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Jul
06
2011

Um estranho na UEFS

Escritor: Marcelo Vinicius

um-estranho-na-uefs

Uma estranha figura caminhava na madrugada pelos campos da Universidade Estadual de Feira de Santana, a UEFS, nas últimas décadas. Apelidada de “O homem sem rosto” pelos estudantes, ela repetia o seu trajeto costumeiro partindo da sua morada nos fundos do Módulo 7, o qual era o módulo mais distante, em direção à Biblioteca Central, onde passava horas entre os livros. Não se sabe como ela conseguia entrar, já que a biblioteca estava sempre fechada e escura, por ser muito tarde.

Aquela coisa carregava uma espécie de lamparina, para poder ler e escrever a noite, e assim projetava uma iluminação precária na biblioteca, mantendo um ambiente bastante fóbico e gerando sombras que se projetavam de maneira assustadora sobre os livros nas estantes.

Algumas vezes, o estranho personagem também era visto passando nos corredores sombrios dos Módulos 6 e 7 sem rumo, desorientado, confuso, sem saber por qual caminho seguir.

Muitos diziam que na madrugada, a UEFS parecia ter uma atmosfera sobrenatural, a qual tronou-se o único refúgio a partir de onde ele se relacionava com o mundo físico, através dos livros da biblioteca.

Assim, quem teria coragem de tirar essa história a limpo e descobrir quem era aquele sujeito? Ninguém, nem mesmo a Reitoria, pois diziam que esse homem caminhava ao longo da noite, falando consigo por todo momento e se alguém pudesse ouvi-lo, seria capaz de se enlouquecer ao sentir que havia uma terrível tristeza em suas palavras.

Certa vez, dois vigilantes tentaram arrastar a força, para a residência universitária, uma jovem estudante residente, que, por algum motivo, não obedeceu, a tempo, o toque de recolher da Universidade, o qual ocorria sempre a meia noite, a hora em que o estranho surgia dos confins do Módulo 7. Esse caso se iniciou quando ela corria atrasada para o pensionato, ao escutar a sirene que ecoava de forma estridente, e foi neste estante que o coração da moça foi acometido de uma terrível sensação de dor e perda, as suas forças se esvaíram e fizeram com que ela caísse ao chão, porque, no meio do caminho, ouvira os lamentos do homem que já vagava pelos Módulos nebulosos da Universidade.

Os vigilantes correram para ajudá-la, arriscaram arrastar a jovem, a qual escapava numa corrida desesperada, quando pararam ao perceber que um homem de estatura mediana segurava a estudante em seus braços. Ela estava abraçada a um homem que nunca havia visto em sua vida. A sensação de desespero era tão grande que ela não tinha idéia do que estava fazendo e implorava para aquela estranha figura noturna, que nem mesmo tinha um rosto, que a ajudasse. Sua voz saía fraca entre o soluçar de seu choro, e suas mãos agarravam com força as costas daquele ser sombrio que desceu como um anjo dos céus para protegê-la. O que aconteceu foi que a pobre estudante tinha ouvido os seus lamentos e ficou seduzida pela sua tristeza, como reza a lenda. Agora, ninguém poderia fazer mais nada por ela.

Os vigilantes não tiveram reação diante do famoso e lendário estranho homem solitário da Universidade. Como se estivessem em um transe, eles permaneceram imóveis desde o momento em que ele havia aparecido. Quando voltaram a si, apenas sentiam seus corpos batendo forte contra o chão, enquanto suas vidas lhe foram sugadas sem que pudessem implorar por elas.

E a estudante? Ela também começou a vagar na madrugada de mãos dadas com o estranho pelos campos da UEFS, cantando uma delicada canção, com uma suave voz infantil, que nos envolvia em sua leveza.  Sua triste canção absorvia toda a Universidade e tudo parava à sua presença. E a letra? A letra era mais ou menos assim:

“Nunca nos deitamos, meu amor e eu. Mas agora deito apenas eu, junto ao leito que chora comigo, para sempre deitamos…”.

Ah! Já é tarde e não posso mais continuar aqui, relatando essa história! A sirene, que avisa a hora de recolher, já tocou e preciso passar pelos corredores estreitos dos módulos da Universidade e partir. Então, deixe-me ir…

No momento, estou a andar nos corredores. Observo que as cores das paredes parecem desbotadas e borradas por efeito, talvez, da atmosfera úmida da noite, que se faz aqui na UEFS.

Começo a escutar vozes suaves… Primeiro em minha cabeça e agora numa sombra atrás de mim… Pelo canto do meu olho, eu vejo uma aparição próxima… Às vezes tenho medo de estar caindo em um poço sem fundo. Sinto o toque gelado de uma mão a segurar a minha. Ela me tocou. Quem é? Não acho que seja o estranho, pois a mão é feminina. Não acho… Já que, como um triste fantasma a me espreitar, se comportando como o fiel cão seguindo o seu Senhor, pressinto que a conheço, mas ao mesmo tempo não sei quem é ela.

Ás vezes quando está tudo em silêncio, eu ouço sua voz cantando na minha mente, uma voz infantil, que me envolve em sua leveza, que me introduz na sua imaginação poética e tranquila, como um repouso que deveria haver na sepultura. Falo-te também de um vago horror no coração, por causa mesmo daquele sossego sobrenatural de sua canção. Nesse estado, continuamos ainda a caminhar, cautelosamente para diante. Que sorte, talvez mesmo mais terrível, me espera? Não sei… Ao pensar nisso, faço uma pausa. Não ouso passar dessa reflexão.

