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Aug
04
2011

A porra da guerra

Escritor: Lure Afaiselt Mailion

08/02/2016

The New York Times:

“Esta semana, um satélite espião americano fotografou estranhas movimentações em uma base militar chinesa. Autoridades americanas acusam chineses de estarem produzindo armas de destruição em massa proibidas.”

China. O segundo país mais rico e poderoso do mundo. Um bilhão e meio de habitantes. Uma cultura milenar atingindo seu ápice econômico e tecnológico. Porém, a ascensão dos mais fracos nunca é vista com entusiasmo pelos poderosos que estão para perder o trono, perder a liderança do planeta. A história da humanidade é feita de tramas e jogos de poder que jamais poderemos assimilar, e ela está em plena construção. Temos vários exemplos de que uma simples decisão errada de algum poderoso líder, pode acarretar consequências desastrosas para todos.

09/02/2016

The Washington Post:

“Estados Unidos pede que a ONU inspecione as instalações militares chinesas. Governo americano alega que chineses estão produzindo armas biológicas proibidas pelo tratado de paz entre as nações, assinado em 2013.”

Os Estados Unidos da América. Criado para ser a nação do futuro. Sinônimo de liberdade, riqueza e poder. Orgulhosos por terem cumprido esta meta. Mas o futuro chega e, inevitavelmente, torna-se passado. Atualmente, o mais poderoso, tecnológico e belicoso dos países, está sendo alcançado por uma nação que sempre subestimara. Um embate torna-se provável quando as opiniões de dois poderosos divergem em pontos delicados. Mas o combate só se concretiza se houver motivos particulares por trás dos panos.

11/02/2016

Le Monde:

“Chineses recusam inspeção dos agentes da ONU e dizem que os americanos não devem se intrometer em assuntos internos chineses, pois eles estão agindo dentro das normas.”

A paz é uma das mais frágeis condições buscada pelos humanos. Todos a desejam, mas quando a possuem, pouco fazem para mantê-la. É como um daqueles aparelhos eletrônicos ou maquinas tão úteis para nossa vida, que só nos lembramos que precisam de manutenção quando estão com defeito. No entanto, a paz é um desses aparelhos que, quando defeituoso, dificilmente há conserto.

 

12/02/2016

The New York Times:

“Suspeitas confirmadas: um espião americano que trabalhava infiltrado na inteligência do exercito chinês, vem à tona e confirma as suspeitas. Ele garante que chineses estão produzindo uma arma biológica sem precedentes. E ainda especifica que a arma pode dizimar a população de um país em poucas horas.”

13/02/2016

The Korea Daily:

“EUA dobra investimentos no projeto desenvolvido por cientistas americanos e sul-coreanos em Seul, que está criando uma forma de propulsão revolucionária, com base em geradores anti-gravitacionais. Os cientistas estão animados e dizem que agora poderão fazer testes mais práticos e conclusivos.”

Como sempre, em tempos de guerra, ou precedentes a ela, as tecnologias dão um grande salto em evolução. Não só as tecnologias bélicas. Outras áreas também são beneficiadas como as de comunicações, transportes, propulsão, blindagens, aerodinâmica e inúmeras outras.

16/02/2016

The Times:

“Após ser pressionado pelo secretário-geral das Nações Unidas, governo chinês admite estar criando armas biológicas de destruição em massa, mas alegam ser apenas para autodefesa e que as armas ainda estão em fase inicial de construção.”

20/02/2016

The Washington Post:

“Depois de fracassadas tentativas de negociação, o governo americano, com o total apoio da ONU, decide enviar suas tropas para a costa chinesa para uma possível intervenção em território chinês.”

21/02/2016

China Today:

“Governo chinês pede calma a população e garante que americanos não ousarão nos atacar, mesmo assim promete revidar, com força dobrada, qualquer ataque americano. Além de estar apressando a construção das armas, governo diz que não se intimidará em usá-las.”

