Os Campos de Marte – Capitulo II
Escritor: João Cunha
Fausto se afoga no próprio pessimismo.
Uma nuvem sombria rodeia paira sobre mim e dela chove apenas tristeza. Não é como eu queria me sentir, mas assim é.
Uma sensação que me acompanhara pela vida inteira parecia tentar tomar conta do meu ser. Claro que jamais iria tornar isso claro em meio à assembléia do sindicato, mas agora, sozinho, conter-me seria difícil. É impossível explicar este sentimento em sua totalidade, pois não se explica coisas que não existem. Infelizmente, mesmo algumas coisas não existam, elas ainda podem ser sentidas e deixam marcas tão profundas que atravessam os séculos conosco.
Lembra-se de uma vida passada, tão antiga e animalescamente simples que era impossível dizer se seu cérebro era evoluído o bastante para lembrar-se de algo? Quando todo o mundo se resumia a uma suja clareira na qual você e sua tribo sentavam ao redor de uma fogueira, com medo da escuridão? O medo instintivo que era a única coisa que lhe mantinha vivo também lhe cegava, não deixando perceber que não havia nada lá. Nem ninguém. Era apenas você e o vazio buscando um ao outro. Talvez fosse melhor nunca entender que a única coisa existir no universo.
O eco do crescente (mas ao mesmo tempo infinito) vazio primordial expandindo-se para nenhum lugar, varrendo qualquer possibilidade de que algo viesse a nascer. O desespero de vagar neste espaço vazio, sem razão ou objetivo qualquer a ser alcançado. Tudo se resumia a uma eterna queda a um abismo que nunca iria chegar. Ser o Uno, tão solitário que a idéia de se tornar um com o nada era quase irresistível. Se há uma forma explicar o que eu estava sentindo, era essa. Sim, eu sentia a mesma dor que Deus sente.
Este sofrimento espiritual – caso eu tenha algo semelhante a uma alma dentro de mim – impedia com que eu pensasse claramente. Inicialmente teria sido fácil chegar a conclusões que eu e meus semelhantes parecíamos negar com todas as forças, pois nunca tive de fazer o percurso entre o questionamento e a resposta. Só tinha de abrir uma passagem para saber a resposta, mas dessa vez não deveria ser feito. Se até mesmo as coisas que eu considerava lógicas caiam dentro das trevas da incerteza, coisas piores poderiam acontecer caso o caminho convencional não fosse seguido.
O que fizera esses sentimentos constantes aumentarem? O fato de que quando pensei que tinha conseguido morrer, simplesmente não aconteceu. Tudo havia sido planejado. O que, como, onde, quando, todos esses elementos foram escolhidos por mim durante décadas, mas aqui estou eu, vivo e mais uma vez em Valhalla. Assim como minha essência, a cidade mudara em seu exterior, mas ainda era a mesma.
Através da névoa de ignorância e fedor que rondava pelas ruas da cidade, as construções, as antigas casas onde eu e meus companheiros vivemos por meses agora são maculadas pelos descendentes de nossos inimigos. Aquela argila, que só é encontrada nos Campo de Marte, um nome tão intencional e tão errôneo para uma torre, ainda mantém a estrutura das construções estáveis. As raízes do futuro parecem se fixar na cidade de maneira aleatória. Há alto-falantes espalhados pelas casas, mas nenhum outro tipo de tecnologia para tornar suas vidas mais fáceis. Em sua essência, o tempo parecia etéreo naquele local, já que os habitantes ainda podem estar vivendo no passado, buscando tesouros e matando dragões, enquanto as famílias do império já desfrutam de fusão a frio e mochilas a jato, mesmo que nunca cheguem ao nível de desenvolvimento que a antiga civilização chegou.
Essa torre, ou melhor, esse universo nunca deixou de apodrecer, na verdade, ele está crescendo intensamente enquanto se alimenta dos espíritos de milhares de pessoas que nasceram e morreram apenas por ela. Para um prédio, ela é tão vulgar quanto um ser humano. Ela mente e trapaceia, promete dar coisas que ninguém jamais viu. E qual é a função dela? Nenhuma.
Ninguém além de mim andava pelas ruas de Valhalla. Nenhum era possível de ser ouvido. Mesmo ciente de que no mínimo seiscentas pessoas moravam naquela cidade, eu não sentia a presença de ninguém ao meu redor. Talvez eu simplesmente estivesse ignorando a existência de todos os outros para focar-me apenas em minha depressão. Era melhor assim. Se algumas poucas pessoas por ali já se mostravam insuportáveis, imagine uma centena delas ao meu lado? Adão, Eva e o líder de cabelos ruivos já eram o bastante para me perturbavar profundamente.
