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Jul
06
2011

Regressão

Escritor: Rafhael Marsigli

Me contorci até meis ossos quebrarem.

Olhei ao meu redor, ninguém. Estava escuro e flashes iam e vinham em minha mente, cores vivas e brilhantes em uma sala sem luz passavam a minha volta, estava deitado, e amarrado. Quando mais de debatia na cama de ferro, mais tenebrosos os fantasmas das cores ficavam, parei, suando frio, com a testa molhada, com medo. Minha memória não estava sendo grata, não sabia nem quem era, nem meu nome, nem aonde estava, e por que estava amarrado.

Fechei os olhos, tentei me concentrar, quando vozes apareciam em baixo da minha cama, lamúrias, gritos distantes, risadas histéricas. Quando percebi, lágrimas caíram de meus olhos, se passasse metade de uma noite assim, acabaria ficando louco, as cores cintilantes que apareciam de um lado para o outro começaram a desaparecer, enquanto as vozes ficavam cada vez mais próximas.

Meus olhos já estavam se acostumando com a penumbra, comecei a perceber que estava em um quarto pequeno, do tamanho de um banheiro, sem portas, apenas paredes e eu, bem no meio, o que é assustadoramente engraçado, pois desde pequeno nunca gostei de dormir no meio de um quarto, sempre fico no canto da parede, aonde eu possa ter uma boa visão da porta.

De tanto gritar, minha voz acabou.

Os gritos estavam por todo lugar, no meu lado, nas paredes, na minha garganta. Seres disformes começaram a se moldar no teto, uma mão, uma pessoa com duas cabeças que olhava fixamente para mim, e gritava junto comigo, braços apareciam como se tentassem me dar um abraço mortal. A frustração aumentava cada vez mais na medida que me debatia, pessoas vestidas de preto se formavam ao meu redor.

O barulho era tanto, que não conseguia mais identificar nada, antes ouvia uma mulher gritando pelo filho, que possivelmente estava morto, o choro de desespero e esperança de que um milagre iria acontecer naquele momento me deixavam com ânsia. Um homem implorando pela sua morte, gritando cada vez mais forte a medida que era torturado. Uma criança que acabava de ser atropelada, chorando e pedindo para algum parente, que estava junto, ajudar a parar a dor. Todas as vozes eram familiares, mas não sabia de quem eram, inúmeras vozes que passavam pelo quarto, na medida que se misturavam e não conseguia mais identificá-las.

De tanto pensar, minha cabeça explodiu.

Acabei me sentindo dentro de um ritual, em algum lugar inimaginável, os seres de preto a minha volta, me observando, como se estivessem esperando algo acontecer, as anomalias e deformidades no teto, muito próximos de mim, mas sem me alcançar, o barulho infernal a minha volta. Tal lugar não existe, não poderia existir, talvez eu tenha morrido, talvez eu esteja no inferno.

Quando dentro de minha cabeça, sinto um estalar de dedos, os seres se aproximavam, enquanto os homens de preto me cheiravam, as deformidades rasgavam minhas roupas, o desespero tomou conta de mim, o que fazer agora? Gritar, me contorcer, nada adiantava, não havia forma de escapar, um deles aproximou seu rosto ao meu, um hálito podre entrou em minhas narinas e fiquei com náuseas. Quando dentro de minha cabeça, sinto um segundo estalar de dedos, as unhas afiadas dos seres sem forma começaram a desenhar na minha barriga e peito, com tanta facilidade que senti meu sangue esvair, os homens começaram a me morder, mastigar, a dor era tão grande que estava a ponto de desmaiar, meus olhos esbugalhados, minha face estava totalmente deformada, praticamente sem pele, é o fim… Quando dentro de minha cabeça, sinto um terceiro estalar de dedos.

Grito algo, e levanto, olho em volta, estou em uma sala de alto padrão, com móveis rústicos e madeira pesada, no canto de uma sala, não estou amarrado e nem em uma cama de ferro, mas em um divã.

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