 

 

26/02/2016

The New York Times:

“Presidente libera ataque à China e pede apoio de todos os americanos e países aliados nessa hora difícil e de decisões. Novamente nosso país quer provar que pode manter a paz no globo, evitando a proliferação desse tipo de arma em países do terceiro mundo. E que, para o bem de todos, prove.”

A oito mil metros de altitude e voando a velocidades superiores a dois mil quilômetros por hora, um esquadrão formado por trinta caças F-22 Raptor, seguia rumo à sua arriscada missão. Apesar de estarem confiantes, a maioria daqueles pilotos sabiam, no fundo, que não sairiam vivos de mais aquela tarefa. Aquele era o Pelotão de Apresentação, como gostavam de chamar. Seria o estopim de acontecimentos muito maiores.

No mesmo instante em que cruzaram a marca que separava o espaço aéreo internacional do espaço aéreo chinês, um número realmente grande de caças J-20, apareceu do alto abrindo fogo contra os bravos pilotos americanos. Era o caloroso Pelotão de Boas Vindas dos chineses que, como bons anfitriões, queriam demonstrar sua hospitalidade. Os projéteis perfuravam a fuselagem das aeronaves como se tivessem sido construídas de seda. Boa parte dos pilotos morria antes de ver seus belos aparelhos espatifarem-se no chão. Muitos deles foram derrubados impetuosamente por baterias antiaéreas, o que ocasionou uma bizarra chuva de combustível, ferragens e restos de corpos humanos, que caía sobre o solo chinês. Poucos afortunados conseguiram ejetar de suas aeronaves a tempo.

Havendo ou não havendo sobreviventes no pelotão inicial, o que importa era que seu trabalho fora cumprido com maestria. Abriram caminho para os protagonistas da festa. Muito acima, cinco caças B-2 Spirit, lançavam poderosas bombas sobre bases lotadas de militares e civis chineses. Imediatamente os chineses revidaram enviando mais aeronaves à altura dos stelt’s americanos. Aquela guerra estava apenas começando.

27/02/2016

Japan Times:

“Mesmo com os intensos protestos da população japonesa, o país decide enviar suas tropas para a China, alegando irregularidades e motivos pouco convincentes para uma invasão americana.”

 

 

28/02/2016

The Korea Daily:

“Americanos levam cientistas sul-coreanos que estão a trabalhar em uma tecnologia inovadora de propulsão espacial, baseada em anti-gravidade, para solo americano, e novamente dobram seus investimentos nessa tecnologia. Com uma grande guerra para se preocupar, porque eles estão dando tanta atenção para isto? Esperamos que a Coréia do Sul não seja envolvida nessa guerra.”

29/02/2016

The Washington Post:

“Nossos aliados europeus entram na guerra a nosso favor. Presidentes europeus também não querem que as tais armas produzidas pelos chineses sejam concluídas. Todos querem acabar com a insegurança no mundo.”

Àquela altura, a guerra já se tornara global e perigosa. Os mais poderosos países do mundo, os que deveriam servir de exemplo como nações evoluídas, estavam cometendo um ato deplorável e contagiando mais seguidores para uma autodestruição generalizada. No resto do planeta, a comoção e os protestos anti-guerra, realizados por associações pacifistas e pela população, já tomavam conta das ruas das grandes cidades. A imprensa condenava os dois lados, cada um tinha cometido os seus erros. Mas ainda havia tempo para voltar atrás, tempo para impedir que outros líderes com personalidades aguerridas, tomassem parte de algum dos dois lados e aderisse àquela desastrosa guerra.