Adão e Eva eram uma constante em minha vida. O destino sempre me forçava a encontrá-los, não importava se era um momento oportuno ou não, apenas acontecia. Tenho uma série de teorias sobre o assunto. Minha favorita é que o passatempo favorito de Deus é assistir o sofrimento de Adão. Ao longo dos anos, o não-casal não mudou nenhum pouco. Ele é medíocre demais e ela é perfeita demais. Ele está apaixonado por ela e a persegue, algumas vezes ela percebe, outras não. Ele demora alguns meses ou anos para ter coragem de se declarar, e quando o faz, ela diz que ele não é o bastante para ela. Ele não suporta a rejeição e simplesmente desaparece da vida dela e de todos. A única coisa interessante a descobrir nessa história é para onde ele vai, mas nunca descobri.
O que me irritava em tê-los visto logo aqui no Campo de Marte é que os encontros só acontecem uma vez em cada lugar. Já havia encontrado Eva nessa torre a muito tempo atrás, e acredito que existiu um Adão com ela, mesmo que isso só tenha sido claro quando o ciclo deles chegou ao fim. Vê-los duas vezes no mesmo lugar no mesmo lugar abalava quase que totalmente minha percepção de realidade e com minha existência já oscilando entre o existir e o não-existir por não conseguir morrer a tortura só era ainda maior.
Quando ao líder de cabelos ruivos que anunciará minha entrada no sindicato, os motivos pelos quais o detesto são mais simples. Eu desprezo sua existência desde que o vi por puro instinto. Tal ódio súbito não é uma sensação nova e já me fez sobreviver a muitas situações perigosas, então por que ignorá-lo agora?
— Você precisa ser o centro de tudo, não é? – Perguntara Sofia num tom tão gentil que as ofensas pareciam desaparecer.
Sofia é um exemplo perfeito de como a aparência do Risi, os ciganos que vieram para o Campo de Marte há quase mil anos atrás, não mudou em nada. Cabelos e olhos pretos, nariz finos, pele pálida não importando o tempo que ficassem expostos ao sol. Sim, ela era um ótimo exemplo, se não fosse o fato de que ela não media mais do que 1,65m diferenciando-a do resto de seu bando, que eram normalmente altas. Como a maior parte dos “defeitos”, sua estatura lhe dava personalidade, assim como as cicatrizes de Alice lhe tornavam diferente. Pensar naquela figura que conheci a tantos anos nessa mesma torre era sentenciar-me a alguns anos de sofrimento. De novo, mas se já estou imerso nessa sensação, por que me importar com mais dele?
— Do que está falando? – Perguntei me fazendo de ingênuo
— Se fazer de estúpido meia-hora depois de se fazer de inteligente, não é uma atitude muito sábia, concorda? Talvez você não seja esperto o bastante para pensar nessas coisas… – Disse ela ironicamente
— Então você está insinuando que eu sou realmente idiota?
— Claro que é, mas não é sobre isso que vim falar com você.
Normalmente eu não deixaria aberturas tão fáceis para ser insultado, já que devo ser a pessoa mais próxima em todo o universo até um curso superior em sarcasmo, mas não conseguir morrer parece ter acabado com o meu senso de humor. Acontece.
— Então, você realmente não veio apenas insultar o homem que salvou sua vida? – Perguntei.
— Sim
— Então, por que veio falar com o homem que salvou sua vida?
— Eu vim oferecer um quarto no dormitório em que eu, Marco e todos os outros do nosso grupo ficamos, mas dizer que se referir sempre como “O homem que salvou sua vida” perde o impacto depois que é dito pela segunda ou terceira vez.
Não havia um motivo especifico para continuar a falar de mim mesmo como aquele que a salvou, e na verdade, não posso realmente ser considerado o seu salvador já que eu mesmo preparei a armadilha na qual ela e o outro escalador caíram. Eu tinha que fingir salva-los para terem confiança em mim e me deixarem entrar em Valhalla por vontade própria. Deviam existir planos melhores do que esse, mas não se pode esperar muito de alguém que havia acabado de parar no Campo de marte tendo pensado que havia morrido.
— Você pode estar certa
— Eu sei
— Há outro lugar para eu morar aqui em Valhalla que não seja no seu dormitório?
— Tem a prisão – Ela respondeu rapidamente. Acho que Sofia tinha planejado o que diria para me convencer antes mesmo de me abordar. Devo admitir que ela é a coisa mais próxima de vida inteligente entre os Risi.
— Obrigado pela oferta, acho que vou aceita-la – Falei fingindo ser alguém agradável
— Foi tão difícil assim – Ela não estava se esforçando para parecer agradável.
Após alguns minutos de uma silenciosa caminhada, eu e Sofia chegamos ao dormitório que ela falara. Eu me lembrava daquela casa na primeira vez que vim ao Campo de Marte. Uma casa de três andares feita de “argila” com uma runa em formato de “P” presa a sua fachada. Essa era a moradia na qual os Risi tinham se hospedado pela primeira vez a mil anos atrás. Aqueles que não conhecem a lei dos números grandes diriam que é apenas uma coincidência, mas para mim era algo mais. Estava em duvida se ela havia me convencido a ir com ela fosse meu destino, se eu ainda tenho um.
