Filhos do Éden: Herdeiros de Atlântida: Livro 1
Papo na Estante 34 – Prêmios Literários
29 Dicas para se manter criativo:
Vaucarn
A Lenda de Fausto
Chat dos Nerds Escritores
Quer publicar?
Download do livro O Draconiano – Livro 1
Jul
13
2011

Relato de uma Flecha

Escritor: Antonio Souza

relato-de-uma-flecha

Perfurei-o, finalmente! O aguçado espinho de metal ao fim de mim alcançou a pele macia, rasgando-a cruelmente e irrompendo através do mar de carne tenra sem esforço. Naquele momento, tão rápido e fugidio, entendi que cumpria não apenas a tarefa simplória para a qual eu fora designada, mas perfazia um importante papel no destino daquela guerra infindável.  Percebi-me não apenas um instrumento insignificante da morte, uma ferramenta bélica desprovida de real relevância enquanto individualizada; pelo contrário, era agora a flecha ideal, o mais refinado e invejável exemplar da espécie, a Destruidora de Heróis.

Ah, mas foi longa a trajetória percorrida até aqui, até que eu fizesse morada entre osso e tendão e levasse à morte o maior dos senhores da guerra e da matança. Minha memória alcança uma época distante, quando eu pertencera a uma altaneira e forte árvore nas proximidades do monte Ida. Naqueles tempos comprazia-me em submeter-me aos afagos amorosos de Hélio e sorver das dóceis águas do firmamento. Então vieram com os machados e o grande tronco que era eu fragmentou-se em muitos pedaços dos quais nunca mais soube ou saberei. Mas eu fui feita flecha e soube, então, que flecha eu sempre fora.

 

Com clareza e pouco entusiasmo lembro-me das mãos calejadas e já um tanto vacilantes de um dos artesãos responsáveis pela fabricação das flechas do exército real. Vários jovens trabalhavam por entre as forjas e as ferramentas, mas eu fora feita pelo experiente Aristaeus, um dos mais velhos cidadãos dentro das suntuosas muralhas da cidade. Com uma bem amolada faca ele esculpira um pedaço de madeira numa forma longilínea e depois juntara a uma das extremidades uma ponta resistente de metal, afiada o bastante para perfurar mesmo o bronze das armaduras aqueias. À outra extremidade agregou penas de cisne, ave muito querida do deus Apolo, trazidas da distante Macedônia. Quando terminara o trabalho corriqueiro, Aristaeus alardeara aos seus pupilos, quase com lágrimas nos olhos, que eu era sua obra-prima, a mais perfeita de suas criações.

 

“Serás grande, Apolínea,” dissera-me, então. “Farás o trabalho de reis e porás fim mesmo a vidas de deuses!”

 

Aristaeus estava orgulhoso de mim, por isso exagerara no uso das palavras. Eu mesma imaginara estar o velho embriagado pelo clangor incessante das lanças contra os escudos e o fervor da batalha além das muralhas, onde inúmeros de seus conterrâneos encaravam o semblante austero de Tânatos dia após dia na luta contra os malditos argivos.

 

Eu esperava ter o mesmo fim comum a todas as de minha espécie: perfurar um inimigo de meu senhor, como um bom servo; ou vergonhosamente falhar nesta demanda. Porém, tudo mudara ao ser eu colhida de uma aljava aleatória pelas mãos sutis de nossa rainha mesma. Senti-me fortalecida ao ser embebida numa mistura acre de ervas sem nome dentro de uma tigela de pedra enegrecida, cuidadosamente manuseada por uma das sombrias sacerdotisas de Hécate. Todavia, o instante mágico quando percebi que talvez as palavras de Aristaeus fossem realmente uma bênção do próprio deus Apolo, a quem fui oferecida, foi ao ser presenteada pela rainha ao filho mais moço, esquálido e de olhar impetuoso. Ainda podia ouvir a voz embaciada da mulher, cheia de pesar e simultânea fúria: “Vai! Vinga teu irmão!”

 

Agora cá estou, depois de um rápido disparo, fincada profundamente no calcanhar do grande herói. Ouvira de meu senhor que ele fora banhado nas águas divinas do Estige e que seu corpo era invulnerável a armas quaisquer. Ouvira guerreiros cantarem sua invulnerabilidade e bravura. Disseram ser imortal, que caminharia junto aos deuses do Olimpo antes do final. Mas cá estou eu, liberando a peçonha em mim contida pelos tecidos e músculos enquanto forçosamente embrenho-me ainda mais na carne maciça. O grande semideus urra de dor e cai de joelhos, sentindo a seiva doentia espalhar-se por todo o seu corpo e envenená-lo rapidamente, como se picado por Píton, a monstruosa serpente das lendas.

 

Ah, Aquiles…

 

Finalmente caíste, ante minha picada mortal.