04/03/2016

 

O homem que pilotava aquele B-2 Spirit modificado estava suando frio. Não suava por causa da poderosa força G que colava seu corpo ao assento. Nem pelo apertado macacão que estava lhe tirando o ar dos pulmões. Suava devido ao tremendo esforço que tinha de fazer para não pensar nas consequências da missão que lhe fora incumbida. Não podia pensar em sua bela e carinhosa esposa; muito menos em sua querida filhinha que deixara no Texas, esperando por ele depois que tudo aquilo terminasse. Se tivesse algum sentimento de amor ou compaixão, poderia falhar na importante tarefa que lhe cabia executar dentro de poucos minutos. Ao aproximar-se de seu alvo, após o procedimento padrão de lançamento, levantou a proteção do indesejado botão vermelho que ele tentava, a qualquer custo, esquecer a função. Alvo na mira! – Não podia adiar o inevitável. – Lançar! Ao apertar o botão, desprendeu-se da parte inferior da sua aeronave um pesado objeto. A proteção de vidro acima de sua cabeça refletiu o forte clarão; instantes depois a aeronave balançou fortemente, fazendo uma lágrima cair e misturar-se ao suor do seu rosto. A imagem feliz de sua querida família, agora contrastava com a imagem dos milhares de famílias igual à dele, que acabara de destruir apertando aquele maldito botão vermelho.

05/03/2016

                                       Frankfurter Allgemeine Zeitung:

“Armas nucleares foram usadas: mesmo com a ajuda européia, exércitos chinês e japonês não cederam às investidas. Os EUA cometeram um grande erro e atacaram Xangai e Tókio com armas nucleares, ontem pela manhã. A bomba lançada sobre Tókio não atingiu o lugar esperado, mesmo assim, calcula-se que milhões de pessoas tenham morrido nas cidades próximas. Já Xangai, foi atingida impiedosamente pela bomba. Impossível calcular o número exato de vítimas;  mas esperamos que depois desse ataque, os governantes orientais ponderem melhor sobre essa guerra e resolvam render-se de uma vez por todas.”

Os que estavam próximos às zonas de impacto, tiveram mais sorte, pois eram imediatamente transformados em pó, antes de poderem sentir a inimaginável dor que fustigaria seus frágeis corpos, provocadas pelo calor. Já os que estavam mais distantes, esses sim, sofreram de maneira indescritível. Sofreram por sentir seu sangue em ebulição dentro das veias, por sentir seus olhos explodirem dentro das orbitas e pela dor que o fogo causava ao derreter, feito borracha, sua pele. Mas uma dor ainda mais forte os assolava. Era uma dor que destruía a alma. Não podiam ver, mas podiam ouvir os gritos agoniados de seus filhos, mães, pais, esposas, irmãos e amigos. Gritavam por estarem sentindo dores semelhantes àquela. Ficaram agradecidos os que tiveram tempo de abraçar seus entes queridos para o derradeiro momento. Os que tiveram tempo de se esconder em alguma estrutura de pedra ou concreto, resistente o suficiente para mantê-los vivos, também sofreram à sua maneira, tendo que suportar as terríveis queimaduras de terceiro grau e as imagens, dignas dos piores filmes de terror já produzidos, que presenciaram. Ao saírem de seus esconderijos improvisados, viram dezenas de pessoas caminhando em chamas, pelas ruas, com a carne desprendendo-se dos ossos, clamando para que a morte chegasse o mais breve possível. Viram grupos inteiros de pessoas carbonizadas, irreconhecíveis, como se nunca tivessem sido humanos. O céu naquela manhã tornara-se escuro como a noite. Todas as casas e edifícios com seus despreocupados moradores; as fábricas com seus aplicados trabalhadores; os museus com suas inimitáveis e impagáveis obras de arte; os hospitais com seus doentes indefesos; as escolas e creches com suas auspiciosas crianças… Tudo. Tudo ardendo em chamas, lançando uma negra fuligem para as altas camadas da atmosfera.

Momentos depois, as poderosas ondas de radiação, começavam a se espalhar para muito além do local das explosões, contaminando rios, reservatórios hidrográficos, plantações e até oceanos. Destruíam as células de qualquer ser vivo que ousasse atravessar seu caminho, causando variados tipos de doenças a curto, médio e longo prazo. Aliás, esse era o efeito mais duradouro de uma explosão nuclear: o efeito incerto que causava sobre organismos vivos. Cânceres, deformidades físicas e mentais, afetando até mesmo gerações, após o indivíduo que foi contaminado originalmente.

