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Aug
22
2011

Amadeu

Escritor: Auro Sergio

Ia tudo bem até o dia em que Amadeu se deu conta do buraco negro em que estava se metendo, sabia que um dia tudo viria à tona e talvez não houvesse fôlego suficiente para suportar a tsunâmi que logo, agora mais cedo do que se pensa, surgiria por aí.

Naquele sábado, como de costume para aquele sétimo dia, acordou bem cedo tomou banho e fez a barba. Vestiu a calça de linho preta ganhada no dia dos pais, presente da filha mais velha, combinando uma camisa de tergal azul, pente na algibeira, botina engraxada, sessenta reais na carteira. Era esse o ritual que antecedia sua chegada à feira, a feirinha, a chamada feira do agricultor, local de muita bebedeira e onde a conversa é desperdiçada junto a legumes, carnes dependuradas e escamas de peixes na calçada . Amadeu naquele dia quebrara o ritual, não resistiu e tomou uma quente no Seu Pedro, o bar ao lado de sua casa, comentou o resultado do Galo enquanto se servia da pinga carqueja, mantida apenas para seu consumo, ninguém ainda tinha experimentado daquela garrafa de um litro transparente cheia de raízes, parecendo uma amostra de biópsia.

Quando se casara, em 1974, as coisas eram diferentes, lógico o mundo era mais conservador e menos liberdade era respirada, ele sabia disso nos seus 58 anos e sabia que os 37 de casamento deveriam valer alguma coisa para Elisa e para seus cinco filhos. Tirara Elisa de casa aos quatorze anos, criança ainda, nem estava grávida como era a obrigatoriedade daquele tempo. Sentia se responsável por ela até hoje. Cuidava para que a tristeza nunca a abatesse. Quando o sexto filho fora levado pela enchente do Rio Preto em 89, ele pensou que fosse perdê-la junto com o filho afogado aos doze anos num dos piores dias para a vida dos entes que ficaram. Para ela, que o amava tanto, foi o pior dia, o dia em que passara do mundo ao abismo; chegou a adoecer: cegar repentinamente, atrofiar as articulações, o coração nunca mais foi o mesmo, tamanho o trauma da perda.
Amadeu nunca houvera se interessado por ninguém, mesmo depois da tragédia que cegara e paralisara Elisa. Uma promessa o acompanhava em nome de São Sebastião seu protetor, ela não morrera, conforme a graça que havia pedido ao santo e estava por demais agradecido e todos os dias beijava a medalha que carrega desde então no peito. Elisa era da juventude até o terceiro filho, época em que o desleixo a deixou com algumas banhas notórias de pelancas, uma flor em botão de cabelos louros, olhos radiantes, pele alva e macia como seda, postura ao andar com elegância aprendida nas novelas. Era educada, apesar de não ter estudado muito, depois do casamento fora instruída por Amadeu e sabia tudo sobre os clássicos da literatura e geometria euclidiana. Hoje ela estava no purgatório da loucura, não podia se mexer, nem ver, mas falava feito uma estação AM. Dava ordens de toda sorte, desde o lixo para fora até ir matar o dono da padaria que não vendia rosquinhas de queijo. Não sentia pena dela e era muito grato ao santo, o contrário do que pensavam os vizinhos de Amadeu.
Quem era Raquel? Ele vira a filha de Seu Waldemar nascer, fora convidado para ser padrinho, mas por um desentendimento no passado com Amélia, a mãe, recusara o pedido. Ela o chamava de Madeu até os oito anos, ano em que se mudaram para o sul do país, à procura de terra barata. Voltaram recentemente, nada no bolso, nada de terras, tudo ficou com os bancos. Waldemar levou um tiro na perna, teve que amputar, disputa com grileiros, o que lhe sobrou foi a casa que deixara de aluguel na rua Cachoeira, perto da cerâmica. É ali que moram, os três. Raquel, moça bonita e muito espevitada, para não dizer safada. Dizem que lá na cidade do sul, ela fora violentada por um ex patrão do seu pai. Waldemar preferia não falar no assunto, mas acharam o sujeito morto cinco dias depois em uma estrada de chão próximo às terras de um outro fazendeiro da região que acabou sendo preso como o assassino, os dois haviam discutido meses antes por conta de um punhado de terra. Para ele era melhor que ninguém soubesse que existia motivo para que fosse ele o autor do crime, então era segredo o ocorrido, Raquel desde então se sentira diferente das outras meninas.
Raquel era o buraco negro de Amadeu desde que se encontraram na feirinha. Desde que ela apalpou seu membro enquanto ele escolhia um pacote de tomate. O senhor de 58, a promessa, o conservadorismo, os filhos… Uma avalanche de torpeza incandescente subitamente tomou conta do tímido Amadeu ao ver o sorriso de Raquel olhando para cima feito criança em um balanço à tarde no campo. O som parou, o céu abriu, as pessoas ficaram inertes e uma semelhante dopamina para ele foi ministrada naquele sábado.


Written by auro sergio in: Agenda,Auro Sergio,Contos | Tags:

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