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Jul
19
2011
Conto em Série

O Expresso da Solidão – III – Dois insetos

Escritor: Rainier G. C. Morilla

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Com o tecido grosso por sobre minha pele, ando em círculos pela estação. Não me adianta sentar ou deitar nestes bancos frios. Dormir não me trará luz alguma; fechar meus olhos só me farão enxergar a escuridão que há em mim, deixarão, com ainda mais torpor, meus pensamentos. O que eu quero é apagar o passado, ao menos da minha mente.

Os atos e fatos que este pobre narrador passou são amargos e doloridos, oh querido amigo. Por isso de minha exclusão do mundo, da minha viajem noturna, dos meus  devaneios em coisas tão pequenas. Entenda amigo, que meu coração parece explodir em pedaços e está tão frio, quanto o coração do demônio.

Percebo passos vagarosos e arrastados em um casaco de couro sobre a luz das lamparinas. Sua caminhada funebre cruza a estação em minha direção, escondendo o rosto atras de um chapéu de um tom claro, mas triste. Não era possivel olhar em seus olhos. Alias, não era necessário fitá-los para entender os sentimentos esculpidos nos sulcos de sua face.

Aproximei-me dela com sutileza e melancolia. Arrastei-me com a dor na perna ferida pelos trilhos, com a dor na cabeça que labutava incansavelmente, e com dor na alma. Oh! A dor na alma é a pior das dores que podemos sentir. Espero que tú, meu fiel e unico amigo, não sintas nunca esta dor tão profunda.

Quando os poucos centímetros nos distanciavam oceanos, suas mãos, que antes eram tão delicadas e macias, agora pálidas e secas, cruzaram os mares, a estação, os centímetros intransponíveis. Antes que pudesse fitar teus olhos escondidos na escuridão, seus dedos já se aproximavam do meu cogote.

Tudo o que as pontas daqueles delicados dedos , ainda que gélidos, fizeram foi um toque na lateral do meu pescoço com receio e dor. Os dedos se acomodaram ao formato do ombro e desceram acariciando o braço, levemente, com ternura. Senti-me aconchegado, protegido, acolhido no ninho do qual robei os ovos. Senti-me amado, ainda que com ódio mortal.

Embora eu aceitasse as caricias, meu rosto fitava o chão e as lagrimas banhavam meu rosto. Em mim havia uma força de resignação completa. Algo me compelia a não mover um musculo sequer para levantar minha cabeça e fitar aqueles olhos de desgosto, desamparo e solidão. Talvez medo, vergonha, a falta do perdão próprio e a aceitação de que seu narrador não é perfeito, nem é o que esperam que ele seja.

Seus dedos suaves subiram até a face acariciando a barba por fazer e secando as lagrimas. Por ali pousou e permaneceu por poucos segundos. É possivel, fiel e querido leitor, que as lagrimas sejam retiradas de teu olhos, mas não jamais removerão de teu coração a dor, a angustia. Por vezes conseguimos até suprimir algumas de nossas tristes emoções com novas alegrias e vivencias, mas isso demanda tempo e apenas ameniza a dor, não a apaga.

Aquela doce e suave mão desceu até meu queixo e forçou lentamente meu rosto em direção ao seu. Fechei meus olhos. Não deveria fitar a escuridão que eu mesmo criara. Fugi daquele olhar mirando novamente o chão. Mais uma vez resignado, desamparado e desgostoso.

Vendo que o oceano não se desfizera e que a estação possuia kilometros, aquela mulher de perfume inconfundível apertou-me contra seu peito. Ah! Meu fiel e amado amigo, o calor daquele corpo, as batidas rapidas do coração, a respiração desritmada, eram detalhes que eu conhecia com propriedade e experiencia. Conheço este corpo, cada milimetro e a cada detalhe eram tão meus quanto dela.

Agora, totalmente perdido, entrego-me à meu amargo sentimento. Minhas mãos buscaram seus braços, e as dela puseram-se a acariciar-me novamente. Balançamos nossos ossos sobre o assobido do vento no assoalho e dançamos uma melodia melancólica e colérica. Dois insetos brancos bailando pela estação.

As mãos atravessaram por baixo dos meus braços, levando-me a circundar sua nuca com meus braços. O calor aumentou e a força do sentimento pareceu revigorar-se novamente. Como uma brasa que tenta converter-se em chama, sem sucesso.

Então aquela mão tão estranha, antes tão conhecida, buscou em seu casaco um filete de papel branco dobrado. Suavemente e silenciosamente aquela carta percorreu um curto espaço até atingir meu bolso. Não percebi este movimento, todas as minhas forças estavam concentradas naquele ultimo abraço, no ultimo toque, no ultimo adeus. Dei todo o sentimento e poder havia em meu corpo, não era muito, mas foi tudo o que eu pude dar naquele momento tão negro, tão trágico.

Quando abri meus olhos novamente, vi a fumaça, ouvi o tintilar dos metais, o chiar dos trilhos em atrito com a locomotiva freando. A mão que postou a carta em meu bolso ficou livre e se enlaçou com a outra apertando-me num abraço ainda mais forte e triste que antes. O trem chegou à estação e eu devo partir.

 

Continua.

3 Comments»

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    Isso está ficando cada vez mais intrigante…
    Rainier, tem uns errinhos aqui e ali…precisa uma revisada, como por exemplo:a mistura de “seus” e “teus” na mesma frase; As mão… na última frase…
    Nada que comprometa o texto lindo que é, mas melhor acertar.
    Fico no aguardo da próxima… ansiosamente.

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Querido amigo, que bom que estais ficando intrigado. A próxima parte é sem dúvidas a parte que mais gosto da história, mas não posso falar muito para não estragar a surpresa…

      Quanto aos erros eu revisei o texto e enviei as correções. Creio que agora o texto está melhor.

      Quanto a próxima, bem, é só aguardar sair da agenda. Já está pronta, e deliciosamente melancólica.

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