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Jul
11
2011

Quando tocaram os telefones

Escritor: Tuan Garcia

Apesar do sol tímido e clima agradável a  segunda-feira se enunciava chata e laboriosa.
Não havia nada que diferenciasse esse dia dos outros até então.

Quando tudo começou eu digitava preguiçosamente o relatório que deveria entregar no fim do dia e escutava o familiar som de pessoas indo e vindo.
Por um instante houve um silêncio mórbido.
Em seguida, os telefones tocaram.

Meu celular tremia sobre a mesa, enquanto o telefone piscava em todas as linhas ululando sua sirene de alerta ao meu lado. Na sala da frente, o fax, o pabx e os telefones da mesa de quatro pessoas também tocavam, assim como seus respectivos celulares, cada um emitindo o seu particular e peculiar chamado.

Tentei atender ao celular, mas ele continuava vibrando contra minha orelha. No telefone o mesmo.
Saí da sala e encontrei todos do escritório falando sobre a mesma coisa. Gritando seria o mais apropriado, já que tantos eram os telefones no andar esbravejando sequencialmente uma canção inteligível e perturbadora.
Recorremos a um noticiário para nos darmos conta de que o problema não era só o nosso prédio, nem mesmo somente a nossa cidade.
Todos os telefones do mundo tocaram ao mesmo tempo.

Desligamos nossos celulares, e alguns menos dispostos desligaram os telefones, enquanto os mais pacientes abafaram o som com alguma coisa.
Mas as sirenes e alertas vinham dos andares de cima, e dos de baixo e das janelas que davam para as ruas. Trabalhamos incomunicáveis com o mundo, sem telefone, sem internet.
No fim do primeiro dia ainda havia esperança de que tudo seria resolvido logo.

A noite as pessoas se indagaram, sobre os motivos. Se todos os telefones tocavam, quem estava ligando?
Quem nos queria chamar a atenção? Voltamos nossos olhares para as estrelas, outros para fé, muitos para a insanidade.
Amanhecemos com medo. Os cães ladravam e crianças choravam adicionando um plano de fundo mórbido a já aterradora fanfarra.
Ouviu-se notícias de pessoas que entraram em pânico e se suicidaram.
Alguns, mais radicais levaram outros consigo. Latrocínios e outros vandalismos se foram perpretados noite afora.
Inúmeros acidentes de trânsito intencionais ou não também foram causados enquanto as ruas zumbiam nas ondas dos chamados, que intercalavam relativo silêncio com ensurdecedor rugir polifônico.
Não havia meios de chamar o socorro, que raramente aparecia a tempo.
Calamidade.

Mantivemos apenas um telefone ligado no escritório, aguardando que tudo acabasse. Mas não acabou.
Pessoas andavam com protetores auriculares nas ruas, graças aos incessantes telefones públicos.
Houve tensão entre o governo e os militares. Ninguém sabia o que fazer.

Sem comunicação com nossos clientes, a empresa entrou em crise. Ao final de uma semana, o único telefone que tocava abafadamente era motivo de desespero e ódio.
Milhões perderam os empregos enquanto a economia global se eclipsava e as bolsas de valores despencavam.
As empresas de telefonia alegavam total empenho na resolução do problema, mas que nenhum avanço havia sido feito até então.
Satélites foram trazidos de volta para manutenção e estudo em uma desesperada tentativa de buscar respostas.

Nada.
No fim da segunda semana, não se ouvia mais quase nenhum telefone.
Sem suportar o som, as pessoas faziam a caça aos aparelhos que eram queimados em piras públicas.
Celulares de última geração povoavam as sarjetas, lado a lado com executivos desempregados.
A crise persiste enquanto calamitosamente, é declarado o fim das telecomunicações e da internet como um todo.
Jovens se rebelam sem saber o que fazer.

Tempos sombrios.

Com o passar dos anos, a sociedade se reorganiza. Lentamente, as pessoas se adaptam.
As empresas de correspondências despontam como gigantes, gerando inúmeros novos empregos.
A industria automobilística e aérea, assim como a espacial juntas começam a desenvolver novos meios de locomoção, cada vez mais rápidos, seguros e eficientes.
Combustíveis baratos e limpos são concebidos.

O lazer do cidadão convencional volta as origens. Reuniões entre os vizinhos são constantes.
As pessoas se aproximam cada vez mais.
A televisão e o rádio retomam seu lugar de prestígio, com redes cada vez maiores e mais influentes.

E apesar de tudo, de todas as mudanças e das muitas perdas, a vida continua, sobre novos trilhos.

Mesmo depois de tanto tempo eu continuo me indagando, mas em silêncio. Ninguém falava sobre isso abertamente.
Era inegável que havíamos recebido um chamado, todos nós.
O problema é que não soubemos atender.
Até quando ignoraríamos o chamado?

Por isso, que mesmo depois de 20 anos, eu ainda ligo meu celular todas as noites para adormecer ao som soturno e rítmico de seu toque.

 


Written by Garcinaut in: Agenda,Contos,Tuan Garcia |

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