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Aug
09
2011

A vida como ela não deveria ser

Escritor: João Cunha

Mais uma vez neste mês, assisti os primeiros raios de sol deste banal dia incidirem sobre a areia da praia. Na primeira vez que escapei de casa e andei até a praia, foi um evento aparentemente memorável, mas agora, que o perigo de ser pego andando pela cidade numa hora tão estranha sem que ninguém saiba que lá estou e a que vim, não passa de um hábito monótono. Na verdade, tudo que faço segue a mesma linha. É interessante logo de inicio, mas logo se perde. O encanto de uma existência é mais passageiro que sua própria origem, é o que  digo antes de partir para o homem que dorme a poucos metros de mim, protegido dos raios de sol e uma possível chuva pela construção do prédio no qual ele trabalha de dia. Seus chefes não sabem que ele dorme ali, ninguém provavelmente sabe, apenas eu. Todas as madrugadas que passo vagando pelas ruas, assisto ele dormir ali por quase um minuto, e em nenhum destes dias, sua presença foi interessante. Ele nunca responde quando faço um comentário aparentemente inteligente e filosófico porque está mais ocupado escapando da fome ao manter-se inconsciente.

Já pensei em fazer algo por ele, e até mesmo contra ele, mas logo sou dissuadido pela minha consciência. Tentei ser bom com as pessoas antes, e por um tempo, me fez sentir bem, mas logo se tornou entediante. Tentei ser cruel com as pessoas antes, e por um tempo, me fez sentir bem, mas logo se tornou entediante. Devo ter tentado praticamente tudo que está no meu alcance de ser feito neste micro-universo em que vivo, mas nada dura muito tempo e talvez o problema seja comigo. A maior parte das pessoas parece conformada em viver a mesma coisa todos os dias, ter um leque limitado de experiências e jamais deixar que seus sonhos prevaleçam sobre a razão das massas, mas eu sou diferente. Mesmo que sempre encontre mais e mais coisas novas para fazer, muitas delas sendo impensáveis para a maior parte da sociedade como explorar Machu Picchu por uma lhama, uma hora se tornará entediante para mim. Não há sentido em viver uma vida entediante, simplesmente não é saudável, é só olhar o efeito que isso tem nas pessoas.

Como ter uma vida sempre interessante? É o que mais penso. Às vezes chega a ser entediante pensar no assunto, mas não consigo me focar em outra coisa. Eu poderia ir morar em outro país, construir toda uma vida lá, e logo me acostumaria com aquela realidade em um ano ou dois. Também posso me envolver em assuntos obscuros e assim que eu dominasse o “jogo”, e todo o risco desaparecesse, seria apenas mais um dia comum, apenas meu escritório seria um tanto mais alternativo. Só há coisa a ser feita para escapar da vida cotidiana: Nunca se fixar, jamais parar de evoluir e progredir. Nunca olhe para trás, e jamais preveja o que há mais adiante, aproveite cada dia como se não quisesse viver o próximo. Simples assim.

Eu tento viver dessa forma, e no começo funcionou, mas agora as alternativas de o que fazer parecem estar desaparecendo. Tenho certeza de que não vivi tudo que poderia ser vivido nessa cidade em que nasci, e abandoná-la antes da hora seria desperdiçar experiências que nunca mais irão se repetir.  É preciso buscar por tudo aquilo que há de interessante no cenário em que me encontro agora para estar livre para ir ao próximo. Como faço essa busca? Eu sigo pessoas. Em cada ser humano deve haver pelo menos uma atividade interessante a ser feita, mas para eles já se tornou comum, mas como apenas um observador, tudo que é feito pode ter um pouco de mágica. Por exemplo, ver o sol nascer todos os dias escondido é o hobby de uma dona de casa de meia-idade que segui mês passado. Para ela, esse passatempo já deve ser uma rotina que não pode ser quebrada, assim como evoluir é o meu.

