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Jul
06
2011

Platônico

Escritor: Rafael Leon

Werther é um merda.

Digo isso sem a mínima autoridade, e, também, sem o mínimo pudor. Werther era um fracassado, a personificação da estupidez. Matar-se por um amor é uma decisão conflituosa, de quem se tornou um coadjuvante em sua própria existência e atua romântica e desesperadamente (e não seria a mesma coisa?) para recuperar um distante papel principal.

Mas, veja, mesmo Werther sendo um merda, ainda me assemelho a ele. Sou narcisista. Sou um puta narcisista. Suponho estar sempre certo. Não, acredito estar sempre certo. Se alguém abre a boca para discordar de mim ou dizer algo inútil, rapidamente replico. Se, pelo contrário, existem opiniões inteligentes, ignoro. Um intelecto superior ao meu… Que ultraje. Isto a física não explica, muito menos Einstein.

Se há o silêncio, porém, a imagem é quase sempre encantadora.

É natural. Sou um adolescente. Um exemplar um pouco diferente, mas ainda assim, um adolescente.

O pequeno rosto de Eliza era redondo. Não um redondo gordo, mas sim uma circunferência suave, que realçava suas expressões faciais e permitia que seus grandes e brilhantes olhos castanhos estivessem sempre em evidência. Seus lábios não eram grossos, mas se destacavam em uma boca que parecia ter algo inteligente a dizer.

Eu, porém, nunca a tinha ouvido. Reluto em dizer que é porque um abismo nos separava, mesmo estando tão próximos fisicamente, e blá, blá, blá. Existências paralelas são impossíveis em uma realidade. São criadas por uma falta de confiança sobre humana (ou sub?) e uma overdose de covardia. Sou, por vezes, muito científico. Esta é minha explicação científica para o fato romântico de que… Certo, não vivíamos no mesmo mundo.

Tenho certeza de que já a vi acenar para mim em algumas raras ocasiões em que estava sozinha; o que fazia, logicamente, meu coração covarde colocar o rabo entre as pernas e sair de fininho, seguindo a minha capacidade de falar para algum lugar distante. Já cheguei a levantar as minhas mãos trêmulas, mas foi só isso.

E é um gesto que não repetirei. No instante em que eu recuava, lentamente, o meu braço nervoso após o aceno, meu único amigo apareceu para me caçoar.

“Eu sabia que você gostava dela. Eu sabia!” disse ele, Iago, como se tivesse recém descoberto a existência de quadros negros, o que sempre estivera debaixo de seu nariz. “Há quanto tempo?”

Não sei porque Iago é meu amigo. Ele é uma exceção a toda a minha impaciência para com a humanidade desprovida de intelecto. É um garoto popular, que vive rodeado de pessoas de todas as aparências, raças, credos e níveis diferentes de imbecilidade. Ainda procuro uma explicação coerente para o fato de que ele se tornou a pessoa mais próxima de mim. Teoricamente, meu único amigo.

Pode ser que ele me considere apenas um colega de classe com o qual ele ocasionalmente conversa, troca informações sobre acontecimentos recentes – o que o coloca em uma posição de menos imbecilidade. Sou muito criterioso; Iago é uma pessoa inteligente, vai.

“Não interessa.” Respondi, secamente, a aquela indagação infantil.

Ele não fez bico, como uma criança faria. Deu um sorriso sincero, quase orgulhoso, que me levou a refletir sobre o que ele realmente pensava sobre meu amor platônico. Quase tive certeza de que Iago sentia pena de mim. Senti-me ainda mais próximo de Werther, do qual repetidamente tento me afastar, mas é como correr em direção a uma turbina de avião ligada. Sempre sou atirado de volta ao lugar onde estava; por vezes, até mais longe. Neste caso, mais perto de Werther.

Eu ainda tinha como vantagem o fato de que quem sentia pena de mim era apenas um amigo, e não Eliza.

Será?

Aquela pequena indagação, aparentemente tão inocente, se infiltrou em minha capacidade de raciocínio como ácido sulfúrico. O pequeno “será” me fez querer me aproximar de Eliza, para saber o que ela realmente pensava de mim, se o que ela sentia era piedade. Esta seria a melhor resposta. Meu maior temor é que ela pensasse demais em uma resposta, demonstrando não ter uma opinião formada sobre mim, considerando minha existência irrelevante.

O “será” me aterrorizou por um longo tempo. Antes da escola, durante, depois, no meu sono.

Um dia desses, vi Eliza atravessar a rua, distraída, com os fones de ouvido devidamente encaixados. Ela balançava a cabeça lentamente e sorria. Não pude evitar; sorri também. Naquele momento, só existia ela, sorrindo e caminhando. Demorei um pouco para perceber o movimento crescente e a súbita mudança de cores no semáforo.

