O Novo Roger
Escritor: Lucas Millan
Roger nunca foi a pessoa mais bonita do mundo. Muito pelo contrário, seus típicos apelidos no colégio nunca denotavam muita beleza. Mesmo agora, com aquela mulher deliciando-se com suas partes baixas enquanto ele degustava uma copa de um vinho barato, ele se sentia um ser feio. Um ser feio recebendo um boquete acima da média. Se lhe perguntassem, diria que não se sentia tão desgraçado quanto se sentira em sua juventude, não senhor. Aquele era outro Roger, um Roger que ele fizera muito bem em matar.
Ajeitou-se na poltrona do quartinho de bordel enquanto dava um novo gole em sua copa. Um vinho medíocre em um puteiro medíocre de uma cidade medíocre. Qual era o nome mesmo? Não havia estado ali tempo o suficiente como para lembrar, mas o suficiente para saber que iria embora no dia seguinte. Aquela cidadezinha não poderia oferecer nada emocionante ao novo Roger. Ao antigo Roger, talvez, mas não ao novo.
Mordeu o lábio inferior. O vinho poderia ser ruim, mas a puta não era. Olhou para ela e seu tesão aumentou. O fato de ser uma completa desconhecida apenas ajudava. O fato de não dever nada à ela apenas lhe proporcionava mais e mais prazer. E ansiedade por chegar ao ponto culminante de uma vez…
Mas a noite é uma criança. Ainda lhe restava meia copa de vinho e ainda se achava feio. O velho Roger continuava dando chutes em seu caixão e enquanto ele não voltasse completamente à seu sono funerário, o novo Roger nunca poderia disfrutar completamente do momento. Do cheiro de madeira do solo, do ranger da poltrona e dos estalos úmidos da língua da garota, do sabor acre do vinho. Da empolgada e quente boca.
E, o mais importante, do tato do cabo da pistola que mantinha pressionada contra a testa da puta, sua pata direita empunhando-a firmemente.
O velho Roger desaprovaria isso. Era muito covarde para verdadeiramente aproveitar um momento como aquele. De vez em quando podia ouvir como ele murmurava desde sua tumba: “Monstro! Você é um monstro!”. Mas o ignorava. Havia muito que o antigo Roger lhe havia dado sinal verde para controlar a vida de ambos, não deixaria ele se intrometer de forma alguma.
Afinal, aquela puta era demais…
Demais…
O antigo Roger nunca havia tido um orgasmo. Pelo menos não oferecido por uma mulher, muito menos como aquele. Gritou; não se reprimiu e uivou enquanto segurava a cabeça da garota. A pata que empunhava a pistola estremeceu-se ligeiramente, ao mesmo tempo que uma lágrima escorria dos olhos apertados da prostituta.
Uma vez passado o orgasmo, franziu o cenho para a garota, quem tossia descontroladamente. Engasgada, provavelmente. Aquela lagrima fizera o velho Roger berrar em seu caixão. Berrar histericamente. Isso atrapalhava muito sua diversão.
Fazia-lhe esquecer da importância da diversão.
Um estrondoso disparo foi suficiente para cessar os gritos do defunto. O baque surdo do corpo caindo no carpete vermelho lhe fez ter um novo orgasmo. Ah, aquilo sim era o prazer que o velho Roger nunca tivera culhões para procurar… O verdadeiro prazer.
O prazer de ser Deus.
Suspirando, admirou a cena. A cor do sangue fresco que era absorvido pelo carpete combinava ironicamente com o mesmo. Isso fez Roger rir. Gargalhar, na verdade. Gargalhar até seus olhos se encherem de lágrimas, até ser obrigado a parar por um ataque de tosse. O novo Roger já não era tão novo assim.
Levantou-se, subiu suas calças, tirou um cigarro do pacote em seu bolso traseiro, acendeu-o em uma vela que se consumia em um criado mudo e saiu do quartinho, sem preocupar-se em abotoar sua camisa. Seu corpo era um corpo feio, vencido em feiura apenas por seu rosto. Mas aquela noite se sentia lindo. Mais que Apolo, mais que a puta Afrodite. Aquela noite, como as noites de seus últimos dois anos, ele se sentia um deus. Uma noite mais vivia seu apoteótico ritual.
Agora lhe restava ir embora daquela cidade sem um nome importante. Bem longe, ao norte, ao leste ou ao sul, longe do lugar onde havia enterrado o velho Roger. Longe de onde as pessoas possam procura-lo. Até o dia de seu Juízo Final particular, quando sua feiura nunca mais importará. E até esse dia de perfeita felicidade, o novo Roger se contentará com a felicidade imperfeita, fugaz e intensa.
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