Depois de ver o dia raiar e refletir se devo fazer algo em relação ao homem que estava dormindo neste momento, fui seguir minha “vitima” mais recente. Você. Surpreso? Não deveria estar, pois sou péssimo me disfarçando pela multidão. Qualquer pessoa com o mínimo de treinamento já teria me percebido faz tempo. Não planejo me desculpar pelo constrangimento que deve ser ter um perseguidor, mas se eu fosse fazer algo de mal, já teria feito faz muito tempo. Apenas desejo encontrar em sua rotina, uma fagulha de vida, e até então, está sendo difícil. Sendo franco, você me deprime. Mais do que todos os outros.

Posso falar com convicção que você está entre as pessoas menos interessantes que já conheci. Por que posso dizer isso? Porque eu te conheço. Sei o quanto o som que seus sapatos novos fazem ao entrar em contato com o chão te incomoda. Sei às vezes você vai até o banheiro apenas para chorar um pouco e então voltar ao que está fazendo. Sei que seus braços nunca estão numa posição confortável em relação ao resto de seu corpo e como odeia o café que toma todos os dias em casa, e por isso para numa lanchonete perto do trabalho assim que sai de casa apenas para comer algo que preste, sendo que há pelos menos duas outras mais perto de onde mora e com preços mais acessíveis, mas tem medo de que sua empregada lhe pegue comendo lá e fique magoada. Desde o primeiro dia que comecei a te seguir, penso em conversar com você, apenas para que viva um pouco mais, e a partir da sua vida, eu encontraria algo interessante para fazer. É isso que farei hoje. Jamais tentei conversar com uma das pessoas que sigo.

Com certeza seria uma evolução.

Uma luz muda de vermelho para verde, enquanto outra vai de verde para vermelho, e é neste momento que você atravessa a rua. Eu estou logo atrás de você. Aliás, você sabe por que nunca quebrou nenhuma regra, nem mesmo as do transito? Porque você quer se misturar com a multidão e não se sentir sozinho. É o mesmo motivo pelo qual vai todos os dias a pé para o trabalho, mesmo que tenha um carro na garagem. Fazer parte da maioria te acalma, e isso é desprezível. Você deveria estar buscando estar sempre acima de todos, ser o mais avançado, assim como eu faço.

Em pouco tempo, chegamos à lanchonete onde você perde dez minutos diários e será neste tempo em que atacarei. Só preciso desse tempo para mostrar o que está fazendo de errado com sua vida. Com certeza o seu destino mudará com o que tenho a dizer, e isso será minha redenção. Não há nada mais interessante do que mudar a vida de outras pessoas.

Você se sentou na mesa de sempre e pediu o de sempre. Os dez minutos estão contando. Não posso simplesmente me aproximar sem um plano. Preciso ter certeza das palavras que direi e que efeito elas terão. Preciso quebrar completamente seu espírito, mas deixar destroços o bastante para que tenha esperança e mude sua vida. Não fará mal usar pelo menos um terço do tempo que tenho para pensar no que direi. Três minutos serão o bastante para apresentar os horizontes que uma vida de hedonismo tem a oferecer.

É obvio que devo começar explorando sua insegurança e sua carência. Há tanta coisa trancada dentro de você, e através dos outros, está tentando se libertar, mas deveria fazer isso por si mesmo. Só uma pessoa tem a chave das correntes que colocou sobre seus sonhos, se é que tem um, e mesmo que não saiba como fazê-lo, sempre é possível lutar para quebrar essas limitações. Só é preciso descobrir seu sonho, mesmo que o faça através de terceiros, como tentei fazer com você até este momento. Não, não, o sonho deve ser algo que vem dentro de si, pois se não for, não há o que ser salvo. Preciso pensar em algo diferente.

Nove minutos para você ir embora.