Sofia me conduziu até um salão onde havia quatro mesas, que ocupavam quase toda a sala, já arrumadas para o jantar. Nas paredes os retratos de antigos escaladores estavam presos. Eu poderia dar o nome de uma dúzia deles. Em destaque, o retrato de Sabrina parecia ser a pintura da matriarca ancestral dos Risi, o que estava bem longe da verdade. Seus cabelos ainda eram loiros na época e seu nome real ainda me era desconhecido. Todo mundo parece ter um passado vergonhoso e aquela era a prova que até mesmo uma pessoa tão sensata quanto ela tinha um.
Apesar de o seu exterior demonstrar que aquela residência ainda tinha muito a dar, tudo no interior daquela casa parecia estar se aproximando da hora em que morreria de velhice (com exceção dos moradores, que provavelmente era um bando de adolescentes), mas seus donos tentavam manter tudo conservado, pois talvez não tivessem meios de adquirir uma mesa ou copos novos. Se eles mal recebiam mantimentos, imagine se o império iria ter o cuidado de mandar porcelana.
Contrastando com o cuidado que parecia ter com tudo ao redor, duas crianças, que não tinham mais do que treze anos, corriam pela casa perseguindo um ao outro sem preocupação alguma com o fato de que poderiam acabar destruindo todo o lar. Eles passaram por nossa frente, rumo a um corredor que provavelmente daria nos quartos. Crianças. Como eu odeio crianças.
— Se não se importa, vou impedir que eles destruam a casa e trocarei de roupa. Pode se sentar – Ela apontou para um sofá mais a frente – Daqui a pouco jantaremos. Acho que é confirmado que você morará aqui, então tem que conhecer os outros. Todos os outros.
Ela foi direção do corredor pelo qual as duas crianças tinham seguido e desapareceu da minha vista. Sentei-me numa das cadeiras próximas as mesas e visualizei os talheres que repousavam sobre a mobília. Enquanto brincava de passar a faca entre os dedos, analisei um relógio de pendulo que se encontrava encostado na parede, marcando 6:39, da noite ou da manhã, mas o pendulo e o ponteiro não se moviam, o que tornava possível que poderiam ser 6:39 a 39 anos. Tentar ter uma noção de tempo na torre é perda de tempo. Perdoem-me o trocadilho.
Cogitei que teria alguns instantes de paz, mas o garoto que trazia o jantar me fez mudar de idéia. Ele era um rapaz alto, pálido e que não tinha mais do que 16 anos. Numa mão ele trazia uma panela aberta, que parecia conter algumas frutas fritas, – provavelmente vindas dos Eliseos – e na outros pratos, mais de cinco ou seis. Era difícil contar com ele se movendo tanto. O garoto (que se fosse levado em consideração apenas a aparência, seria dois ou três anos mais novo que eu) cambaleava até a mesa de jantar, ameaçando derrubar tudo no chão. Cogitei ajudá-lo, mas ver tudo cair parecia mais interessante. Acredito que as crianças, que olhavam tudo do corredor do qual o rapaz havia saído, concordavam, pois também assistiam torcendo para terem seu jantar jogado fora.
Quando conseguiu ter a pequena vitória de chegar até as mesas de jantar sem derrubar nada, mas chegando perto de fazê-lo inúmeras vezes, o desconhecido depositou tudo que trazia na mesa e começou a arrumá-la. Quando terminou, fez um sinal para que as crianças viessem como se fosse seguro agora e elas assim fizeram. Cada uma trazia um prato consigo. Elas pareciam assustadas pela minha presença, com exceção do mais velho.
— Quem é você? – Perguntou ele
— Sou Fausto, filho de ninguém – aquela não era uma resposta satisfatória, então continuei a falar – Sofia me trouxe aqui.
— Ah, você é o novato que tem o mapa. Não reconheci seu rosto. Sofia disse que você é legal. – Ele falava num tom despreocupado, mas corara de leve ao citar Sofia – Eu me chamo Chris, filho de Jorge. Adoraria ficar batendo papo, mas tenho que avisar aos outros que o jantar está pronto.
Parecia que ele ia sair do recinto, indo chamar os outros, como uma pessoa educada faria, mas Chris limitou-se a gritar convocando todo para o jantar. Os moradores da pensão vinham rapidamente e sentavam-se em cadeiras que pareciam pré-determinadas para cada um. Eram vinte e três se não errei ao contá-los. Todos muito jovens, o que deixava claro que Sofia devia ser a pessoa mais velha a morar ali. Aquela pessoa inconveniente já tinha vinte anos, o que lhe dava um status de anciã em Valhalla.
