Rokuro
Escritor: Marcus Palante
— Talvez… — disse Rokuro contemplativo, descendo cautelosamente pelo declive até a planície verdejante.
Logo à frente, um rio caudaloso atravessava uma floresta descomunal e serpenteava pelo campo, indo desaparecer à oeste. O horizonte estava alaranjado, escurecendo-se. E, por enquanto, ainda era seguro viajar por ali.
— Vamos apertar o passo — eu disse. — Pois logo, logo, este lugar estará infestado de ogros.
— Sim — foi a resposta. — Mas você pode, ao menos, me dizer quanto tempo nos resta até a torre da Nadya?
— Se seguirmos contra o percurso do rio, talvez uns dois dias e meio. Ou você quer contornar a planície?
— Rukasu — ele disse, referindo-se a mim, embora eu me chame Lucas, o sotaque não o permite pronunciar o meu nome corretamente — Você acha que Michizuki Rokuro teme a algum ogro fedorento? O que você supõe que meros brutamontes possam nos fazer?
— Cozinhar as nossas tripas — respondi sem muita reflexão. — Aliás, eu nunca conheci nenhum ogro que cheirasse bem.
— O quê?
— Você já pensou no que vai fazer com o dinheiro da recompensa?
— E precisa pensar? — retrucou Rokuro, um largo sorriso, da maneira que só o povo dele sabe fazer. Houve uma pausa e, em seguida, nós dois em uníssono:
— Gastar tudo no bordel da Rosely.
Rimos.
Depois de uma longa caminhada, nós paramos para comer alguma coisa e reabastecer os cantis. A correnteza trazia brisa agradável que agitava a relva, e agitava o longo cabelo negro do samurai e as suas vestes, e as minhas. A essa altura, o sol já havia se deitado. Estava esfriando.
Antes de partimos, eu me demorei alguns minutos extras verificando o estado das minhas pistolas e a munição. Rokuro, acostumado, não se incomodou com isso. Diferente dele, que simplesmente saca uma katana e sai mutilando alguns membros por aí, eu tenho que tomar as devidas precauções com minhas armas para ser bem sucedido numa batalha.
O samurai só tinha um braço útil, o outro era uma prótese inflexível de madeira, e por isso me cabia a tarefa de carregar a lamparina. Viajar durante a noite, além disso, é extremamente cansativo porque, aos poucos, perde-se a noção de espaço e tempo. Principalmente quando se trata de uma noite sem lua. E como se não bastasse, o vento estava aumentando. A brisa agradável tornara-se, rapidamente, uma incomoda ventania. Já não podíamos confiar plenamente em nossos ouvidos.
— Não é melhor parar por aqui? — tentei dizer, mas acho que ele não me ouviu. Continuou andando por muito mais tempo do que eu esperava, em prontidão, como eu observei, porque sua mão estava estacionada no punho da espada.
— Há ogros aqui — ele proferiu por cima da corrente de vento — Estão se arrastando pela grama. Fique alerta!
Eu nunca tinha visto um ogro fazendo aquilo, mas era verdade. Eles estavam se aproveitando de sua aparência bruta para que nós pensássemos que fossem rochas. Uma tática inteligente até, mas uma única grande falha: rochas não se movem.
O primeiro se levantou abruptamente e investiu contra Rokuro, uma lança primitiva nas mãos, e quase o atingiu. Quase. Eu fui mais ligeiro, saquei minha pistola, dei um tiro em sua cabeça. O ogro caiu para o lado, morto.
— Economize sua munição, pistoleiro, eu posso com todos eles juntos — disse o samurai, confiante. Ou, pelo menos, eu acho que disse. Sua voz quase inaudível.
Rokuro saltou a favor do vento e desceu a katana no meio da haste empunhada por outro ogro. A lamina partiu a lança em dois e rasgou uma linha no meio da barriga do monstro. Sangue escorrendo do ferimento. O ogro urrou, largou os pedaços inúteis da lança partida, e tentou esmagar o espadachim com os seus braços, mas o samurai se esquivou, acocorando-se e passando a espada nos dois joelhos da criatura. Tudo de um jeito muito rápido. E mais um ogro caiu, mas esse ficou agonizando por muito tempo para finalmente falecer. Imagino que tenha aturado até um pouco depois do dia clarear.
Depois, o espadachim investiu como um relâmpago contra duas outras criaturas, golpes rápidos e precisos que deixaram um borrão pairando no ar momentos após atingirem seus alvos.
E então.
Eu percebi o quanto tempo gastei parado, admirando o samurai em batalha, um ogro se projetara furtivamente atrás de mim e me derrubou com uma bofetada monumental. Fui lançado com violência contra o chão e, de súbito, perdi a consciência.
Quando acordei, Rokuro estava sentado ao meu lado. Um punhado de ogros mortos no leito do rio. O vento, já calmo.
— Pensei que você tinha morrido — ele disse, jogando-me um cantil.
— Eu também. — concordei, sentando-me, bebendo um pouco d’água. Sempre acordo com sede. Ele, pelo visto, já notara.
— A feiticeira estava controlando aquelas criaturas.
— Como sabe?
— Ela esteve aqui.
— Nadya esteve aqui? — mais uma golada. — Então já percebeu que estamos atrás dela. O que vamos fazer agora?
Rokuro não respondeu.
E assim, endireitando o corpo, ele se levantou, olhou para o rio e continuou andando. Ainda era noite, uma noite sem lua, a lamparina ainda acesa ao meu lado. Nada mudara. Nem ia mudar tão logo. Nossa vida de aventuras era tão inflexível quanto o braço de madeira do Rokuro.
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A mistura de personagens de universos – aparentemente – diferentes não prejudicou a aventura. Os diálogos estão bons e a ambientação também, propiciando uma maior credibilidade para quem lê. Não consegui distinguir o tempo em que a ação se passa, pois há ogros, samurai, pistoleiro e uma feiticeira envolvidos, dificultando a identificação do período.
Haverá continuação ou este é apenas um “book” para mostrar seu estilo e criatividade?
Muito obrigado pelo comentário, Franz.
___
Não pretendo escrever nenhuma continuação. Na verdade, isso foi apenas um exercício (criar uma narrativa de fantasia meio surreal, mas fácil de engolir). Estilo eu ainda não tenho, estou procurando, fazendo experiências com o texto. Cada um dos meus contos é, ao meu ver, bem diferente dos outros. Sou muito indeciso. E muito autocrítico. Não sei por qual caminho irei trilhar. Por isso eu estou (estava*) publicando aqui no ONE, para amadurecer as ideias.
___
E é isso.
Mais uma vez, obrigado.
Gostei, a mistura teve o tempero em quantidade certa.A simlicidade é agradavel e não deixa de mostrar a historia maior que existe no contexto.
-
Continue escrevendo
Bastante interessante, a única ressalva, porém (que eu acho que nem cabe a mim fazer, mas que seja), é que seguindo a narrativa fantasiosa, é bom você manter um contexto ou senão adotar traços próprios ao que diz respeito à raças multiplas. Isto é, jogar ogros samurais e feiticeiras é uma mistura só haha…
Gostei da forma como escreveu em geral, apesar de corrida ou sem emoção em alguns pontos. Também, você não precisa (ou não deve) sempre descrever uma ação seguida das falas para aplicá-las na cena. Eu particularmente acho que torna a narração travada, sem contar que você precisa confiar também no senso de dedução de quem lê.
E, afinal, onde está o Marcos que não publica mais nada? Ou ele já publicou e perdi?
Eu vou voltar.