Posso falar que é preciso abandonar a vida que tem. Tudo se resume a explorar o que o mundo tem a lhe oferecer e então seguir adiante, mesmo que não se saiba para onde está indo. A felicidade do cotidiano é tão complicada, tão frágil e repetitiva que não pode ser considerada verdadeira. Você pode sentir como se estivesse feliz, agir como se estivesse e ser feliz, mas não é verdadeira, porque não foi alcançada através da evolução. Não, isso parece contraditório até mesmo para mim.

Oito minutos faltando e nenhuma boa idéia.

“Não há sentido em viver pelas que a sociedade impõe porque a vida é injusta. Olhe para si mesmo! Como uma civilização deixaria alguém tão imperfeito, tão… danificado viver sem ajuda de ninguém e ainda ser considerada utópica? Não faz sentido, e a única coisa que faz é fazer as próprias regras, pois as razões por trás delas são apenas suas e sua opinião é a única que importa. Não seja refém da humanidade. Exceda sua própria existência e evolua para algo além do que todos conhecem.”, também não funcionaria. Ele pode decidir que suas próprias regras são coincidentemente, as regras da sociedade em que vive.

Sete minutos e o tempo de pensar se esgotou, mas não tenho nada em mente para falar. Por que em nenhuma forma que eu imagine a cena de eu explicando porque você deve mudar sua vida, nada termina como espero? Pensando melhor, por que estou fazendo planos? É isso que está errado. Não há como convencer alguém a viver no momento planejando como fazê-lo.

Mais um minuto se passa e eu me levanto. Vou em sua direção sem nenhuma confiança que tento passar, mas é assim que as coisas são. A excitação de fazer algo totalmente novo não está tomando conta de mim, como normalmente acontece, mas é porque ainda não aconteceu. Devo estar sentindo a agonia que um ator sente instantes antes de entrar em cena. É um sofrimento que vale a pena, pois ao fim, eu terei salvo sua alma e isso será minha redenção, mesmo que eu não precise de uma. A verdade lhe punirá, esteja certo disso.

Cinco minutos e à hora de falar finalmente chegou. Estou a sua frente e você ainda não percebeu.

Se não compreender o que tenho a dizer, não importa, porque uma hora entenderá. A verdade será como o lixo que está comendo. Uma hora será digerida e tudo o que não serve para você, será mandado embora. Talvez essa verdade não mude em nada sua vida, mas você precisa saber, assim como eu sei. Alguém mais tem que saber como é viver da maneira que vivo. Saber que sua vida está errada acabará com a toda felicidade que tem, e talvez nunca mais a recupere. Ele vai acabar como eu acabei.

Quatro minutos e você pergunta “Posso te ajudar com alguma coisa?”. Sim, você pode. Eu penso. No fundo, sei que não quero mudar sua vida.  Farei o mesmo que queria fazer com o homem dormindo perto da praia mais cedo e com todos que magoei. Quero que sua insatisfação tenha uma causa que eu conheça e não importa que ela seja causada por mim.

Apenas quero que o sofrimento e o peso nos ombros tenham que fazer sentido, para que assim, eu tenha coragem de descobrir a origem de meu descontentamento. Não, eu não faço isso para ter coragem de descobrir, mas o oposto. Faço para me mostrar que saber o que causa esse vazio nas pessoas é pior do que viver na duvida sobre a própria dor. Mas se já provei isso muitas vezes, por que continuo com isso? Pessoas como você já sofreram o bastante para eu saber da verdade, e ser mais uma delas não é mudança que você precisa em sua vida. Uma mudança precisa acontecer em seu mundo, mas não a que pensei até então, e sei exatamente como fazê-la acontecer.

— Sim, você pode me ajudar. – Respondo faltando três minutos para você partir.

— No quê?

— Preciso falar um pouco sobre minha vida. Ela está longe de ser como deveria ser, assim como a sua.

Em mais dos dois minutos que estavam previstos, nós dois evoluímos um pouco. Percebemos os desastres de nossas vidas e que poderiam mudar com nossa própria força, mas teria sido uma tragédia ou solução?


Written by João Cunha in: Agenda,Contos,João Cunha |

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