Fiquei olhando para aquelas pessoas na mesa e elas olharam para mim. Eu teria que comer com eles. Comer vem sendo um problema faz um bom tempo, pois desde que consigo me lembrar, sinto um gosto terrível apenas com minha saliva, e com alimentos, e até mesmo água, torna tudo pior. É como se minhas papilas gustativas não estivessem adaptadas a comida de praticamente todos os mundos existentes. Talvez isso tenha me tornado tão amargo, já que não consigo apreciar pequenas coisas como uma refeição.
O imaginário que eu tinha sobre Valhalla e os escaladores parecia ser esfaqueado por aqueles que carregam o legado dos sindicatos criados no milênio passado, – Essa data é apenas confirmada pelo que Sofia me disse antes da minha prisão – eram nada mais que um bando de crianças mimadas. Eles apenas comiam e brincavam enquanto ignoravam o mundo cruel e os horrores que nele veriam ao irem além dos portões da cidade. Talvez já o tivessem feito, pois não havia adultos para lhes privarem de suas responsabilidades. Esse é um bom ponto para pesquisar depois, por que não havia ninguém com mais de vinte e cinco anos no sindicato? Sim, era uma pergunta ser respondida no futuro, mas uma outra se debatia em meu cérebro com mais convicção: O que eu faço aqui?
Por que eu fui jogado num campo de batalha onde meus novos senhores são apenas um bando de inúteis com um grão de autoridade e nenhum talento? Por que agora terei que morar com um bando de crianças, e até mesmo comer com eles?
Pare de chorar, Fausto, e aceite as coisas como são feito um homem. Isso soa muito melhor quando Arthur diz e quando o nome não é Fausto. Fausto ainda não me soa bem, e nunca soará. Tudo está dentro do plano, à única questão é que não sei como ele é.
Não gosto de me aprofundar muito sobre a natureza do plano, pois para ele dar certo, preciso me abster de compreendê-lo em sua totalidade até que ele esteja completo, mas em resumo, trata-se de uma cadeia de pequenos e grandes eventos que não tenho idéia do quão complexa seja, ou quando começou e como terminará. Posso prever quais serão os dois próximos passos me baseando na “pista” que me foi deixada para seguir, mas não consigo ver além. É possível que o plano nem ao menos tenha começado ainda. Honestamente, eu pensei que já tinha visto fim ao tentar me matar, e a morte seria meu objetivo, mas me enganei.
Não consigo analisar esse estratagema por um ponto de vista que não seja o meu, ou melhor, não consigo ver nada que não seja da minha forma, e exatamente por isso ficarei imaginando por toda a eternidade o que pretendo fazer e porquê. O que exatamente significa essa cadeia de eventos, e o que ela não significa também, por que não me deixo saber a verdade, são alguns dos questionamentos caso um dia conseguisse encontrar-me comigo mesmo. Talvez eu não compreenda porque quando terminar, não serei capaz de contar a verdadeira história. Sou parte dela e qualquer coisa que eu diga pode ser o bastante para mudar a verdade sobre o plano.
Como podem perceber, não tenho idéia de nada que sei sobre o plano além disso, e o que eu sei sobre o plano é que não entendo o plano.
— Você está igual a Sofia! – Disse a criança sentada ao meu lado enquanto jantávamos – ela começa a…a.. Qual seria a palavra?
— Acho que o termo correto é “pensar” – respondi.
Claro que ele não percebeu a ofensa implícita do meu comentário, pois logo perdeu o foco ao encarar o meu relógio de bolso, fascinado.
— É o menor e mais bonito relógio que já vi na vida! – Ele disse
Como Sofia não estava ali para discipliná-los, os pirralhos não se incomodaram com a falta de educação que era se levantar dos seus lugares durante o jantar para verem o meu relógio de bolso. Era realmente uma peça invejável, mas não é bom o bastante para que quinze projetos de pessoas se agrupem ao meu redor apenas para vê-lo. Os mais velhos cogitaram me salvar, mas um deles, um Risi típico, mas cheio de cicatrizes, que indicavam alguns momentos ruins enquanto estava fora de Valhalla. Os outros olharam para ele e com um gesto negativo, disse “deixem o novato sofrer”.
— Onde você conseguiu isso? – perguntou uma das crianças
— Foi um presente – Respondi
— De quem? – Ele continuou
— Eu mesmo
— Você não tem ninguém para te dar presentes?
— Quase isso.
— Isso quer dizer que ninguém te ama? – Perguntou uma criança rechonchuda.
Isso era o mais perto que tive de uma iniciação era aquele momento. Nenhuma apresentação formal ou hospitalidade. Eles eram tão Risi quanto seus antepassados. Mal-educados e inconvenientes. Talvez fossem o povo mais adequado a ser escravizado pelo império para pilhar o Campo de Marte, já que são socialmente inaptos e poucos entre eles pensam.
