A voz
Escritor: Munir Carrijo Chibli
“Droga! O que era mesmo?”
Não importava o quanto eu tentasse, eu simplesmente não conseguia me lembrar das palavras dela. E eu não sabia dizer o porque disso parecer tão importante.
Estava dirigindo até a ala especial do presídio Sam Holkiens para interrogar um lunático que tinha matado toda sua família a semanas atrás. Peguei os arquivos nessa manhã, a experiência com esse tipo de caso já tinha tirado toda minha sensibilidade em relação a coisas como estas, na caixa havia um avião de madeira, uma pulseira manchada de sangue, um álbum de fotos de família, uma daquelas garrafinhas com a escultura de um navio dentro, as armas usadas no crime e as fotos, uma da esposa Lanna Retcher, a filha de seis anos Lisa Retcher e o adolescente Andy Retcher, todos terrivelmente mutilados e quase irreconhecíveis. Os objetos não tinham sido escolhidos aleatoriamente, alguns pertenciam as vítimas e o outro foi encontrado na mão do assassino enquanto ele dormia .
A tarde eu resolvi tomar uns drinques num buteco estranho chamado Lewin’s com um colega de faculdade Thomas para me preparar para a noite tensa que estava por vir. Foi lá que encontrei ela e era só no que conseguia pensar agora. “O que ela tinha dito mesmo?” ou melhor, “como ela era mesmo?”.
Meus pensamentos foram logo varridos de volta a realidade no segundo seguinte, quando o porteiro do presídio chamou minha atenção pela segunda vez. Eu passei pelos velhos portões de ferro e alguns rostos anônimos vieram me encaminhar para a ala correta.
Nunca tinha estado em Sam Holkiens mas todo presídio era basicamente o mesmo, alguns eram limpos e organizados, outros fortes e impenetráveis, mas este era velho, sujo, feio e tenebroso, talvez o mais estranho de toda minha carreira, e o pior era a sensação de como se o frio penetrasse na sua pele e as sombras grudassem em cada muro. Mas o clima não me atrapalhou, pelo contrário, eu logo lembrei dos relatórios e os documentos do caso. Era importante levar alguns objetos para o interrogatório, malucos desse tipo eram fortes contra os mais poderosos choques, mas desabavam contra a primeira lembrança.
Um homem careca e com um bigode generoso veio me receber ao lado de uma porta de ferro grosso.
- Detetive Ichabod Dale. Sou o Dr. Chermin o responsável pelo Dr. Hipólito.
- É um prazer Doutor. Gostaria de ser o mais breve possível, o detento está atrás desta porta?
- Sim está… – Ele respondeu e eu logo fui avançando em direção a maçaneta mas fui interrompido pelo Dr. Chermin que se colocou entre mim e a porta – O que traz na caixa detetive?
- São apenas alguns itens para o interrogatório Doutor, pode verificar, nada perigoso.
O careca Dr. Chermin olhou para dentro da caixa e permaneceu em silêncio. Logo em seguida foi ele mesmo quem abriu a porta deixando a passagem livre. Ele me fitava nos olhos e por uma fração de segundo senti um frio na espinha. Quando entrei a porta se fechou com um baque atrás de mim.
O homem que estava na sala se assustou quando me viu, ele era velho e tinha uma barba que escondia seu pescoço. Estava magro e branco como um fantasma, com olhos pequenos, um bigode que lembrava muito um par de chifres, roupas que pareciam engoli-lo e seus pés estava presos a correntes. Eu me sentei na cadeira do lado oposto da mesa, coloquei a caixa ao meu lado e observei a deprimente figura se encolher nas sombras da parede sem parar de me fitar.
- Boa noite Dr. Hipólito. Sou o detetive Ichabod Dale e estou aqui para ter uma rápida conversa com o senhor.
Ele permaneceu calado. Eu sabia que aconteceria, já tinham me avisado, Hipólito Retcher não dissera uma única palavra depois de ter sido capturado.
- Senhor, eu gostaria de um pouco de sua colaboração. Seu crime foi muito grave e seria ótimo se me ajudasse a te ajudar.
Silêncio. O homem permaneceu imóvel. Ele nem parecia respirar. Nesse momento me perguntei como um renomado arqueólogo com anos de estudos nas melhores faculdades do mundo poderia acabar assim. Coloquei a mão dentro da caixa e retirei a pulseira.
- O senhor reconhece essa pulseira Doutor? É a pulseira de Lanna não? – Balancei o objeto dentro do saco plastico mas o sujeito não pareceu notar, ele apenas me fitava. – Foi o senhor que comprou para ela?
Outra vez, silêncio. Tentei a sorte mais uma vez e retirei o álbum. Nesse demorei um tempo, argumentei e mostrei cada uma das fotos, algumas eram de toda a família, outras mostravam o Doutor em escavações ou passeando com seus filhos, mas ele não parecia responder a nenhum tipo de lembrança. Deixei o álbum de lado e tirei o avião de madeira.
