Águia – Parte 3
Escritora: Samila

Leonel, sendo um Theurge, tinha um dom que poucos conseguiam acreditar, e que menos ainda conseguiam compreender. Aquela coisa de ver o que ninguém mais vê, aquela fama de doido por falar sozinho, até enquanto dormia… Pior que isso, só quando ele começava a cantar do nada, uns cânticos doidos em uma língua que era desconhecida a todos, senão a outros Theurges tão pirados quanto ele. Quando eles se reuniam, instalava-se um pandemônio que durava por dois amanheceres.
Os descrentes e tolos atribuíam tais poderes ao consumo extensivo e continuo de entorpecentes ilícitos. Leonel negava, afinal, só consumia aquilo que Gaia lhe ofertava e se Gaia lhe ofertava ervas e cogumelos, não haveria fazer mal. O fato era que, sendo louco ou não, o tal Theurge era um legítimo sábio, e por ser um ancião (em nome da Mãe, tinha quase oitenta anos já!) era muito respeitado entre todos os Garou, especialmente entre os membros de sua Tribo, afinal, aquele velho era a prova viva que aquele papo de pacifismo e ‘diga não à violência’ tinha um fundo de verdade.
Orgulhava-se de suas cicatrizes, como todos os outros Garou, mas se orgulhava ainda mais em pode dizer que elas estavam lá apenas porque foi realmente necessário, e que não matara seu inimigo, mas sim o segurara para então purificá-lo e arrancar do coração dele toda a maldade que o corrompia.
E gozando de tanta fama e respeito, não foi nada difícil para ele convencer aos seus irmãos se seita que aceitassem aquela infeliz Fianna que chegou aos Estados Unidos abalada e abatida, apenas com seus cinco meses de gestação aparentes no corpo desnutrido, roupas em farrapos, e o coração em pedaços.
Como fora parar lá? Nem sabia, e quando indagada, dizia que fora guiada pelo vento.
“Você atravessou o oceano guiada pelo vento?” –Perguntavam incrédulos, e então Leonel interferia, dizendo sempre as mesma sábias palavras:
“A Mãe tem seus caminha misteriosos, e não cabe a nós ficar indagando”.
Então, sem ter que explicar sua origem, e muito menos a origem da pequena vida que carregava, Voz-das-Fadas, que a partir de então era apenas Beatrice, viu que achara um bom lugar para ter seu filho, longe de Tempestade-de-Raios e longe de qualquer um que pudesse querer tirá-lo de si.
A seita constituía-se em uma pequena comunidade auto-sustentável e extrativista, localizada em algum lugar no perto da cidade de Augusta. Eram trinta e seis ao todo, sendo quinze Garou, e o restante parentes, quase todos da tribo dos Filhos de Gaia.
“Um bom lugar para um impuro…” -Pensava volta e meia Beatrice, com um sorriso bobo e melancólico, o qual nunca passava despercebido por Leonel.
Leonel era, segundo suas próprias palavras, um grande conhecedor do universo feminino. Ao longo de seus setenta e sete anos, fora casado por três vezes.
Sua primeira esposa foi uma mulher chamada Lunara, parente humana de um companheiro de matilha. Bela, charmosa e inteligente – e braba como poucas conseguiriam ser. Mas como o Theurge era chegado num desafio, encarou a fera, e como recompensa ganhou uma linda filha Garou nascida sob a Lua Cheia… Ainda mais nervosinha que a mãe. Dezesseis anos se passaram, e a fúria de uma guerreira se aliou à complicação de uma adolescente. E como se não bastasse, ainda perdeu Lunara prematuramente por causa de uma doença. Cuidou sozinho da filha até resolver se casar novamente.
Uma loba cinzenta, e depois da morte desta, uma loba preta. As duas ‘esposas’ garantiram-lhe um total de dezessete mordidas, incontáveis arranhões e quarenta e um filhotes ao longo de cinco ninhadas. Destes, quatro se mostraram Garou… Todas fêmeas, brabas e complicadas.
Diante de tanta experiência, as conclusões eram lógicas e simples:
1-Lobas são complicadas;
2-Mulheres, mais ainda;
3-Garou fêmea então, nem se fala.
Mas a principal constatação fora que para todas elas valia mais o que se via nos olhos do que o que saia pelas bocas – ou focinhos.
E vendo os olhos de Beatrice, ele logo soube.
-Não te preocupa, minha irmã, pois eu te garanto que protegerei a todo custo a tua criança e não permitirei que a mácula da concepção deste Garou o marque mais do que Gaia o marcará. Teu nome foi esquecido, e da mesma maneira será a origem deste Garou que vai nascer. Então seja forte, minha irmã, e tire essa tristeza dos teus olhos. Conte comigo para o que precisares e te junta a nós no banquete que se segue.
Beatrice afundou-se em pranto ante as gentis palavras, derramando sobre a terra a lágrimas de puro alívio e confiança. Abraçou-se ao velho como quem abraça um pai e agradeceu até que lhe restasse apenas a voz suficiente para cantar a mais linda composição que a Nação Garou já teve a honra de escutar.
Uma canção que falava do amor e da sua pureza; da temperança que se colocava acima dos momentos de inquietação; da esperança que vencia o medo; da certeza de um paraíso que se formava a cada sorriso dado por uma alma pura de criança; da devoção merecida pela bondade e da sabedoria possuída pelos espíritos.
Cantou aquela canção durante todas as noites pouco iluminadas de Lua Crescente como clara homenagem ao velho Theurge que sempre lhe sorria e segurava sua mão.
Estava segura.
Ela e seu bebê.
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que legal, mesmo sem ter lido as partes anteriores gostei dessa parte. na escrita tem alguns errinhos de portugues ou de digitação e uma palavra ou outra fora do lugar.
parabéns pelo texto.
Só há um comentário nesse aqui, me senti na obrigação de expressar minha opinião sobre.
Li todos os seus textos até agora, faltando-me só “o Anjo” que está na aba ali ao lado. xD
Gostei desse também e venho acompanhando a história do Águia desde o seu começo.
A parte em que a Voz-das-Fadas abraça Leonel e chora por de felicidade e por saber que pode confiar sua criança a ele é realmente muito marcante nessa história, pois você imagina a Garou como sendo uma loba forte e determinada e agraciar qualquer um com o seu pranto é algo que invoca sentimentos como piedade e admiração.
Mais que uma loba forte e corajosa, ela é uma mãe devotada e protetora, eu queria poder conhecer mais da história dela e aguardo a continuação do Águia.
Fora isso, os erros comentados no comentário acima é algo que acontece, posso culpar a falta de atenção, mas sei como é inebriante quando escrevemos uma história que é gritada em nosso peito, na hora de digitar, passar a mensagem é a única coisa que nos interessa.
Bom trabalho ;]