIANUCCI.

 

Depois de um barraco generalizado, com o saldo de um dente quebrado, um galo, três arranhões, duas unhas quebradas e um vestido rasgado, Cecília conseguiu extrair de Otávio a promessa de que faria uma boa ação para Bia, como forma de se desculpar pelo horrível acontecimento.

- Pois você vai arrumar um jeito de se desculpar com a Bia sim senhor. Pode pensar em algo pra recompensá-la. – bradou a furiosa mãe.

- Um presente?

- Não Otávio, dar presente é fácil. Eu quero algo de você nessa recompensa. Quero ver o suor pingando desse seu rostinho. Você vai pagar o mal que fez pra ela!

- Mal? Quem vê pensa que abusei da menina.

- E abusou! Verbalmente, mas abusou.

- A culpa é dela própria, que não se faz notar quando entra num ambiente adulto.

- Ah, claro, a menina tem que entrar com uma sirene na cabeça porque o bonitão está gritando obscenidades no meio da sala!?

Otávio já não tinha forças nem para contra argumentar e dizer que não estava no meio da sala. Finalmente, se rendeu.

- Ok, desisto. Faço aqui, portanto, um “pronunciamento oficial” de desculpas pra acabar logo com essa palhaçada toda.

A idéia de Otávio era simples: usar as forminhas de gelatina do alfabeto, já esquecidas no quarto de hóspedes, para ensinar novas palavras à enteada. Para isso, ele chamaria Fábio, seu sobrinho, que tinha a mesma idade de Bia.

- Gelatina? Isso não me cheira bem. Estou farta de coisas molengas – questionou a ainda exaltada mãe, olhando torto para Luana.

- Sim. Com forminhas do alfabeto. Nada melhor. Posso ensiná-los algumas palavras que possam ser pronunciadas no cândido lar dos Goulart. Um programa gostoso e educativo.

Depois de mais alguns minutos nos quais, com a ajuda de Luana, Otávio conseguiu enfim provar a validade de sua idéia, ficou combinado para a tarde seguinte.

 

9.

Na tarde seguinte, sábado.

Otávio havia pedido para que Laura preparasse com antecedência a gelatina e que deixasse as forminhas em cima da mesa da copa (para que se faça visível o livro de sacanagens). Buscou ambos no colégio, e montou o cenário do pequeno teatro que era pra ser aquele pedido oficial de desculpas.

Forminhas no lugar. Gelatina pronta. Havia também desenterrado seu velho dicionário, presente de sua mãe, que datava de mais de duas décadas. Para ele, aquilo tudo era apenas uma vingança desnecessária que a mente doentia de Cecília infringia. De qualquer forma, era necessário estar bem com a melhor amiga da esposa. Do contrário, mesmo que ele não conseguisse de forma nenhuma entender a relação de uma coisa com a outra, o sexo entre os dois ficava comprometido.

Propôs às crianças que abrissem o dicionário à vontade, e, com sua permissão, formassem a palavra recém descoberta em gelatina de morango. Por um momento, foi ao banheiro e deixou as crianças ocupadas com a atividade educativa. Enquanto fazia as necessidades, retomou a leitura de 1001 Palavras e Expressões para Apimentar seu Amor. Já estava quase na metade e o sexo melhorara consideravelmente. Achava que quando chegasse ao final teria finalmente dominado a arte do estímulo verbal.

Enquanto lavava as mãos, o telefone tocou, e Otávio, por completo descuido, deixou o livro aberto sob a pia. Uma das crianças foi até lá para lavar as mãos sujas de gelatina, enquanto ele atendia a ligação da Fastnet, que, depois de exatamente uma semana, havia finalmente reparado sua conexão. Como o jornalista não perdia a mínima oportunidade para despejar mais alguns insultos à classe, aporrinhou por alguns minutos o atendente, enquanto seus dois pupilos de momento tinham sua iniciação acidental no mundo da sacanagem verbal.

Os minutos gastos ao telefone foram suficientes para que Cecília chegasse, às 18h30, hora marcada para buscar Bia, e deflagrasse a mais nova afronta à castidade da família Goulart.

A cena que a mãe encontrou foi a seguinte: o livro de sacanagens aberto na página dos ‘apelidos penianos e da vulva. Cada qual havia escolhido um, do respectivo sexo, e montado as palavras Xaninha e Joystick[4], respectivamente para os equipamentos feminino e masculino. Saldo: uma mãe em ataque de nervos, três páginas de livro rasgadas, dois copos de vinho quebrados, um corte transversal e seis pontos na testa de Otávio.

10.

O telefone toca na manhã seguinte…

- Tavinho, você por algum acaso acessou nossa conexão esses dias? A coisa tá uma lentidão tremenda por aqui. Desde ontem estou tentando conectar e nada. Só hoje lembrei que você sabe a pergunta secreta  – era Fred.

Nesse momento, Laura varria a sala.

- Ah, sim, sim, tive que usar cara. Era uma urgência. Coisa do Diário. Me desculpa.

- Certo. E você trocou a senha, né?

- Sim, tive que trocar. Eu só sabia a pergunta secreta.

- E qual é a nova senha?

Laura se aproximou de onde Otávio estava, para limpar.

- Olha, eu vou ter que descer pra fazer umas compras. Escrevo num papelzinho e jogo embaixo da sua porta, ok?