Os países do ocidente já tinham extrapolado todos os limites da razão. A China e o Japão não poderiam perdoar o que foi feito a seus cidadãos… E não iriam!

06/03/2016

  The Moscow Times:

                “Nosso país entrou na guerra a favor da China e do Japão. O presidente declarou que americanos estão ficando loucos, e que não vai ficar passivo a essa situação. Disse ainda, que a Rússia tem o dever de impedir que os americanos tentem dominar o oriente.”

07/03/2016

                                                                                        CNN:

“Submarinos chineses lançam ataque nuclear sobre costa oeste americana, destruindo dezenas de cidades.”

                                                                                       RTP:

         “Principais capitais européias são atingidas por mísseis nucleares intercontinentais japoneses. A situação é calamitosa.”

09/03/2016

    The Moscow Times:

“Após o ataque do dia 07/03, países europeus revidaram lançando várias ogivas nucleares sobre a China e Japão. Os EUA destruíram a costa oriental da Rússia. O presidente russo liberou todo o arsenal nuclear para ser usado contra os inimigos.”

10/03/2016

                                                                     The Times of Índia:

         “Presidentes indiano, paquistanês e israelense, unem-se e dizem que ocidente já foi longe de mais com suas guerras provocadas por motivos dúbios e muito provavelmente financeiros. Os três países irão apoiar a China, o Japão e a Rússia, com todo o seu poderio militar.”

                                                                                 La Estrella:

“Países sul-americanos continuam neutros. População implora para que seus governantes não tomem nenhum dos lados dessa peleja.”

Centenas de poderosos mísseis nucleares iluminavam os céus da maior parte do planeta, como grandes estrelas-cadente, e destruíam impiedosamente seus alvos. Muitos saíam de submarinos emergidos das profundezas dos oceanos, provocando um belo espetáculo visual, agitando e causando a ebulição em grandes quantidades de água ao ativarem seus propulsores combustivos. Outros saíam para o espaço e penetravam novamente na atmosfera, em cima do local exato, para seu impacto. Os gigantescos cogumelos de fumaça eram vistos a centenas de quilômetros, muito além das explosões. O céu estava escurecendo, tornando cada vez mais evidente as intrincadas batalhas aéreas. Balas tracejavam a escuridão. Milhares delas. Brilhantes como o ouro da morte. Exércitos destruíam-se por solo, marcando o chão com o sangue de milhões de soldados. Os civis tentavam se esconder em abrigos subterrâneos; os que podiam, fugiam com seus barcos ou aviões particulares, para os mares e ilhas distantes do continente. A verdade é que já não havia mais lugar seguro em nenhuma parte do globo. O fim estava próximo. A história da humanidade estava prestes a terminar, sem deixar vestígios, sem deixar gerações para poderem, posteriormente ao combate, lembrar de seus heróis através dos livros de história. Nada. Absolutamente, nada.

Washington, D.C.

15/03/2016, 22h30min

                Onde, há poucos dias, encontrava-se o que poderíamos chamar de capital americana, hoje se encontrava apenas uma cidade em escombros. Um único dedo que pressionara um botão e ocasionara mais de setecentas mil mortes, só naquela área. Em meio às ruínas, o odor de carne queimada misturava-se com outros cheiros igualmente enfadonhos.

                No subsolo da cidade, conhecido por seu labirinto de túneis, salas e galerias; o homem mais poderoso do planeta era guiado, como uma criança que não sabe o caminho de casa, por um agente de segurança altamente qualificado. O destino era uma grande sala no final de um corredor sujo e mal iluminado.

                ­­- Por aqui, senhor presidente, pode entrar – o agente estava aliviado por se livrar momentaneamente daquela responsabilidade que estava sustentando a várias horas. Babá do presidente americano. Não era bem esse o seu sonho de realização profissional.