Desejei matar todos naquela sala, tanto porque seria uma vingança pelo passado quanto para apenas ter alguns minutos de silêncio. Céus, como que queria matar todos ali, inclusive as crianças. Principalmente as crianças.
— Vamos deixar as perguntas vergonhosas para quando Sofia estiver aqui, ela é a melhor nisso do que todos nós juntos – Disse Marco num tom muito mais feliz do que aquele que ele possuía quando salvei sua vida. – Agora é a hora de jantar
Marco não deveria ser um Risi, não só por ser levemente suportável, mas como por ter uma fisionomia diferente dos outros. Era muito magro, tinha cabelos loiros e de altura mediana. Com certeza filho de algum viajante que se fixara em Valhalla ou refém do sindicato desde que nasceu. Há muitos povos vivendo no Campo de Marte, então, ele poderia ter vindo ou parado em qualquer lugar, mas tivera o azar de estar entre os Risi. As crianças seguiram o conselho de Marco e me deixaram em paz.
Todos ficamos em silêncio por um certo tempo, até que um jovem da mesma idade de Chris, com uma aparência estranhamente felina resolveu quebrar a paz que baixara temporariamente entre aqueles que jantavam.
— Deus, como quero não ter de ir para a próxima expedição… Não quero ter que ir para aquele inferno novamente. – Lamentou um deles.
— Comece a trabalhar no setor administrativo – Sugeriu Marco
— E como faço isso? – perguntou o garoto
— Você vai até a sede do sindicato e procura um dos administradores. Sugiro que escolha Eva, ela é a mais coração mole, e vai acabar ficando com pena de você. Peça um trabalho de arquivamento de dados – é algo que qualquer idiota pode fazer – e ela vai conseguir uma entrevista com o responsável por este setor. Agora vem a parte importante. Está prestando atenção?
Ele assentiu. Não só garoto, mas como todos pareciam bastante atentos no que Marco dizia. Sua opinião era bastante importante, e não deixava de ser interessante.
— Como você age na entrevista é a parte mais importante. Conte até dez enquanto pensa numa resposta e use o menor numero de palavras possíveis para não cometer nenhum erro, mas conte rápido e não pareça um retardado monossilábico. Sempre olhe nos olhos do entrevistador, mas não o encare ou dê a impressão que está dando em cima dele. Pareça inteligente, mas não um gênio porque vão acabar dando um trabalho mais complexo para você. Seja engraçado, mas não faça ele dar gargalhadas. Você tem que causar uma boa impressão, mas ele tem que se esquecer que você existe assim que sair. – Ele respirou fundo e disse para terminar seu pequeno discurso – Se der tudo certo, você consegue trabalhar lá por um mês ou dois e volta para as expedições… Entendeu, Caleb?
Tudo aquilo parecia complicado demais para Caleb, que deu de ombros e buscou nos olhos de seus companheiros outras sugestões. Era necessária uma ótima atuação para conseguir fazer tudo que Marco recomendara com precisão.
— Finja que quebrou a mão ou braço. – Sugeriu Chris
— Não adianta em nada, mesmo que ele convença que está com a mão quebrada, ainda vai conseguir atirar com a outra mão. Não o dispensariam por isso – disse outro
— Ok, ele pode fingir que quebrou a perna – aconselhou Chris
— Nunca ouviu falar de iscas? Eu seria mandado de qualquer jeito, mesmo com uma perna quebrada para ser deixado para trás enquanto os outros correm – Protestou Caleb
— Quebre as duas pernas de verdade – falei.
Todos me olharam por um instante, avaliando se eu tinha falado aqui seriamente ou não. Foi uma péssima idéia ter interagido com eles por livre e espontânea vontade, isso nunca leva a nadar, mas mesmo assim, cometi um erro simples. Falar com eles era diferente de falar com as crianças, pois os mais velhos, que não eram tão velhos assim, viram aquilo como um sinal de que as portas para um diálogo estavam abertas. Se fossem sábios, teriam noção de que falar com um mal-humorado não leva a nada, mas eram apenas um bando de adolescentes curiosos, então eles falaram.
Um garoto gordo, provavelmente o irmão mais velho da criança rechonchuda que dissera que ninguém me ama, foi o primeiro a falar.
— Qual é seu nome mesmo? – perguntara ele, mas parecia mais interessado na resposta da pergunta que faria depois dessa – Aliás, como conseguiu aquele mapa?
— Relíquia de família. Meus ancestrais eram escaladores que não tiveram tanta sorte com seus filhos e netos, que desistiram de tentar chegar ao topo e foram embora deste lugar maldito. E agora voltei como uma espécie de filho prodigo ao local onde eles fracassaram. Não que eu queira reaver a honra da família ou nada do gênero, só acho esse trabalho bem mais interessante do que as outras possibilidades que me foram apresentadas do lado de fora. Meu nome é Fausto, por sinal.