- Deixa de frescura, cara, diz logo a nova senha, preciso acessar meu banco online.

- É que é meio constrangedor, sabe?

- Ah, já entendi, já entendi. Você e sua mania besta de inventar senhas obscenas, né? Ok, joga a porcaria do papelzinho aqui por baixo da porta.

Passados dois minutos, um papel surgiu por debaixo da porta do 101. Fred pegou-o, e até com certa curiosidade abriu o papel, para enfim ler seu conteúdo:

I de impotente

FIM


[1] Deadline: limite estabelecido para a conclusão de uma atividade dentro de um cronograma.

[2] SAC – Serviço de Atendimento ao Consumidor

[3] Jingle: mensagem publicitária musicada e elaborada com um refrão simples e de curta duração, a fim de ser lembrado com facilidade. Fonte: Wikipedia.

[4] Joystick – (também conhecido como manete no Brasil) é um periférico de computador e videogame pessoal ou um dispositivo geral de controle que consiste em uma vara vertical(…). Fonte: Wikipedia


Written by nielperugini in: Contos,Daniel Perugini |

24 Comments»

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    Daniel escrevendo é quase um acróstico de talento nato.

  • nielperugini says:

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    Vlw Ru, vc tb! Abrçs.

  • Felipe says:

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    Criativo e engraçado. Muito bom.

  • Guilherme. says:

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    Excelente conto! Altamente hilário! Esperando por novos textos, seu Daniel!

  • Fernanda says:

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    Super! Tb quero novos textos!! :)

  • nielperugini says:

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    Vlw demais, abrçs!

    • Franz Lima says:

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      Não sabia que tinha trabalhos por aqui, Perugini. Vou imprimir para ler com mais paciência e tempo. Vlw.

  • nielperugini says:

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    Oi Franz, tenho poucos contos, esse é o primeiro aqui pelo site. Desculpe pelo tamanho! Abrçs!

    • Franz Lima says:

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      Vou avaliá-lo pela qualidade, meu brother, não há pelo que se desculpar. Já li contos bem maiores por aqui, acredite…
      Abrçs

  • Franz Lima says:

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    Daniel, não vou contar ou resumir a história que acabei de ler, mas posso adiantar ao que irão ler (e eu recomendo com ênfase: leiam) seu conto. O humor está lapidado, com doses corretas de sarcasmo e situações comuns e, nem por isso, menos interessantes e engraçadas.
    Há uma parte do texto no qual fiquei rindo sozinho, imaginando a situação.
    Gostei demais da forma como escreve e, por isso, RECOMENDO A LEITURA a todos que desejam ter bons momentos de alegria…
    Sucesso, amigo.
    Abraços.
    Franz.

  • nielperugini says:

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    Uai Fran, bacana demais. Seu comentário me deixou muito feliz porque sei que você é sincero. Sua opinião conta muito. Abrçs e muito obrigado!

  • nielperugini says:

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    Aliás, diga aí, qual parte vc riu sozinho?

  • Franz Lima says:

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    Uma delas foi a do diálogo (o segundo) entre Otávio e a atendente da Fastnet. Quando ele soletra o sobrenome (B de Boquete, I de Imbecil, A de Anta, N de Nazista, U de Úlcera, C de Cacete, C de Caralho, e I de novo, só que agora de Impotente), cheio de mau-humor (já até pulei corda com os cabos de rede) e muito, muito azar, pois a Bia memorizou tudo.
    A parte do ditado, nem preciso comentar.
    Enfim, o texto é todo ótimo, com alguns trechos que são realmente fantásticos.

  • nielperugini says:

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    Certo! E do final, vc gostou? Achou que fechou bem? Abrçs;

    • Franz Lima says:

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      Certamente, meu velho. O trabalho ficou 100%, inclusive o final, claro. Escrever comédias é uma tarefa difícil, independentemente do tempo em que já se escreva outros estilos.

  • natália says:

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    achei sensacional, daniel!
    parabéns!

  • lobaempeledeovelha says:

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    Leitura agradável, concedendo momentos de alegres para quem aventura-se a ler com atenção e no final você acaba rindo esperando que o autor escreva mais e mais para ONE.
    PARABÉNS DANIEL_SAN xD

  • Thaina Gomes says:

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    Niel eu já li esse texto seu, mas tenho que comentar aqui. Fez a alegria do meu dia! Eu ria tanto que cheguei a chorar, divertido demais.

  • nielperugini says:

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    Brigado mesmo, fico feliz que tenham gostado.

  • Eliana says:

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    Divertidíssimo!

  • Itajara says:

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    Muito Bom !!
    Adorei, ri muito !

  • José Carlos says:

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    Conheci onerdescritor na semana passada, e ouvi vários papos na estante, que achei fantástico, mas apenas hoje, 03/08/2011, começei a ler contos. Li um muito bom de ficção científica, um regular sobre corvos que se multiplicam, e este. Me surpreendi pela qualidade do texto. É, simplesmente espetacular! Outra surpresa é que não é fantástico, bizarro, ou de ficção científica… Parabéns!!!

  • Daniel Perugini says:

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    Fico lisongeado com tamanho elogio. Abraços! Muito obrigado.

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    Muito bom cara! Parabéns!!!

    Continue escrevendo que você é muito bom nisso!!!

    Valeu, abraço!

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