                – Sente-se aqui, senhor – o robusto e elegante homem fardado que os recepcionara, era o secretário da defesa dos Estados Unidos. – Esses são os maiores cientistas americanos da atualidade, juntamente com os dois cientistas que trouxemos de Seul.

                O presidente americano esquadrinhou a lúgubre e escura sala cheia de monitores, aparelhagem e homens trabalhando em meio à penumbra, concentrados em seus serviços.     No centro, uma grande mesa com quilos de papéis empilhados. Sentados a ela, seis homens que em nada lembravam cientistas, fitavam o presidente com suas faces cansadas.

                – Então, esses são os homens que estão tentando desbancar Einstein? – Sarcasmo nunca foi o forte daquele presidente. Mas na situação em que as coisas se encontravam, nada mais era o seu forte.

                – Na realidade, senhor, nós apenas trabalhamos com física avançada. – O jovem cientista que o retorquiu, parecia estar trabalhando há vários dias, ininterruptamente.

                – Senhor presidente – o secretário tratou rapidamente de tomar as rédeas da conversa. – O assunto que temos de tratar é de extrema importância. Então sugiro que deixemos os cientistas falarem.

                – Tudo bem. Prossigam.

                – Senhor – o rapaz sugou o fôlego –, tememos que a situação seja pior do que o esperado. Temos certeza que o planeta sofrerá consequências desastrosas a partir de agora. Nós, humanos, não conseguiremos mais sobreviver na Terra com o que está por vir.

                – Mas que diabos você está querendo me dizer, rapaz. – Exaltou-se o homem.

-Eu estou garantindo, senhor, que se não quisermos ser extintos pelo forte inverno nuclear que se desenrolará na Terra e destruirá todas as nossas reservas alimentícias, teremos que abandonar o planeta o mais breve possível.

                A face, geralmente corada, do presidente, foi desbotando-se aos poucos. Pensou não ter escutado bem, mas se tivesse, só poderia se tratar de uma piada insolente e de muito mau gosto.

                -Não me fale asneiras meu jovem. O que está pensando? Em cavar um buraco até encontrar a “Terra Oca”?

-Não senhor. Nós temos que ir é para o espaço – o cientista adquiriu um tom mais sério. – Teremos que encontrar outro planeta para podermos prosperar. A nossa Terra não poderá mais abrigar a vida humana por décadas, muito provavelmente, por centenas de anos até que o céu torne a clarear e a radiação diminua.

                O presidente estava perdendo a paciência rapidamente com todo aquele papo furado.

                Assuntos tecnologicamente avançados, nunca eram aceitos com facilidade por pessoas com a mente fechada como a dele.

-Por Deus – bradou. – Você acha que podemos nos safar da extinção com essas historinhas baratas de ficção? Isso aqui é a vida real… Não um maldito filme de ficção científica!

- Na realidade, senhor – retorquiu o secretário da defesa norte americano -, antes de 1969, o homem só havia pisado na lua em histórias fictícias, produzidas pelas mentes mais férteis e ousadas da época. Ao longo de nossa história, a vida real é que vem sempre imitando a ficção. Esse seria só mais um exemplo.

Realmente. Dezenas de filmes, livros e jogos eletrônicos já haviam retratado um apocalipse pós-nuclear ou o abandono do planeta por motivos diversos, tornando-se até um clichê, e um dos temas favoritos dos jovens.

Mas dessa vez era real, estava acontecendo. Era inevitável. Mais uma vez a vida teria que se inspirar na ficção. Só que agora era um caso de vida ou morte.

- Não posso acreditar que estou perdendo meu tempo com isso. – Para um leigo em tecnologia como o presidente, era mesmo difícil acreditar que aqueles homens adultos e que ostentavam altos cargos, estavam querendo brincar de Jornada nas Estrelas.

O presidente tentou reunir todas as suas faculdades e um pouco de ânimo para ouvir o tipo de plano que eles tinham em mente.

