O início
Escritor: Siqueira Renard
Quando eu era criança, adorava ouvir as histórias da minha avó. Não por causa das histórias em si, mas porque eram contadas pela minha avó. Não eram dessas historias que todo mundo conhece, de João e Maria e da Branca de Neve. Ela me contava as histórias da rainha Ester e do Golem, de Aladim e do Povo Encantado. E o modo como elas as contava! Suas palavras quase me faziam ver as torres altas de cidades maravilhosas, as belas princesas e os valentes heróis que as resgatavam de monstros terríveis, depois de viverem aventuras cheias de perigo e suspense.
A minha talvez fosse a última avó que contava histórias para a sua neta antes de dormir, e isso era algo só nosso, o nosso segredo. Minha avó era uma pessoa triste. A imagem mais antiga que tenho dela é vê-la chorando, num canto do seu quarto. Eu não entendia tanta tristeza, se já que ela era uma pessoa muito boa, amada por todos. Perguntei para o meu pai o motivo, e ele disse que era porque ela morria de saudade do meu avô, morto há muitos anos, num desastre de avião.
Um dia, eu tinha sete anos, meus pais haviam ido em uma festa qualquer, e ela tomava conta de mim, então perguntei a ela se ainda sentia muita saudade do vovô. Ela só parecia estar esperando essa pergunta para desabafar e respondeu, “Ah, sim”, “sabe, é uma pena que você nunca irá conhecê-lo, minha pequena. Ele era tão bonito, tão nobre, tão bondoso, parecia ter saído das histórias da Távola Redonda”.
“Saído da onde?”, eu perguntei, pois nunca tinha ouvido esse nome. Ela me olhou com ar de surpresa, e respondeu: “Você não conhece a história dos cavaleiros do Rei Arthur?”, “Não”, eu disse. “Quem são eles?” “Sente aqui que eu vou lhe contar”. E ela me contou, a primeira de muitas outras histórias. E aconteceu algo extraordinário. Toda a tristeza acabou, e o rosto dela se iluminava enquanto ela contava as façanhas de Lancelot do Lago. Depois disso, ela continuou a ser uma pessoa triste, exceto quando estávamos juntas, eu sentada em seu colo ou deitada na cama, ela me contando alguma dessas histórias maravilhosas. Ai ela recuperava a alegria, parecendo viajar junto comigo até as portas da cidade de prata, capital dos Encantados. Minha avó era como Sherazade, sempre deixava um gancho para a próxima história, com um gostinho de “quero mais”. Eu preferia mil vezes ouvir as histórias da minha avó a todos os desenhos animados e filmes do mundo.
O que eu mais gostava nelas eram os seus finais felizes. Não importa o tamanho do perigo, o quanto fossem assustadores os monstros a serem enfrentados, no final, com inteligência e a ajuda da sorte, tudo poderia ser superado, e meus heróis e heroínas no final alcançavam a felicidade. Era como naquela história de Simbad, o marinheiro. Ele havia sido enterrado vivo em um túmulo, para morrer de sede e fome. Mas achou uma saída seguindo a luz do sol que penetrava por um buraco mínimo entre as paredes. Acho que é daí que vem a expressão “luz no fim do túnel”.
Era isso que minha avó queria me ensinar ao contar todas aquelas histórias. Por pior que fosse, o nosso desespero sempre tinha um fim. A escuridão não era absoluta, sempre podíamos achar um raiozinho de sol a nos aquecer e nos mostrar a esperança.
Deus, como eu gostaria de acreditar nisso agora.
Mas minha avó estava errada. As coisas não acabam sempre em finais felizes. Não para a maioria das pessoas. Ela morreu quando eu tinha 11 anos, em paz na sua cama, e sinto o vazio da sua ausência até hoje. O que me consolava era que ela iria estar de novo junto com meu avô. Mas agora, três anos depois, estou sozinha no mundo, absolutamente só, e não encontro nenhum raiozinho de esperança que possa me guiar.
Meus pais morreram. Morreram em um estúpido acidente de carro, causado por um idiota bêbado que queria se exibir apostando um pega. Eu estava com eles, nós voltávamos de uma festa, estávamos felizes, rindo bastante, e num minuto toda a minha vida acabou, ficou destroçada como os restos do nosso carro.
Não sabia o que ia acontecer comigo depois disso. Meu pai não possuía parentes próximos, e os dois irmãos da minha mãe viviam fora do Brasil, um na Europa e outro na Austrália. Mas, no último momento, uma surpresa. Minha avó possuía um irmão, que vivia em São Paulo, e que aceitou que eu fosse morar com ele.
Então, uma semana depois, estou aqui, prestes a embarcar num avião, morar com um parente que eu nunca vi na vida. E você não está aqui, vovó. Não está aqui para me abraçar, me colocar na cama e dizer para eu não ter medo, que tudo vai ficar bem no final. Por que você não está aqui agora?
3 Comments»
RSS feed for comments on this post.








Espírito do Século. Novo RPG Pulp da RetroPunk já entrou em pré-venda!
Editora UNZA RPG estreia com suplemento GOBLINS em campanha para OLD DRAGON!
Alan Moore pede que leitores de Before Watchmen nunca mais leiam obras de Alan Moore
Papo na Estante 34 – Prêmios Literários
Papo na Estante 33 – Literatura de Entretenimento
Show, Don’t Tell ou Mostre, Não Diga.
Occupy Comics: Alan Moore e David Lloyd colaboram
Resenha do livro "O estranho mundo de Tim Burton"
Filhos do Éden - Herdeiros de Atlântida 


Olha eu particularmente não gosto de conto assim, vc fica em duvida sobre o que o autor quer afinal. O inicio lembra um conto para crianças, e a menina parece ter uns 7 anos o conto inteiro, depois fica meio caótico, entrando em uma desgraça total, acho que vc tentou colocar uma emoção, e admiro a iniciativa, mas se perdeu um pouco na tentativa. O que vc queria passar? Nostalgia talvez? Mas a ideia em si esta boa, precisa de mais trabalho, e decidir como usar a personagem, suas emoções, motivações, e psicologia.
Legal suas críticas. Mas a ideia era que este fosse o inicio de uma história maior. Postei aqui para ver o que os colegas acham dele como começo. O aprofundamento da personagem vai ficar mais para frente.
Sim, mas a questão é quem é a personagem. Perguntas importantes, que não precisam ser respondidas, mas esclarecidas.
Quem é a personagem? (psicologico)
Quantos anos ela tem? (atitudes e fala demonstram isso)
Qual o conflito dela aqui?
Entende. Pra que fique um pouco mais interessante