— Entendo… Sofia disse que você era legal – Todos concordaram que ela tinha dito isso – Sou Daniel, filho de Daniel.
Me perguntei para quantas pessoas Sofia comentara que eu era legal e que iriam afirmar isso. Conhecendo-me desde que nasci, sei que não sou legal e é extremamente ofensivo que tentem me convencer do contrário com tanta veemência. Ela não aparecera novamente desde que chegamos, no mínimo suspeito. Quando eu ia perguntar onde ela estava, o escalador coberto por cicatrizes resolveu chamar a atenção de todos.
O homem com uma cicatriz transversal em seu rosto bateu seu copo na mesa, o que gerou um som que trouxe o foco de todos no dormitório para si. Ele não parecia bêbado, e não poderia estar, pois não havia álcool sendo servido, mas isso facilitaria muito minha situação, então lamentei a sobriedade dele. Assim como artistas de circo, os escaladores ser bastante unidos e repeliam instintivamente a entrada de qualquer pessoa em seu meio, atacando-o de todas as formas possíveis até que o intruso desista. Creio que já ficou obvio como acho que todos os artistas de circo e escaladores são crianças ciumentas, mas neste caso, realmente são.
— Você parece ser conhecer demais esse lugar para ser sua primeira vez aqui. Não importa o quanto tenha escutado e lido a cerca da torre, só a experiência te prepara para o que você enfrentar. Se bem que você ainda não viu o que acontece no vigésimo andar para cima, eu mesmo só acreditei quando vi. Não seria nenhuma surpresa ver um novato metido correndo de medo quando ele for testado no mundo real – Ele disse.
Era um desafio. Com exceção de Sofia e Marco, ele provavelmente era o mais velho por ali, mas não chegava a ser tão influente, tanto entre eles quanto no sindicato e a situação não tinha como se alterar a menos que ao morresse ou ele se mostrasse extremamente necessário para a população de Valhalla. Eu, por outro lado, só precisei de dois dias para salvar a vida de seus companheiros e me tornar uma peça fundamental para o sindicato. Não era por menos que ele sentia inveja de mim.
— Antes de tudo, qual é o seu nome? – Perguntei
— André – ele respondeu.
— Pois bem, André, Realmente pensa que isso é o mundo real? Vocês são personagens de um livro de fantasia aleatório, provavelmente criados pela mente de algum fracassado irrelevante para a vida de todos. O mundo real é chato, vazio e entediante, diferente de o que vocês vivem nessa torre. Vocês estão sempre em perigo, sentem emoções que simplesmente não fazem parte da realidade e parecem estar vivos. Nem estou considerando o fato de que vocês moram numa torre que surgiu há mil anos e ainda não se tem explicação de porque ela existe. Vocês são sonhos de outra pessoa.
Nem André ou qualquer outra pessoa na sala parecia querer replicar. Ao que tudo indica, eu parecia ter trazido a tona as mais profundas inseguranças que aquelas pessoas com rostos cobertos de espinhas possuíam. Talvez não fosse insegurança, mas sim um sentimento de ódio a si mesmo por sentir medo da vida mais fantástica que poderiam levar. A torre não passava de uma fuga da realidade, pois aquelas crianças consideravam o mundo grande demais para viver nele, e então decidiram se isolar naquelas masmorras, onde suas fantasias infantis poderiam ser reais desde que pagassem o preço necessário. Se eles vivessem o bastante para isso, iriam descobrir que não importa o quanto tentem fugir da verdade, pois ela virá até vocês.
Como é bom causar um pouco de incerteza na mente dos outros, sempre me faz sentir melhor. A dor dos outros me fazia esquecer da minha própria.
— Por que sempre que eu vejo você falando com outras pessoas, você está tentando tirar o chão debaixo dos pés delas? – Perguntara Sofia após adentrar na sala.
Ela vestia um longo vestido preto, que combinado com toda a maquiagem e adereços femininos faziam com que parecesse uma mulher, não uma garota, como todas que viviam em Valhalla, mas uma mulher. Provavelmente demorara todo o tempo que passamos jantando para produzir-se de tal maneira, mas por quê?
Aliás, por que ela não viera jantar com os outros? Não fazia sentido esconder-se por tanto tempo num quarto enquanto os outros comiam e ainda teriam pelo menos uma hora apenas se arrumando para o que quer que fosse acontecer.
Não havia comida para todos. Finalmente uma resposta que consegui formular que fazia sentido. Eram quase trinta pessoas vivendo juntas, e provavelmente recebiam a mesma quantidade de suprimentos que grupos menores, logo, sempre haveria uma escassez de alimentos em algumas “famílias”. Neste caso, meu prato provavelmente era pertencente a Sofia originalmente, mas como uma boa mãe, ela abrira mão dele. De certa forma, era uma forma estúpida de se agir, pois chegaria um ponto onde ela não seria mais capaz de cuidar dos outros.