 

Serei eu a lápide peremptória de tua heroica epopeia; a tragédia que encerrará tua participação nas histórias dos homens. Serei eu a musa admirada dos arqueiros das eras que virão e a sombra temida pelos guerreiros no campo de batalha. Também eu jazerei ao teu lado nos lábios dos aedos até o fim dos tempos, relembrada eternamente como a causa de teu tormento e fim.

 

 

 

Inspirado pela Flecha Negra do Mestre Rainier.

 


Written by Antonio M. Souza in: Antonio de Souza,Contos | Tags: , , , ,

37 Comments»

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Escrita muito boa, gostei bastante do que li, o uso de algumas palavras fortes no meio do enredo dão a sensação de fortes sentimentos, isso ficou bem bacana. Só vi (senti) uma ou duas palavras que pareceram perdidas em suas frases, mas nada que comprometa a obra. Parabéns pelo escrito.

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Muitíssimo obrigado por ler e comentar, Augusto! Tentei mesmo parecer mais “épico” no vocabulário, tentando manter a sensação de grandiosidade da própria história que serve de cenário.

  • Thaina Gomes says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Adorei, gostei da idéia do relato da flecha chamou a minha atenção!

  • lobaempeledeovelha says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Faz tempo que não acesso o ONE devido a problemas técnicos, mas quando li seu escrito fiquei apaixonada por ele.
    Acredito que o senhor Rainier ficara lisonjeado por ter inspirado tuas palavras.
    Parabéns colega você inspira-me a escrever mais e mais.

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Oi, Loba, tudo bem?! Também estive longe destas paragens por algum tempo, em vista de maremotos universitários! hahahahaha
      -
      Enfim, obrigado por ler e comentar! Fico feliz que tenha gostado. E mais feliz ainda fico em saber que lhe inspiro a escrever mais, posto que vc é uma escritora de imenso potencial!

      • Thumb up 0 Thumb down 0

        Com certeza fico!

        Mais que lisonjeado, honrado por receber essa honra de um escritor tão bom! O texto que esse camarada escreveu para a Coletânea Cassandras é de tirar o fôlego!

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Muito bom Antonio. Achei legal você pegar a vida de uma flecha e tranformar em algo tão épico.

    Só senti a falta de um conflito… Essa flecha é muito prepotente e arrogante! Já tem convicção que em momento algum falhará! rsrsrs…

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Opa, mestre! Tudo bem?!
      -
      É, mas acho que a falta de conflito se explica pelo fato de a história se restringir, basicamente, ao FIM de um conflito bem maior que lhe serve de Background — a própria Guerra de Troia… Sem contar que não existem muitos conflitos na vida de uma flecha, vc tem de concordar (ela é feita, escolhida, colocada no arco e atirada — voilà, la vie d’une flèche!). Quanto à arrogância de Aplínea… Ah, vai dizer que se vc fosse a causa derrota de Aquiles, de AQUILES!, vc não seria nem um pouquinho prepotente…? hahahaha
      -
      Anyway, obrigado por ler e comentar, Mestre. Essa flecha é tanto minha quanto sua!

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Ow, e no início, quando ela reconta de sua fabricação, ela diz que achava que as palavras do seu artesão eram apenas exagero e que sua vida seria bastante simplória… só depois ela acredita que um destino maior pode estar esperando por ela.

      • Thumb up 0 Thumb down 0

        PQP prepotente seria pouco! rsrsrs…

        E se formos pensar flecha não tem conflito e muito menos pensamento. Quanto mais dom para escrita! hahahaha!

        Pelo menos temos a evolução do personagem! Olha só! Quem diria que uma flecha evolui do tempo em que é fabricada até ser atirada?

  • Franz Lima says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Antonio, novos escritores como você dão um fôlego extra ao ONE. Além de comentários extremamente educados e embasados, acrescente-se contos de ótima qualidade e com temáticas variadas e interessantes. Como disse a Loba, o Rainier irá ficar feliz em ver que há frutos de seu trabalho.
    A narrativa de seu conto está magnífica, dando a impressão de algo épico, escrito pelos antigos historiadores. A vida atribuída à flecha (um ser inanimado) não é incomum, porém a forma como o fez me surpreendeu.
    Parabéns e muito sucesso nos trabalhos futuros.
    Abraços.
    Franz.

    • Thumb up 2 Thumb down 0

      Franz, meu caro, assim vc me deixa encabulado! Aponta a minha cortesia ao comentar, mas a sua é, senão maior, equivalente. Muitíssimo obrigado por ler e comentar, além de, é claro, ceder-me tantos elogios.
      -
      Estou devendo a leitura e comentário em muitos contos por aqui, mas no momento a vida está um pouco complicada… Porém, farei o possível para retornar à ativa o quanto antes!
      -
      Fico extremamente feliz que tenha gostado do texto, tendo em vista que percebo, da leitura de seus comentários nos diversos contos do ONE, que vc tem um senso crítico afiado e um considerável background literário.
      -
      Abraços e mais uma vez agradeço

      • Franz Lima says:

        Thumb up 0 Thumb down 0

        A honra é toda minha, Antonio. Não se preocupe com os comentários que ainda faltam, pois todos temos muitos deveres a cumprir e pouco tempo para o lazer. Saiba que o que disse sobre seu conto é fruto direto de seu esforço ao narrar com excelência um extrato da saga de Aquiles, sob outro ângulo. Mas não poupo críticas e sugestões quando isso se faz necessário.
        A verdade é a única pedra capaz de amolar o sabre da escrita…

  • Vinicius Maboni says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Adorei a tematica, realmente forte. Mas acho que o texto podia ser mais bem trabalhado, a flecha meramente narrou sua historia, sem nada demais nela entende?