Amarelo. E aí vermelho. Um carro prateado se aproximava rapidamente e Eliza continuava distraída, entretida em sua música. Meu coração começou a bater mais forte, meus pensamentos embaralhados. Eu não sabia o que fazer. Pensei em correr para alertá-la, mas minhas pernas não se moviam.

O motorista do carro prateado freou, mas tarde demais. Havia acertado minha amada em cheio. Eliza desapareceu em uma nuvem vermelha, que em seguida sugou tudo a sua volta.

Acordei. Nem em sonho eu conseguia ter coragem, correr para salvá-la, fazer algo para me tornar importante, ou pelo menos relevante, em sua vida.

Eu precisava tomar coragem para conversar com ela, mas tinha medo de ouvir um daqueles discursos automáticos. Não conheço tais discursos porque já levei foras. Longe de mim. Nunca tivera coragem para sequer me declarar a uma garota. Sei da existência deles porque assisto filmes ocasionalmente. Por isso, tenho receio de escutar o quero ficar sozinha no momento vamos ser só amigos, o acabei de terminar um relacionamento e quero dar um tempo, o acho que não sou a pessoa ideal para você e só te faria sofrer, entre outros.

Por isso, resolvi continuar no silêncio.

Assim permaneci por algumas semanas, até que Iago citou o nome de Eliza. Em um rápido impulso, me agarrei ao livro mais acessível em minha mochila, a ficção que eu estava lendo. Estar com um livro em mãos e abri-lo na frente de outra pessoa era um sinal que, na minha concepção, significava a recusa de qualquer interação social.

Pena que o sinal não era entendido por Iago.

“Viu” começou ele, tentando chamar minha atenção. “Descobri umas coisas sobre a tal Eliza.”

Meu coração acelerou. Não pude evitar: resmunguei. Iago sabia que aquilo me interessava, por mais que não quisesse saber o que ele tinha a dizer.

“Ela tá sozinha. Parece que teve uns rolos com um cara aí… Do terceiro ano, acho. Mas parece que ele traiu ela, aí ela descobriu. Eu soube também que um cara pediu pra ficar com ela uns dias atrás, e ela recusou. Disse que não queria ficar com ninguém por enquanto.”

O “acabei de terminar um relacionamento e quero dar um tempo”. Bem, pelo menos ela não disse isso para mim.

“Não falei com ela, mas as amigas dizem que ela é legal. Gosta de ver filmes, fala inglês, e tal. Acho que vocês dois ficariam bem juntos.” Ele me bateu no ombro. Eu odiava quando Iago parecia me tratar como uma criança. Naquele momento, porém, eu me sentia uma criança.

“Acha mesmo?” perguntei.

“Acho. Foi só isso que consegui descobrir, mas assim já dá pra saber que vocês tem algo sobre o que conversar, já que os dois gostam de cinema, e tal.”

“Isso não quer dizer nada. Todo mundo assiste filme.”

“Porra, não to falando só de assistir… As meninas disseram que ela comenta os filmes, fala sobre a história, gosta de conversar sobre isso. E você, quando quer falar, também fala bastante de livros e filmes. É isso.”

Eu ainda não me convencera. Você não transforma meses de amor platônico em um dose de coragem para transformar o desejo em realidade com apenas alguns fatos. Eu precisava de alguma garantia de que aquilo iria dar certo, ou eu ficaria realmente arrasado.

“Tem certeza?”

“Se você esperar um tempo, não custa tentar.”

Custava tentar. A minha incerteza era mais segura do que uma recusa. Deixar as coisas como estavam permitia com que eu ainda sonhasse em estar junto com ela algum dia. Ser recusado significava esquecê-la ou a promessa de dias muito dolorosos.

Eu estava em um beco sem saída. A palavra “será” cobria os muros que me cercavam, impedindo-me de seguir em frente.

 


Categorias: Agenda,Contos |

1 Comment»

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    Cara, gostei demais do texto! Ele me segurou desde a primeira frase, quando, ousadamente e sem cerimônia, vc atacava um dos personagens mais emblemáticos da literatura! Do qual, diga-se de passagem, eu sempre gostei bastante… Enfim, achei o tom irônico deleitante, a forma como vc tenta fugir dos clichês (ex: quando tenta não dizer que os personagens estão em “mundos diferentes”) e ao mesmo tempo neles chafurda (ex: “Iago”??? Convenhamos, vc consegue confiar em qualquer indivíduo com um nome desses?!). Achei a escrita bem fluida, muito aprazível, e nem pensei em deixar de continuar a leitura em um momento sequer. Congrats, mate!

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Publicado por Rafael Leon

– que publicou 3 textos no ONE.

Estudante de Letras na UEL, cinéfilo e escritor nas pobres horas vagas.

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