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Jul
06
2011

Os três órgãos mais importantes do homem e um rim

Escritor: Israel Duarte

Renam era um cara atraente. Bonito, alto, forte, bem-nascido, inteligente, culto, falava quatro ou cinco idiomas e tinha um humor cativante. Possuía uma facilidade extraordinária para lidar com outras pessoas e sabia contar estórias como poucos, talvez ele tivesse adquirido essa habilidade nos anos que fez teatro… Não sei ao certo, sei que era uma companhia agradável tanto para mulheres, quanto para os homens.

Desde cedo caiu na vida boêmia. Ainda adolescente conheceu todos os bares, becos, putas, viados e traficantes do Recife. Nesta época não fudia com as putas, muito menos com os gays e nem comprava drogas aos traficantes, mas acreditava que eles poderiam ser bons aliados no futuro. E ele estava certo. Anos mais tarde, quando se viu na casa dos trinta anos, sem profissão, dinheiro e nem emprego descente, tornou-se um vigarista que fazia uso de uma rede de trapaceiros tão sofisticada que era capaz de aplicar golpes sem que a vítima nem percebesse que era de fato uma vítima.

Seu modus operandi  era algo digno de um filme hollywoodiano. O primeiro passo quem dava era o seu amigo que era gerente do melhor hotel da cidade, este carinha avisava com semanas de antecedência quais conferências iriam acontecer no hotel e ainda arrumava um dos melhores quarto pra Renam. Nas semanas seguintes o golpista estudava o tema e criava uma identidade que pudesse facilmente se misturar aos participantes da conferência. Ele era bom, conseguia se passar por almirante em um mês e de engenheiro agrônomo no outro… Um artista. Lá no congresso ele observa os participantes e calmante escolhia algum que deixasse transparecer que não estava ali para ouvir horas e horas de palestras chatas, alguém que dissesse com os olhos “acaba logo, porra! Quero ir beber, conhecer a cidade e comer alguém” e ele sempre achava alguém assim. Renam se aproxima de tal pessoal e como quem não quer nada puxava um assunto aleatório, se dizia um figurão da área da conferencia, a presa se apresentava e quando tentava puxar um assunto mais aprofundado sobre a tal área Renam dizia algo assim “já estou de saco cheio de trabalho, palestras e essas merdas. Estou precisando de uma cerveja. Estás comigo?”. E a presa o acompanhava teatro a fora. Ainda no hotel, falando a língua da vítima, o golpista dizia que morava em Natal e explicava quão perto estava de casa e quão bem conhecia a cidade onde estavam. O gringo abria um sorriso e perguntava por caipirinha, samba e mulata. Renam sorria e dizia que sabia onde estas coisas se encontravam e se o fosse da vontade do gringo eles iriam juntos buscar estes itens na noite recifense.

Horas mais tarde eles se encontravam no saguão do hotel, entravam no luxuoso carro de Renam e iria para o primeiro bar da noite. Um lugar chique, repleto de belas mulheres, sonzinho ao vivo, petiscos regionais e um garçom corrupto. Lá o gringo se esbaldava em caldinhos de feijão, flertes, caipirinha, macaxeira frita, passarinha, morenas com rabos gigantescos presos em calças minúsculas. Na hora de pagar, a conta vinha estupidamente mais cara que deveria, então o golpista logo puxava um monte de dinheiro da carteira pra pagar, mas a vítima puxava a carteira e dizia que a conta deveria ser dividida. O garçom levava tudo e Renam estranhamente decidia ir ao banheiro, lá encontrava o tal garçom que devolvia seu dinheiro e ainda repassava parte do que o gringo havia dado.

Tudo resolvido… era hora de ir para um lugar mais quente, talvez um samba cheio de mulheres cheias de amor pra dar ou um funk no qual a entrada de mulheres usando calcinha é proibida. Inicialmente o gringo ficaria com o pé atrás, mas depois de ouvir um ou outro causo contado por Renam sentiria uma vontade incontrolável de ver toda aquela putaria com os próprios olhos. E lá eles iam morro acima. As vezes, Renam tinha de pagar algo à alguém, mas no geral eles chegava onde a festa estavam rolando e as amigas do golpista logo cercavam o gringo e o faziam se sentir um sultão no meio de um harém. Bebida à vontade, drogas se esta fosse a vontade da vítima, o que importava era deixar ele e as moças abastecidos e felizes… Renam “pagava” tudo. Depois de algumas horas de festa, eles – Renam, sua vítima e as cúmplices do golpista- iriam a um motel no qual o atendente fazia parte da rede. Lá eles teriam acesso ao melhor e maior quarto onde rolaria de tudo.

Na hora de pagar o motel, o gringo se sentia no dever de pagar, uma vez que Renam havia pagado toda a festa na noite anterior. Como eles haviam bebido, comido e usado quase tudo que o motel podia oferecer a conta ficaria estupidamente cara e a vítima teria de usar um de seus cartões de créditos. Mas todos os seus cartões seriam rejeitados por todas as maquina do estabelecimento e Renam, o salvador, pagaria mais uma vez a conta. No outro dia na conferencia, Renam receber o dinheiro do motel em dinheiro, mas antes deles combinarem o que fariam na noite seguinte o golpista simplesmente saia para ir ao banheiro e nunca mais voltaria.  Alguns dias depois a vítima descobriria que todos os seus cartões de credito foram clonados. Era um negócio extremamente organizado e lucrativo.

O último alvo de Renam foi um sul-africano chamado de Fred Peterson. Um homem lá pelos quarenta anos, jeito de malandro, roupas caras, fumante e incapaz de tirar o olho da bunda feminina mais próxima. “Alvo perfeito” foi o que o golpista pensou. Mesmo aproach, mesmas conversar, mesmas piadas e algo que deixou Renam em êxtase: Fred  se adiantava e perguntava tudo a Renam. Você sabe onde eu posso achar cachaça boa? Eu quero uma mulher da bunda grande, você pode me arranjar uma? Você pode me levar a um estádio de futebol? – Sim. Sim. Sim. Renam pensou em quanto dinheiro poderia tirar daquele cara.  Sem muita enrolação  eles se meteram noite a dentro, primeiro em busca da cachaça, depois em busca das garotas. As amigas de Renam logo atacaram o gringo que logo de cara escolheu duas morenas do cabelo liso, Kayla e Rejane (Jane quando trabalhando), e voltou a beber como um camelo. Fred era uma máquina de beber, até mesmo Renam, que era um grande bebedor, já se encontrava no brilho enquanto o gringo bebia cerveja e cachaça ao mesmo tempo como quem bebe Cidra e suco de frutas.

Chegando ao motel, mais cerveja e cocaína. Cada um com uma garota. Cocaína. Sexo. Maconha. Trocam-se os casais. Fred toma uma pílula azul e oferece outra pra Renam, ele aceita. Sexo. Apagão. Renam se acorda cerca de uma semana depois, meio dopado, com uma cicatriz enorme nas costas e um rim a menos.

Fred não se chamava Fred, foi o que a polícia disse enquanto admitia que não fazia a mínima idéia de quem ele era ou para onde fora . Quanto a Kayla e Rejane… elas ainda continuam com o mesmo trabalho, só que agora ganham em euro.

Renam continuou sendo um vigarista filho da puta, mas agora era um vigarista filho da puta extremamente cruel.


Written by Israel Duarte in: Agenda,Contos,Israel Duarte |

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