— Eu posso dizer o mesmo do seu vestido?– Perguntei ironicamente
Era uma piada sem graça. Eles riram. Não posso esperar um senso de humor sofisticado de pessoas que tem como hobby arriscar a própria sem um propósito especifico. Outra coisa que todos os membros do sindicato parecem possuir é algo semelhante a um Deficit de atenção ou perda de memória, já que o clima tenso se desfez na sala, dando lugar aos risos. Pessoas normais não esquecem. Pessoas normais não riem em momentos assim, elas apenas fazem sorrisos falsos e guardam rancor para que quando possível, possam se vingar. É assim que as pessoas são, mas não as pessoas de Valhalla que conheci até então. Eles são tão puros quanto crianças.
O animo de todos, até mesmo o de André que se encontrava a fazer uma espécie de bico, típico de crianças que são repreendidas e não conseguem lidar com isso sem ser extravasando com seu corpo, parecia ter melhorado. Estavam calmos agora, até mesmo felizes. Essa melhora no animo devia-se pela presença de Sofia no recinto, que era a responsável não só pelo bem estar de todos, mas como por ser o grande suporte emocional daqueles escaladores.
Céus, como ela deveria estar cansada de simplesmente estar viva.
Para minha sorte, eu ter zombado da forma em como ela se apresentava no momento, havia sido o inicio para uma série de outras piadas e tiradas sarcásticas nem tão brilhantes. Elas talvez tomassem toda a noite, mas Sofia interrompera-as, não por sentir-se constrangida (na verdade, ela nem chegava a se importar), mas por tinham um compromisso.
— Cresçam um pouco. Temos uma festa em homenagem ao megalomaníaco e metido a misterioso escalador aqui presente, Fausto – Sofia insistia em me chamar de Fausto, o que era no mínimo cruel se ela soubesse o que estava fazendo – Se todos já terminaram o jantar, se arrumem, pois logo iremos sair.
— O que é megalomaníaco? – Perguntou uma das crianças.
— Alguém muito, muito metido.
— Então por que você não disse que ele era apenas muito, muito metido? – Ele replicou.
— Marco, você vem ensinando a eles como distrair os mais velhos para fugir das obrigações?
— Sim – Ele respondeu
— Diga que isso não funciona comigo.
— Ele está ouvindo o que você fala, não está, Gustavo?
— Eu estou!
— Ótimo, então você vai me escutar dizendo que você precisa tomar banho?
— Err.. – Ele disse com uma retórica impressionante para alguém tão jovem.
A discussão se alongou por mais algum tempo e claramente se tornou menos interessante do que era quando começou. Como se fossem realmente filhos de Sofia, alguns obedeceram rapidamente o seu comando e se enfileiraram na porta do banheiro esperando pela vez deles de o usarem. Outros fizeram um pouco de drama, mas também aderiram à ordem dela. Nada de fascinante, com exceção do fato de que Chris ter ficado vermelho por apenas trocar algumas palavras com sua Irmã mais velha/Mãe simbólica. Ele desejava um tipo diferente de relacionamento familiar com ela, mas isso nunca iria acontecer. Espere, isso não era interessante. Apenas deprimente.
Ninguém mais prestava atenção em mim, o que fazia tudo mais agradável. Aquele era o momento perfeito para fugir, e talvez nunca mais voltar a Valhalla, mesmo que o plano demandasse isso. Comecei a ir em direção a porta pela qual sairia, mas como todo bom fugitivo num dia estressante, fui facilmente interceptado.
— Aonde pensa que vai, mocinho? – Questionara Sofia ao me ver saindo.
Pensei em ficar feliz em não ser chamado de “Fausto”, mas ser rebaixado a uma criança ainda era ultrajante. Devo admitir que ser chamado de criança ainda era melhor para o meu ego. Um infante não era tão ruim quando um verme psicótico e obsessivo.
Ela ia começar a falar, mas parou por um instante e começou a olhar diretamente nos meus olhos. Seu semblante mudara. Sofia tinha algo de especial nela, algo com que todos os observadores possuem, a capacidade de ver através dos outros. Seus olhos, sem nada de especial, eram tão invasivos que tive por um segundo a vontade de contar a verdade apenas para me livrar dela.
— Minhas memórias estão confusas. Tenho tantas duvidas, e duvido até mesmo onde elas começam, pois as vezes sinto imensurareveis lembranças de anos se estendendo atrás de mim, enquanto em outros momentos parece que o presente é um ponto isolado num infinito sem forma. Não estou certo de se estou conseguindo transmitir a mensagem, mas sei que é necessário recuperar-me do choque que eu passei. Acho que tentei lutar contra o destino. – Admiti tanto para mim quanto para ela
— Isso é um concurso de encarar ou algo do gênero? – Ela perguntou – Para conversarmos os dois precisam falar, e agora é a sua vez de fazê-lo.