Num esforço ardente de compreender meu verdadeiro estado, ocorre um ruído discordante de vozes humanas que atrai-me a atenção e assim vejo os olhos de demônio, de vivacidade selvagem e sinistra que contemplam-me vindos, ao longe, de um local anexo ao poste na rua que ilumina levemente o ambiente e a garoa fina. A neblina é iluminada pela luz da rua, o que dá à Universidade, um aspecto ameaçador. Próximos a esse poste, onde antes nada fora visível, eu percebo os vigilantes dizendo apavorados, apontando para mim: “Nossa! É ele, novamente!”.

Nota de esclarecimento:

Esse manuscrito foi encontrado acidentalmente na biblioteca por Elen Alcântara, uma estudante da mesma Universidade descrita no texto, o qual dizia transcrever trechos de um misterioso documento dedicado ao lendário “Homem sem rosto” da UEFS. O texto, escrito a mão, reprimia um relato provavelmente verídico, de autor desconhecido. Todo esse mistério, apesar de completamente improvável, conquistou de imediato a atenção dos estudantes e assim, as sementes do interesse pelo estranho, pelo terror, pelo mistério e pelo oculto que se manifestara nessa Instituição de ensino há décadas, já haviam sido lançadas, e germinaram com intensidade nos anos seguintes.

Hoje, esse manuscrito está no Museu Parque do Saber Dival da Silva Pitombo, em posse da UEFS, mas atualmente administrado pelo governo do estado da Bahia.


Written by Marcelo Vinicius in: Contos,Marcelo Vinicius |

19 Comments»

  • Thaina Gomes says:

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    HAHA! Eu gostei, achei diferente de todas as estórias de terror que já li ou ouvi. ^^

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Olá Thaina, obrigado pelo comentário! :)

  • André says:

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    Um conto de forte atmosfera gótica ,um conteudo metafórico que me parece o medo de nós mesmos, projetado em fantasmagorias; lembra os melhores trabalhos de Bioy Casares , em imaginação criativa.Parabéns.Prazer em reler-te.Abraço.André

  • Solange says:

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    Prazer e arrepios ao ler um novo estilo teu… Um estranho sempre mete medo e causa alvoroço na nossa vida, mas , o ‘estranho’ de nós mesmo que se habita no nosso “eu” interiorizado deixa dúvidas e causa manifestações espirituais… Bjns. Solange

  • Bruno Silva says:

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    Admito também que fiquei receoso de ler o final, porque a medida que o texto seguia, seu ritmo se tornava mais rápido e trêmulo.

    Gostei.

  • Luiz Luna says:

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    Conseguiu aproximar da realidade bem. Dá até vontade de dar uma olhada no manuscrito.
    Bom conto de terror.

  • Samila says:

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    O clima criado ficou muito bom, tal qual o formato do texto que permitiu que ele ficasse muito verossímil – você se pergunta se isso não ocorreu de fato.
    O final, todavia, me decepcionou. Você criou um clima de terror tão intenso e envolvente que eu fiquei esperando por um final bem macabro, o qual não veio.

  • Flávia M says:

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    Gostei do conto. No fim, o narrador virou o próprio personagem da história! No inicio a narração estava em terceira pessoa, depois o narrador ficou em primeira pessoa, já que o narrador começou a participar dos acontecimentos e no final era ele mesmo o estranho de mãos dadas com a moça e que não se reconhecia como tal, acho. Essa estrutura eu gostei bastante e o final gostei também, para mim não decepcionou. O problema é que as pessoas estão acostumadas a verem aquele terror monstruoso, sangrento etc. E nesse caso, achei, não tenho certeza, que o terror era mais psicológico mesmo. Minha opinião, isso vai de cada um.

  • Marcelo Vinicius says:

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    Olá! Obrigado a todos pelo comentário!

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      Pô Marcelo, tem um pessoal aí que deve morar com você ou frequentar sua casa, ou ser da mesma empresa.. ou ou.. etc etc..

      Comentários tudo do mesmo IP?
      :-|

      • Marcelo Vinicius says:

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        Sim tem. Mas não é em casa. É o pessoal da UEFS, na Universidade. Estamos em intervalo no lab de informática. Inclusive é o grupo de literatura aqui. É a mesma rede. É por isso. Solicitei que acessassem, sempre estamos lendo um material do outro.
        Enfim, é a mesma rede sim, pois é um lab.

  • Marcelo Vinicius says:

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    Obs.: Nem todos comentários, só os que estão sem fotos é que estão na mesma rede, no mesmo lab. da UEFS;

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Sou da Bahia também e já estive na UEFS umas três vezes. Gostei para caramba da tônica, porque trouxe algo que é bem conhecido por mim. Acho que a mesma sensação de quem mora em São Paulo e lê um romance ambientado na cidade.
    -
    Achei bem interessante o estilo e a ousadia de pegar algo real e transformar numa estória fantasiosa (ou não, né? todos nós sabemos que estas lendas urbanas existem em todos lugares).
    -
    De todo modo, meus parabéns! :D

  • Marcelo Vinicius says:

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    Olá Thiago, legal encontrar conterrâneos por aqui!

    Pois é, é bom ter um caso contado em outros lugares, principalmente na região em que conhecemos. Não sei se já presenciou, mas realmente a UEFS de madrugada, a noite, passa uma impressão “sombria” por causa dos campos, ruas largas e cheias de árvores. :)

    Daí surgiu à inspiração!

    Obrigado!

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Sim, sim… Sem contar que ela é uma avenidona laaarga e os blocos imensos de um lado. Quando fui a primeira vez lá, no vestibular, tive de andar até o penúltimo bloco. Foi sofrível. Nem quero imaginar aquilo ali a noite…
      -
      Abraços!

  • DragonKing says:

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    Gostei da atmosfera, me senti la de novo kkkk

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    achei meio chichê, tipo mistura de sereia c/ loira do banheiro e bruxa de blair ^^

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