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Opa, antes de qualquer coisa obrigado por comentar!
      -
      O texto é “apenas” a narração da história da flecha mesmo. Nesse caso específico, me importava mais a forma(queria desenvolver um tom épico) que o conteúdo. Além do mais, um texto mais trabalhado implicaria, inevitavelmente, num conto mais longo — os quais, percebi pelo meu conto anterior, as pessoas não estão dispostas a ler na tela do computador (seria um desperdício criativo).

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Continuo à concordar com o Maboni! Mas o Andrey, que considero muito, disse quase a mesma coisa do Alvo Humano. Que o texto tinha somente descrições sem conflito e enredo.

      Isso faz com que o conto perca a força e consequentemente leitores.

  • Lord_Balrog says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Simplesmente *muito* bom. Parabéns mesmo, cara. Só também acho que faltou um pouco de conflito. Mas excelente o texto, cara. Parabéns.

  • Franz Lima says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    A imagem do arqueiro e a nuvem está muito boa. As fontes de imagens do Guns parecem inesgotáveis rsrsrsrs.

  • Omninerd says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Muito boa a escrita, o contexto e tudo o mais. Muito bom mesmo!

  • Leo Debacco says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Boa escrita só não, boa imaginação. Muito legal mesmo.

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Um texto surpreendente.
    -
    O título, apesar de simplório, foi sintomático ao lembrar o conto do Rainier, porém o conteúdo é completamente diferenciado. Dada as devidas proporções, pois ambos são ótimos escritores. Achei muito ousado fazer esta releitura de um momento tão icônico da Ilíada e muito acertado no fim das contas.
    -
    Tem ritmo, tem cadência, tem uma fluência muito interessante. Merece meus parabéns. Pela riqueza dos detalhes, pela ideia genial e, sobretudo, pela ousadia.
    -
    Meus parabéns!

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Thiago, muitíssimo obrigado pelo incentivo! Seu comentário me deixou imensamente feliz; agradeço por tê-lo feito (e por ter lido o conto também, obviamente).

  • Pablo Grilo says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Só acho que não precisava revelar de cara que era a Guerra de Troia, talvez, sei lá, pudesse deixar isso mais pro meio do conto. No mais, a prosa ficou boa, senti falta da parte onde ela sai do arco e atinge o tendão, entende? De ela vagando pelo ar.

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Obrigado pelo comentário, Pablo!
      -
      Bem, eu não citei o nome da cidade em nenhum lugar do texto… houve dicas, sem dúvida (“monte Ida”, “muralhas”, etc.), mas preferi deixar que os leitores o adivinhassem finalmente.
      -
      Quanto ao trajeto aéreo de Apolínea, simplesmente não queria me alongar em demasia… queria um conto mais sucinto, logo… Afinal, ela estava fincada no calcanhar do Grande Aquiles! E ainda por cima envenenava-o!! Estava inebriada demais para focar no seu voo fugidio… hahahah
      -
      Mais uma vez: Obrigado por comentar.

  • Bruno Sanje says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Eu gostei muito, achei equilibrado. Gostei da visão da flexa, consegui me enxergar no lugar dela, legal mesmo, parabéns cara.

  • Shado Mador says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    eu axei muito interessante o ranier mostrar os dois lados da batalha , venc3dor e vencido , e axei genial mostrar o lado da flecha.sabe a descrição de como seria o pensamento , aexpectativa a realização pessoal de um mero instrumento de guerra (mero instrumento de guerra não!mais respeito, meu nome é APOLÍNEA!!!!!!).Achei o conflito , que está implicito na guerra e na precisão de fortalecer a flecha para matar AQUILES, muito bom.

    Flecha chuck norris essa , ela matou AQUILES!!!

    -é ua duvida ae , não sei qual p nome correto na iliada e na mitologia como um todo mas o rio , é Estinge? pq eu conhecia como Styx.

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Obrigado pelo comentário, amigo! Fico feliz que tenha gostado! Finalmente alguém conseguiu visualizar todo o conflito que permeia o conto, apesar de ser, como o bem disse, bastante “implícito”.
      -
      Quanto ao rio: Styx é transliteração do nome grego original, enquanto Estige é o nome do rio em Português.

RSS feed for comments on this post.


Leave a Reply

Powered by WordPress. © 2009-2011 J. G. Valério