- Ah! Esse é meu preferido, sabe, quando criança adorava brincar com um desses – fitei o Doutor e fingi manusear o avião como uma criança por alguns segundos, ele então berrou.
- Andy! Andy meu filho! É você! Sim é você mesmo! – O velho levantou de um salto e tentou correr em minha direção com os braços esticados, as correntes o impediram de se aproximar. Meu coração ainda estava acelerado com o susto.
- Doutor o senhor está bem? Vamos sente-se eu…
- Pare com isso filho! Venha! Venha! Abrace seu pai! – Ele esticou o braço e sorriu um sorriso sinistro.
O velho senil achava que eu era seu filho, aquele que ele mesmo assassinou a sangue frio. Ninguém jamais tinha o feito falar, essa era minha chance.
- Pai, sente-se por favor – eu arrisquei, ele correspondeu, e antes que pudesse falar alguma coisa eu comecei – estou aqui para ajudar o senhor, acalme-se e me responda. O que aconteceu com o senhor?
- Ora Andy, preste atenção, não temos tempo para conversa, escute o que vou lhe dizer. Você precisa voltar para Lanna e sua irmã, lá estarão seguros e não me diga para onde foram! Não diga nada! Eles podem ouvir, sempre podem.
- Mas Dou… Mas pai – eu tinha que tomar cuidado – espere, tenha calma, estamos seguros aqui. Me conte o que aconteceu com você.
- Sim, sim, seguros. Afinal você está aqui não está? Talvez eu possa esclarecer algumas coisas, ouça bem – o olhar do velho ficou mais sombrio e sua testa se enrugou – foi logo depois que voltei da minha ultima expedição, alguns meses atrás. Eu tinha comprado um suvenir para você, ou tinha achado, não lembro. Queria lhe entregar algo, mas quando voltei para casa mal sabia eu que não era minha família que eu encontraria. Não, não senhor, eles podiam parecer muito com vocês mas eu descobri a verdade, ela me ajudou.
- Ela? De quem está falando?
- Isso Andy! Aquela dama gentil, sim. Ela queria me ajudar, mas, não consigo me lembrar direito de seu rosto. Como era mesmo? – O velho parou para pensar e eu me peguei fazendo o mesmo.
De novo estava tentando me lembrar das palavras da misteriosa mulher do bar. “Como raios eram mesmo?” e também “Foi mesmo no bar que a encontrei?”. A voz do Dr. Hipólito me jogou de volta a sala escura.
- Isso não é importante! Ela me ajudou, me guiou e me mostrou a verdade. Mas não foi só ela, o velho James Hiffer também veio me ajudar. Céus! Achei que aquele velho estava morto a anos! Mas ali estava ele, me fazendo uma visita. Eles conversaram, os dois, em minha sala e me disseram quem realmente eram as pessoas em minha casa se passando por minha família.
- O que eles disseram?
- Disseram… Disseram que as criaturas que se passavam por minha família estavam se alimentando de mim! Eles queriam meus sonhos e pensamentos! Eles me atacavam enquanto eu dormia! Olha! – O velho virou-se de costas subitamente e apontou para uma cicatriz perto da nuca, feia e ligeiramente disforme, elas se assemelhavam com marcas de dentes, eu me peguei horrorizado, um sentimento que não sentia a anos – Eles me mordiam Andy! Essas criaturas eram sombras do próprio senhor das sombras e da loucura! Eu cheguei a vê-lo! E agora ele me visita no quarto imundo que me jogaram aqui. – O velho começou a me dar arrepios e eu senti vontade de levantar e correr – Se ao menos eu, se ao menos eu a tivesse de volta! O seu presente, eu preciso dele. Era uma garrafa, sim, algum tipo de garrafa!
Eu me lembrei imediatamente da garrafa com o barco dentro que trazia na caixa. Eu a peguei e mostrei ao velho.
- Sim! Isso mesmo filho! Você a encontrou! Rápido, passe para mim, rápido antes que eles a destruam ou a roubem novamente.
- Espere Doutor, acalme-se! Me diga o que é isso.
- Ora cale a boca fedelho! Me passe a garrafa agora! – eu hesitei, o olhar do velho tinha mudado novamente, ele estava aterrorizante e me causava calafrios a cada palavra – Ora seu garoto malcriado, me passe logo essa garrada ou eu quebro seu pescoço! – Hipólito se levantou bruscamente e esticou os braços em minha direção, seus dedos magros abriam e fechava com força e ele gritava, o grito mais alto e mais medonho que já ouvi.
Homens fortes escancararam a porta subitamente, correram pela sala e agarraram o velho que se debatia e se contorcia, foi preciso três daqueles brutamontes. Eu não consegui agir, só conseguia olhar para a garrafa em minhas mãos e o familiar barco de madeira que ela trazia em seu interior. A mão do velho Dr. Chermin me tirou do transe.
