Vou matar você
Escritor: Leonardo Mingotti
Eramos quatro.Eu,Felipe,Carlos, e o Dudu.Nos conhecemos todos na igreja, por incrível que pareça.Éramos da mesma turma de primeira comunhão.Aulas chatas de catolicismo,tudo o que nos restava era conversar.Não demorou muito para virarmos amigos.As aulas eram sempre no sábado a tarde.Dudu chegava sempre mais cedo,nao importa o quão cedo você chega-se,ele já estava lá na porta da igreja esperando.Uma vez estava chegando para aula e encontrei Felipe e Carlos na esquina da igreja.Ficamos conversando sobre as figurinhas da feiticeira e de como ela era gostosa.Tomamos um susto.O fuca do padre passou a milhão por nós e vimos no banco do carona o Dudu.
-O padre vai comer o rabo dele.Eu disse.
Todos rimos.Depois da igreja começamos a estudar na mesma escola.E após a escola,saíamos juntos a noite pra se divertir.
XX
Já tinha passado por dezessete invernos e em todos eles nunca presenciei uma noite tão fria como aquela,o vento soprava forte ,meus olhos lacrimejavam,eu caminhava olhando para o chão e esquivava um pouco meu rosto para a direita.Meus dedos estavam congelados,coloca-los no bolso da jaqueta de nada adiantava.
Voltavamos para casa em mais uma noite de muita musica e pouca cerveja,tinhamos tempo demais e dinheiro de menos,íamos aos piores shows de rock ,aos mais baratos e sujos,não frequentavamos os bailes populares.Agente gostava disso,sempre estivemos do lado de fora de tudo que fosse legal,não tinhamos atitudes extremistas ,só ficavamos no nosso canto.
-Tomara que amanhã faça sol,faz tempo que não vou à redenção.Estou afim de ir lá…o que vocês acham?Disse Felipe.
-Boa ideia cara.Eu levo o chimarrão.Falou Carlos
-Que horas agente se encontra?Perguntei
-O de sempre,as duas horas passamos na tua casa e de lá partimos .Me respondeu Felipe sorrindo.
-É verdade.Completei
-Não esquece de levar o violão
-Bah..não vai dar…perdi a capa , é muito chato ter que
carregá-lo.Respondeu Felipe para a pergunta de Carlos.
-Tu és um vadio.Eu disse
Então começamos a rir.Olhei pra trás e gritei para Dudu:
-Hey,caminha rápido cara, não vejo a hora de chegar em casa e deitar na minha cama e puxar uma coberta quentinha.Ele ficou parado me olhando.Me aproximei rapidamente.
-Quer ficar aí congelando?
-Vou matar você.Dudu respondeu.
-Tá louco?!
-Vou matar você.E pulou em cima de mim.Eu estava desprevenido,apesar de ser mais alto e mais forte,fui derrubado fácilmente.Minhas costas se chocaram contra o asfalto,as pernas estavam encolhidas como se eu fosse fazer um abidominal.Ele estava em cima de mim,com suas mãos entrelaçadas as minhas,como se estivéssemos dando no couro.Péssima comparação.Eu estava apavorado.Seus olhos estavam vermelhos e grandes,sua sombrancelha estava bem aguda,os dentes rangiam,nesta altura ele parecia mais um pintier do que meu amigo Dudu.
-Que porra é essa !Gritei . Você está me machucando cara!
Foi então que olhei pro lado e vi Felipe com seu coturno ,chutar em cheio a cara do Dudu,o sangue espirrou na minha boca,pude sentir o gosto.
Ele caiu do meu lado,junto com os pedaços do seus dentes.
-Pirou de vez!? Gritou felipe
-Vou matar você.Repetiu Dudu.Se virou para agarrá-lo .Me deu as costas.Cometeu um grande erro.Eu estava pirado.Juntei um tijolo que estava no canteiro da rua bem ao meu lado,corri por trás e acertei em cheio seu ouvido.Dudu caiu.Saimos correndo,estavamos assustados.Não sou especialista em músculos,temperatura ou qualquer coisa do tipo,mas de uma coisa eu tenho certeza.Quando se corre no frio,seu corpo aquece,e ao invés de cansaço e suor,você fica quente e confortável.Posso correr por uma eternidade pensei.Engano meu,umas quatro quadras depois parecia que alguém estava fincando uma faca em minha costela.Não pudi mais correr.Fiquei sem ar.
-Para um pouco.Eu disse
Paramos em uma esquina,um muro alto de uma mansão nos escondia da rua que recém dobramos.Felipe espiou.
Então disse
-Ele não nos seguiu.
Me dirigi ao Carlos e falei:
-Você é um tremendo de um cagão.Ficou parado o tempo todo só olhando.O primeiro a correr.
-Achei que fosse brincadeira de vocês.
-Brincadeira?Mais um pouco ele me matava enforcado cara,não viu minha cara de pavor?