- Muito bem – começou. – Então me expliquem como vamos vencer distâncias interplanetárias com essa tecnologia medíocre que possuímos hoje em dia.

- Desde 2001, estamos trabalhando em uma nova forma de propulsão baseada em geradores anti-gravitacionais – explicou-se o jovem cientista. – O senhor já ouviu falar de Eugene Podkletnov?

- Vá direto ao ponto. – cortou o presidente.

- Em 1992, ele descobriu, por acaso, uma possível forma de propulsão anti-gravitacional revolucionária. Mas, para ser usada efetivamente e em grande escala, ainda precisava de muitos investimentos e várias melhorias. E é isso o que temos feito desde 2001, juntamente com nossos colegas sul-coreanos, quando compramos a patente da invenção de Podkletnov.

- E por que ninguém me informou sobre isso antes?

- Há poucos dias essa tecnologia ainda era incerta – argumentou o secretário. – Com toda essa guerra nós aumentamos em cinco vezes os investimentos no projeto.

O presidente americano, ainda estava tentando digerir toda aquela história. Quanto mais assimilava tudo aquilo, mais dúvidas o afligiam.

- Suponhamos que, com toda essa tecnologia, realmente seja possível alcançar um planeta distante, como saberemos para onde ir? Ficaremos vagando pelo espaço até dar de frente com algum planeta igual à Terra, pronto para nos receber de braços abertos e nos dar um novo abrigo? Isso é suicídio!

- Se for este o problema, senhor – falou o cientista, sentindo uma pontada de orgulho e satisfação -, acho que ele já foi resolvido há seis anos.

Em setembro de 2010, cientistas anunciaram a descoberta de um planeta extra-solar a 20,3 anos-luz de distância da Terra, na constelação de Libra. O planeta chamado Gliese581 g, é o planeta extra-solar descoberto até hoje com mais chances de abrigar a vida, depois da Terra. Ele encontra-se na chamada “zona habitável”, de sua estrela. A “zona habitável” é a distância ideal que um planeta se encontra de sua estrela – não muito quente, não muito frio –, podendo assim abrigar água em estado líquido e, consequentemente, a vida.

A princípio, o plano pareceu meio estapafúrdio, mas a mente do homem mais poderoso do mundo começava a clarear.

- Esse plano parece ser bem engenhoso. Mas, como faremos para transportar e manter vivas durante a viagem, os bilhões de pessoas que não morreram com as explosões? – O presidente fez aquela pergunta temendo ouvir a mesma resposta que perturbava seus pensamentos.

- Esse é o único ponto fraco do nosso plano senhor. – O cientista tentava garimpar as palavras corretas para não correr o risco de desmotivar o único homem capaz de aprovar ou negar o plano de salvação da humanidade.

- Como eu já disse – continuou -, a Terra ficará inabitável para nós por tempo indeterminado. Nossa única salvação será abandoná-la o mais rápido possível. Caso contrário, seremos extintos.

 - Nas últimas semanas – falou o secretário -, com bilhões em investimentos, nós conseguimos criar apenas cinco poderosos geradores, senhor. Cada gerador poderá ser instalado em uma grande nave, com capacidade para transportar e manter vivas aproximadamente duas mil pessoas cada, contando a tripulação.

- Conseguiremos construir essas cinco naves apenas se juntarmos todos os recursos que nos restaram senhor. – Concluiu o cientista.

- Quer dizer que só poderemos salvar umas dez mil pessoas, dos bilhões que ainda estão vivas?

- Exatamente senhor.

A visão do homem começou a escurecer. Sabia ele, que fora um dos responsáveis por tudo aquilo que estava acontecendo de ruim. Não podia voltar atrás.

- Muito bem, senhores – falou o presidente -, a partir de agora vocês ficarão conhecidos como deuses se conseguirem salvar a humanidade. Boa sorte a todos vocês.