- Venha Sr. Ichabod, é notável que o detento está agitado de mais – ele me conduziu para fora da sala segurando minha caixa, eu o acompanhei sem raciocinar com a garrafa ainda em mãos – foi um grande progresso que fez, suas recomendações estavam certas, você realmente é bom. Porque não volta amanhã para mais uma seção? – ele arrancou a garrafa da minha mão e a jogou de volta a caixa. Eu nada disse, só podia olhar para seu rosto feio e careca.
Me conduziram até meu carro, meus pensamentos estava perdidos e eu ainda estava aterrorizado com os gritos do velho ecoando na minha mente, penso agora como devia ter parecido ridículo. Entrei no carro e me afastei do presídio com a caixa como passageiro.
Me peguei algumas horas depois, em de pé no porto da cidade, fitando o mar e as pequenas embarcações pesqueiras que flutuavam quietas ali por perto. Tinha finalmente me lembrado da misteriosa mulher que passou o dia me assombrando, lembrei também de Thomas e suas piadas sem graça. E lembrei da verdade sobre esse meu velho amigo de faculdade.
Thomas estava morrido a alguns anos, e eu de fato o encontrei junto a mulher, mas não num bar. Eu não tinha saído de casa nessa tarde depois de ter pego a caixa com os pertences de Hipólito, eu estava dormindo no hotel e foi num sonho que eles apareceram.
Eu remava com Thomas por águas calmas, ele falava sem parar, “está andando com as pessoas erradas velho amigo” ele dizia. E a conversa sessou quando um enorme barco surgiu da névoa e num instante nós estávamos a bordo. O barco estava vazio a principio, mas uma mulher vinda do nada se mostrou a unica tripulante. Ela nos recebeu calorosamente com comida e chá. Essa dama era feia, a mulher mais feia que eu já vi em toda minha vida, mas ela não parecia perigosa, vestia trapos e tinha um cabelo despenteado e com aspecto sujo. O sonho acabava depois de uma curta conversa e horas depois ele parecia estranhamente real.
Eu olhei para a garrada em minhas mãos e senti um calafrio. Aquele era o barco, o barco que eu vi nos meus sonhos. Só de olhar novamente para a pequena escultura eu podia sentir a que pisava de novo na madeira velha do convés, e por alguns segundos eu a vi novamente, espreitando por uma das pequenas janelas no barco da garrafa. A mulher, o vulto horroroso me fitando, e ela repetiu suas palavras, isso me aterrorizou.
Atirei a garrafa no mar com toda minha força, sem ver ela alcançar seu destino incerto, me virei e corri até meu carro. Minha cabeça começou a latejar, eu podia sentir a ferida causada por dentes próxima da minha nuca. Mas isso não importava agora, estava dirigindo e ia sair daquela maldita cidade ainda durante a madrugada.
Tentei não pensar em nada durante a viagem de volta, e tento até hoje. Mas ainda sim eu consigo ouvir a voz dela e de novo não lembro bem suas palavras. Eu as esqueceria eternamente se elas não voltassem como ecos em alguns sonhos para me aterrorizar. Era como ouvir a própria voz da loucura penetrando em minha mente e devorando minha sanidade lentamente.
Pobre Dr. Hipólito. Me pergunto que tipo de segredo sombrio ele desenterrou e o amaldiçoou por isso.
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É o tipo de história que eu gosto de ler, com diálogos longos e detalhista. Só tinha alguns erros de concordância e palavras erradas (“sessaram” por exemplo). E também tinha aquele “sorriu um sorriso” que ficou bem estranho…
Espero que venha uma continuação.
Ei obrigado! Sim tem mesmo alguns erros, inclusive um “estava morrido” que foi bem feio. Vou tentar me aperfeiçoar
Obrigado pela dica!
No geral é um bom texto, na minha opinião um dos seus maiores méritos foi não cair no lugar comum de tentar explicar, de maneira tangivel, os fatos. Outro mérito é a maneira como você fez as descrições, elas são mais sensoriais do que físicas, o que facilita a imersão do leitor.
O presídio me lembrou um pouco Arkham Asylum. : )
Na estrutura me lembrou um pouco Poe e também Doyle.
Espero que não tenha continuação, seria bem fácil cair no mesmismo, mas crossovers e referências em próximos contos poderiam criar um universo seu, o que seria bem interessante.
Acertou em cheio, é Arkham que eu queria mostrar! Obrigado pela crítica. E por falar nisso eu tomei como base o escritor H.P Lovecraft
Muito interessante, e não nega a influência do Lovecraft… Todavia, acho que seria mais lovecraftiano se a ‘loucura’ tivesse ‘contaminado’ o jovem. Acho que com esse fato, e com uma revisãozinha de concordância, o conto ficaria excelente