Escritora: Yarin Santos de Melo
Existem aqueles que vivem e morrem. De fato, a maioria de nós simplesmente faz isso vive e morre. Todas as outras coisas são floreios da vida e tentativas frustradas de evitar a morte, porém, existem alguns que não estão sujeitos a essa regra, esses são chamados de imortais. Ainda assim eu afirmo que mesmo esses, que tem toda a eternidade para perpetuar conflitos e resoluções estão suscetíveis a morte, pois afinal como morrem os imortais?
Existe uma forma, um jeito, um caminho pelo qual todos os de fato imortais, (e não apenas os que vivem muito tempo), percorrem e esse caminho é o da tristeza. A imortalidade vem quase que sempre acompanhada por uma incrível euforia que consiste em se sentir como se fôssemos viver para sempre, e se você é um imortal isso é de fato uma verdade. Mas essa euforia, que nos mortais só é sentida na adolescência, quando se acha que se vai viver para sempre e se acha que a juventude vai ser eternamente dourada, termina quando eles adquirem a terrível noção de que eles podem e vão com toda certeza morrer, geralmente eles percebem isso quando algum parente ou uma pessoa amada morre, e assim que os mortais perdem isso, eles adquirem um motivo razoavelmente justo para deixarem de viver. Outros têm esse repentino estalo de “humanidade” quando acordam uma bela manhã e descobrem que estão velhos, e ao encarar os próprios olhos terrivelmente cientes que a vida tem um fim, eles adquirem a triste, porém justificada “carrancudez” característica dos que tem muita idade.
Já para os imortais, essa euforia dura mais tempo, e a forma como ela acaba é de certo modo bastante parecida com a dos mortais, humanos comuns. Em geral os imortais perdem essa alegria inata em viver, quando percebem que todas as pessoas que elas amam, todos os lugares em que elas já sentiram prazer em ir, e todos os bons momentos que elas já viveram,estão agora enterradas no passado. Isso se dá quando geralmente, por conta do anacronismo, eles acordam e acham que estão em um tempo que já passou às vezes a sensação de despertar vem quando eles olham para o lado e percebem que a pessoa com a qual ela dividia a cama, e as alegrias, se foi. E então eles têm a terrível noção de que todos os que eles amarem, vão inevitavelmente, morrer também.
Outros percebem quando, após acordar e sair para a rua inesperadamente não encontram nada do que elas esperavam, elas não veem ninguém conhecido, e não reconhecem nenhum lugar, e então de repente, elas se percebem estranhas em um lugar onde elas viveram por muito tempo, às vezes a vida toda, (o que de fato é muito para um imortal), às vezes é ainda pior pois esse lapso dura mais tempo e só termina quando essa pessoa passa de frente a casa de algum conhecido e percebe que ele já não mora lá há muito tempo, e percebe também, que todos os amigos que ele tem, estão inevitavelmente enterrados em um cemitério mortos, ou por fim, de forma desalentadora loucos.
Após esse estado de desencanto, (e é nessa parte que essa noção se diferencia dos humanos mortais) os imortais tem desesperadamente a terrível noção de que eles não vão morrer, mas todos os outros vão, e é essa noção que faz dos imortais, terrivelmente tristes. Alguns, não gostam de espelhos, pois ao contrario dos velhos, que os temem por terem noção da própria velhice quando se olham lá, os imortais os odeiam por que ao olharem para eles percebem que ao contrario de todos os outros eles não envelheceram e assim percebem também que nunca o vão fazer, e isso para eles é destruidor.
Assim, grande parte dos imortais, vão pouco a pouco perdendo a habilidade de viver em grupo, e vão lentamente morrendo, pois eles perdem a motivação de viver, porque no fim só ele vai sobrar, e perdem a vontade de amar, mas terrivelmente não perdem o sentimento do amor, e assim eles estão fadados a se apaixonar e ver cada pessoa, única e maravilhosa morrer, e ver cada sorriso branco perder a cor, assim como os pró-pios dias perdem, e por fim, os imortais percebem que cada subterfúgio, cada jogo, e cada momento, é uma simples distração, uma simples máscara que disfarça a inevitável verdade da morte, que diz que eles não vão morrer, mas todas as outras pessoas vão. E assim, por fim, os imortais perdem a capacidade de viver, de sorrir e de sonhar, perdem os amores da vida e perdem todas as alegrias, e isso por definição é estar “morto” porque afinal, morre-se, quando se deixa de viver.
Yarin Santos de Melo