-Que merda que ele fumou,cheirou…seilá?O que era aquilo….seus olhos..estavam vermelhos….que doidera.Indagou Felipe.
-Nada,absolutamente nada,estive do lado dele a noite inteira,nem água bebeu.
-O que faremos agora?Perguntei
Felipe olhou pro alto.A lua iluminava nossas testas.Carlos fitou seus tenis.Continuamos a caminhada de volta pra casa sem saber onde estava ou o que tinha acontecido com Dudu.
XX
A porta da igreja estava aberta.Entrou de forma rápida,passos largos acompanhados de pisadas firmes.O padre o encarou com surpresa.Dudu engoliu um pouco de saliva.
-Estou com os dentes quebrados,minha cabeça doi.Tenho ematomas de pancadas na orelha e nem sei o porque disso.
-O que aconteceu?Perguntou o padre.
-Não se faça de desitendido!Respirou fundo,seus olhos lacrimejavam,seu nariz dava indicio de que iria escorrer e prosseguiu:
-Tu sabes muito bem do que estou falando.Daquela tarde,aquela menina e tudo mais,por mais ingenuo que eu fosse, ainda assim sabia que aquilo não se tratava de uma simples brincadeira.No começo achei que estava louco mas depois depois juntei as peças e percebi que havia algo de errado comigo depois daquele dia.
Duas lágrimas escorreram do seu olho esquerdo.-E veja como estou agora?Com o rosto quebrado e nem sei o porque.Tenho pelo menos o direito de saber o que você fez comigo.Sinto que algo me possui,faço coisas sem sentido, e no outro dia,não me recordo de nada,no outro dia restam apenas ematomas…
O padre pensou em algo a dizer.Refletiu.Não tinha como escapar,estava numa sinuca de bico.Respirou.Coçou o naris.
-Bem,é verdade….você precisa saber.
Dudu ficou paralisando esperando.
O padre respirou mais uma vez e disse:
-A filha do prefeito estava possuída por um demonio.O prefeito botou um revólver na minha cara e ordenou que eu tira-se o demonio da garotinha.A coitada estava magra,pele em tom verde.os olhos de um defunto.Eu já tinha feito muitos extermínios na minha vida.Mas também é verdade que já fazia muitos anos que eu não fazia um se quer .Fiquei com medo.Um exorcismo é algo perigoso demais para quem hospeda o ser maligno,um detalhe e a pessoa morre,é por isso que poucos se arriscam a fazer .Nenhum padre queria carregar a culpa pela morte de um inocente,por mais que as intenções fossem as melhores.Então tive uma ideia.
-Hum.Expressou Dudu
-Escolhi transportar o demônio para outro corpo.O transporte é algo muito mais fácil e bem menos arriscado.Depois que a filha do prefeito estive-se a salvo eu pensaria no que fazer.
-Não entendo,porque tanto medo,o que você tinha com aquela garota?
-O prefeito era um homem muito perigoso,qualquer arranhão na menina e eu estaria morto.Então saí atrás de um corpo hospedeiro.Passei pela igreja e você estava lá sentado..
-Porque eu?
-Não era uma questão de escolher alguém,você foi a primeira criança que eu vi,qualquer outra no seu lugar seria escolhida.
Dudu fez uma cara nauseante com um tom de desprezo e um pouquinho de ódio.
Prosseguiu o padre:
-Então fiz o transporto do demonio para seu corpo mas para minha surpresa você reagiu muito bem .Não teve efeitos colaterais,seu aspecto era perfeito.Como se nada tive-se acontecido.Resolvi deixar assim,o demônio não podia fazer nenhum mau dentro do seu corpo.Foi o que pensei.Mas peo visto alguns anos depois, o maldito está reagindo dentro de você.
-Não acredito que você pode ser tão…tão…você um padre….submeter uma criança inocente a isto?
-Deus sabe do teu sofrimento e te dará em dobro.Falou sorrindo o padre.
-Pro inferno seu velho de bosta!Você vai tirar esse demônio do meu corpo agora.
-Não posso,faz muitos anos que não retiro demônios das pessoas, perdi totalmente a prática,se eu tentar … seu corpo não aguentará,você irá morrer
-Então transporte para o corpo de outra pessoa
-Não posso cometer o mesmo erro duas .Finalizou o Padre
Dudu empurrou o padre contra a parede.Suas sobrancelhas se acentuaram.Dos seus olhos algumas lágrimas cairam.Escorreu uma gota de seu naris.Preparou suas mãos no formato do pescoço do padre então disse:
-Vou matar você
No Comments»
RSS feed for comments on this post.






















Sobre livros e suas adaptações cinematograficas
#ficadica 004 – Escrever todo dia é a fórmula do sucesso?
A Máquina Diferencial
Resenha do livro "O estranho mundo de Tim Burton"