— Você não ouviu o que eu disse? – Perguntei
— Não, você está me encarando faz pouco mais de um minuto.
— Eu podia jurar que tinha falado algo – disse, atônito
— O que você pensou ter dito?
— Perguntei se vou ficar de castigo por faltar a minha própria festa – Menti
— Você se engana se pensa que é a festa é sua. Ninguém realmente se importa se você vai ou não, pois ainda haverá formas de se embebedarem. Isso não significa que vai deixar de ir. Posso estar sendo precipitada, mas você parece ser aquele tipo de gente que luta para ser infeliz e mal-humorada, e não vou perder uma fazer você entrar em confronto com essa personalidade distorcida que tem.
Seu tom de voz era de uma professora do jardim de infância, aparentemente livre de qualquer maldade e gentil. Falar daquela forma deveria ter se tornado um hábito para ela, pois nunca gostava que seus filhos soubessem o ela realmente estava pensando, mas precisava verbalizar de alguma maneira. Sofia tinha o dom de me deixar confuso como acontecera a instantes atrás, mas desperdiçava isso vivendo pelos outros. Pessoas como ela nunca deveriam ter nascido, pois tendem a desperdiçar um maravilhoso espécime numa existência sem sentido. A vida é desperdiçada ao ser vivida, e é isso que Sofia estava fazendo desde que nasceu.
— Não está sendo precipitada, mas é indelicado dizer coisas assim na cara dos outros – Disse, tão hipócrita quanto ela – Também é um tanto contraditório.
— Isso vindo do homem que não passamos de sonhos – só agora percebi o quanto ela estava se divertindo.
Ignorei a existência da pessoa a minha frente para poder decidir o que seria o melhor a se fazer. É um fato de que estou na torre a esperar algum evento acontecer e assim, poderei interferir nele de forma que as coisas terminem como quero, mas só saberei que evento é muito tempo depois de ter agido. Simultaneamente, é certo que minha trilha foi feita com o pensamento de que eu iria sair dela em algum momento, indo discutir o que preciso com Eliza e voltar a Valhalla a tempo de não perder nada. A questão é quando iria voltar e se iria voltar no lugar certo.
Como sempre, irei apelar para a escolha mais covarde.
— E exatamente por serem sonhos que não irão me impedir de ser infeliz. Voltarei a fazer o que estava fazendo antes de você me encontrar.
Se eu tivesse alguma certeza de como Sofia pensava – o que na maior parte dos casos, revelava-se algo fácil a se descobrir depois de anos de prática – diria que ela tinha ficado triste. Gostaria de estar errado, mas há maiores coisas para se preocupar. Comecei andar até a porta, buscando criar meu álibi, pois não era realmente necessário que eu saísse pela porta. Pelo menos por aquela porta.
— Temos um toque de recolher estipulado pelo sindicato, a meia-noite, mas como teremos uma festa, ele será mais tarde. Volte depois de ouvir os sinos e essa porta nunca mais irá se abrir para você – Disse ela, dando de ombros.
— Minha carruagem vai virar uma abobora e meus cocheiros ratos quando os sinos tocarem? – Perguntei, mas não obtive resposta. – Mais uma coisa.
— O que?
— Por que vocês jantam antes de ir a uma festa?
Sai pela porta da frente antes de obter uma resposta. Essa era uma das minhas estratégias mais comuns para escapar dos outros. Faça um comentário levemente constrangedor ou que questione um hábito que seja simplesmente um dogma e saía antes de responderem. Fui embora o mais rápido possível, pois sabia que Sofia era bem capaz de me convencer a ficar.
Enquanto as pessoas em Valhalla faziam os preparativos para irem a uma das grandes festas que eu iria descobrir nos próximos meses que eram ainda mais freqüentes do que imaginava. Segurei meu relógio de bolso firmemente, como se fosse a única coisa que provava que estou vivo e finalmente abri uma porta que parecia não só vir como levava a lugar nenhum. Todo o movimento de visualizá-la e abri-la durara apenas alguns segundos, mas parecia o tempo que parecia ter demorado era incrivelmente maior. Era quase como se não tivesse acontecido, mas fosse tão infinito quanto qualquer numero dividido por zero.
Mais uma vez eu estava naquele quarto cinzento. Deitado na cama que nunca me lembrei de ter deitado e ansioso para sair daquele lugar. Aquele pequeno ponto de transição sempre me atormentava de uma forma doentia. Acho que ele brinca com minhas memória e sentimentos, escavando eles como se fossem tão novos quanto um recém-nascido. Nem eu, nem qualquer um dos outros chegou a ter uma teoria de por que tínhamos que passar por ali, mas não conseguíamos pensar claramente sobre isso porque sempre estávamos cegos pelo medo que sentíamos do quarto
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