Levantou-se da cadeira como um homem que envelhecera cem anos em poucos minutos. Um homem derrotado pelos seus erros, sem forças para objetar ou apoiar mais nada. O estrago fora feito; agora tudo que lhe restava fazer era deixar o destino da humanidade entregue nas mãos daquela meia dúzia de jovens cientistas.

Sete dias depois, as cinco grandes naves com capacidade para duas mil pessoas cada, estavam prestes a seguir rumo ao desconhecido. Três das naves iam levar seis mil americanos influentes. Eram cientistas, professores, médicos, políticos e milionários. A única precaução tomada foi a de levar o mesmo número de homens e mulheres, inclusive entre as crianças, para que não houvesse nenhum problema em um possível repovoamento do novo planeta.

As outras duas naves foram mandadas para a Seul, para salvar quatro mil sul-coreanos. Esse era o acordo com os cientistas daquele país, que foram peça fundamental na construção dos geradores.

O dia 22/03/2016, ficaria para a história como o êxodo humano.

As naves abarrotadas de gente seguiram viagem rumo à longa jornada que os aguardava. Deixaram para trás aproximadamente 3,5 bilhões de seres humanos, num planeta com os céus cinzentos, encobertos por infinitas quantidades de fuligem; um planeta cuja temperatura já começava a declinar gradativamente, e em poucas semanas ficariam próximas a zero. E o pior; deixaram um planeta impregnado pela radiação, que com certeza não seria nenhum pouco agradável para com os que aqui permaneceram.

Os felizardos que foram também poderiam não ter tanta sorte. Afinal, foram para um lugar que nem sabiam se suportaria vida, e em naves construídas precariamente e sem os devidos testes. A única coisa que sabiam, era que iriam vagar durante muitos anos em direção ao incerto e o desconhecido.


Categorias: Agenda,Contos |

4 Comments»

  • Leo Debacco says:

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    Muito foda! Vai ser uma série, tomará que seja! Bem da hora. Esperando pelo próximo capítulo.

  • Shado Mador says:

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    “China. O segundo país mais rico e poderoso do mundo. Um bilhão e meio de habitantes. Uma cultura milenar atingindo seu ápice econômico e tecnológico.”

    -
    Cara a única china que cresce é o litoral leste que abriu o capitalismo.De resto a china eh uma verdadeira merda , mesmo que o leste se desenvolva , não tem poder político no país , quem se aventura(mesmo grandes milionários) são prsos reprimidos e desaparecem.A violencia e miseria é a grande maioria da situação.Massacre recentes aconteceram: quem não se lembra da praça da liberdade? Estudantes massacrados esmagados por tanques de guerra amando do governo de Mao Tse Tung( governo uma ova)E o grande salto? foram 3milhoes de mortos , apos o grande salto , execuções em praça publica continuaram , espancamentos até a morte.A china que desenvolve( lembrando que economicamente – esta dentro da roda da desigualdade social) não abafa a verdadeira china.U povo oprimido que tem sua vida controlada.inclusive tudo lá e controlado , sites de busca e informação são rigorosamente cortados restritos ou proibidos.Por isso e ainda muitas anormalidades sofridas na china , não gostei do começo.Achei exagerado.

    -
    Embora você escreva bem , tem que sempre pesquisar bastante antes de produzir e publicar os textos.
    -
    Não se qngane com falas de massa como do Jornal Nacional “A China maravilhosomente cresce 10% ao ano”-aliás fato que eles tentam a qualquer custo , estao quebrando a natureza e os recursos do pais sem piedade(muito masi que aqui) se eles se desnvolverem depois enfrentraam graves problemas que podem levar aquebra.

    • Shado Mador says:

      Thumb up 0 Thumb down 0

      /\ aguardadno moderação , foi mal ae , não sabia que merd@ era proibido.

  • Lucas M. de Freitas says:

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    Muito bom, discussões bem legais. Parece um conto meu, futuro não muito distante, fuga da Terra em decadência e tal. Só estou esperando um e-mail do Gunslinger para postar ele aqui. Como disse o cara aí em cima, esperando próximo capítulo.
    Abração.

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